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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Loja, Contra-loja e Armazém
de Carlos Garcia de Castro




Carlos Garcia de Castro (n. 1934) é autor desde 1955 de sete livros de poemas – o mais recente é Gloria Victis de 2007. Neste livro de memórias, o ponto de partida é o seu olhar para dentro da loja de seu pai: «Das poucas vezes que agora vou à loja – é estranho. As prateleiras não têm peças de panos. Os riscados, popelinas, os percais. As chitas, as gorgorinas, as gangas e as flanelas. Os cotins. As sarjas. Os surrobecos.»

O autor apresenta-se («Cresci duma casa para a loja e para a minha rua. Sou da cidade.») e apresenta o seu livro: «este livro que fala da minha terra não a ultrapassa nem ilumina, é decididamente paroquial.» Nas suas páginas, diversa poesia surge intercalada embora o seu autor tenha advertido: «a Poesia quase não é procurada nas livrarias». Memória de um tempo e de um mundo, a família e o comércio são dois dos pilares do texto: dos irmãos António, Miguel e Maria de Jesus aos netos Mafalda, Madalena, Diogo com passagem pela divisa «O comércio é para servir mas não é criado de ninguém».

Nascido na Rua dos Violeiros, sempre o autor gostou de Tunas: «Conheci-os muito bem. O sr. Madeira, violino. Os irmãos Facha, violino e guitarra. O sr. Testa. O sr. Rosado, acordeão. O Amaral com o banjo. Mestre Carvalho, acordeonista. Era a Tuna. Passava devagar.» Dentro da Cidade, surge a Loja: «Para a loja convergiam e da loja emergiam as operações e os ritmos particulares das nossas vidas. Não consigo lembrar esta cidade sem lembrar a loja». Ao longo de 213 páginas o autor mantém o projecto: «Dizer por escrito: a minha terra; a nossa casa; a loja; os rapazes (empregados); os meus pais - não cabe na literatura. Não sendo já saudade, é sentimento e sinal». O tempo da loja não era só trabalho; havia baile no salão: «Bota cá l´cença! Era a senha de quem vinha e queria bailar com aquela». Se o par se negava a transitar a rapariga, «havia porrada, todas as noites, ao sábado no salão».

A memória tem coisas tangentes à realidade de agora, como o Banco de Portugal desse tempo: «Solene como uma igreja, onde se falava em surdina aos guichets, confessionários. Um luxo estático. Sobranceria. Riqueza. Discrição nos movimentos. Concentração. Tudo lá parecia uma cerimónia, os ritos apropriados, liturgia, exactidão, ameaça. Não lhes sabia o sentido». As oito páginas de fotobiografia tornam o volume ainda mais fascinante.

(Edições Colibri, Capa: Raul Ladeira, Editor: Fernando Mão de Ferro)

José do Carmo Francisco

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009



João Filipe Bugalho
(texto e pintura)


FRONTEIRA E MEMÓRIA



Sever, fronteira da minha memória.
Rio que separa e une duas margens.
Eterno contrabandista.
Tranquilo, bravo, solitário, na paisagem dura de xisto, quase deshabitada.
Rio que seca e deixa apenas pegos onde se retempera e refresca a bicharada.
Sombras sadias de amieiros e choupos, seixos soltos, margens tranquilas.
Memórias das tardes quentes que refrescávamos com uma talhada de melancia, sob o laranja intenso do antepôr do sol.






