Igreja de Santa Maria ou de Santa Ana
(Alegrete)



Quanto no ano de 1725 o doutor João de Sequeira Sousa, juiz de fora de Arronches, se dirigiu a Alegrete para proceder à medição do local onde existira a igreja de Santa Ana, já nada se conseguia vislumbrar deste antigo templo. Ainda assim, a memória serviu de auxiliar: “fomos ao Sitio que hoje se chama de Santa Anna junto á muralha do Castello da parte de fora da parte de Santa Maria por sima da Igreja de São Pedro para effeyto de demarcar o terreno da Igreja que tinha sido da Senhora Santa Anna e por se não descubrir a largura, nem o cumprimento, mas somente se verificar que naquele sitio tinha sido por assim o depor o Sargento mor Gregorio Mergulhão, e os louvados afirmarem o ouvirem dizer geralmente mandou o dito Juis de fora, e tombo firmar hum marco com quatro testemunhas para a todo o tempo constar”.
Este extracto do Tombo dos bens da Capella de Santa Anna, guardado no Arquivo Distrital de Portalegre, prova-nos que a igreja já não existia no primeiro quartel do século XVIII. Aponta ainda uma localização precisa para o monumento desaparecido: junto à Porta de Santa Maria, encostado às muralhas, sobre a igreja de São Pedro.
A invocação de Santa Ana, mãe da Virgem Maria, é no entanto tardia na história deste templo, aparecendo unicamente a partir da década de 70 do século XVII. Antes dessa data, a igreja era de Santa Maria ou de Nossa Senhora, dando origem inclusivamente à designação toponímica de uma das portas das muralhas de Alegrete. Teve origem numa capela (legado pio) instituída por Vasco Anes e outros benfeitores, colocada sob a protecção da Virgem. Dotada com vastas propriedades no concelho de Alegrete e noutros limítrofes, era administrada pela Câmara da vila, à qual pertencia “a nomeação e elleyção de administrador, e capellão, Cuja elleyção sua Magestade constuma confirmar plo seu Dezembargo do Passo”.
Desconhecemos a data desta instituição. A situação não era diferente da que existia no início do século XVIII: “por ser muyto antiguissima não há notiçia della, tendose feyto exactas deligençias tanto nos Cartorios desta Vila, Como no desta Provedoria [de Portalegre]”. Deveria remontar, contudo, à Idade Média, tendo em conta que já existia na segunda metade do século XV.
O primeiro documento em que claramente se menciona a igreja de Santa Maria data de 1477. Nesse ano, a 5 de Maio, uma carta dada em Évora em nome de D. Afonso V, mas assinada pelo futuro D. João II, então príncipe regente, nomeia Lopo Vaz de Camões (um descendente de Vasco Pires de Camões, alcaide-mor de Portalegre? um ascendente do poeta autor d’ Os Lusíadas?) “em toda a Sua vida por Provedor da capella de Sancta Maria de Alegrete, e todolos bens que a ella pertencem”. Na mesma carta, este fidalgo (“cavaleyro de nossa caza”) é autorizado a “arendar, e desarrendar, aforar, e desaforar, e fazer dos bens da dita Capella todo o que Sentir que he bem, e proveyto della”, mas com uma condição: “que o dito Lopo váas Levante a Igreja, e ponha em ella cálix, e vestimenta, e todalas outras couzas que á dita Capella cumprirem”. E ainda com a obrigação de mandar dizer “cada Sabádo em cada huma Semana huma missa, e mais todas as festas principaes de Santa Maria polas almas dos defuntos que os ditos bens Leyxarão à dita Capella”. O documento coloca-nos uma dúvida em relação à origem da igreja. D. Afonso V obriga Lopo Vaz de Camões a “levantar” o templo. Não sabemos no entanto se o verbo aponta para um construção nova, de raiz, ou para uma reconstrução. Colocamos no entanto a hipótese de uma existência anterior: em primeiro lugar porque o legado pio (anterior a 1477) necessitaria de um espaço específico para o cumprimento das obrigações religiosas a ele vinculadas; em segundo porque a invocação de “Santa Maria” é tipicamente medieval, muito anterior a uma data tão avançada quanto o último quartel de quatrocentos. Seja como for, parece-nos claro que após o diploma do rei Africano foi edificado um novo templo, devidamente equipado pelo provedor da capela nas suas necessidades materiais.
No primeiro quartel do século XVII a igreja de Santa Maria era descrita da seguinte forma: “Tem a dita capella a Irmida extramuros da dita villa de Alegrete á porta de Sancta Maria que tomou o nome desta mesma Irmida, a qual he huma Irmida de uma só nave”. Nessa data, nela celebrava missa quotidiana o capelão, havendo festa solene no dia de Santa Ana. Talvez por essa razão a invocação primitiva foi sendo substituída, ao ponto de só a mãe de Maria ser recordada a partir do século XVIII.
Este templo de Alegrete sofreu no entanto várias vicissitudes. Numa inquirição realizada a 23 de Dezembro de 1672, Manuel Soilheiro, sargento-mor da vila, com 61 anos, afirmava: “nesta villa extramuros havia huma Igreja, e se chamava a de Sancta Anna, a qual Igreja se derribou por cauza das guerras”. A guerra seria então a da Restauração. E é natural que uma igreja encostada às muralhas, junto de uma das suas portas, fosse atacada pelo inimigo – ou demolida pelos alegretenses, para não facilitar a entrada das forças opositoras no espaço muralhado. Noutra inquirição, realizada em 1712, Pedro Moreira (com 70 anos de idade) recordava no entanto “que o Capellão Manoel Rodrigues Reedificou a dita capella, de abobada a Igreja e huma sanchristia”.
A sorte da antiga igreja de Santa Maria não foi, no entanto, duradoura. Durante a Guerra da Sucessão de Espanha (1704-1713) o edifício foi demolido por razões de segurança: “por estar contigua ao castello […] se mandou derribar quando o inimigo na guerra passada prizidiou a praça de Arronches”. Não mais foi reconstruído.
O seu recheio foi então transferido para a igreja de São João Baptista, matriz de Alegrete. Aí, provisoriamente, continuaram a ser cumpridas as disposições dos instituidores da capela, mais precisamente no altar onde fora colocada a imagem de Santa Ana. Poucos anos depois, a escultura foi transferida para a igreja do Espírito Santo, onde passou a ser venerada em capela própria, dotada de sacristia particular, com entrada independente pela rua Direita da vila.
Com a implantação da República e profanação do templo onde se encontrava a imagem da avó de Jesus Cristo, esta regressou à matriz de Alegrete, local onde foi observada e fotografada por Luís Keil no início dos anos 40 do século XX (cf. Keil, 1943: 150). Em 1955 foi exposta ao público no Seminário Diocesano de Portalegre, no âmbito da mostra de Arte Sacra aí realizada aquando da inauguração desse edifício. Lamentavelmente, as autoridades eclesiásticas não mais a fizeram regressar à localidade para onde fora adquirida ou mandada esculpir, provavelmente por Lopo Vaz de Camões. Esteve ainda presente na exposição comemorativa do 450 da Diocese de Portalegre, realizada no ano 2000, não mencionando estranhamente o catálogo (organizado pelo padre José Patrão) a sua proveniência.
Esta peça do século XV é o último documento artístico proveniente da antiga igreja de Santa Maria de Alegrete: uma escultura gótica em pedra de ançã, policromada, com 76 centímetros, representando as Santas Mães (ver foto).

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