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quinta-feira, 2 de maio de 2019


… E A MEMÓRIA DA CIDADE QUE SE LIXE

Lê-se na página da sucursal portalegrense do Partido Socialista que, em Assembleia Municipal, fez aprovar – apenas com a abstenção do PSD – a atribuição do nome de Mário Soares à “popularmente conhecida rotunda do navio”. Parece que esta decisão já mereceu a concordância da comissão municipal de toponímia. Tanto quanto vim a saber, a sucursal concelhia do Partido Comunista Português, para não ficar atrás e cobrando, quiçá, o voto favorável dos seus eleitos, propôs ou vai propor que outra rotunda ou avenida ou rua lagóia venha a ter o nome de Álvaro Cunhal. (Se tal se concretizar, o que não duvido, teremos uma verdadeira geringonça portalegrense – só faltando o beco Miguel Portas ou João Semedo ou Francisco Louçã ou Catarina Martins ou Fernando Rosas para a trempe ficar completa...)
Ainda correu pela cidade e arredores que a ideia inicial dos comunistas era rasurar a designação “Avenida do Bonfim”, nascida do santuário homónimo onde tem início, tão querido das gentes da cidade onde nasci. Mas parece que a coisa ficou pelo caminho, talvez por saberem que o regulamento municipal impede (ou desaconselha) a substituição de nomes históricos oficialmente consagrados – ou, mais provavelmente, por se lembrarem que essa artéria passaria a desembocar na rotunda agora soarista, o que provocaria não poucos engulhos aos dois adversários políticos, caso cá estivessem, vendo-se assim de braço dado, quase aos beijinhos, na pública rotunda. Mas adiante. Confesso que gostaria de ouvir, vinda das profundas, a voz cava do nunca desmentido devoto das práticas e doutrinas soviéticas dizendo ao meu ouvido: “Olhe que não, olhe que não…” A mais de duzentos quilómetros de Portalegre tenho todavia informações seguras de que tal má nova é mesmo certa – verdade, verdadinha. E lamento. Funda e fundadamente lamento!
Não está em causa o mérito ou demérito das figuras que, agora, em vésperas de eleições, um punhado de políticos do burgo quer reverenciar à custa da identidade da urbe, nem sequer o facto de tais personalidades pouco ou nada terem que ver com a cidade. Tiveram qualidades e defeitos como toda a gente. Nalgumas situações contribuíram para o bem do povo, noutras prejudicaram-no e noutras foram impedidos (graças a Deus!) de prejudicá-lo. Estão em causa os critérios e os jogos políticos e sociais que movem a exaltação de Cunhal e Soares e apagam, ao mesmo tempo, Fernando Pessoa (sim, esteve em Portalegre!), Humberto Delgado, Salgueiro Maia, Matilde Rosa Araújo (sim, viveu na cidade!), Ramalho Eanes, Amaro da Costa ou, até, para falar nos portalegrenses de nascimento ou de coração, Soror Isabel do Menino Jesus, Eusébio Leão, Joaquim Miranda da Silva, Pe. José Patrão, Carlos Garcia de Castro ou Carrilho da Graça... Está sobretudo em causa o modo como se desrespeita e/ou menospreza com estas e outras decisões a memória urbana e histórica de Portalegre, expressa no nome legítimo dos seus lugares, criado pelo povo que neles viveu ao longo de séculos. (Seria indigno, pergunto, o nome ancestral do local, “Moinho de Vento”? Causaria brotoeja uma referência à Fábricas das Sedas que aí existiu?)
