quinta-feira, 18 de outubro de 2007




MOSTEIRO DA PROVENÇA DE VALE DE FLORES
(Ribeira de Nisa, Portalegre)

Vem de longe a presença de eremitas no território dos concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre. Embora as referências documentais mais antigas remontem ao início do século XIV, a presença deste tipo de religiosos pode recuar pelo menos até à época muçulmana, se nos recordarmos do sítio arqueológico existente no ponto mais alto da serra de São Mamede, onde o achado de uma lápide com caracteres árabes levou alguns investigadores a colocar a forte hipótese de aí ter existido um “ribat“ fundado pelo movimento sufi. “Mamede” pode ser, aliás, uma adaptação portuguesa do nome do profeta do Islão. O santo era ainda um dos mais cultuados entre os moçárabes (cristãos arabizados), no período anterior à reconquista. Outros locais, alguns decerto mais tardios, mostram também vestígios de uma vida eremítica intensa, elevando muitos locais dos concelhos supracitados à categoria de “desertos”, tão propícios a uma entrega religiosa radical. A título de exemplo, citemos apenas São Gens, São Miguel e São Paulo (na serra de Castelo de Vide), São Tomé, São Mamede ou São Domingos dos Fortios (em Portalegre).

O mosteiro da Provença de Vale de Flores, situado no sopé da Serra de Frei Álvaro, na actual freguesia da Ribeira de Nisa (Portalegre) não terá nascido, portanto, como fenómeno isolado no seu contexto geográfico e religioso. Terá nascido antes como fruto do espírito de um lugar que, com as suas matas de carvalhos (ainda hoje densas), seria propício ao isolamento contemplativo. Estava, além disso, suficientemente perto das vias de comunicação para permitir a recolha de recursos, através da esmola dos transeuntes
que circulariam nos caminhos de Marvão e de Castelo de Vide, em cuja proximidade foi edificado.
A Provença tem no entanto uma vantagem sobre todos os outros sítios possivelmente ligados a uma vida religiosa eremítica: enquanto os seus irmãos navegam no território das hipóteses, dada a escassez documental e a inexistência de prospecções arqueológicas, toda a sua vida está razoavelmente documentada.






