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sábado, 25 de julho de 2020



PORTALEGRE:
CLASSIFICAR PATRIMÓNIO,
APAGAR PATRIMÓNIO


            Segundo noticiou o jornal “Alto Alentejo”, na sua edição de 15/7/2020, os vereadores da Câmara Municipal de Portalegre aprovaram por unanimidade o início do processo de classificação de cerca de quatro dezenas de bens culturais existentes no concelho. Fizeram bem. É uma decisão honrada. Tal iniciativa só pode merecer o aplauso de quem reconhece valor inalienável à herança histórica, arquitectónica e artística dessa parte do Alto Alentejo.
            Propor uma classificação não é, contudo, classificar. É apenas dar início a um longo processo, decidido fora dos gabinetes municipais. Um rol tão grande, diz-se, pode mesmo criar obstáculos intransponíveis à classificação dos bens em causa. Bem sabemos o quanto os organismos que tutelam o Património Cultural português carecem gravemente de meios humanos e financeiros para acudir a todo o serviço que lhes cai sobre a secretária. Há quem lembre que propor a salvaguarda de tantos monumentos de uma só vez costuma ser estratégia usada por autarcas que desejam mostrar serviço perante os seus eleitores quando, na realidade, não têm qualquer desejo de classificar seja o que for (sabendo bem demais que a avalanche assim provocad será razão bastante para que tudo seja arquivado no fundo das gavetas). Isto afirma quem há mais de 20 anos trata desses assuntos… e tem sido responsável pela organização e tramitação de processos de classificação ao mais alto nível. Quero crer, todavia, que a intenção de quem fez tal proposta conjunta terá sido séria. O futuro confirmará ou não a minha percepção. Para já, merecem reconhecimento aqueles que a votaram favoravelmente, pondo a Cultura acima de outros interesses menos dignos.
            Não me pronuncio sobre os cerca de 40 bens culturais a classificar. Não há nenhum que não mereça a distinção. Ainda assim, sublinho a minha satisfação por ver entre eles vários edifícios de boa arquitectura do século XX, cuja dignidade e valor não são menores por não terem sido elevados em séculos anteriores, normalmente mais prestigiados. Não deixo todavia de estranhar que alguns edifícios sejam propostos para classificação depois de terem sido total ou parcialmente demolidos e, de seguida, abastardados ou substituídos por réplicas sem qualquer valor. Não me pronuncio sobre o rol proposto pelos gestores da Câmara Municipal de Portalegre e aprovado pela unanimidade dos vereadores. Espero apenas que a classificação seja concluída com sucesso e tenha como consequência a valorização, recuperação e/ou revitalização desse património concelhio, doravante – se assim se concretizar – mais protegido contra intervenções e vizinhanças que deveriam envergonhar toda a gente, a começar por quem as aprovou e/ou promoveu.
            Não obstante, parece-me justo manifestar a minha estranheza – e até a minha indignação – por tudo quanto foi apagado da proposta municipal. Refere o jornal “Alto Alentejo” que a lista incluiu imóveis arrolados no PDM de 2011, juntando-lhe propostas diversas que recebeu (não se sabe de quem e em que circunstâncias). Pretende proteger “casas brasonadas, conventos, igrejas, um conjunto habitacional popular e edifícios modernistas e contemporâneos, de elevado valor arquitectónico”. Perante essa justificação (aceitável, mas parcial), estranha-se a quase inteira exclusão do rico património arqueológico concelhio, que Portalegre teima em não cartografar nem inventariar, contribuindo para a sua destruição. Urge ainda perguntar se a parte norte do concelho de Portalegre ainda faz parte desse município ou, se fazendo parte dele, é conhecida por quem governa, administra e gere a edilidade há pelo menos uma década.
            Poderia referir a ausência nessa proposta de classificação de qualquer bem das freguesias de Alagoa e de São Julião ou, ainda, o estranho apagamento de vários bens valiosíssimos da freguesia da Ribeira de Nisa, como as ruínas medievais da Provença, a igreja de Nossa Senhora da Esperança (antigo Convento de Santo António) ou a Quinta de São Bento. É como se não tivessem, entre as suas fronteiras, património relevante… Mas têm. Na Ribeira de Nisa, propõe-se a classificação de um “convento de S. Francisco”, mas como tal edifício não existe nem nunca existiu na freguesia, é o mesmo que nada propor…
            Mais grave se me afigura todavia o tratamento discriminatório dado à freguesia de Carreiras, que já no inventário do património distrital, elaborado em 1943 por Luiz Keil, foi completamente ignorada. Naquele tempo, não havia estradas para lá chegar. Hoje essas estradas existem, o seu património está divulgado, mas parece que os gestores da edilidade portalegrense querem continuar uma lamentável tradição…
            Para a Câmara Municipal de Portalegre, pelos vistos, não tem qualquer valor o património carreirense. Nada valem a anta da herdade de João Martins, o povoado neolítico do Veloso e as ruínas da Alta Idade Média existentes nas suas proximidades, as estruturas megalíticas do Fraguil, as ruínas romanas ou medievais do Monte da Gente, a medieval Torre Alta ou Torre da Ribeira (ligada à família de D. Nuno Álvares Pereira), a calçada medieval que ligava Portalegre a Castelo de Vide e outros troços viários da mesma época, a quinhentista Torre Caldeira (mandada construir pela família dos alcaides-mores de Portalegre), a igreja de São Sebastião (edificada na primeira metade do século XVI, com capela dessa época, retábulos maneiristas já estudados a nível nacional, fachada barroca e pinturas murais tratadas em tese de doutoramento), um cruzeiro único de cantaria e azulejos (do século XVIII), pórticos de cantaria do século XVI, casas com varandas do mesmo século ou da centúria seguinte, a sua Torre do Relógio, etc. Nada disto teve valor para os autores do PDM de 2011, que ignoraram esse património, pondo-o em risco e contribuindo para a descaracterização de uma aldeia a que, com ironia, chamam “presépio”. A mesma opinião parecem ter agora, nove anos depois, aqueles que propuseram uma lista de património a classificar, ignorando esses e outros bem valiosos – e voltando a pôr em causa a sua sobrevivência.
            Há muitos anos que se fala no abandono dessa freguesia histórica do concelho de Portalegre, abandono que tem revestido várias manifestações indignas (a mais grave das quais foi a sua “extinção”, baseada em argumentos fraudulentos). É, assim, justo perguntar que destino teria essa parcela do território portalegrense se estivesse incluída num dos municípios vizinhos, Castelo de Vide ou Marvão. Na certa, Carreiras veria o seu património valorizado de outro modo – e não esquecido por pessoas que, com boa ou má intenção, com consciência ou sem ela, parecem querer apagar do concelho uma das suas mais belas e valiosas partes.
            Felizmente, a Lei permite que os requerimentos de classificação partam de simples cidadãos. A seu tempo, não deixarão de agir. Pode ser que essas iniciativas tenham mais sucesso do que a proposta de classificação da igreja carreirense feita há uns anos por técnica-superior do ex-IPPAR e que gente ardilosa enterrou sabe Deus onde…

