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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Maria Guadalupe Alexandre
http://www.jf-carreiras.pt/1_toponimos1.html


O topónimo Carreiras ou Carreira




Das 6 freguesias portuguesas denominadas Carreira ou Carreiras, segundo o Dicionário Lello Universal, 1.º Volume, ocupamo-nos da ultima citada na referida obra e que é a de S. Sebastião de Carreiras no Distrito e Concelho de Portalegre.
As outras cinco situam-se no Norte de Portugal, especialmente no Distrito de Braga (4), existindo uma no Distrito do Porto.
Temos: Carreira - freguesia do Concelho de Barcelos; freguesia do Concelho de Santo Tirso; freguesia do Concelho de Vila Nova de Famalicão.
Carreiras - freguesia do Concelho de Vila Verde, tendo como Padroeiro São Miguel; outra freguesia do mesmo Concelho, tendo como Padroeiro São Tiago.
A de Barcelos ostenta a torre de Penagate "muito antiga e já sem ameias"; a de São Miguel de Vila Verde guarda as ruínas da antiga torre de D. Egas Pais, valido Conde D. Henrique, pai do Fundador da Nacionalidade.
Falaram-nos alguns familiares da Freguesia de Carreiras na zona de Torres Vedras que desconhecemos, mas não quisemos deixar de referir.
No Norte Alentejano, a aldeia de Carreiras ou simplesmente Carreira, na linguagem dos mais velhos e mesmo na dos mais novos, em tom coloquial, forma atestada na poesia popular, tem como Padroeiro São Sebastião, o que raramente acontece, mesmo nas regiões onde o Mártir de Narbona é venerado.
O topónimo Carreira provém do latim CARRARIA que significa "caminho para carros"
A evolução fonética é a seguinte:
CARRARIA > Carraira (1) > Carreira (2)
1. atracção da semivogal para junto do tónico.
2. Passagem de "a" a "e" por se lhe seguir a semivogal "i".
No "Compêndio da Gramática Histórica Portuguesa", o seu autor, Dr. José Joaquim Nunes escreve: "A tónico, seguido imediatamente ou, separado apenas por uma só consoante (que ou cai ou persiste conforme a sua natureza) das semivogais "i" e "u", quer originárias quer provenientes de consoante, atrai estas ou passa respectivamente para "e" e "o" ou conserva-se inalterado, formando assim os ditongos "ei" ou "ai" e "ou" ou "au". Um dos exemplos é:
FURNARIU > furnairo > forneiro
Tudo muito fácil se a aldeia não fosse conhecida pelos seus caminhos que até à segunda metade do século XX não passavam de difíceis azinhagas, com enormes pedregulhos "nascediços" característica atestada pelo menos numa quadra popular e num excerto do poeta Domingos Fernandes dela natural.

"Já me davam dez moedas
para ir casar à Carreira...
E eu não quero as dez moedas,
para não subir a ladeira."

"És mal servida de estradas
e tens muito maus caminhos...
Mas tens muito boa gente
e eu vivo muito contente
no cimo dos teus canchinhos."

