segunda-feira, 5 de março de 2007

Torres senhoriais
da freguesia de Carreiras
(Portalegre)

Existentes um pouco por todo o país, mas com maior incidência no território a norte do Tejo, as torres senhoriais constituíam residência de membros da nobreza, geralmente situadas em vales ou planícies férteis, ou na proximidade de vias de circulação. Segundo alguns autores, a sua multiplicação deu-se a partir do século XIII, com o progressivo abandono dos castelos mais isolados. Como refere José Morais Arnaud, a maior parte delas “tinha uma aparência modesta, sobretudo quando pertenciam a pequenos cavaleiros. Muitas vezes mal se distinguiam das habitações camponesas, a não ser pela qualidade dos materiais, ou pela cobertura de telha (...). Noutros casos, porém, quando correspondiam à morada de um grande senhor, apresentavam uma estrutura mais complexa, com mais espaços disponíveis.
No Alto Alentejo são vários os exemplos conhecidos deste tipo de monumentos. Alguns deles são ainda observáveis: a “Torre de Palma” (Monforte), a “de Segóvia” (Elvas), a “do Esporão” (Évora), a “Torre das Águias” (Mora) ou a “da Amoreira da Torre” (Montemor-o-Novo). Da maior parte restam, no entanto, apenas referências documentais ou vestígios na toponímia, como acontece na região da Serra de S. Mamede.
Na freguesia de Carreiras (Portalegre) são duas as torres senhoriais que, felizmente, ainda se conservam. Modestas, quando comparadas com a imponência das referidas, mas ainda assim significativas quer em termos arquitectónicos quer no que respeita à história da região, merecem uma justa preservação e integração nos roteiros turísticos.
Junto à Vargem, nos terrenos férteis que bordejam o leito da ribeira de Nisa, temos a “Torre Alta”. No sopé da Serra de Castelo de Vide, perto da calçada medieval que era o principal acesso viário de Portalegre a esta vila, temos a “Torre de Caldeira”.


Torre Alta, fachadas viradas a norte e a poente.

Levantada entre o antigo caminho para Castelo de Vide e a ribeira de Nisa, no sopé da serra de Frei Álvaro, foi sendo conhecida ao longo dos séculos por vários nomes: “Torre da Ribeira de Nisa”, em 1690; “Torre da Ribeira”, em 1742; “Torre da Vargem”, em 1786; “Torre Alta” nos nossos dias, ou simplesmente “Torre”.
Não foram localizados, até ao momento, quaisquer documentos escritos que forneçam dados concretos sobre a data da sua construção. Assim sendo, podemos apenas contar com a lenda que tem corrido entre os rendeiros da propriedade, a qual nos foi transmitida pelo sr. Marmelo, que aí residiu durante mais de trinta anos. Segundo nos contou, durante a visita que fizemos à “Torre Alta” em 01.09.2001, acompanhados pela dra. Maria Guadalupe Alexandre, a torre pertenceu noutros tempos ao mosteiro da Provença (cujas ruínas góticas se podem visitar a algumas centenas de metros para sudeste, ao lado de um novo estabelecimento hoteleiro). A ser verídica esta informação (as lendas têm sempre um fundo de verdade), a “Torre Alta” estaria então integrada na propriedade (“lugar de Proves” ou “Vale de Flores”) doada por D. Fernando na década de 70 do século XIV a Fernão Pereira, irmão de D. Nuno Álvares Pereira, e entregue anos depois – após a sua morte durante a crise de 1383-85 – por sua mãe, Iria Gonçalves do Carvalhal, aos monges da Serra de Ossa. Provavelmente pertenceriam ainda à mesma quinta, e logo ao mosteiro, um pombal (hoje integrado na habitação do “Monte do Pombal Velho”) e a “Azenha do Pombal”, cujas ruínas ainda se podem ver nas suas proximidades.
Construção com origens em finais da Idade Média, rectangular e com boa dimensão, o edifício da "Torre Alta" que hoje podemos observar é o resultado de várias reconstruções, reparações e acrescentos. Originalmente sem reboco, apresenta actualmente a fachada sul caiada e a face virada a nascente rebocada.
Exceptuando a porta de entrada (muito modificada), a “Torre Alta” não possui qualquer janela ou abertura no piso térreo, o que mostra um intuito defensivo. Reveladora desta preocupação é a existência de um alambor, que torna a parte inferior da torre mais larga e ligeiramente inclinada. Junto da porta de entrada, para a qual se sobe por uma rampa calcetada, possuía antigamente um grande bebedouro esculpido em pedra, hoje transformado em poial.Tanto as janelas quanto a chaminé existentes no piso superior devem ser posteriores à construção original. O acesso ao primeiro andar, com soalho em sobrado, faz-se por uma escada em madeira, partindo de uma espécie de varandim em pedra e alvenaria (que se eleva até cerca de metro e meio do solo), ao qual se acede por degraus no mesmo material. O pé-direito da parte térrea tem perto de 4 metros. Na parede virada à ribeira de Nisa, a poente, existem várias seteiras (ou frestas) e na parte cimeira um nicho feito em tijolo, onde outrora terá estado a imagem dum santo. Também na fachada sul existiu outrora uma seteira (hoje regularizada) de onde, segundo a lenda, “se avistavam os cavaleiros”.
A cobertura da torre é actualmente feita por um telhado de duas águas, viradas a norte e a sul. A existência de restos de um friso ou beirado em tijolo na fachada virada a poente leva-nos a colocar a hipótese de que teria outrora um telhado com quatro águas. É também possível que existisse um segundo andar, situação habitual nas torres senhoriais.
Nas proximidades deste monumento da freguesia de Carreiras existem vestígios bem visíveis de cerâmica de vários tipos, certamente indícios de riqueza arqueológica no subsolo, que mereceria escavação. Perto existem várias azenhas, hoje transformadas, e restos de uma estrutura (espécie de levada) que conduzia a água aos engenhos, a partir do ribeiro do Buraco. A uma propriedade vizinha (as “Tapadas da Torre”) está ligada uma lenda (que nos foi reproduzida pela dra. Maria Guadalupe, moradora nas proximidades), segundo a qual quem aí lavrar com uma junta de bois pretos pode encontrar um bezerro de ouro.