Estudei com demora a toponímia da cidade e as motivações que a foram criando, alterando, rasurando ou apagando. Vem tudo num longo artigo intitulado “Toponímias de Portalegre: da Idade Média ao século XX”, publicado há uns anos no nº. 12 da “Ibn Maruán – Revista Cultural do Concelho de Marvão” (hoje a necessitar de reedição revista e aumentada). Sei bem o que valem as chamadas “comissões de toponímia”, como são nomeadas, o que as move, a sua competência e os regulamentos que fazem, desfazem e aplicam. Não esqueço a ligeireza do conhecimento que, salvo raras excepções, possuem da História e da memória colectiva – e o (des)respeito que têm por ela. Basta-me recordar muitas e muitas das suas incompreensíveis (ainda que bem intencionadas) decisões – valorizando gente com escasso valor e ostracizando os que deveras o tiveram. Chega-me relembrar pelo menos um dos seus pretéritos membros (entretanto falecido) que, além de ter inventado uma “Rua dos Aleatórios” na toponímia setecentista de Portalegre, defendia a eliminação de grande parte dos nomes antigos como coisa bolorenta e pouco civilizada… Já não me deixa, pois, boquiaberto a forma leviana e por vezes caricata com que nomeiam as novas vias de circulação. Não me espanta, ainda, que as mudanças toponímicas continuem a ser uma triste realidade, mesmo que a população portalegrense não as queira – pois nunca sobre tal assunto foi, é ou será consultada. Pelos vistos a salvaguarda, valorização e divulgação deste património imaterial ainda não chegou à terra onde nasci (nem a boa parte do nosso país, diga-se em abono da verdade). Com desgosto o escrevo.
Dir-me-ão que as tentativas de rasura não são de agora, que as homenagens interesseiras são já velhas. Têm toda a razão. Começaram, ainda que timidamente, no século XIX, com o regime liberal. O nome das praças, das alamedas, das ruas, das travessas e até dos becos passou a ser campo fértil de todas as propagandas, de todos os interesses e de todas as vaidades. Houve é certo boas intenções, embora com maus resultados. Graças a Deus nunca tivemos em Portalegre autarcas que durante o seu mandato impusessem o seu nome a ruas e edifícios, como sucedeu noutras terras do Alto Alentejo e do Entre Douro e Minho. Mas o fluído canino das várias tendências políticas e de muitas vaidadezinhas individuais ou de grupo foi manchando não poucos nomes ancestrais da nossa cidade e de quase todas as terras do nosso país.
Ironia das ironias, o povo (que nunca foi tido nem achado nessas artimanhas e sobrancerias) esteve-se sempre lixando para os nomes novos, a não ser quando atribuídos a espaços urbanizados de novo – e ainda assim nem sempre. Passados muitos decénios (por vezes mais de um século) sobre essas alterações decretadas pelo sectarismo político das vereações, continuou a usar os topónimos antigos. Os exemplos em Portalegre são eloquentes. A rua Alexandre Herculano continua a ser de Santo André, a 31 de Janeiro teima em ser dos Canastreiros, o parque Miguel Bombarda, a avenida George Robinson e a rua de Olivença nunca deixarão de ser Corredoura, a rua 5 de Outubro nunca abdicou de ser Direita, o largo 28 de Janeiro pertence ainda à Fonte Nova, a rua Mouzinho de Albuquerque apenas do Pirão é chamada, não esquecendo a Luiz Barahona que do Castelo nunca se livrará, a Cândido dos Reis que nunca esconderá o Cano, a Almeida Garrett que nos conduz ainda ao Mercado (embora ele já esteja noutras partes), a França Borges que persiste na sua referência ao Bargado, o largo Serpa Pinto que adoptou (demolida a igreja da Madalena aí existente) a boneca de uma fonte...
A lista poderia continuar, mas não vale a pena aborrecer os leitores. Convém todavia registar com irónico agrado as designações populares bem recentes que os sábios transeuntes vão já dando a outros lugares com urbanização contemporânea, ignorando com orgulhosa altivez o desrespeito de que são alvo – neste e noutros domínios – por uma boa parte dos seus representantes eleitos. Ou alguém tem dúvidas de que a agora chamada “Rotunda Mário Soares” continuará a ser para todos a tão simples “rotunda do navio”? Não tenho quaisquer dúvidas. Afinal, nestes e noutros achados, “o povo é quem mais ordena”. Por mais que isso provoque comichões nalguns que se têm como procuradores sobranceiros da população.