RUY VENTURA
(artigo publicado no jornal "Alto Alentejo", de 22/7/2020)

segunda-feira, 10 de junho de 2019




CARTA ABERTA A JOÃO MIGUEL TAVARES

Caro João Miguel,
Tomo a liberdade de tratar-te por tu. Somos afinal conterrâneos, apesar de não nos conhecermos. A nossa idade é muito próxima. Imagino que, como eu, tenhas nascido no velho Hospital da Misericórdia, em pleno Rossio portalegrense; tu, em Setembro, eu dois meses depois. Escrevo-te depois de ter escutado pela televisão, comovido, a tua intervenção como responsável pelas comemorações do Dia de Portugal. Não poderia deixar de fazê-lo ao ouvir-te evocar o teu avô que, ao fundo da Rua de Elvas, dava sopa àqueles que dela precisavam, ao sentir o significado daquela casa ao cimo da Avenida Frei Amador Arrais que foi e é a tua e, sobretudo, ao ter contido com alguma dificuldade as lágrimas quando te ouvi mencionar o destino de tantos portalegrenses que, para cumprirem o seu destino, se viram obrigados a deixar o seu concelho.
Poderia ficar por aqui e agradecer-te, com a maior profundidade. Mas cortaria metade da verdade. Poderia dizer que o meu destino foi igual ao teu e ao de tantos da nossa terra. Mas não contaria a história toda, porque é mentira.
Se bem conheces o nosso concelho, e acredito que sim, sabes que o destino daqueles que nasceram e cresceram com a democracia não foi igual para todos. Os filhos do funcionalismo público e das elites locais, seja lá isso o que for, nascidos e criados na cidade, nunca tiveram o mesmo tratamento que os filhos dos operários, das costureiras e dos pequenos agricultores que tiveram como destino crescer nas aldeias da serra e dos arredores. Os sacrifícios, acredito, seriam semelhantes em cada família; mas enquanto os sacrifícios da classe média citadina podiam oferecer aos seus a universidade, fora de Portalegre, quem vinha de outros meios era obrigado a contentar-se com os cursos ministrados pelas escolas do Instituto Politécnico de Portalegre, mesmo que tivesse notas e capacidades para marchar até outras paragens. Como dizia uma grada senhora, era uma espécie de prémio de consolação.
Estou grato à democracia por ter criado instituições de ensino superior em pequenas cidades de província; se assim não fosse, ter-me-ia ficado pelo ensino secundário e ver-me-ia transformado num apagado empregado bancário ou de secretaria, talvez num contabilista, mesmo que tivesse asas para outros voos. Assim sendo, filho de um operário da Robinson e de uma costureira, vindo das serranias das Carreiras, não tirei (é certo) o curso de História que sempre ambicionei ou o de Geografia e Planeamento Regional para o qual tinha altas classificações, apesar de ter sido um dos agraciados com o Prémio Francisco Fino para os melhores alunos do secundário do nosso município, mas desenrasquei-me com uma licenciatura em ensino de Português e Francês, tirada na nossa cidade, porque para ela ainda ia havendo dinheiro, sabe Deus com que esforço e privações, embora para mais fosse impossível. Sem cunhas e sem parentes que me abrissem a porta fora de Portalegre, tive de me contentar com o que havia e dar o meu melhor, sabendo bem demais, mas tentando esquecer, que partia para a meta da vida numa posição diferente da de outros meus conterrâneos...
Foi no final dessa licenciatura que comecei a tomar consciência de outra realidade. Aluno no último ano do nosso saudoso Carlos Garcia de Castro, poeta grande cujo mérito, refugiado na interioridade, nunca foi reconhecido como deveria ter sido pelo "meio literário", foi ele quem me abriu os olhos para o que Portalegre era há 25 anos e, infelizmente, continua a ser. Nunca esquecerei a sua frase: "Concorra para sair daqui. Nesta terra nunca lhe perdoarão ser filho de um operário e de uma costureira." Concorri, mas passados anos caí na tentação de aceitar um convite para regressar. Durante três anos, fui professor na instituição de Ensino Superior onde recebera a minha formação inicial. Seduzido para a política por estratégias ardilosas, estive quase a entrar para o partido que agora nos governa. Acontece que, no momento decisivo, me deu para ser independente e recusei atravessar para esse lado. Paguei caro. Não tardou muito que deixasse de haver lugar para mim e, apesar de ter o meu mestrado concluído e iniciado o doutoramento, fui preterido. Eu tive de regressar ao exílio e quem ficou, apenas com a licenciatura (!), teve o lugar garantido durante vários anos, talvez por ser filha de um ex-autarca do Partido da mão fechada. Só então percebi tudo quanto Carlos Garcia de Castro me dissera. Em Portalegre, cópia em miniatura do Portugal que abomina o mérito e tu hoje denunciaste com a firmeza que te conhecemos, não se perdoa a falta de currículo familiar e muito menos pensarmos pela nossa cabeça, sobretudo se isso fizer sombra a alguém bem instalado ou puser em causa o seu pequeno poder ou a sua mediocridade.
Sou hoje um portalegrense exilado que bem gostaria de curar-se dessa doença que se chama Portalegre. Teria uma vida muito mais tranquila. Não nego: o exílio tem-me trazido muitos momentos felizes, algumas alegrias que nunca atingiria se tivesse ficado pelo Corro lagóia. Mas, confesso-te, são alegrias amargas que, a cada momento, me recordam essa condição de migrante por vontade alheia. A minha árvore tem raízes e custa-me saber que os seus frutos são colhidos por outros porque da minha terra existe uma incessante e nefasta ventania que lhe vergou o tronco e fez crescer a copa noutra direcção.
Sabes, João, ao ouvir o teu discurso de hoje - que só não me fez verter lágrimas porque, caramba!, um homem não chora - vi pela televisão os meus pais aplaudindo-te. Também devem ter sentido fundamente as tuas palavras, lembrando o seu filho único que a várias centenas de quilómetros as ouvia. Portugal ainda é uma Portalegre ampliada, porque, como dizia Raul Brandão a propósito de Gomes Freire de Andrade, aqui não ganham os inteligentes, mas (para nossa desgraça colectiva) os mais espertos.
Bem hajas pelas palavras que tiveste a coragem de dizer. Espero que a voragem deste país não as apague tão depressa. Um abraço firme e comovido do teu conterrâneo

