Lenda da Moura do Reguengo

(Reguengo)



Versão de Reguengo (Portalegre), recolhida por Manuel António Sequeira e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – Subsídios para a Monografia de Portalegre, Portalegre, Câmara Municipal de Portalegre: 132 – 133.



Ao lado da ermida de S. Mamede nasce um ribeiro chamado da Azenha Queimada. Desde de socalco em socalco, até despenhar-se de cascata em cascata, sobre uma massa rochosa, com metro e meio de profundo, um de largura e dois de comprimentos.

A lenda diz que está ali uma moura encantada.

As mulheres diziam com convicção que em certos dias viam olhos de azeite e bocadinhos de alface à superfície da água.

Certo dia, um homem que vinha dos lados da ermida passou junto à cova da moura, e viu uma jovem duma beleza que nunca tinha visto. Tão surpreendido ficou, que mal lhe disse: “Deus te salve”.

A jovem disse-lhe:

“Sei que és boa pessoa, e a tua mulher também. Leva-lhe este cinto para ela usar.”

O homem agradeceu, e pôs-se a caminho. Ao entrar no souto da Quinta da Relva, deparou com um castanheiro que tinha uma pernada quase a tocar no chão. Resolveu pôr o cinto em volta dela, para ver o efeito que iria causar, quando a mulher o pusesse. De repente, o ramo onde tinha posto o cinto partiu-se. E o homem repetiu: “Meu Deus, se o tivesse posto à minha mulher!”

Imediatamente ouviu a moura dizer:

“Ingrato, que dobraste o meu encanto!”

O homem fugiu cheio de medo.

Diz a lenda: se o homem tivesse levado o cinto e a mulher o tivesse posto, nesse momento quebrava-se o encanto da moura, seguindo ela o seu destino.

Assim, ficou novamente a moura encantada, até que se lhe depare nova oportunidade.

3 comentários:

Anónimo disse...

Foi com uma certa surpresa que vi neste artigo uma das lendas que o meu Pai nos contava desde pequeninos/a, dezanove anos depois da Sua partida. Também me emocionou ao vê-lo imortalizado através deste artigo do Arquivo do Norte Alentejano sobre uma terra que ele muito amou e algumas iniciativas tomou, como a contestação à localização antiga da estátua do Rei D. João III, fundador de Portalegre. Não só revi esta lenda, como a da Lenda da Herdade da Cabaça tão bem descritas.

Lucinda Trindade Sequeira T. Silva

Ruy Ventura disse...

Obrigado pelo seu comentário. Grão a grão podemos todos fazer algo pela preservação da nossa memória.
Abraço!
Ruy Ventura

Manuel Sequeira Constantino disse...

Um abraço à minha prima Lucinda.
Não sei se o pai também lhe contou uma história sobre a história do Reguengo.
Contou-me um dia que no tempo feudal o Reguengo era constituido por dois feudos, o dos Canatarinhos e o do Briando e que as relações entre ambos não eram as melhores. Tanto assim que certo dia se travaram de razões e um deles (já não me lembro o qual) cortou a cabeça oa outro (não completamente) e foram a correr atrás um do outro até à Cruz das Mós onde o degolado sucumbiu...É uma contribuição que prova mais uma vez a cultura do meu querido tio e padrinho.
Não sei se alguém alguma vez ouviu esta história... o testemunho aqui fica para algum eventual investigador histórico que se interesse.