RUY VENTURA 
(Texto publicado a 2/5/2019 no jornal portalegrense "Alto Alentejo"; foto de RV.)

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

APRESENTAÇÃO DO LIVRO 

“A VIDE E O SEU CASTELO”, DE RUY VENTURA


"A Vide e o seu Castelo" de Ruy Ventura foi apresentado no passado sábado, dia 24 de Setembro, no Salão Nobre dos Paços do Concelho. O livro aborda a toponímia, história e heráldica de Castelo de Vide, que inclui também referências a Marvão e à Ammaia. O lançamento é da responsabilidade do Grupo de Amigos de Castelo de Vide e contou com o apoio das Câmaras de Castelo de Vide e Marvão, bem como das Juntas de Freguesia.
A iniciativa esteve integrada nas Jornadas Europeias do Património, subordinadas ao tema Comunidades e Culturas, que decorreu entre os dias 23 e 25 deste mês. As Jornadas tiveram como objetivo envolver as comunidades na valorização da cultura.
O autor do livro é natural de Portalegre, tem 43 anos e desde a década de 90 que se dedica à atividade literária e investigação nas áreas de património imaterial e material.





domingo, 14 de agosto de 2011

SOBRE O TOPÓNIMO
"CASTELO DE VIDE"


O sítio Fonte da Vila (http://www.fontedavila.org/) já publicou o meu novo artigo, intitulado A Vide e o seu Castelo (e outros toopónimos da terra de Cristovam Pavia). Como o título indica, reflecte sobre o topónimo "Castelo de Vide" e, ainda, sobre outras designações da vila, tais como "Aldeia", "Arçário", "Arrochela", "Poço de Aluáca", "Mascarro", etc. O texto pode ser lido em: http://www.fontedavila.org/multimedia/doc_textos_artigos/ta_rv_cv_toponimo.pdf
Agradeço desde já a leitura.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Maria Guadalupe Alexandre
http://www.jf-carreiras.pt/1_toponimos1.html


O topónimo Carreiras ou Carreira




Das 6 freguesias portuguesas denominadas Carreira ou Carreiras, segundo o Dicionário Lello Universal, 1.º Volume, ocupamo-nos da ultima citada na referida obra e que é a de S. Sebastião de Carreiras no Distrito e Concelho de Portalegre.
As outras cinco situam-se no Norte de Portugal, especialmente no Distrito de Braga (4), existindo uma no Distrito do Porto.
Temos: Carreira - freguesia do Concelho de Barcelos; freguesia do Concelho de Santo Tirso; freguesia do Concelho de Vila Nova de Famalicão.
Carreiras - freguesia do Concelho de Vila Verde, tendo como Padroeiro São Miguel; outra freguesia do mesmo Concelho, tendo como Padroeiro São Tiago.
A de Barcelos ostenta a torre de Penagate "muito antiga e já sem ameias"; a de São Miguel de Vila Verde guarda as ruínas da antiga torre de D. Egas Pais, valido Conde D. Henrique, pai do Fundador da Nacionalidade.
Falaram-nos alguns familiares da Freguesia de Carreiras na zona de Torres Vedras que desconhecemos, mas não quisemos deixar de referir.
No Norte Alentejano, a aldeia de Carreiras ou simplesmente Carreira, na linguagem dos mais velhos e mesmo na dos mais novos, em tom coloquial, forma atestada na poesia popular, tem como Padroeiro São Sebastião, o que raramente acontece, mesmo nas regiões onde o Mártir de Narbona é venerado.
O topónimo Carreira provém do latim CARRARIA que significa "caminho para carros"
A evolução fonética é a seguinte:
CARRARIA > Carraira (1) > Carreira (2)
1. atracção da semivogal para junto do tónico.
2. Passagem de "a" a "e" por se lhe seguir a semivogal "i".
No "Compêndio da Gramática Histórica Portuguesa", o seu autor, Dr. José Joaquim Nunes escreve: "A tónico, seguido imediatamente ou, separado apenas por uma só consoante (que ou cai ou persiste conforme a sua natureza) das semivogais "i" e "u", quer originárias quer provenientes de consoante, atrai estas ou passa respectivamente para "e" e "o" ou conserva-se inalterado, formando assim os ditongos "ei" ou "ai" e "ou" ou "au". Um dos exemplos é:
FURNARIU > furnairo > forneiro
Tudo muito fácil se a aldeia não fosse conhecida pelos seus caminhos que até à segunda metade do século XX não passavam de difíceis azinhagas, com enormes pedregulhos "nascediços" característica atestada pelo menos numa quadra popular e num excerto do poeta Domingos Fernandes dela natural.