quinta-feira, 2 de maio de 2019


… E A MEMÓRIA DA CIDADE QUE SE LIXE

Lê-se na página da sucursal portalegrense do Partido Socialista que, em Assembleia Municipal, fez aprovar – apenas com a abstenção do PSD – a atribuição do nome de Mário Soares à “popularmente conhecida rotunda do navio”. Parece que esta decisão já mereceu a concordância da comissão municipal de toponímia. Tanto quanto vim a saber, a sucursal concelhia do Partido Comunista Português, para não ficar atrás e cobrando, quiçá, o voto favorável dos seus eleitos, propôs ou vai propor que outra rotunda ou avenida ou rua lagóia venha a ter o nome de Álvaro Cunhal. (Se tal se concretizar, o que não duvido, teremos uma verdadeira geringonça portalegrense – só faltando o beco Miguel Portas ou João Semedo ou Francisco Louçã ou Catarina Martins ou Fernando Rosas para a trempe ficar completa...)
Ainda correu pela cidade e arredores que a ideia inicial dos comunistas era rasurar a designação “Avenida do Bonfim”, nascida do santuário homónimo onde tem início, tão querido das gentes da cidade onde nasci. Mas parece que a coisa ficou pelo caminho, talvez por saberem que o regulamento municipal impede (ou desaconselha) a substituição de nomes históricos oficialmente consagrados – ou, mais provavelmente, por se lembrarem que essa artéria passaria a desembocar na rotunda agora soarista, o que provocaria não poucos engulhos aos dois adversários políticos, caso cá estivessem, vendo-se assim de braço dado, quase aos beijinhos, na pública rotunda. Mas adiante. Confesso que gostaria de ouvir, vinda das profundas, a voz cava do nunca desmentido devoto das práticas e doutrinas soviéticas dizendo ao meu ouvido: “Olhe que não, olhe que não…” A mais de duzentos quilómetros de Portalegre tenho todavia informações seguras de que tal má nova é mesmo certa – verdade, verdadinha. E lamento. Funda e fundadamente lamento!
Não está em causa o mérito ou demérito das figuras que, agora, em vésperas de eleições, um punhado de políticos do burgo quer reverenciar à custa da identidade da urbe, nem sequer o facto de tais personalidades pouco ou nada terem que ver com a cidade. Tiveram qualidades e defeitos como toda a gente. Nalgumas situações contribuíram para o bem do povo, noutras prejudicaram-no e noutras foram impedidos (graças a Deus!) de prejudicá-lo. Estão em causa os critérios e os jogos políticos e sociais que movem a exaltação de Cunhal e Soares e apagam, ao mesmo tempo, Fernando Pessoa (sim, esteve em Portalegre!), Humberto Delgado, Salgueiro Maia, Matilde Rosa Araújo (sim, viveu na cidade!), Ramalho Eanes, Amaro da Costa ou, até, para falar nos portalegrenses de nascimento ou de coração, Soror Isabel do Menino Jesus, Eusébio Leão, Joaquim Miranda da Silva, Pe. José Patrão, Carlos Garcia de Castro ou Carrilho da Graça... Está sobretudo em causa o modo como se desrespeita e/ou menospreza com estas e outras decisões a memória urbana e histórica de Portalegre, expressa no nome legítimo dos seus lugares, criado pelo povo que neles viveu ao longo de séculos. (Seria indigno, pergunto, o nome ancestral do local, “Moinho de Vento”? Causaria brotoeja uma referência à Fábricas das Sedas que aí existiu?)
Estudei com demora a toponímia da cidade e as motivações que a foram criando, alterando, rasurando ou apagando. Vem tudo num longo artigo intitulado “Toponímias de Portalegre: da Idade Média ao século XX”, publicado há uns anos no nº. 12 da “Ibn Maruán – Revista Cultural do Concelho de Marvão” (hoje a necessitar de reedição revista e aumentada). Sei bem o que valem as chamadas “comissões de toponímia”, como são nomeadas, o que as move, a sua competência e os regulamentos que fazem, desfazem e aplicam. Não esqueço a ligeireza do conhecimento que, salvo raras excepções, possuem da História e da memória colectiva – e o (des)respeito que têm por ela. Basta-me recordar muitas e muitas das suas incompreensíveis (ainda que bem intencionadas) decisões – valorizando gente com escasso valor e ostracizando os que deveras o tiveram. Chega-me relembrar pelo menos um dos seus pretéritos membros (entretanto falecido) que, além de ter inventado uma “Rua dos Aleatórios” na toponímia setecentista de Portalegre, defendia a eliminação de grande parte dos nomes antigos como coisa bolorenta e pouco civilizada… Já não me deixa, pois, boquiaberto a forma leviana e por vezes caricata com que nomeiam as novas vias de circulação. Não me espanta, ainda, que as mudanças toponímicas continuem a ser uma triste realidade, mesmo que a população portalegrense não as queira – pois nunca sobre tal assunto foi, é ou será consultada. Pelos vistos a salvaguarda, valorização e divulgação deste património imaterial ainda não chegou à terra onde nasci (nem a boa parte do nosso país, diga-se em abono da verdade). Com desgosto o escrevo.
Dir-me-ão que as tentativas de rasura não são de agora, que as homenagens interesseiras são já velhas. Têm toda a razão. Começaram, ainda que timidamente, no século XIX, com o regime liberal. O nome das praças, das alamedas, das ruas, das travessas e até dos becos passou a ser campo fértil de todas as propagandas, de todos os interesses e de todas as vaidades. Houve é certo boas intenções, embora com maus resultados. Graças a Deus nunca tivemos em Portalegre autarcas que durante o seu mandato impusessem o seu nome a ruas e edifícios, como sucedeu noutras terras do Alto Alentejo e do Entre Douro e Minho. Mas o fluído canino das várias tendências políticas e de muitas vaidadezinhas individuais ou de grupo foi manchando não poucos nomes ancestrais da nossa cidade e de quase todas as terras do nosso país.
Ironia das ironias, o povo (que nunca foi tido nem achado nessas artimanhas e sobrancerias) esteve-se sempre lixando para os nomes novos, a não ser quando atribuídos a espaços urbanizados de novo – e ainda assim nem sempre. Passados muitos decénios (por vezes mais de um século) sobre essas alterações decretadas pelo sectarismo político das vereações, continuou a usar os topónimos antigos. Os exemplos em Portalegre são eloquentes. A rua Alexandre Herculano continua a ser de Santo André, a 31 de Janeiro teima em ser dos Canastreiros, o parque Miguel Bombarda, a avenida George Robinson e a rua de Olivença nunca deixarão de ser Corredoura, a rua 5 de Outubro nunca abdicou de ser Direita, o largo 28 de Janeiro pertence ainda à Fonte Nova, a rua Mouzinho de Albuquerque apenas do Pirão é chamada, não esquecendo a Luiz Barahona que do Castelo nunca se livrará, a Cândido dos Reis que nunca esconderá o Cano, a Almeida Garrett que nos conduz ainda ao Mercado (embora ele já esteja noutras partes), a França Borges que persiste na sua referência ao Bargado, o largo Serpa Pinto que adoptou (demolida a igreja da Madalena aí existente) a boneca de uma fonte...
A lista poderia continuar, mas não vale a pena aborrecer os leitores. Convém todavia registar com irónico agrado as designações populares bem recentes que os sábios transeuntes vão já dando a outros lugares com urbanização contemporânea, ignorando com orgulhosa altivez o desrespeito de que são alvo – neste e noutros domínios – por uma boa parte dos seus representantes eleitos. Ou alguém tem dúvidas de que a agora chamada “Rotunda Mário Soares” continuará a ser para todos a tão simples “rotunda do navio”? Não tenho quaisquer dúvidas. Afinal, nestes e noutros achados, “o povo é quem mais ordena”. Por mais que isso provoque comichões nalguns que se têm como procuradores sobranceiros da população.

