quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007


UM LIVRO HUMILDE E RIGOROSO

Deveria ser uma redundância afirmar que qualquer trabalho de investigação que se edite deve ser fruto de uma investigação metódica, rigorosa e humilde. Infelizmente, na região em que habitamos é ainda hábito pôr nos píncaros publicações de alguns curiosos que, apesar de bem relacionados socialmente, mais não produzem do que veículos de enganos (às vezes sumptuosos, graças aos orçamentos municipais), transportadores de leituras coxas e, até, de invenções, promotoras da ignorância.
O estudo que Rosário Salema de Carvalho agora publicou sobre a igreja de Santa Maria da Devesa de Castelo de Vide está nos antípodas deste cenário de enganos. Trata-se de um trabalho dotado de rigor assinalável que, sem ser arrogante, consegue ser audaz nas suas propostas. O município castelovidense é, diga-se de passagem, um espaço afortunado. Tanto no que respeita aos trabalhos arqueológicos quanto no que concerne às diversas publicações historiográficas, tem tido a sorte de assistir a conscientes explorações, leituras e divulgações do seu património, graças ao trabalho de diversos autores dotados de um verdadeiro “amor à terra”, ao empenho de grupos da chamada “sociedade civil” e à clarividência de boa parte dos seus autarcas da história recente.
Esta monografia encomendada e em boa hora editada pela Câmara Municipal passa a ser um marco na historiografia local, a par de outros textos basilares, como por exemplo o estudo meticuloso do arquitecto Pedro Cid sobre as fortificações medievais da vila. Passando em revista muita da documentação existente (alguma inédita) sobre a igreja de Santa Maria, oferece aos leitores uma viagem no tempo, que abarca todo o devir histórico deste templo marcante na vila e em toda a região. Desfazem-se equívocos, como o que situava a fundação do edifício primitivo em 1311. Revelam-se surpresas, como a do aproveitamento de uma torre sineira quinhentista na edificação actual, iniciada em finais do século XVIII, a da sobrevivência de vestígios do portal do século XVII no que agora podemos contemplar ou a da existência de um fragmento de sepultura medieval nas escadas de acesso ao coro. Traçam-se genealogias artísticas, como as que ligam a esmagadora volumetria da matriz castelovidense e a sua decoração interna aos programas artísticos desenvolvidos na basílica da Estrela ou das igrejas da Baixa pombalina, em Lisboa.
Neste livro – prefaciado pelo historiador Fernando António Baptista Pereira – a autora (que já assinara um interessante artigo sobre o programa artístico barroco da igreja do Salvador do Mundo, a necessitar de edição em livro, para melhor e maior divulgação fora dos círculos especializados) avança ainda com propostas corajosas, se bem que contestáveis. Toda a sua leitura da reconstrução manuelina de Santa Maria da Devesa assenta, por exemplo, na identificação das igrejas desenhadas por Duarte d’ Armas em 1509-1510. Os dados são tentadores, mas carecem ainda assim de comprovação arqueológica, pois não é inequívoco que o templo apontado como sendo Santa Maria realmente o seja... O seu trabalho crítico cauteloso leva Rosário Carvalho, por outro lado, a afirmar que a imagem de Santa Maria da Devesa se enquadra “na produção coimbrã da segunda metade do século XV, na órbita de um mestre ainda não identificado”. Contrariando parte desta afirmação, Carlos Alberto Ferreira de Almeida e Mário Jorge Barroca (no 2º volume da História da Arte em Portugal, ed. Presença) afirmam, no entanto, que a escultura gótica nasceu das mãos ou da oficina de Mestre João Afonso (escultor coimbrão activo entre 1439 e 1469), com afinidades com outra Santa Maria, a de Marvão.
Uma das maiores qualidades deste interessantíssimo livro é, no entanto, a humildade, na sua ligação à terra, ao húmus, e na sua consciência da transitoriedade de qualquer investigação científica, como esta. São significativas as palavras finais de Rosário Salema de Carvalho nesta obra fundamental: “[...] avançámos com diversas possibilidades e apontámos várias campanhas de obras, que nos pareceram válidas em face da documentação disponível. Tal não significa, de forma alguma, que num futuro próximo, novos dados possam pôr em dúvida ou até inviabilizar o que agora defendemos. / Parece-nos, pois, que ficou provada a importância de Santa Maria da Devesa como um bem patrimonial de singular importância no contexto da história regional. É, por conseguinte, como tal, que o edifício merece ser preservado e transmitido às gerações vindouras de Castelo de Vide.

(in Notícias de Castelo de Vide)

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