Assim, como teria ela tido ou sido caminho para carros?
Acresce que do outro lado da Serra que lhe fica a Nordeste existe um local também denominado Carreira (Escusa, freguesia de Aramenha) onde não se vislumbra qualquer indício de caminho.
Surgiu então a alguns estudiosos da zona outra hipótese de explicação do topónimo.
Carreiras teria provindo do nome francês Carriére oriundo do latim QUADRUS (quadrado) e que significa "local onde se exploram produtos minerais (não metálicos nem carboníferos) e em particular rochas próprias para a construção.
Rochas não faltam quer na aldeia quer no sitio com o mesmo nome, do outro lado da serra, mas não há vestígios de pedreiras.
Descontente com esta explicação encontrei uma outra que satisfaz ainda menos.
O vocábulo francês Carriére pode também provir do Latim CARRU, significando entre outras coisas uma "ampla superfície destinada a exercícios de equitação, em terreno descoberto".
Se existiu não deixou o mais leve indicio.
Voltei à CARRARIA que julgo mais apropriada a um povoado de origem remota (com monumentos e achados pré-históricos), situado a escassos quilómetros da cidade romana de Ammaia e com um velho caminho, mais tarde transformado em "estrada camarária" que desembocava (como actualmente) na freguesia de Aramenha, perto do local onde passava a VIA que ligava Ammaia a Ebora.
Na Revista "IBN MARUAN", n.º 13 pode ler-se o seguinte: "... esta via revestia-se de uma grande importância comercial, já que permitia o acesso aos célebres mármores de Estremoz e de Vila Viçosa, tão apreciados pelas elites urbanas e rurais."
E ainda:
Os caminhos pedestres que existem na região, alguns deles de origem romana, outros medievais, seriam importantes na interligação comercial do mundo urbano com o mundo rural (aglomerados secundários, VILLAE, casais ou pequenos sitios.)
Que existiu um caminho pedestre não parece difícil de aceitar, mas o topónimo aponta para carros e é dos carros romanos que vamos falar.
Em "História da Humanidade - Roma" (2008) há uma página consagrada aos meios de transporte em que se afirma:
"Havia definitivamente todo o género de carros para todos os gostos e fortunas."
Os mais relacionados com CARRARIA seria o CARRU, galera ou carroção puxado geralmente por dois cavalos. No entanto o conforto, a forma de tracção, a cobertura, o numero de rodas (2 ou 4), o facto de terem um ou mais cavalos de tiro, um ou mais lugares determinaram o aparecimento de veículos com as seguintes denominações:
RAEDA; SARRACA; ARCUMA; CISIUM
O mais utilizado era a RAEDA com capacidade para várias pessoas e muitas bagagens.
O mais luxuoso chamava-se CARRUCA e era parecido com um coche - 4 rodas, 2 ou 4 cavalos de tiro totalmente cobertos, com 4 assentos cómodos, por vezes enfeitado com ouro e prata.
Por sua vez o COVINUS podia ser conduzido pelo próprio viajante, sem necessidade de cocheiro. Marcial fala da "agradável solidão" que proporcionava.
Voltamos gostosamente, a CARRARIA proveniente de CARRU, vocábulo que embora latino é de origem gaulesa. Pelo possível caminho romano que ligaria os Alvarrões (Aramenha) a Carreiras só passariam carroções puxados por poucos cavalos. Não seria mais que um atalho estreito com sulcos abertos pela passagem repetida das rodas ou pela mão do Homem para facilitar essa passagem.
É claro que pela VIA de EBORA transitariam veículos de transporte de carga, de passeio...
Seria esse caminho a CARRARIA que passava por um VICUS que mais tarde lhe herdou o nome?
Apenas uma hipótese...

Bibliografia
Bernardo, Bonifácio dos Santos - Aldeia de Fortios, Memória Histórica. Edições Colibri, 2009
Fernandes, Domingos - Manuscrito
História da Civilização - Roma. Edição do Circulo de Leitores - 2008
IBN MARUAN (Número especial) São Salvador da Aramenha - História e Memórias da Freguesia
Coordenação de Jorge Oliveira - 2005
Larrouse em Couleurs (Dicionário Enciclopédico Unilingue) - 1981
Lello Universal
Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro - 1974
Machado, José Pedro - Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa.

segunda-feira, 17 de março de 2008

CARREIRAS
segundo Maria Guadalupe
(in Fonte Nova, de 15 de Março)


Depois de lembrarmos a Anta de "João Martins" e de sabermos da existência dum povoado do Neolítico na zona do Veloso que a memória colectiva não perdeu, podemos afirmar que a Freguesia de Carreiras foi habitada desde tempos imemoriais.
No entanto, nós propusemo-nos estudar o nascimento e desenvolvimento de uma paróquia, o que aconteceria milhares de anos depois.
E teremos de voltar aos tempos florescentes de Ammaia para continuarmos a contar com clareza "histórias" da história.
No número especial da grande revista Ibn Manuan intitulado "São Salvador de Aramenha/História e Memórias da Freguesia" com coordenação de Jorge Oliveira, lê-se: "... só com a chegada do domínio romano, esta zona foi efectivamente ocupada de forma expressiva"
E ainda: "Assim, o contacto com a civilização romana... viria a marcar irreversivelmente a história da freguesia* e da região"
Ora quem fala de Paróquia fala automaticamente de Cristianismo e é durante o domínio romano que esta religião chega à Península Ibérica.
É no Império Romano que surgem as Dioceses que serão divididas em Paróquias no século IV da nossa era.