RUY VENTURA 
(Texto publicado a 2/5/2019 no jornal portalegrense "Alto Alentejo"; foto de RV.)

domingo, 29 de outubro de 2017



Em defesa do património religioso
 
– agir é preciso... E depressa!


Foi há um par de anos. Entrei na loja de uns missionários em Fátima, uma das maiores do centro da localidade. Falando com um familiar de uma peça de arte sacra antiga a precisar de conservação competente (hoje felizmente bem restaurada, com critérios éticos e científicos), fui prontamente interpelado pela empregada do estabelecimento. Solícita, sem grande noção das conveniências, interrompeu a conversa e atirou, de arrancada: “Se quiser, temos um senhor muito jeitoso que a põe como nova...”
Percebi que a senhora me confundira com um sacerdote. Fiquei estupefacto, respondi de forma evasiva, mas fiquei a pensar: “Quem resiste a estas abordagens se não tiver ética, educação, juízo, pudor ou um bispo com mão de ferro e sabedoria de um diplomata? Quem?”
Multiplicam-se pelo nosso país casos de raspagem e repinte de esculturas e retábulos das nossas paróquias, de vandalismo aplicado a telas, tábuas e pinturas murais centenárias. São peças importantes do património espiritual dos crentes e, também, elementos inalienáveis da nossa memória coletiva. São obras de arte e criações inspiradas e, como tal, merecem o mais escrupuloso respeito. Outra coisa não diz, aliás, o Direito Canónico. A situação a que chegámos é todavia muito grave, mesmo que vejamos alguns exemplos de boas práticas, pontuais e minoritários, que não escondem a “selva” que por aí vai, do Algarve ao Alto Minho, com exemplos recentes de perigoso retrocesso.
Enquanto tivermos como fiéis depositários do património religioso pessoas que, à parte a sua competência pastoral, revelam (como autarcas deslumbrados ou construtores civis siderados) uma ânsia incontrolável, querendo “deixar obra” construída, esculpida ou pintada a todo o custo, continuaremos a assistir atónitos à destruição do nosso património artístico e espiritual. Enquanto se manifestar um insaciável voluntarismo que olha para as obras de arte como objectos utilitários sem valor intrínseco e não como manifestações materiais, visíveis, de Deus connosco, continuaremos a testemunhar um vandalismo cujos agentes, ainda por cima, se apresentam com ares de esteticistas ou maquilhadoras de bairro pobre. Enquanto quem de direito não agir com rapidez, ciência e firmeza, parando os desmandos que violam as leis do País e o Código do Direito Canónico, ou deixando mesmo de colaborar com eles, continuaremos a multiplicar os lamentos por um património perdido, quiçá para sempre.
Não será tempo de todos nós – investigadores, conservadores-restauradores, museólogos, amantes da arte, sacerdotes com sabedoria, fiéis com ética e estética, simples amantes do património – fazermos algo além dos simples comentários no “feicebuque”? Se o não fizermos, talvez seja tarde. E não valerá a pena tecermos mais tarde um rol de lamentações.

Artigo publicado nos jornais "Diário do Alentejo" (Beja), "Alto Alentejo" (Portalegre) e "Raio de Luz" (Sesimbra).

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A MORTE DUM MORIBUNDO

A morte é triste nem que seja num gato - costuma dizer-se na minha aldeia. Mais triste se torna a notícia quando diz respeito a alguém ou a algo que faz parte da nossa história pessoal.
A morte do jornal O Distrito de Portalegre, após 126 anos de publicação, não me deixou indiferente. Foi nas suas páginas que publiquei o meu primeiro texto (tinha 16 anos), foi nas suas páginas que dei à estampa inúmeras crónicas e textos sobre o património regional, foi no seu espaço que coordenei com Nicolau Saião o suplemento cultural Fanal, que editou centenas de textos, alguns de nomes importantes da cultura luso-brasileira, como João de Melo, António Cândido Franco, C. Ronald, Carlos Reis, Dinis Machado, José Manuel Anes, Matilde Rosa Araújo, Manuel Poppe, Miguel Jorge, etc..
O anúncio da extinção do jornal não foi no entanto uma surpresa para mim. Apesar de o pretexto serem as suas dificuldades financeira, de há uns tempos a esta parte vira completamente adulterada a sua matriz genuinamente cristã, de abertura do mundo e à liberdade de expressão. Tirando o tempo em que foi dirigido pelos padres João Mendonça e João Coelho, os períodos em que foi dirigido pelos presbíteros José Patrão e Nuno Folgado (o seu coveiro) tornaram-no num órgão sem qualquer pudor no exercício discreto da censura e da manipulação informativa (nisso não divergindo muito doutros colegas editados na cidade que acolheu José Régio). Custa-me escrevê-lo, mas mais vale assim; mais vale uma morte do que a sua sobrevivência por caminhos que nada têm a ver com a estrutura da dignidade cristã (que nunca dispensará a liberdade).