Não sabemos em que época se instalaram no “Vale de Flores” os primeiros eremitas. Quando em 1375 o rei D. Fernando doou a Fernão d’ Álvares Pereira, irmão do Santo Condestável, o “lugar dos proves” (isto é, “dos pobres”, nome pelo qual eram conhecidos os monges dependentes do mosteiro de São Paulo Eremita, na Serra de Ossa) – como recompensa pelos serviços prestados e a prestar por seu pai, frei Álvaro Gonçalves Pereira, prior da Ordem do Hospital –, já a presença dos religiosos é colocada no passado. Não sabemos que utilização deu Fernão Pereira ao território doado, embora pensemos que se lhe deve a construção da “Torre da Vargem”, ainda hoje existente nas proximidades. Falecido em finais de 1384 num ataque frustrado de seu irmão ao castelo de Vila Viçosa, integrado na crise de 1383-85, “Vale de Flores” passa para as mãos de sua mãe, Iria Gonçalves do Carvalhal.
Matriarca de uma família ligada espiritualmente aos “pobres da Serra de Ossa”, Iria decide devolver o lugar aos monges que aí haviam habitado noutros tempos. Em 1385 resolve doá-lo a João Espartim e a Gonçalo da Beira, “da pobre vida”, para aí construírem um eremitério. Nessa altura, a propriedade dividia pelos muros que fizera “Álvaro da Prata [ou de Prates] da vida pobre”, referência que fornece não só provas de uma utilização monacal anterior (isolada, mas aparentemente sem edifício religioso específico), mas também indícios que permitem explicar o topónimo “Frei Álvaro”.
Esta devolução-doação a dois “pobres” vindos dum eremitério em Cabeço de Vide não foi no entanto pacífica. Em 1397 já o mosteiro estava construído. Nessa data, a pedido dos frades, o rei D. João I necessitou no entanto de confirmar a doação de D. Iria Gonçalves, alvo da oposição dos homens-bons do concelho de Portalegre. Tratava-se, afinal, de uma terra reguenga – e, normalmente, só após conflitos mais ou menos intensos os municípios se resignavam à sua passagem para mãos particulares. Terá sido esse o motivo do primeiro abandono dos frades, anterior a 1375? É provável.
Não sanada a demanda, já no início do século XV a mãe de Nuno Álvares Pereira vê-se obrigada a passar nova carta de doação, dessa vez em benefício de frei Simão, pobre da Serra de Ossa, que em 1412 (?), na igreja da Madalena, a apresenta ao juiz de Portalegre, exigindo a sua execução. Desgostados talvez com este conflito e com a má recepção das autoridades municipais, os monges “da pobre vida” abandonaram o local por volta de 1436. (Nada mais conhecemos da vida do mosteiro durante o meio-século de eremitismo paulista. Sabemos apenas que nele morreu e foi sepultado D. João de Castro, bispo português de Tui, após ter tomado hábito na Serra de Ossa e se ter tornado visitador da ordem em 1376, tendo-lhe doado paramentos e alfaias litúrgicas.)
D. Duarte resolveu então doar “Vale de Flores” à Ordem de São Jerónimo de “Perlonga” (Penha Longa, Sintra) para aí edificar uma nova fundação subordinada à sua regra. Seu filho, D. Afonso V, tentando fixá-los, deu-lhes protecção real e coutou-lhes propriedades nas proximidades do mosteiro e, até, em Castelo de Vide. A atitude do rei não foi no entanto suficiente para conservar os jerónimos durante muito tempo, dado que deixaram a propriedade em 1467. O pai de D. João II ainda devolveu a Provença aos pobres de São Paulo da Serra de Ossa, dando-lhe todos os privilégios atribuídos à casa-mãe, mas ainda nesse ano foi restituída pelos frades ao monarca, invocando diversas dificuldades (talvez ligadas à difícil convivência com as autoridades locais).
Em 1500 o mosteiro de Vale de Flores estava despovoado, na posse de um caseiro do convento de São Francisco de Portalegre. Um acordo entre os frades menores e os da pobre vida levou à restituição da propriedade aos paulistas que, segundo tudo indica, não a terão voltado a habitar. É nessa época que entra na história da Provença o bispo da Guarda, D. Jorge de Melo. Segundo conta o Tratado da Cidade de Portalegre (1619), querendo edificar nessa região um convento de freiras cistercienses, terá pensado em construí-lo nesse local. De acordo com as informações recolhidas pelo padre Diogo Pereira Sotto Maior, adquiriu a propriedade, que “pertencia à igreja”, a quem a possuía (os frades da Serra de Ossa). Apesar de entretanto ter decidido levantar o mosteiro de Nossa Senhora da Conceição no sítio da Fontedeira, em Portalegre, fez na “província de Sam Brás”, “quinta sua”, “grandes edifícios” e uma “igreja de novo”. Os imóveis estavam contudo “quasi arruinad[os]” na segunda década do século XVII (cf. Sotto Maior, 1984: 111-112).
A igreja assim permaneceu até aos nossos dias, bem como parte da cerca monástica. A casa de habitação e arrumos anexos mantiveram-se de pé e foram sendo utilizados pelos rendeiros dos sucessivos proprietários. Recentemente, a propriedade foi adquirida pelo engenheiro João Guerra Pinto, que a restaurou e ampliou (com grande respeito pelo património aí remanescente), tranformando-a numa unidade de turismo rural.