* freguesia - referência a S. Salvador de Aramenha
Bibliografia
Civilização Cristã - Larousse
Círculo de Leitores - 2000
IBN Maruan - nº 13
São Salvador de Aramenha/História e Memórias da Freguesia - Coordenação de Jorge Oliveira

terça-feira, 11 de março de 2008

CARREIRAS
segundo Maria Guadalupe Alexandre
(in Fonte Nova, de 4/3/08)


Referimo-nos, no último texto a propósito das Antas, ao Neolítico como fase do desenvolvimento das sociedades pré-históricas que implicava o sedentarismo, logo a construção de povoados.
De há muito sabíamos do de Castelo Velho no Norte do concelho de Castelo de Vide e daquele que faz parte "do complexo ocupacional dos Vidais" no concelho de Marvão.
Mas o que especialmente nos interessa é que especialmente nos interessa é que há cerca de 20 (?) anos o arqueólogo Professor Jorge Oliveira fez na zona do Veloso, Freguesia de Carreiras, uma escavação, segundo o referido investigador "pouco conclusiva", mas que permite afirmar que ali existiu um povoado Neolítico.
O Historiador encontrou várias mós e uma delas muito especial "ornamentada" com umas pequenas covas que gostaria de "voltar a estudar".
Estes achados encontram-se em Castelo de Vide, em local julgado propício para a sua conservação, aquando das descobertas.
Interessante notar que em 1992, Ana Fernandes Martins, contou a Ruy Ventura uma lenda de carácter religioso, na qual "um cabreiro... morava lá para o pé do Veloso onde era antigamente o povo...".

Agradecimentos especiais
Ao Professor Doutor Jorge Oliveira que se dignou comunicar por mail e à Drª Carla Miguéns que fielmente transmitiu a comunicação.

Bibliografia
Ventura, Ruy - Contos e Lendas da Serra de S. Mamede - Antologia Breve

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

CARREIRAS
segundo Maria Guadalupe
(in Fonte Nova, de 16/02/2008)


Terminámos o último artigo com a certeza de que os Celtas andaram pelas Carreiras.
Vamos hoje recuar mais ainda no tempo, porque testemunhos importantes a isso nos obrigam.
Cumprimos gostosamente esse dever.
Não poderemos esquecer a Anta do "João Martins" que nos leva a pensar na ocupação humana do território da freguesia há cinco mil anos, nem que os concelhos de Castelo de Vide e de Marvão são ricos destes monumentos.
No primeiro foram estudados pela Drª Maria da Conceição Monteiro Rodrigues, 24; no segundo o professor da Universidade de Évora Dr. Jorge Oliveira descreveu 25.
São as antas formadas por grandes pedras (megálitos) colocadas ao alto, encimadas, por uma laje chamada chapéu, formando a câmara. Desta partia, por vezes, um corredor, construído também com grandes pedras e coberto por outras. Tratam-se de monumentos sepulcrais.
No interior conservam-se frequentemente ossadas humanas, acompanhadas por recipientes de cerâmica, objectos de pedra talhada e polida e "outros artefactos de cariz simbólico".
Desconhecem-se "as razões que poderão estar na selecção dos que a este tipo de sepulcro tinham direito", mas é evidente que nem todos os membros da comunidade eram assim tumulados.
As antas pertencem ao Neolítico, fase do desenvolvimento técnico das sociedades pré-históricas correspondente ao sedentarismo, início da agricultura, criação de gado, etc.
Na América, na China, no Sudeste Asiático e no próximo Oriente relacionam-se com a origem deste modo de vida vários focos de desenvolvimento.
É possível que nas Carreiras existam outras antas semi-destruídas ou quase irreconhecíveis de cuja situação se poderão lembrar ainda os mais velhos.

Bibliografia
Nova Enciclopédia Larousse - Círculo de Leitores, 1998
Oliveira, Jorge - Antas e Menires do Concelho de Marvão - IBN MARUAN, nº 8, 1998
Rodrigues, Mª Conceição Monteiro - Carta Arqueológica do concelho de Castelo de Vide, 1976

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

CARREIRAS
segundo Maria Guadalupe
(continuação)