Torre Caldeira vista do sul
(foto de RV, 2003)


Não se sabe ao certo em que época foi construído pela primeira vez o edifício hoje conhecido por “Torre de Caldeira”, situado na freguesia de Carreiras, nas proximidades do antigo caminho de ligação entre as estradas (calçadas) de Castelo de Vide e da Póvoa, no sopé da Serra de São Paulo. O investigador popular Domingos Fernandes escreveu que foi outrora um "solar de frades", sem contudo apresentar os fundamentos da sua convicção. Situada na antiga “herdade da Retorta”, a torre - pelas suas características arquitectónicas - seria antes uma habitação destinada a membros da nobreza, edificada, à semelhança da “Torre Alta”, junto de um terreno fértil, na proximidade de importantes vias de comunicação terrestre.
Para além da documentação existente e da morfologia da construção, vem em auxílio da nossa convicção a toponímia. Por um lado, temos “Torre de Caldeira”, juntando ao designativo do edifício o apelido de uma das famílias nobres mais importantes de Portalegre, com papel relevante na estrutura sócio-política da região desde a Idade Média. Por outro, a designação atribuída ao caminho que conduzia ao local, a “Azinhaga das Honradas”, lembrança dos privilégios fiscais atribuídos ao proprietário da herdade, uma vez que "honradas" se chamavam as terras possuídas por membros da nobreza, quando isentas de impostos.
Em termos gerais, a “Torre de Caldeira” segue o modelo arquitectónico das torres senhoriais da Idade Média, embora com características diferenciadas, uma vez que o edifício que hoje podemos observar é mais recente, talvez já do século XVII ou, quando muito, de finais de quinhentos. Reconstruída, remodelada ou - será a hipótese mais provável - construída de raiz na época que acabámos de apontar, trata-se de um edifício com três andares, com entrada térrea pelo lado nascente e janelas no primeiro e no segundo andar. É coberta por um telhado de quatro águas, semelhante aos "telhados de tesoura", típicos da arquitectura civil da época em que terá sido edificada. Ocupa o extremo poente de um conjunto de edifícios destinados à habitação e à actividade agrícola (hoje abandonados e, alguns deles, em ruínas, devido a um incêndio ocorrido nessa região em 2003), construídos até meados do século XX sobre um afloramento rochoso granítico, suficientemente alto para permitir uma vista desafogada do alto da torre em qualquer direcção (excepto para norte, lado em que se ergue a vertente da serra). A torre está completamente rebocada e caiada em qualquer das suas fachadas.
A propriedade em que se ergue esta construção chamava-se, como dissemos, “Herdade da Retorta”. Conhecida pelo nome actual apenas desde inícios do século XVIII, está intimamente ligada à história de uma das famílias mais importantes da nobreza portalegrense, os Tavares, alcaides-mores de Portalegre durante a segunda dinastia (séculos XIV-XV). Foi sede do rico "morgado da Retorta", instituído em inícios do século XVII e deixado - em testamento lavrado a 25.03.1609 - por Jorge Caldeira de Tavares, viúvo de D. Maria de Mesquita, a seu filho Diogo Caldeira.É possível que tenha sido Diogo Caldeira de Tavares quem construiu ou remodelou a habitação senhorial da herdade da Retorta, tornando-a uma sede condigna para o morgado que herdara de seu pai. Embora não tenhamos a absoluta certeza, é pelo menos verdade que refere no seu testamento "as casas" que edificou na propriedade - não sabendo nós se nelas se inclui ou não a torre senhorial.


Torre Caldeira vista de sudoeste
(foto de RV, 2003)


Pelo testamento de Diogo Caldeira de Tavares, aberto a 01.01.1645 por morte de sua mulher, D. Maria de Sousa, ficamos a saber também que foi ele o responsável pelo engrandecimento fundiário do vínculo, acrescentando à Retorta, a uma azenha na Ribeira de Nisa e a uma quinta na Ribeira de Seda, variadíssimas propriedades. O documento referido apresenta-nos uma longa lista de domínios rústicos e urbanos por ele incluídos no Morgado da Retorta - transmitidas por sua morte ao novo herdeiro, o seu neto Pedro de Sousa Caldeira.
O morgado da Retorta passou indiviso de geração em geração. No final da Monarquia, era propriedade dos Condes de Melo. Habitada ao longo da História por vários rendeiros, a "Torre de Caldeira" pertence hoje à família Tavares, residente no Porto da Espada (Marvão).
Rodeada por terrenos invadidos pelo mato, abandonada, tendo a ruína no horizonte caso não venha a ser recuperada, espera que os seus donos lhe concedam melhor destino. Esperemos um futuro em que a "Torre de Caldeira" seja devolvida à sua dignidade histórica e arquitectónica, utilizada talvez como elemento central de um empreendimento turístico de qualidade.

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