Com pó e suor na pele mas uma sensação quente de bem estar, sensual, inesquecível.
Ainda hoje revisitada.
Como o canto apelativo dos abelharucos, voando por cima.
Luz do fim da tarde que foi abrazadora,luz inseparável dos sons vagos dos chocalhos de um rebanho quase perdido na distância.
Bravura agreste do rio, correndo no próprio leito de pedra, por si talhada.
Silêncio estival, apenas rasgado pelo vôo azul do guarda-rios,
de onde em quando pontuado pelo triste e escasso piar da cotovia.
Peso do calor que nos faz buscar a quietude e o silêncio na protecção da sombra.
Que acalma.
Mas que nos fórça a contemplar.
A sentirmo-nos ínfimos na imensidão do espaço.
Serras distantes, onde se espraiam laivos laranja-azulados de poentes que fazem ressaltar os brancos casarios.
Austeros. Às vezes sós, sombrios.
Mas que, uma vez dentro, se nos revelam e nos acolhem.
Que nos desvendam, nos recantos e nos pátios, os seus mais antigos e íntimos segredos. Até mesmo as suas gentes.
Envoltos em planuras infindas, cortadas por escassas rectas de muros,
intermináveis...Vagamente cobertas de restolho amarelecido, queimado pelo Sol.
Ou alqueives, de pó vermelho e sêco, tingindo o horizonte.
Com danças de sobreiros sobre a paisagem.
Ou linhas e linhas de colinas sedentas, como corpos de mulher.
Céus sempre diferentes, carregados de imagens ditadas por nuvens,
imparáveis,
brancas, sépias, às vezes cinzento-chumbo quase negras,
de ameaçadoras trovoadas.
Além dos infinitos espaços, apenas a ímpar, indescritível, solidão da azinheira.
Cujo tronco, revelando a cicatriz do tempo, é a própria resistência.







A vida.
Sever memória, fronteira, esperança.
Sever, de contrabando e de partida.



O texto fez parte do catálogo da exposição de 30 telas, inspiradas em “paisagens comuns de ambos os lados do Sever”, apresentada no Museo Provincial de Cáceres em 23 de Novembro de 2007.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Soledade Martinho Costa


OS TEUS VERSOS

(a José Duro)


Os versos que escreveste
Foram poucos
Mas vestiam de negro
Já era o luto
Que por ti punha
A força do poema.

Dizer aqui teu nome
Pouco importa.

Mas se tão cedo
Entregaste a vida à morte
E a morte conheceste
E a cantaste
És mais do que um poeta
E és mais forte.

Porque soubeste cantar
A própria morte
E foram versos
O pranto que choraste.


Do livro “A Palavra Nua”

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Sapiência
[Portalegre]

do coordenador deste blogue

(Na imagem: "Claustro de Santa Clara", aguarela de João Tavares.)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007


O texto era já meu conhecido,
mas é sempre bom relê-lo,
para relembrar que existe uma outra Portalegre...
(Na imagem: "Retábulo Portalegrense", de João Garção.)

quinta-feira, 26 de abril de 2007


fotografia
[Carreiras]


não há semáforos à entrada da aldeia.
no entanto, o vermelho cai constantemente
sobretudo para aqueles que
querendo avançar
vêm de fora, sendo de dentro.

não há sequer uma passagem para peões
ou qualquer limite de velocidade
que justifique a sua presença.
existem, porém, semáforos invisíveis
que não obrigam a parar
mas conseguem que o automóvel
parta mais depressa.

por vezes sem cor, revelam dois ou três
rostos conhecidos (na terra), sentados
todo o dia na esplanada do café ou
(daqui por uns anos) debaixo de uma das árvores do largo
num albergue ou à porta da casa mortuária.

só o verde parece não existir
para aqueles cuja presença incomoda as pedras.
para esses, os semáforos têm apenas duas lâmpadas
uma amarela, outra vermelha.

não se vêem, mas existem
à entrada da aldeia – numa das curvas da estrada
depois do portão (sempre aberto) do cemitério.


*

dois poiais sempre ao redor. mas poderiam ser
dois cabos eléctricos a debruar a fachada da igreja
dois focos a escurecerem a torre ou apenas
duas placas com erros de ortografia.

assim se constrói uma aldeia.
mesmo quando existem roldanas
lembrando o embargo da construção.

a terra é a mesma. e se, em cinquenta anos, foi
cemitério, parque infantil, balneário público, junta
de freguesia e parque de estacionamento, a culpa
é apenas do terreno, instável, apesar da rocha.
a essência fica e o odor é o mesmo.
e não será uma trasladação em caixão de chumbo
que irá resolver o assunto.