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

UM COMÉRCIO MORIBUNDO

Moro a trinta quilómetros de Lisboa. Nas minhas (poucas) passagens pelos centros comerciais que nascem como tortulhos em redor da capital portuguesa, é frequente encontrar portalegrenses em passeio de compras, entrando e saindo das lojas que povoam esses espaços de transacção. Acontece verificar o mesmo sempre que me desloco às cidades espanholas da Extremadura. Com razão ou sem ela, todo e qualquer lagóia que se preze e tenha dinheiro no bolso (ou pense tê-lo) parece preferir sair da sua cidade e região para gastar o ordenado que por lá ganhou. Podem trazer para o seu dia-a-dia os mesmos artigos que mais facilmente comprariam nas ruas de Portalegre, mas comprar fora tem outro estatuto, alimenta os comentários no emprego e as conversas na pastelaria.
Pensando a partir desta constatação, comecei a entender o que levou ao ar acabrunhado das ruas de comércio existentes na cidade onde nasci mas não fui criado. Quem se disponha a dar um passeio desde o início da rua de Santo André até ao Corro – subindo a rua Direita, passando pelo arco da Devesa e ascendendo pela rua do Comércio com passagem pela da Carreira e entrada na praça pelas portas de Alegrete – depara-se com um cenário entristecedor e deprimente. Lojas (até há poucos anos florescentes) estão fechadas e, a seu lado, outras ostentam o anúncio de trespasse – declaração verbal de estado comatoso que ombreia com idêntica afirmação não-verbal daqueles espaços comerciais onde os empregados ou os proprietários têm um olhar vazio, ou virado para o vazio, perante a ausência dos clientes. Há comerciantes que lutam pela modernização das suas casas, mas nada parece dar resultado. Outros desistem ou persistem na preguiça, deixando os estabelecimentos no exacto estado em que estavam há trinta-quarenta-cinquenta anos.
Vejam-se os cafés… Neste momento poucos conseguem beber uma bica e ler o jornal no Rossio – onde antes coexistiam o Facha, o Plátano e a Cadislegre; aí pouco mais salta à vista do que as lojas de quinquilharia chinesa. O Central já teve melhores dias. O Alentejano lá vai sobrevivendo com vetusta dignidade (até quando?). Tente o leitor, que não conheça bem Portalegre, beber um café na cidade velha na tarde dum domingo soalheiro… Acabará por desistir e rumar até Castelo de Vide, onde menos habitantes dão mais vida a uma vila com coluna vertebral. E a praça? A praça, apesar de todos os arranjos cuidadosos, tem quartas e sábados que são uma mísera sombra do movimento comercial de há poucos anos…
Ao lado do mamarracho mastodôntico que ofende a discrição abnegada dos doadores de sangue de Portalegre, o quadro humano no interior dos hipermercados (quatro? cinco? seis?...) é mais povoado. A irresponsabilidade (ou os interesses) das várias gestões autárquicas dos últimos anos não hesitou sangrar os comerciantes cujas pequenas empresas davam vida à cidade alta. Essa estratégia está a custar e custará muito caro a Portalegre e aos seus moradores. Porque uma cidade a que não estancam uma hemorragia grave acaba por definhar (ou morrer) enquanto espaço económico e cívico vivo.

A ARQUITECTURA E O SEU USO

Confesso que me entusiasmo sempre que vejo ser construído na minha cidade de nascimento (Portalegre) um edifício com qualidade arquitectónica evidente – ou quando uma obra restitui vida a edifícios ou estruturas históricas, até aí moribundos.
Assim aconteceu com as recuperações do convento de Santa Clara e da igreja de São Francisco, com a devolução à sua dignidade jesuítica da igreja de São Sebastião, com a adaptação do palácio da rua da Figueira, com o restauro das muralhas e do castelo, com a construção da igreja de Santo António nos Assentos. Gostaria até que recebessem o mesmo tratamento outros edifícios que bem o mereciam: as igrejas de Santa Maria a Grande (anexa ao convento dos Agostinhos) e do Espírito Santo, a torre do Atalaião, o Palácio Amarelo, etc..
Enquanto sinto este verdadeiro entusiasmo, não deixo no entanto de tropeçar nas circunstâncias e nas consequências da sua construção. Há casos exemplares, no bom sentido do adjectivo. Ao saber, contudo, que nos edifícios a arquitectura (a “paisagem”) não se pode separar do seu uso (o “povoamento”), há factos que roem no pensamento como areias numa sandália, chegando a ferir a alegria de assistirmos à edificação. Posso citar alguns casos:
Não é por se instalar num edifício exemplar (e possuir um fundo bibliográfico riquíssimo) que a Biblioteca Municipal de Portalegre deixa de realizar eventos que envergonhariam qualquer pequena aldeia e maculam o bom nome de uma cidade que parece ainda prezar esse título.
Não é por ter sido recuperada com grande rigor que a igreja de Santa Clara deixa de estar oculta pelas encenações de uma companhia de teatro, por obra e graça de uma gestão municipal pouco cuidadosa, que não pensou nas consequências para o usufruto do monumento da instalação naquele espaço de uma actividade incompatível com a total dignidade do património construído (quando haveria outros espaços melhor adaptados para o efeito).
A igreja dos Jesuítas é agora um dos melhores auditórios de Portalegre – o que não impede que, por vezes, lá se realizem acontecimentos pouco adaptados à dignidade do espaço.
Há na cidade do norte alentejano um castelo bem recuperado, mas serve pouco para recordar a história do monumento e da urbe em que foi construído e demasiado para actividades comerciais. Não havendo incompatibilidade, o equilíbrio deveria ser outro.
São quatro exemplos que, ao correr do teclado, me ocorreram. Outros poderiam surgir. Estes servem para ilustrar uma realidade que, infelizmente, corrói boa parte do boa imagem da cidade. Esperemos que o futuro traga práticas mais conscientes a espaços marcantes, como a igreja dos franciscanos e a Fábrica Robinson. Sabemos bem o quanto pesam na gestão dos espaços públicos de uma cidade as pressões exercidas por clientelas que, geralmente, se preocupam mais com os seus objectivos particulares ou pessoais (quantas vezes poucos éticos) do que com o enriquecimento cultural de uma comunidade e com a dignidade dos edifícios históricos e/ou monumentais. Portalegre também tem bons exemplos cívicos. Só podemos desejar uma influência positiva destes sobre quanto não atingiu ainda os patamares desejáveis da exigência e de uma verdadeira elevação cultural e ética.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Um exemplo discreto
(in O Distrito de Portalegre, de 31/1/2008)