"Já me davam dez moedas
para ir casar à Carreira...
E eu não quero as dez moedas,
para não subir a ladeira."

"És mal servida de estradas
e tens muito maus caminhos...
Mas tens muito boa gente
e eu vivo muito contente
no cimo dos teus canchinhos."

Assim, como teria ela tido ou sido caminho para carros?
Acresce que do outro lado da Serra que lhe fica a Nordeste existe um local também denominado Carreira (Escusa, freguesia de Aramenha) onde não se vislumbra qualquer indício de caminho.
Surgiu então a alguns estudiosos da zona outra hipótese de explicação do topónimo.
Carreiras teria provindo do nome francês Carriére oriundo do latim QUADRUS (quadrado) e que significa "local onde se exploram produtos minerais (não metálicos nem carboníferos) e em particular rochas próprias para a construção.
Rochas não faltam quer na aldeia quer no sitio com o mesmo nome, do outro lado da serra, mas não há vestígios de pedreiras.
Descontente com esta explicação encontrei uma outra que satisfaz ainda menos.
O vocábulo francês Carriére pode também provir do Latim CARRU, significando entre outras coisas uma "ampla superfície destinada a exercícios de equitação, em terreno descoberto".
Se existiu não deixou o mais leve indicio.
Voltei à CARRARIA que julgo mais apropriada a um povoado de origem remota (com monumentos e achados pré-históricos), situado a escassos quilómetros da cidade romana de Ammaia e com um velho caminho, mais tarde transformado em "estrada camarária" que desembocava (como actualmente) na freguesia de Aramenha, perto do local onde passava a VIA que ligava Ammaia a Ebora.
Na Revista "IBN MARUAN", n.º 13 pode ler-se o seguinte: "... esta via revestia-se de uma grande importância comercial, já que permitia o acesso aos célebres mármores de Estremoz e de Vila Viçosa, tão apreciados pelas elites urbanas e rurais."
E ainda:
Os caminhos pedestres que existem na região, alguns deles de origem romana, outros medievais, seriam importantes na interligação comercial do mundo urbano com o mundo rural (aglomerados secundários, VILLAE, casais ou pequenos sitios.)
Que existiu um caminho pedestre não parece difícil de aceitar, mas o topónimo aponta para carros e é dos carros romanos que vamos falar.
Em "História da Humanidade - Roma" (2008) há uma página consagrada aos meios de transporte em que se afirma:
"Havia definitivamente todo o género de carros para todos os gostos e fortunas."
Os mais relacionados com CARRARIA seria o CARRU, galera ou carroção puxado geralmente por dois cavalos. No entanto o conforto, a forma de tracção, a cobertura, o numero de rodas (2 ou 4), o facto de terem um ou mais cavalos de tiro, um ou mais lugares determinaram o aparecimento de veículos com as seguintes denominações:
RAEDA; SARRACA; ARCUMA; CISIUM
O mais utilizado era a RAEDA com capacidade para várias pessoas e muitas bagagens.
O mais luxuoso chamava-se CARRUCA e era parecido com um coche - 4 rodas, 2 ou 4 cavalos de tiro totalmente cobertos, com 4 assentos cómodos, por vezes enfeitado com ouro e prata.
Por sua vez o COVINUS podia ser conduzido pelo próprio viajante, sem necessidade de cocheiro. Marcial fala da "agradável solidão" que proporcionava.
Voltamos gostosamente, a CARRARIA proveniente de CARRU, vocábulo que embora latino é de origem gaulesa. Pelo possível caminho romano que ligaria os Alvarrões (Aramenha) a Carreiras só passariam carroções puxados por poucos cavalos. Não seria mais que um atalho estreito com sulcos abertos pela passagem repetida das rodas ou pela mão do Homem para facilitar essa passagem.
É claro que pela VIA de EBORA transitariam veículos de transporte de carga, de passeio...
Seria esse caminho a CARRARIA que passava por um VICUS que mais tarde lhe herdou o nome?
Apenas uma hipótese...