Falámos de "chafurdões" ou "safurdões" de tipo céltico abundantes no concelho de castelo de Vide. Acrescentamos que também existem no concelho de Marvão e que em ambas as circunscrições os há também de planta quadrada - tipo ibérico.
É pertinente lembrar que os celtas se juntaram aos Iberos (povos da Península Hispânica) dando origem aos Celtiberos.
Soube pelo carreirense Dr. Ruy Ventura que há 2 "safurdões" na freguesia de Carreiras: um na propriedade chamada Casépio, próxima do aglomerado populacional; outro na Tapada da Madrovaz (corruptela de Amaro Vaz) e um outro na Seixinhosa, propriedade dos limites da circunscrição, situada junto à estrada nacional nº 246 que liga Portalegre a Castelo de Vide.
São monumentos a preservar que vêm engrossar o conjunto dos já referenciados por arqueólogos e historiadores.
Trata-se de construções totalmente de pedra, com cobertura em falsa cúpula, portas geralmente viradas a Nascente e quase sempre situadas no cume de um "cabeço", sobre uma rocha, não longe de um curso de água.
A Drª Maria da Conceição Monteiro Rodrigues na obra "Carta Arqueológica do Concelho de Castelo de Vide" diz a certa altura o seguinte: "o problema da origem das construções circulares tem sido muito debatido, defendendo uns a tese céltica, outros a pré-céltica".
Por seu lado os autores de "Construções Primitivas em Portugal" consideram tanto as que acima referimos como as de planta de quadrada referindo que elas se encontram "em inúmeras partes, na Europa, Ásia e África; na Itália e Sardenha, na Jugoslávia, na Hungria, em França, na Espanha e Baleares, em Portugal, na Escócia e na Irlanda, na Arábia; no Norte de África, etc!".
Segundo a mesma obra, a difícil localização histórica das construções de falsa cúpula deve-se ao facto de haver dúvidas em relação à sua idade real (em Portugal).
Tendo em consideração "a rudeza de matérias, modos de construção, aspecto e erosão da pedra" na maioria dos casos parece realmente tratar-se de edificação muito antigas.
Lembram os mesmos autores que "faltam inscrições datas e referências, concretas em quaisquer textos".
Além disso parece que em Portugal não se perdeu a técnica da construção em falsa cúpula ao longo dos séculos, visto que algumas edificações são actuais, havendo em alguns sítios construções em actividade.

Bibliografia
Oliveira, Ernesto; Veiga, de, Fernando Galhano e Benjamim Pereira - "Construções Primitivas em Portugal"; Rodrigues, Maria da Conceição Monteiro - "Carta Arqueológica do Concelho de Castelo de Vide



(in Fonte Nova, nº 1511, de 8/12/2007)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

CARREIRAS
(segundo Maria Guadalupe)


Falemos então dos celtas.
Antes de tudo e porque o nosso objectivo é "Viver Carreiras", diremos que foram os "responsáveis" pela manutenção do som "e" (aberto) em vez de "a" proveniente de "A" tónico latino.
Os carreirenses sabem que os mais velhos normalmente iletrados (e isto não significa incultos) dizem brinquer por brincar, fumer por fumar, bureco em vez de buraco, cedede por cidade, varejer, por varejar, etc.
É uma característica dos falares da Beira Baixa e do Nordeste Alentejano de origem céltica, que se mantém viva nos nossos dias e é prova da permanência desse povo nesta parte do país.
É que antes que os romanos submetessem a Península Ibérica já os Celtas permaneciam nela havia muitos séculos.
O berço desta civilização foi a Europa Central - Boémia e Baviera, mas a partir do século V a.c. estes povos começaram a deslocar-se para Ocidente e até ao Mar do Norte.
No ano 300 antes da nossa Era ocupavam os territórios dos seguintes países: Irlanda, Grã-Bretanha, França, Suiça, Espanha, Portugal e uma parte da Turquia.
Tinham uma escrita própria o "ogam". Foram encontradas nas Ilhas Britânicas gravadas nas arestas de blocos de pedra, cerca de 360 inscrições celtas em escrita ogâmica.
O alfabeto consiste num sistema de golpes e "teriam sido necessárias toneladas de pedras para escrever qualquer frase".
Os Celtas desconfiavam dos textos escritos e só registavam o que não tinha importância. O saber dos druidas (sacerdotes), os longos poemas antigos e as narrações dos feitos heróicos dos antepassados eram transmitidos oralmente.
Restam inscrições votivas, de moedas, contas de mercadores e o calendário de Coligny.
Em Portugal são de origem céltica, entre outros, os seguintes topónimos: Bragança, Penafiel, Coimbra, Penacova, Setúbal e Évora.
Os vocábulos "camisa", "caminho" e "légua", tão vulgares em todo o país têm também a referida origem.
E como continuaremos a falar dos Celtas, lembramos, a finalizar que aos "chafurdões" do concelho de Castelo de Vide, de planta redonda e falsa cúpula se costuma chamar de tipo céltico.