José Régio quis escrever em 1941 as linhas seguintes: “Muitas vezes tenho pensado com tristeza [...] que bem escassos são em Portalegre os interesses de ordem intelectual, cultural, espiritual.”. Essa opinião, com matizes mais profundos, não andava longe da impressão fugaz de Fernando Pessoa, que em Portalegre estacionou em 1909 e numa carta afirmara: “Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter [...], em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semi-espanholismo e nada.”. Mais acutilantes haviam sido as frases do magistrado e contista Trindade Coelho que, no final do século XIX, assim escreveu: “Em Portalegre estive 4 anos [...]. / A terra era muito política (no pior sentido desta má e feia palavra!) – e o partido que estava no governo começou logo a embirrar comigo, porque eu, no exercício do meu cargo, cortava a direito sem querer saber de política nem de políticos...
Tantos anos passados, muitos aspectos terão melhorado. Mas, como provam até à saciedade os textos literários, sociológicos e históricos de diversos autores, se “a alma do Homem é que dá corpo à cidade”, continuam a existir em Portalegre fenómenos preocupantes pelo seu atavismo, pelo seu fechamento, pela sua falta de exigência ética, moral e cívica, pela maneira como mostram uma sociedade em que o mérito, a liberdade e a democracia são ainda, em grande parte, uma miragem. Só assim se explica que, aí, continuem existindo, impunes, instituições públicas que utilizam o dinheiro dos contribuintes na promoção de medíocres e na valorização de cidadãos cujas más acções são conhecidas, poderes ilegítimos que dominam e manipulam os legítimos, meios de censura velados mas eficazes. A situação é inquietante. No meio desse negrume, salvam-se felizmente alguns exemplos de acção pública que, mesmo discretos, conseguem iluminar nesgas do viver social.
Entre esses cidadãos que, pela sua simples presença, já constituem marcas positivas, poderia salientar vários, uns falecidos (como Baptista Tavares ou Amorim Afonso), outros felizmente ainda vivos (como Nicolau Saião ou Garcia de Castro). Quero, no entanto, sublinhar neste artigo João Ribeirinho Leal. O pretexto é o seu milésimo “Ponto de Vista”, mas esta coluna (caso de longevidade na imprensa regional) é apenas uma das formas de expressão da actividade de um cidadão que, sem pretensões, se tem preocupado sobretudo com a sua coerência e com o seu exemplo cívico.Podemos gostar ou não de quanto escreve, de quanto diz na rádio, de quanto desenvolve e apoia na região, mas um defeito que nunca lhe apontaremos é o da falta de estrutura vertebral. A sua acção, já com algumas décadas, submete-se sempre ao imperativo testemunhal. E dar testemunho, para Ribeirinho Leal, é promover a Justiça, num labor que procura iluminar – mesmo com meios modestos – os exemplos humanos positivos da sociedade regional em que vive e as facetas menos desagradáveis de alguns seres com que se depara. Como cristão, não receia ainda denunciar comportamentos indignos ou desumanos que é preciso expulsar da vivência do dia-a-dia. Para tudo isto, rompe (discretamente) cortinas de fumo produzidas por quantos desejam lançar no esquecimento os méritos que relevam, por contraste, a sua mediocridade ou a sua maldade. Isto (e não é pouco...) lhe deve Portalegre e o seu distrito – logo, todos nós, que nesse espaço vivemos ou a ele estamos ligados. Exemplos como o dele (mesmo discretos), sendo raros, devem ser aplaudidos e acarinhados, para que possam multiplicar-se.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Portalegre: alguns exemplos

PROVENÇA – Visita às ruínas da Provença, ao fim de vários anos de interesse e de investigação (um dia hei-de escrever a partir de quanto já recolhi...). Felizmente, a adaptação a hotel não parece ter mexido muito no espaço monacal. Respeitaram-se os vestígios, ainda importantes, da cerca e da igreja. Conservou-se a nudez da pedra incerta de algumas construções ainda habitáveis. Mantida nas traseiras do espaço de lazer, a sombra anímica do velho mosteirinho há muito desabitado permanece no sopé da Serra de Frei Álvaro. Nas cantarias lavradas fina mas simplesmente respiram as mãos e os passos dos homens “da pobre vida”. É, contudo, quando olhamos para a mata de carvalhos a subir a encosta que encontramos o verdadeiro espírito eremítico, de isolamento e de contemplação.

RUI CARDOSO MARTINS – Li o romance de Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer. Aproveitando as suas capacidades jornalísticas, conseguiu – ao misturar, na linha de algum Lobo Antunes, ficção com realidade/memória – escrever uma nova página da crónica negra portalegrense. Herdeiro de Trindade Coelho, Marta de Lima, José Régio, Castelo Júnior e Nicolau Saião e, ainda, dos poemas de Carlos Garcia de Castro, põe em carne viva as feridas da cidade que, mesmo remodelada fisicamente com dinheiros de fora, continua a existir com a mesma brutalidade, mesquinhez, pequenez e inveja, com a mesma violência (mais psicológica do que física) que conduz à perda da mais elementar dignidade, logo ao suicídio. Um livro permanece enquanto objecto artístico representativo e/ou como documento importante. Tendo qualidades de arte apreciáveis, tenho a certeza de que a narrativa de Cardoso Martins será também objecto de uma atenta leitura histórica no futuro.