Bibliografia
Bernardo, Bonifácio dos Santos - Aldeia de Fortios, Memória Histórica. Edições Colibri, 2009
Fernandes, Domingos - Manuscrito
História da Civilização - Roma. Edição do Circulo de Leitores - 2008
IBN MARUAN (Número especial) São Salvador da Aramenha - História e Memórias da Freguesia
Coordenação de Jorge Oliveira - 2005
Larrouse em Couleurs (Dicionário Enciclopédico Unilingue) - 1981
Lello Universal
Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro - 1974
Machado, José Pedro - Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009


O ESTUDO DA TOPONÍMIA
(notas metodológicas)

Na leitura dos topónimos, embora tendo sempre em conta o quanto fogem à fixação as explicações propostas para a etimologia de um nome, devemos ter sempre em conta alguns princípios metodológicos básicos que reduzam o perigo de cairmos em fantasias ou disparates.
Em primeiro lugar, devemos ter consciência do carácter objectivo da designação toponímica. Nesse sentido, é importante ter em conta os princípios defendidos por Álvaro Galmés de Fuentes:
“[…] al analizar y estudiar la etimologia de cualquier topónimo hemos de tener en cuenta el hecho de la racionalidad inicial de su nomenclatura. […] creo que el hablante, creador de la toponímia, es mucho más racional de lo que parece deducirse de las explicaciones de algunos etimólogos, y así lo mismo que llama al pan, pan, y al vino, vino, al monte le llama monte, y a la peña, peña, y al valle, valle, y al llano, llano, y al río, río, etc. Ahora bien, para distinguir entre varios montes o varias peñas, puden éstos recibir adjetivaciones complementarias, pero siempre haciendo referencia a sus cualidades físicas reales […].” (Fuentes, 1992: 313)
É crucial ter em conta também a opinião de Galmés Fuentes no que respeita às transformações sofridas pelos nomes de lugar ao longo de séculos ou (frequentemente) de milénios:
“[…] los topónimos, en su evolución o por el desuso de la lengua que les dio origen, pueden hacerse opacos, y es entonces cuando tiene lugar la reinterpretación, operada en la conciencia lingüistica del hablante, que tiende a reagrupar formas etimológicamente oscuras com raices conocidas de aspecto semejante […]” (idem)
Nesta evolução, concordo com o papel interpretativo (e erosivo) das classes cultas, onde se incluem, numa fase tardia, muitos etimólogos:
“[…] No es normalmente el pueblo quien más interviene en estas reinterpretaciones asociativas; con frecuencia son las personas cultas, y aun los mismos especialistas del lenguaje, a quienes corresponde mayor participación en ellas. […] / Con respecto a la toponimia quienes más han intervenido, sin duda, en su alteración han sido precisamente los profesionales encargados de registrar los topónimos o de consignarlos en escrituras. Me refiero, naturalmente, a los secretarios de ayuntamiento, a los registradores, a los escribanos o a los notarios. Éstos, con frecuencia foráneos y desconecedores de las peculiaridades lingüisticas del lugar, son los grandes artífices de llamativas asociaciones etimológicas. […]” (idem)
É nossa convicção que a toponímia, apesar de muitas vezes só poder ser conhecida através de documentos escritos mais ou menos recentes, é uma manifestação da linguagem oral dos grupos humanos que ocupam e observam (ou ocuparam e observaram) um determinado lugar. Daí que muitas designações – embora as suas primeiras atestações escritas datem apenas do século XIX ou já da centúria anterior à nossa – sejam de facto muito antigas, várias vezes fósseis de línguas ancestrais.