Biografia
Alexandre, Maria Guadalupe - Etnografia, Folclores e Linguagem de Castelo de Vide, 1976; Maçãs, Delmira Maria Filomena Benito - Pela Europa de Celtas e Romanas, Lisboa 1993; Walter, Henriette - A Aventura das Línguas do Ocidente - a sua origem, a sua história, a sua geografia, Paris, 1994

(in Fonte Nova, nº 1509. de 1/12/07)

terça-feira, 20 de novembro de 2007


CARREIRAS (Portalegre)
segundo Maria Guadalupe



Eis-me aqui ainda com a capacidade de me deslumbrar perante as coisas simples, o apego, a leitura de paisagens, a sede da essência dos lugares e o sabor do Humanismo que caracterizou a minha geração.
Sinto também a necessidade de partilhar conhecimentos, de aprender e de ensinar, de valorizar personalidades.Viver numa aldeia implica, necessariamente, conhecer o pulsar da comunidade mas pode começar-se pela meditação. Depois de enchermos os olhos de beleza, podemos fechá-los e encarar o universo das interrogações. Procurar descobrir, entender, explicar, interiorizar e amar são marcos de um caminho que me proponho percorrer com todos os leitores, especialmente com os carreirenses.
Vamos lembrar a localização da "aldeia-presépio" para considerarmos dois aspectos que me parecem interessantes. O primeiro diz respeito ao facto da circunscrição se estender por encostas e vales da Região de São Mamede, entalada entre dois concelhos com riqueza histórica - o de Castelo de Vide e o de Marvão. O segundo refere-se à localização da parte urbana, empoleirada num contraforte, espécie de ponta nordestina do Concelho de Portalegre.
Tal situação, agravada pela falta de estradas que se fez sentir até meados do século XX, favorecida, por outro lado, pelas raízes históricas, fez com que os citados concelhos se constituíssem, tal como o de Portalegre, pólos de atracção da comunidade carreirense.
Disso são testemunhos os mercados-francos de Castelo de Vide, bem como a influência do pensamento político, especialmente no início do século passado, a tradição das "rijas bailaradas" no termo de Marvão, a fama da Taberna do Ânjaro (Ângelo) nos Alvarrões e as Veredas de contrabando.
Naturalmente houve casamentos (vários, entre os meus antepassados), estreitaram-se laços de parentesco e a ligação cultural manteve-se até os nossos dias.
Como acontece com todas as freguesias portuguesas, a de Carreiras foi antes a Paróquia de São Sebastião. O termo paróquia significa "congregação de fregueses", entendendo-se por fregueses os filhos da igreja.
São, as paróquias circunscrições antiquíssimas, reflexos de um certo "ordenamento do território" levado a cabo pela Igreja Católica na Europa do século IV, ao sentir necessidade de dividir as dioceses que se tinham estruturado no século II. As paróquias, raízes das actuais freguesias, têm 1600 anos!
Não acreditamos que a de Carreiras seja tão antiga... Mas... que existia nesta região há 16 séculos? Tentaremos responder na próxima semana.

Bibliografia
1. "Civilização Cristã"- Dicionário Temático Larousse (Círculo de Leitores)
2. "Diciona'rio Ilustrado da História de Portugal"- Publicações Alfa
3. Machado, José Pedro- "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa
4. Informações Especiais de Maria F. Tavares Transmontano