*

das tascas nem uma sobrou.
a única que ainda se ergue
com portas há muito fechadas
será, com certeza, um quarto de cama
ou uma casa de banho privativa.

a rua nem sobe nem desce.
até os andores, em dia de procissão, preferem
agora estrada nova, num povo onde
as imagens têm reforma compulsiva
sem processo disciplinar nem culpa formada.

as bocas, essas, calam-se. como se as casas
e todas as palavras fossem clandestinas
não vão alguns ser como o santo
que, primeiro, se negou ao chibo da promessa
mas depois já corria atrás dele.

a alegria permanece, apesar das nuvens
e da cortiça (quase humana) que não sai
mesmo depois dos nove anos
correndo o risco de perder a serventia.

a alegria permanece. a vontade fica. regressa.
embora traçada a negro no rosto
daqueles cujo automóvel encontra
todos os dias (ou quase todos)
um sinal vermelho à entrada desta aldeia.



(para Maria Guadalupe Alexandre)


RV (foto e poema)

quarta-feira, 18 de abril de 2007


INVENTÁRIO


Carreiras
[primeira versão]

Tudo poderia ser dito – excepto, talvez, a alegria.
Tanto tempo depois, a estrada continua por terminar. A árvore parece mais esguia (cortaram-lhe há pouco quase um terço da copa).
O automóvel dá, no entanto, a mesma volta – trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.
De Lisboa até aqui são duzentos e trinta quilómetros, a que metade de um corpo regressa permanentemente, como se fora à voz dos sinos (embalando os mortos), à altura das pedras, como se desenhassem um fim de tarde.
A criança desce até às profundezas da terra, encontrando, na súbita angústia de um pulover molhado, o caldo de farinha – situado, ainda hoje, no número cinco da rua da Calçadinha.



Carreiras
[segunda versão]

As ruas das Carreiras onde eu nasci (após ter visto a luz em Portalegre e sangue novo em Lisboa) já não existem. São outros os nomes, outras as pedras – que teimam em não deixar esquecer a calçada antiga -, outras as casas. Só o horizonte não mudou ainda: a mesma serra, o mesmo azul longínquo, os mesmos sobreiros rompendo por entre as lajes, a escola, rompendo a folhagem das acácias e das amoreiras.
Entre o número oito da rua da Fonte Nova e o número cinco da Calçadinha, pouco resta de há vinte e cinco anos.
A fonte perdeu alguns dos seus azulejos e deixou de ter malvariscos pelo São João.
A dona Maria José já não se preocupa com as suas dálias, algures entre as minhas duas tangerineiras. O ti’ João Narciso já não abre a sua meia-porta vermelha, nem a ti’ Bernarda fica comigo na altura das azeitonas.
O barro desapareceu hoje dos caminhos (assim como os escaravelhos, e os burros escorregando até em frente às ruínas da Casa da Carreirinha).
Do Chão da Amoreira, como eu ainda o conheci, ficou apenas uma nesga de terra apertada entre duas casas. Os castanheiros, os abrunheiros, o muro (quase segurando a oliveira), situam-se no mesmo lugar que hoje ocupa a casa da avó - amarela, com barras brancas, um botaréu cheio de craveiros, uma roseira fazendo esquina frente ao canto do lume, do outro lado da rua, entre as flores dos rapazinhos e a parede de pedra solta, há muito tempo esbarrondada.
O Ribeirinho é hoje só nome de rua. Já ninguém lava nas suas águas, empresadas junto de uma figueira velha. Desapareceu sob o alcatrão e a sarrisca, para dar lugar a uma estrada larga.
Continuo, no entanto, a regressar a este espaço, como se regressasse chamado pela voz dos sinos, que tanto embalam os mortos quanto repicam carreirense novo ou hora de procissão. O automóvel (como há uns anos a camioneta) continua a dar a mesma volta, trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.



Calçadinha, nº 5 (1)

Haverá sempre alguém acenando para a mesa. Um garfo – ou somente um guardanapo – traduzindo para a mesa o sabor da terra.
È preciso, no entanto, entrar como se a noite fosse um sótão que há muito desapareceu.
A rua – ela própria – não mais retomou o cheiro de há mais de vinte anos: a porta comunicava com a cozinha, mesmo ao cimo das escadas, sob a telha de vidro; a lâmpada pendia da madre. Havia sempre alguém acenando para a mesa. Do lado de fora, pelo postigo. Apenas de dentro, de tantas coisas – o garfo, a navalha escondida por detrás da lareira, o copo de água voltado sobre um corpo que parte.
Sem habitantes, a casa regressou, talvez a três quilómetros de distância. Uma janela ilumina o quarto, embora os passos sejam os mesmos.
Como a água, atravessando de memória o forno, o horizonte. Ou, em silêncio, alguns animais. A escritura, perdida na mudança.