Sendo racionais e distintivos, os topónimos nunca poderão entretanto ser entendidos sem o contexto em que se inserem ou inseriram. A nomeação de um lugar nunca pode separar-se da sua geografia, da sua história e da sua mitologia. Embora nem todos os nomes vejam o(s) seu(s) significado(s) apoiado(s) em múltiplas referências contextuais, parece-me imprescindível trabalhar nesta base metodológica, que não dispensa o conhecimento integrado da cultura local nas suas várias dimensões. Por isto nos parece muito mais correcto estudar a toponímia com base num método etnológico do que num método positivista, seja ele “histórico” (que apenas tem em conta as atestações escritas, sem as discutir ou criticar, frequentemente) ou “filológico” (que apenas interpreta os nomes com base numa sua suposta etimologia, muitas vezes desenraizada).
Na senda de alguns autores estrangeiros, quem em Portugal mais se tem preocupado com o desenvolvimento e aplicação desse “método etnológico” tem sido Moisés Espírito Santo. Dele nos socorremos para a definição do modo de trabalho:
“[…] É um método de terreno. Consiste em descobrir a significação do nome a partir do seu envolvimento geográfico e da sua relação com os nomes/sítios vizinhos. Parte-se do princípio da objectividade do nome. Isto é, a nomeação era a objectivação ou singularização do local. Os nomes significavam qualquer coisa que existia ou se fazia no local; não eram poéticos nem postos ao acaso das aparências. Significavam o que lá existia ou se fazia: ‘fonte’, ‘encosta’, ‘rio’, ‘porto’, ‘mina’, ‘palácio’, ‘santuário’, ‘feira’… As populações viviam em autarcia. Esses sítios/nomes não necessitavam de outros atributos, uma vez que as populações que os nomearam eram isoladas e podiam não conhecer mais nenhum sítio com esse nome. […] / […] O método etnológico exige, portanto, a observação do terreno ou, pelo menos, o uso duma cartografia minuciosa e alguma informação etnológica sobre os sítios. […]” (Espírito Santo, 2004: 351-352).
Segundo o autor de A Religião Popular Portuguesa, esta prática metodológica tem aplicação mais pormenorizada através do chamado “método dos sistemas”, proposto em 1927 por Victor Berard como forma de estudo da toponímia fenícia do Mediterrâneo, presente na Odisseia de Homero. A interpretação do nome deve então submeter-se à passagem por três sistemas, em simultâneo (cf. Espírito Santo, 2004: 352):
1. “sistema verbal” (correspondência fonética, de acordo com as regras da linguística);
2. “sistema local ou geográfico” (o topónimo deve fazer referência a acidentes naturais do relevo, do sistema hidrológico, etc.);
3. “sistema histórico ou lendário” (devem existir referências históricas ou lendárias relacionadas com o sítio).
Moisés Espírito Santo aperfeiçoou entretanto este método, aprofundando-o de maneira a acrescentar-lhe fiabilidade e a permitir o estudo de alguns topónimos que lhe fugiam, por se referirem “a uma qualquer actividade social, religiosa, etc., sem relação com a geografia, e sem ter deixado rastos históricos ou mitológicos”. Acrescentou-lhe assim a regra da “constelação dos nomes”:
“[…] tendo em conta o ‘sistema verbal’ (a evolução da palavra segundo as regras linguísticas), a significação de um nome estará garantida quando ela tiver relação com a significação dos nomes em volta: o nome vizinho pode ser um sinónimo ou uma tradução noutra língua […]. Pode o nome estar numa relação de complementaridade com os vizinhos […]. Esta regra da constelação pode testar-se, comparando com os nomes idênticos doutras regiões, porque os topónimos […] são repetitivos e, observando bem, podem organizar-se por constelações de nomes.” (Espírito Santo, 2004: 352)
Segundo o mesmo autor, há no entanto um cuidado a ter:
“[…] da actual coincidência de dois nomes em regiões diferentes não se deduz, automaticamente, que ambos tenham tido a mesma origem no passado. Com origens verbais diferentes, podem ter evoluído foneticamente para o mesmo nome, nomeadamente pela força da escrita e dos registos. Há que interpretá-los dentro dos respectivos contextos.” (idem)


2.