*


Há 16 séculos, há mais séculos ainda existia na região a cidade romana de Ammaia, na actual Aramenha, com suas muralhas e portas, seu fórum (praça principal) com termas, templo, suas chefias e actividades, servida por várias estradas que a ligavam a centros importantes.
Situava-se na província da Lusitânia que tinha como capital Mérida (Emérita).
A sua municipalização "deve ter ocorrido no século I e controlava um território vasto em parte coincidente com o distrito de Portalegre".
Dos quatro eixos viários da cidade, um seguia para Sul, utilizando a ponte da Madalena, passando pelos carris, "local onde foi detectado um vestígio do empedrado da calçada", continuava pelos Alvarrões e descia para o lado da Ribeira de Nisa, contornando o Cabeço do Mouro, até Portalegre donde se estendia até Mérida.
Esta via passava , como agora passa a estrada nacional nº 359, a escassos quilómetros do contraforte sobre o qual se situa a aldeia de Carreiras.
Até ao momento presente desconhecemos a existência de qualquer achado arqueológico desta época no território da freguesia e por isso só a proximidade dum núcleo populacional e administrativo importante nos leva a admitir que o "sítio" pudesse ser habitado.
Não esquecemos que, em 1911, foi encontrada em Fortios uma estela funerária romana que depois de permanecer no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, infelizmente desapareceu. Fora colocada na sepultura de um menino de 3 anos de idade, liberto (filho de escravos) e nela se podia ler a expressão - que a terra te seja leve.
Ora esta aldeia do concelho de Portalegre fica bem mais distante de Ammaia que a de Carreiras e nesta última a citada expressão latina e habitualmente usada como traduzindo um desejo de grande repouso para quem morrer.
Poderia ter existido no "sítio" da "Aldeia Presépio" um pequeno aglomerado populacional, então denominado VICUS.
O que é certo é que o respeito dos velhos carreirenses, pelo fogo da lareira está relacionado com o culto doméstico da população romana.
Disso falaremos no próximo número.

Bibliografia
IBN MARUAN nº 12 - 2002
Borges, Sofia: A Cidade Romana de Ammaia - As Termas do Fórum - (Notícia Preliminar); Carneiro, André: O Fim do Império e a Cristianização no território da CIVITAS AMMAIENSIS - Mudança e Continuidade no Concelho de Fronteira; Carvalho, Joaquim: Ammaia e a sua RedeViária - Algumas propostas de trabalh; Mantas, Vasco GIL: - Libertos e Escravos na Cidade - Luso-Romana de Ammaia; Pereira, Sérgio: Dois Depósitos Monetários encontrados na porta Sul (Ammaia); Civilização Romana - Dicionário Temático Larousse - 1992

*


Deixámos o leitor, no último artigo, com uma pergunta tão ousada que não conseguiremos responder de uma forma simples e segura.
Falta-nos o trabalho e os conhecimentos do arqueólogo. Mas, apesar de tudo, poderemos tecer algumas considerações sobre a possibilidade de as primeiras habitações de Carreiras não passarem de construções circulares de muros de pedra seca e cobertura vegetal (giestas...) em forma de cone.
Não o fazemos levianamente mas com base nas informações de grandes investigadores portugueses.
Com efeito, na obra intitulada "Construções Primitivas em Portugal" da autoria de Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira pode ler-se: "... nos primórdios da civilização humana todas as construções ou formas habitacionais não eram mais do que simples abrigos".
E também, a propósito do tipo de construção a que fizemos referência: "... é muito frequente no Alentejo e encontra-se em várias partes da província".
E ainda: "No Distriro de Portalegre toma particular relevo, além de Alpalhão e Cratyo, por toda a Serra de S. Mamede, no concelho de Marvão, perto de Castelo de Vide e sobretudo na povoação de Cabeçudos".
Segundo a mesma fonte existem também em Castro Verde, Amareleja (Moura), Reguengos, Alandroal, Juromenha, Elvas e Santa Eulália.
Poderão dizer-nos que nada prova que os tais "sochas" (e usamos a maneira de dizer da região), especialmente usadas nos nossos dias para abrigar animais, tenham uma origem tão remota.
E é bom que tal seja notado, porque afinal é necessário compreender o evoluir do homem no tempo.
A propósito de Carreiras e das marcas de civilização Romana deixadas nos seus costumes, fixámo-nos nos primeiros séculos antes e depois da nossa era, achando que o "sítio" deveria já ser povoado.
Acontece que antes dos Romanos outros povos estanciaram na nossa região e nela deixaram vestígios, o que nos leva a crer que a povoação terá uma origem ainda mais antiga.
Um desses vestígios, de que falaremos em devido tempo, é de carácter linguístico e aponta para uma zona celtizada.
E quem foram os celtas?
Falaremos deles na próxima semana.

Veiga de Oliveira, Ernesto - Fernando Galhano e Benjamim Pereira - "Construções Primitivas em Portugal", 2ª edição, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1988


Estes são os primeiros artigos de Maria Guadalupe Alexandre sobre Carreiras, publicados no bissemanário Fonte Nova, números 1497 (20/10/07), 1499 (27/10/07) e 1505 (17/11/07). Segundo a autora afirma, outros se seguirão. Iremos arquivando o material por aqui, na secção "Documentos".

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