terça-feira, 3 de julho de 2007

Portalegre: alguns exemplos

PROVENÇA – Visita às ruínas da Provença, ao fim de vários anos de interesse e de investigação (um dia hei-de escrever a partir de quanto já recolhi...). Felizmente, a adaptação a hotel não parece ter mexido muito no espaço monacal. Respeitaram-se os vestígios, ainda importantes, da cerca e da igreja. Conservou-se a nudez da pedra incerta de algumas construções ainda habitáveis. Mantida nas traseiras do espaço de lazer, a sombra anímica do velho mosteirinho há muito desabitado permanece no sopé da Serra de Frei Álvaro. Nas cantarias lavradas fina mas simplesmente respiram as mãos e os passos dos homens “da pobre vida”. É, contudo, quando olhamos para a mata de carvalhos a subir a encosta que encontramos o verdadeiro espírito eremítico, de isolamento e de contemplação.

RUI CARDOSO MARTINS – Li o romance de Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer. Aproveitando as suas capacidades jornalísticas, conseguiu – ao misturar, na linha de algum Lobo Antunes, ficção com realidade/memória – escrever uma nova página da crónica negra portalegrense. Herdeiro de Trindade Coelho, Marta de Lima, José Régio, Castelo Júnior e Nicolau Saião e, ainda, dos poemas de Carlos Garcia de Castro, põe em carne viva as feridas da cidade que, mesmo remodelada fisicamente com dinheiros de fora, continua a existir com a mesma brutalidade, mesquinhez, pequenez e inveja, com a mesma violência (mais psicológica do que física) que conduz à perda da mais elementar dignidade, logo ao suicídio. Um livro permanece enquanto objecto artístico representativo e/ou como documento importante. Tendo qualidades de arte apreciáveis, tenho a certeza de que a narrativa de Cardoso Martins será também objecto de uma atenta leitura histórica no futuro.

CONDECORAÇÕES - Quando vi a fotografia, não quis acreditar, tão grande o despropósito. Seria talvez uma montagem. Só quando vi o facto registado em toda a imprensa citadina me deixei vergar pelas circunstâncias. A vereação actual de Portalegre resolvera mesmo atribuir a medalha de mérito municipal ao indivíduo que, há poucos meses, fora castigado pelo Estado por actos reprováveis, descritos no Diário da República. A “homenagem” tapou-se com um pacote dirigido a antigos presidentes de junta (alguns com obra pouco ou nada visível, como um meu conhecido). Estas e outras são bem a imagem de certa Portalegre (que Cardoso Martins descreveu no seu romance), onde cidadãos com características éticas nada recomendáveis são apresentados como exemplos e outros são chutados para o caixote do lixo cívico.
Felizmente, na mesma cerimónia (maculada pela situação descrita), foram homenageados outros cidadãos que merecem ser vistos como bons exemplos. Entre eles, permito-me destacar a figura de Maria Flora Garção, funcionária municipal que, antes de se aposentar, descreveu assim a sua acção: “Devoção pelos colegas que ao longo dos anos me acompanharam irmanados na vontade de bem servir esse tal público que parece sempre me estimou e apreciou na minha forma de o atender.” Quem quer que tenha contactado com ela na sua acção diária sabe quão verdadeiras são estas palavras.

AUGUSTO RAÍNHO – Entra-se no Museu de Tapeçaria e esquecemo-nos de uma certa Portalegre. Não que a cidade não possua outras belezas e qualidades (que as tem e singulares), mas nesse espaço suspende-se o ar de amadorismo e de inabilidade (de descuido, mesmo) que sobressai em tanto local belo, assim diminuído. Fui ver a exposição nova de Augusto Raínho. Mais uma vez, a sua pintura interessou-me muito, tanto na sua capacidade representativa e interpretativa, quanto nos conceitos vivenciais e filosóficos que sustentam os quadros. Há uma (in)certa esperança em tudo – e não desagrada, por ser fundada e consciente.

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