À semelhança do que acontece na chamada “toponímia rural”, até meados do século XIX a toponímia urbana era também meramente funcional. Ninguém se preocupava, como hoje, em impor os seus valores ou ideais políticos, tornando a designação do espaço uma “simples convenção [resultante] de cíclicas ondas comemorativas que espalharam por todas as vilas e cidades portuguesas nomes e datas que o correr do tempo tem esvaziado de sentido” (Andrade, 1993: 123), chegando a apagar oficialmente nomenclaturas antigas, sem olhar ao risco de apagamento de uma parte significativa da memória colectiva.
A toponímia antiga, fosse rural ou urbana, partia do conhecimento profundo dos lugares, nascendo da observação cuidada e experimentada para a nomeação dos múltiplos espaços da localidade e sua envolvência. Não eram portanto necessárias quaisquer placas de identificação ou outros elementos oficializando e fixando a designação, como acontece nos nossos dias. Bastava o conhecimento empírico e a transmissão oral, sendo a oficialização (sempre relativa e provisória, coexistindo por vezes várias designações atribuídas ao mesmo local) apenas um modo de consagrar (interpretando, frequentemente mal, a oralidade) nos documentos escritos (alvarás, escrituras, tombos, registos paroquiais e outros) aquilo que já corria na voz dos habitantes desses lugares há vários séculos ou milénios.
Está mais ou menos estabelecida a ideia de que o processo de atribuição de topónimos por decisão oficial se terá iniciado em meados do século XIX com a Regeneração (embora ainda no Antigo Regime, a partir do governo do Marquês de Pombal, se verifiquem episódios pontuais com uma atitude semelhante perante a nomeação do espaço). Esta estratégia tem visado sobretudo objectivos doutrinários, de forma a levar as populações a assumirem como seus os valores dos sucessivos regimes políticos – embora com resultados práticos muito débeis, perante uma memória colectiva secular ou milenar que, na grande maioria dos casos, teima manter em uso os nomes antigos, desprezando ou esquecendo os oficiais (cf. Ventura, 2002: 416). Paralelamente, a nomeação oficial tem visado ainda a valoração pública de personalidades dos domínios político ou social, ora consagrando figuras locais ora homenageando actores nacionais – que o tempo, muitas vezes, se encarrega de mergulhar (justa ou injustamente) no esquecimento.

terça-feira, 10 de abril de 2007

"Fortios"
viagem à volta de um topónimo


(para o Cónego Dr. Bonifácio Bernardo)