CONDECORAÇÕES - Quando vi a fotografia, não quis acreditar, tão grande o despropósito. Seria talvez uma montagem. Só quando vi o facto registado em toda a imprensa citadina me deixei vergar pelas circunstâncias. A vereação actual de Portalegre resolvera mesmo atribuir a medalha de mérito municipal ao indivíduo que, há poucos meses, fora castigado pelo Estado por actos reprováveis, descritos no Diário da República. A “homenagem” tapou-se com um pacote dirigido a antigos presidentes de junta (alguns com obra pouco ou nada visível, como um meu conhecido). Estas e outras são bem a imagem de certa Portalegre (que Cardoso Martins descreveu no seu romance), onde cidadãos com características éticas nada recomendáveis são apresentados como exemplos e outros são chutados para o caixote do lixo cívico.
Felizmente, na mesma cerimónia (maculada pela situação descrita), foram homenageados outros cidadãos que merecem ser vistos como bons exemplos. Entre eles, permito-me destacar a figura de Maria Flora Garção, funcionária municipal que, antes de se aposentar, descreveu assim a sua acção: “Devoção pelos colegas que ao longo dos anos me acompanharam irmanados na vontade de bem servir esse tal público que parece sempre me estimou e apreciou na minha forma de o atender.” Quem quer que tenha contactado com ela na sua acção diária sabe quão verdadeiras são estas palavras.

AUGUSTO RAÍNHO – Entra-se no Museu de Tapeçaria e esquecemo-nos de uma certa Portalegre. Não que a cidade não possua outras belezas e qualidades (que as tem e singulares), mas nesse espaço suspende-se o ar de amadorismo e de inabilidade (de descuido, mesmo) que sobressai em tanto local belo, assim diminuído. Fui ver a exposição nova de Augusto Raínho. Mais uma vez, a sua pintura interessou-me muito, tanto na sua capacidade representativa e interpretativa, quanto nos conceitos vivenciais e filosóficos que sustentam os quadros. Há uma (in)certa esperança em tudo – e não desagrada, por ser fundada e consciente.

terça-feira, 5 de junho de 2007

UM AMIGO
E UMA EXPOSIÇÃO
Conheço João Salvador Martins desde que me lembro de ser gente. Colega de brincadeiras de um sobrinho seu, recordo uma sala em cuja parede estava um dos seus cavalos. Lembro ainda os seus passeios, por vezes solitários, pelas ruas e campos das Carreiras e, sobretudo, alguns retratos que, com singular rapidez, ia fazendo nas costas de calendários de pendurar, onde apareciam figuras típicas da nossa aldeia comum (o taberneiro e cantador Domigos Sobreira, Chico Pragana, surdo-mudo e cadeireiro, e alguns outros) e permaneciam expostos, entre garrafas e copos de vinho, numa tasca da Rua da Igreja.
Foi o primeiro pintor que conheci – e por isso, em jeito de homenagem, lhe dediquei um pequeno poema (recentemente publicado na revista Saudade, em Amarante), no qual recordei as bolandas que levaram à execução e reexecução do retrato a carvão do ti’ António Afonso do Adro, hoje na posse da família deste –, imediatamente antes de Maria Lucília Moita que, nos anos ‘70/’80, era presença constante na aldeia (falsamente chamada “presépio”).
Sem nada perguntar, observando o trabalho de João Salvador quando podia – e, também, os retábulos da igreja do Mártir São Sebastião, obra anónima do século XVII – ia criando consciência do que são a arte e a pintura: não somente representação, mas transfiguração; mais do que visão, imaginação; mais do que conteúdo, matéria plástica (cores e traços numa parcela simulada do espaço).
Trinta anos de diferença nos separavam na minha infância; era natural que os nossos contactos se limitassem a uma breve passagem da sua mão pela minha cabeça e a um olhar meu de admiração. Trinta anos nos separam ainda hoje. Ambos capricornianos de vinte e tantos de Dezembro, são agora mais frequentes as nossas conversas no café do Rossio, nas ruas das Carreiras ou noutro lado; nem sempre estamos de acordo, mas entendemo-nos como amigos – e isso basta.
Só esta amizade e gratidão que me ligam a João Salvador Martins e à sua pintura me convenceram a romper por momentos o afastamento voluntário em relação à maior parte das actividades desenvolvidas na Biblioteca Municipal de Portalegre. Desgostoso com a estranha e perigosa mistura feita nesse espaço entre cidadãos com qualidade humana, cívica, artística e/ou literária e outros sem dimensão estética e/ou ética (para não falar noutras “coisas” que por ali ocorrem ou dali partem) – fui obrigado a reconhecer que a melhor maneira de demonstrar amor pela terra em que nasci e vivi é voltar as costas a tudo quanto macula o seu bom nome de cidade e de centro de uma região.
Os quadros que pude observar na exposição de João Salvador Martins eram, na sua maioria, meus conhecidos. Tive até o privilégio de acompanhar a execução de alguns deles, nomeadamente as aguarelas carreirenses. Independentemente do motivo que apresentam (na pintura não interessa a vista ou o rosto retratado, mas a capacidade de interpretação e de transformação do pintor, conseguida através do desenho e da disposição das cores – tudo o resto está de fora, pertence às circunstâncias, não interessa ao quadro enquanto objecto artístico), confirmei o interesse que sempre me suscitaram.
Nem a descuidada montagem da exposição, nem o catálogo lamentável, nem o insensível emolduramento das obras carreirenses (propriedade da Junta de Freguesia local) conseguem diminuir a qualidade dos quadros. Trouxe no olhar, entre outras obras, os retratos muito conseguidos de Maria Tavares Transmontano e de Nuno Oliveira. Valem por si, independentemente de quem representam. Transfiguram a realidade, animando-a. Toda a boa pintura deveria ser assim…


(in O Distrito de Portalegre)

quinta-feira, 19 de abril de 2007

ENGANOS

Umas das vantagens da internet é conseguirmos aceder a informações e opiniões livres de censura, daquela censura que normalmente corta a dignidade dos seres humanos, impondo-lhes o medo.Há poucos dias descobri este comentário no Portugal Diário sobre uma realidade que, pela geografia, me é muito próxima. Embora não concorde com tudo quanto afirma (não estou convencido da inocência de Sócrates e sei que o anterior bispo de Portalegre, antes de se aposentar, expulsou dos seus domínios os burlões que por lá havia), aqui o deixo à consideração dos leitores:

Lopo de Carvalho
2007-04-15 01:17
Em sã consciência, não me parece que o chefe do governo se tenha metido em falsificações ou enganos quanto às suas habilitações literárias. Mais tarde ou mais cedo isso será claro. No entanto, é facto que em Portugal há pessoas, gente decerto disfuncional, que se arroga ter curso superior sem de facto o ter. No Alentejo, mais concretamente na cidade de Portalegre, conhecem-se dois casos que são públicos e manifestos, ainda que um tenha tido mais divulgação: o de um indivíduo que durante cerca de um quarto de século desempenhou o cargo de professor e até de director dum estabelecimento de ensino sem ter habilitações próprias, pois forjara os documentos que o davam como licenciado. O caso está sob a alçada da Policia Judiciária. Outro caso é o de um fulano que, sem ter também habilitação apropriada, se apresentou durante cerca de vinte anos como doutor, chegando a desempenhar um cargo de relevo num periódico portalegrense, onde perseguia quem não lhe agradava e agia discricionariamente. Em diversas ocasiões chegou a participar em "sessões culturais" junto do anterior Bispo de Portalegre e Castelo Branco, deixando que o apresentassem como doutor. Hoje sabe-se que não é assim por, de acordo com o que referiu na rádio local um conhecido articulista da mesma, ter sido desmascarado. Mas o mais estranho é que, apesar disto, já tem sido convidado para algumas sessões na Biblioteca daquela cidade, onde continua a ser apresentado como doutor. É um caso insofismável e pergunta-se: o ministério da Educação, através dos funcionários dos ramos intermédios locais, tem conhecimento deste caso? Se não tem, é muito estranho que ainda não tenha. Mas se tem, porque deixa que exista um caso tão esquisito...e disfuncional? Aquela parte do Alentejo não se rege por leis como o resto de Portugal?

(in Estrada do Alicerce)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007


HUMILHAR JOSÉ DURO
EXALTAR D. JOÃO III


Não foi fácil encontrar na Corredoura a nova versão do monumento ao poeta portalegrense José Duro. Depois de ler o oportuno e indignado artigo de Bentes Bravo no Fonte Nova, tentei encontrá-lo por entre a vegetação que, felizmente, se manteve no jardim de Portalegre, sobrevivente às obras devastadoras do Programa Pólis. Mas lá estava, envergonhado por detrás dos troncos de um alandro.
Como se não bastasse a sorte de José Duro, “poeta desgraçado” enjeitado à nascença e morto aos 24 anos, confirmou-se agora a desconsideração dos responsáveis autárquicos da cidade em que nasceu. Já quando deram o seu nome a um larguito, não souberam inscrever na placa toponímica a verdadeira data de nascimento (1875 e não 1860!), erro que permaneceu até aos nossos dias. Agora resolveram demolir o monumento com que fora homenageado pelos estudantes dos anos ’40 e substituí-lo por uma versão feia e sem arte, sem qualquer beleza para além do medalhão original, escondida por entre os arbustos do jardim.
Tudo isto seria apenas sintoma de novo-riquismo arrogante (que faz obra, necessária ou desnecessária, sem respeitar a memória dos locais nem os cidadãos), não coincidisse no tempo com a promoção de outra estátua citadina a uma visibilidade imerecida. A poucos metros de José Duro, D. João III, até há pouco discreto num recanto do jardim do Tarro, passou a ocupar um altíssimo pedestal junto das novas instalações da Câmara Municipal. Sem mérito. Dirão que assinou o alvará que elevou Portalegre a cidade em 1550... Responder-lhes-ei que só foi responsável pela assinatura do diploma, pois todo o mérito da promoção de Portalegre se deve à presença, durante a primeira metade do século XVI, do bispo D. Jorge de Melo na então vila da diocese da Guarda e às influências da rainha D. Catarina de Áustria junto do marido para que promovesse Julián d’ Alva, seu capelão, à categoria de bispo. Qualquer cidadão informado e sério sabe isto. A D. Jorge de Melo, a D. Julião de Alva e a D. Catarina de Áustria não prestou Portalegre ainda qualquer homenagem que se visse – e é pena, porque mereciam. D. João III vê-se agora, infelizmente, elevado quase aos céus (sem ter no entanto no seu pedestal, coitado!, direito a nome ou qualquer outro letreiro explicativo).
Tudo isto seria, como disse, sintoma de ignorância, de inépcia, de novo-riquismo, de miopia histórica, etc.. Em tal não acredito, no entanto. Quando, num mesmo momento cronológico, se promove um rei e se esconde um poeta, isto constitui sintoma de um olhar sobre a sociedade, duma inversão de valores que transborda para a gestão política de um concelho. De forma simbólica, com consciência ou não, os responsáveis por estes dois actos transmitiram uma mensagem aos portalegrenses e a quantos visitam a cidade:
Aqui, nesta terra, importa-nos o poder (político, social, económico ou de outra índole, legítimo ou até, quem sabe?, ilegítimo). Consequentemente, desprezamos a Poesia e quanto ela representa de liberdade, de democracia, de imaginação e de criatividade. E quem diz Poesia, diz Arte (a verdadeira Arte e não simulacros pseudo-artísticos que só enganam distraídos, ingénuos, tolos ou ignorantes) ou diz Cultura (a verdadeira, a que nasce da liberdade dos seres e da sua capacidade criativa e imaginativa).
E nem vale a pena ir buscar José Régio, como é costume, pois há muito se vem mutilando a sua memória, quando se recorda apenas a “Toada de Portalegre” (deturpando frequentemente o seu significado) e se lança no esquecimento o seu olhar realista e crítico sobre a cidade, expresso nas novelas “Davam grandes passeios aos domingos” e “Alicerces da Realidade”.
Nada nasce isolado, infelizmente. Se na anterior vereação o presidente da Câmara pôs à frente do Pelouro da Cultura um homem que soube divulgar junto da população do concelho a obra reconhecida e independente dos criadores, vemos agora no mesmo lugar alguém que quase deixou de ser vereador da Cultura para ser apenas um vereador dos espectáculos (interessantes ou indignos), bem pagos pelo dinheiro dos contribuintes.
Com este cenário, não admira pois que José Duro seja humilhado e D. João III exaltado. Poderia ser de outro modo, numa cidade onde o novo-riquismo substituiu boa parte do bom-senso arquitectónico, em que arrogância material e simbólica quase apagou a humildade, onde o espírito foi em muito suplantado pela matéria – por obra e graça de alguns gestores municipais e de alguns “influentes”? Julgo que não.
(in O Distrito de Portalegre)

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