"Provença” significava, no vocabulário dos Pobres de São Paulo da Serra de Ossa, “eremitério” ou “mosteiro”. A Provença de Vale de Flores (topónimo muito belo que, infelizmente, se perdeu em parte) é constituída por um conjunto de edifícios que rodeiam um pátio rectangular onde se observam vários afloramento graníticos. A entrada faz-se a poente, pelo arco da cerca, que ocupa o extremo dum alto muro de alvenaria sem reboco. À esquerda, há vestígios dum estreito corredor, ao fundo do qual, a nascente, se ergue a entrada do que sobra da igreja – constituída por nave, capela-mor e sacristia (tendo o corpo aproximadamente o dobro do comprimento da ousia quadrangular). À esquerda do templo, segundo uma tradição veiculada pelos antigos rendeiros da quinta, situar-se-ia o cemitério dos monges. Não sabemos onde se elevariam a habitação dos frades e as restantes dependências necessárias à vida comunitária; suspeitamos porém que ocupariam o terreno onde mais tarde foi edificado o solar do bispo D. Jorge de Melo.
As ruínas e edifícios aí existentes permitem-nos reconhecer várias fases de ocupação do lugar. Apesar de, junto ao pórtico da igreja, existir uma inscrição (funerária?) romana, não é possível recuar no entanto para além da Baixa Idade Média (a lápide terá vindo, como muitas outras, da cidade de Ammaia, existente a poucos quilómetros).
Não existem quaisquer vestígios físicos da presença dos eremitas “da pobre vida” anterior a 1375, embora esteja documentada. Se algo existe dos muros construídos nessa época por frei Álvaro da Prata ou de Prates (delimitadores da propriedade ou do espaço de reclusão monástica, como ainda hoje se verifica no mosteiro “velho” da Arrábida, em Setúbal), só os arqueólogos o poderão descobrir.
Do mesmo modo, nada se pode achar da utilização da Provença pelo irmão de Nun’ Álvares, Fernão Pereira, entre 1375 e 1384-85. Segundo pensamos, a residência do filho de Iria Gonçalves do Carvalhal situar-se-ia nos limites da propriedade, junto da ribeira e do caminho de Castelo de Vide, no edifício com traços senhoriais hoje denominado “Torre Alta”, já na freguesia de Carreiras.
À segunda ocupação dos monges “da pobre vida” (1385-1436) se deverá, pelo contrário, a construção do pórtico axial da igreja, cuja cronologia (primeira metade do século XV) parece coincidir com a da sua presença, iniciada por frei João Espartim e frei Gonçalo da Beira. Estamos perante uma interpretação popular dos modelos góticos da época, nascida das mãos de um artífice regional, com enormes afinidades com alguns portais do bairro gótico de Castelo de Vide. Trata-se de uma peça de pequenas dimensões, a que falta uma das ombreiras chanfradas. É constituída por um arco quebrado de cantaria, emoldurado por toros finos e boleados; assenta sobre duas impostas decoradas por aquilo que parece ser um pequeno rosto humano, de que nascem ramagens estilizadas. (Existe ainda na quinta uma laje granítica com a forma de um hexágono irregular que, segundo a tradição, terá sido o primitivo altar da igreja; a ser assim, pertencerá talvez a esta época).
O arco da capela-mor – quebrado, com esquinas cortadas, assente sobre impostas pouco pronunciadas, quase sem decoração, que coroam pilares também chanfrados –, sendo mais tardio, deverá ter nascido já da presença dos frades jerónimos (1436-1467). À esquerda do portal da cerca, há ainda restos de um brasão ou monograma, em mármore branco, cuja coroa revela feições que apontam também para essa época.
O regresso do mosteiro à posse dos eremitas da Serra de Ossa, ocorrido em 1467 (e que se prolongaria até ao século XVI), não deixou quaisquer marcos patrimoniais, dado que nunca terão voltado a habitá-lo. Terá havido um abandono acentuado, que levou o proprietário seguinte a ter de promover obras profundas.
A maior parte das construções habitacionais – sobretudo aquelas que deram origem ao actual estabelecimento hoteleiro – são devidas à acção construtora do bispo D. Jorge de Melo, que terá comprado a propriedade na época em que se iniciou a edificação do mosteiro cisterciense de Portalegre, por ele promovida a partir de 1518. Assim o mostram as portas e janelas em granito dessa época, cuja verga recta se apresenta ou chanfrada ou com decoração geométrica muito simples. A sua intervenção na igreja não deverá ter sido, contudo, tão intensa quanto Diogo Pereira Sotto Maior faz crer no seu Tratado. Não se terá construído um templo novo, mas apenas remodelado o existente, elevando-se talvez a altura do espaço destinado ao celebrante e dotando-o de abóbada nervurada em tijolo (de que ainda restam vestígios), assente sobre mísulas graníticas sem decoração. A intervenção episcopal terá também modificado a entrada da cerca, substituída por um arco abatido, que ainda se pode observar, ladeado pelo brasão dos Melos em mármore (de que sobram fragmentos).
Com a morte de D. Jorge, a igreja terá sido progressivamente abandonada, estando quase arruinada nas primeiras décadas do século XVII. Nessa altura terá sido levada para o templo paroquial de Nossa Senhora da Esperança, na Ribeira de Nisa, a imagem do padroeiro – o bispo São Brás, segundo afirma Sotto Maior – que, tanto quanto sabemos, ainda aí se encontra, embora anónima. As casas de habitação e os arrumos devem ter continuado a servir.
Já do século XVIII será o tanque-fontanário, ladeado por dois poiais, existente nos arredores do solar. Dessa época serão ainda os vestígios de um forno de cozer pão, situados entre a fachada principal das ruínas da igreja e o muro da cerca monacal.Já no início do século XXI, como se afirmou anteriormente, a quinta foi adaptada a funções hoteleiras. Acrescentou-se uma nova ala a nascente, restauraram-se os edifícios habitacionais (onde foi descoberto um silo talvez medieval) e respeitaram-se, valorizando-as esteticamente, as ruínas vindas do passado.

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