Parece certo – se atendermos à informação veiculada em inícios do século XVII por Diogo Pereira Sotto Maior no seu Tratado da Cidade de Portalegre – que “São Domingos da Penha” era o topónimo que denominava nessa época a actual freguesia dos Fortios, no concelho de Portalegre. Nesse nome, em época indeterminada mas remota, haviam sido ligadas duas realidades: uma religiosa, o orago da paróquia (São Domingos de Gusmão), e outra orográfica, referenciando o acidente geológico que nas proximidades da igreja matriz se situa, chamado no século XVIII “serra de S. Domingos” ou “da Penha do Bufo”.
O actual nome da freguesia, “Fortios” – que em inícios de seiscentos era apenas a denominação do seu principal aglomerado –, impôs-se com o tempo, devido ao aumento do seu número de habitantes, substituindo hoje o topónimo antigo, como aconteceu também com o vizinho “Monte da Urra”, cujo nome apagou a antiga designação paroquial, “Sant’ Iago de Caiola”.
Várias têm sido as explicações dadas por filólogos e investigadores para o nome “Fortios”, inicialmente ligado a um “monte” que, mais tarde, passou a ser “aldeia” – devido ao seu relevo populacional e, certamente, urbanístico. (Convém referir que, no português antigo, “monte” e “aldeia” eram quase sinónimos – havendo entre eles somente uma distinção no tamanho do aglomerado, sendo “monte” um pequeno núcleo habitacional e “aldeia” um habitat de maiores dimensões. (É significativo o apontamento do pároco da Ribeira de Nisa, em 1758, ao escrever nessa data que a sua freguesia tinha “muitos lugares, ou aldeyas, ainda que não populózos, por cuja razão se chamão montes”.)) O crescimento do “Monte dos Fortios” seria já significativo em finais do século XVI, pois nessa altura (1586) os seus moradores conseguem autorização do bispo D. Frei Amador Arrais para construírem uma nova igreja, desobrigando-os de receberem os sacramentos na igreja matriz de São Domingos, situada a alguma distância.
Alexandre Carvalho Costa (1950) coloca a hipótese de “Fortios” derivar de “fortim”. Esta hipótese é no entanto contrariada por Joaquim da Silveira, que o acha nascido do apelido espanhol “Fortis”. Por sua vez, Xavier Fernandes atribui-lhe origem obscura, caso não esteja relacionado com a palavra latina “furtiuuos”, significando oculto, escondido, secreto. José Pedro Machado, em 1984, acha entretanto que “Fortios” é a forma plural de “Fortio”, “em alusão a pessoas do local pertencentes a família com este apelido”. “Fortio”, por seu lado, deve ser alcunha derivada de “forte” (a que foi acrescentado o sufixo “-io”, com o significado de “colectividade” ou “quantidade”), ou então uma forma popular de “furtivo”.
Em qual das hipóteses devemos confiar, pela força da probabilidade? Parece-me mais sólida a de José Pedro Machado, próxima na forma da de Joaquim da Silveira: “Fortios” é a forma plural do apelido/alcunha “Fortio”. Até porque os pequenos aglomerados populacionais nascidos durante a Idade Média receberam muitas vezes o nome do proprietário (ou do povoador), seguindo a tradição dos povos germânicos anterior à invasão islâmica, bem visível ainda no norte de Portugal. Devemos ter em conta também que só nos últimos séculos o nome “Fortios” surge isolado, pois nas suas origens está quase sempre dependente do topónimo genérico “Monte”, que adjectiva, indicando que o “monte” pertence ou pertenceu aos “Fortios”, isto é, à família “Fortio”.
Mas tudo não passaria de uma hipótese, se não existissem provas da presença na região de alguém com esse apelido, algo raro mesmo na documentação antiga... Mas felizmente existem. Transcrevendo o tombo dos bens incluídos na comenda de Santa Maria a Grande, de Portalegre, pertencente à Ordem de Cristo, elaborado em 1509, encontrámos uma referência preciosa. Referindo-se a propriedades da sucessora dos Templários existentes na zona da Mata, refere a dado passo o documento:“Iunto da sobredita courella de Vinha [“camjnho da mata honde chamã a fonte delrrey”], tem a hordem outra que com ella parte ao sul & parte ao norte com vinha de dieg’ aluarez fortío”.
Ficamos assim a saber, através deste extracto do texto supracitado, que no início do século XVI existiu realmente no território da actual freguesia dos Fortios um proprietário (Diogo Álvares) cujo apelido ou alcunha era “Fortio” – o que vem provar documentalmente a teoria de José Pedro Machado. É natural que nos terrenos deste homem (dele, de seus descendentes ou dos seus ascendentes...) se tenha construído o “monte”, já “aldeia” em 1586 – tão importante na então freguesia de São Domingos da Penha que, séculos depois, conseguiu apagar esse nome, para ser apenas “Fortios”.


(Artigo publicado n' O Distrito de Portalegre)

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