Calçadinha, nº 5 (2)
- para meu avô, Joaquim Camejo Biscainho

Quanto lhe custariam os amendoins comprados na taberna da aldeia? Retirados um a um do pequeno saco de plástico, ao mesmo tempo que o tilintar das moedas sobre o balcão e as vozes na tarde iam acompanhando as cartas de jogar, os vinténs de cobre cruzando o espaço, buscando no jogo a distância entre o sabor do vinho e o preço, verdadeiro, das ruas em pleno domingo. Quanto lhe custariam a idade e próprio sorriso (tão longínquo quanto os olhares dentro do retrato, a caixa de pedreiro distante na escuridão, como uma navalha dentro perdida dentro do bolso)? Entre a cama e a lembrança das pequenas coisas (apenas visíveis na sombra dalgum olhar molhado), quanto lhe custariam o miar do gato a adormecer na lareira, as castanhas comidas como luzes, a bicicleta – substantivo próprio à espera de um lugar dentro da geografia – ?
A memória faz a sua selecção, não consentindo sequer em mostrar-nos os seus sinais de angústia e de morte. Apenas alguns minutos – e o mundo circula como um automóvel, silhueta estranha que vamos decifrando em torno da comoção e do cansaço.
Ao fim e ao cabo, entre o deve e o haver dos sentimentos, as perguntas subsistem. Das respostas, apenas vão aparecendo páginas dispersas no inventário dos sentidos – de regresso à claridade do horizonte.



Fonte Nova, nº 8 (1)
- para a D. Maria José Soares

Ao fundo da rampa (onde outrora fora uma latada) havia uma construção de madeira e folha de zinco. Na varanda, permaneceram, durante dezoito anos, duas barricas com água da Fonte Nova e, uma vez por ano, com algumas arrobas de azeitona. O tanque tinha um odor diferente de tudo quanto o rodeava – guardava um pouco de nós nas suas águas sem movimento.
De tempos a tempos, era preciso gatear a cancela com pregos sem serventia ou com arame retirado a algum fardo de palha. Delimitava um espaço que não deveríamos ultrapassar, embora (sobre o muro) fosse fácil dirigir o olhar até uma casa rasteira, onde apenas a porta comunicava luz ao interior da cozinha.
(Foram precisos alguns anos para que entendesse a disposição deste corpo – desvanecendo-se.)
Junto à salsicharia, a avenida deixava de existir. A cor desaparecera há muito. A música da varanda partia até debaixo da tangerineira. No inverno, uma parte da rua escurecia – subitamente.
Certo dia, foi preciso entregar a chave – como se o carteiro passasse a recusar os degraus que vão até ao primeiro andar. A porta de madeira, posta na horizontal, deixou de ser suficiente para nos resguardar da chuva. Em compensação, passaram a existir folhas de jornal entre o vidro e a grade – para que o sol ficasse menos intenso.



Fonte Nova, nº 8 (2)

Mesmo antes, não era decerto o melhor lugar para atravessar até ao outro lado do edifício. Um tanque, talvez uma acácia. Duas ou três sacadas numa das últimas madrugadas de dezembro.
Alguém reduz os alicerces da casa. Lembro o jardim, de oliveira a oliveira, a escada de cimento, o braço – segurando -, a melancolia.
(Decidi guardar o envelope na última gaveta da cómoda. Ponho os nossos nomes entre os objectos cujo significado nos absorve. É difícil determinar as ressonâncias quando abandonamos, pelas dez da manhã, uma cidade que cresce.)
Nunca tive realmente um quintal. Demasiado perto ou demasiado longe para que a possamos alcançar, a imagem cresce de quinze em quinze dias, ainda que o passeio seja apenas o início de um nascimento.
A porta abre-se, como se fosse a linha do horizonte. Entre duas noites de chuva, tudo está em tudo, tudo nos pertence.



Avenida

Partiu para sempre – o peso sobre o assento, até Castelo de Vide, parando no Carvalhal.
Subia com pressa a rua do Canto, repetindo, sem parar, o preço dos frutos, o calor do pão, logo pela manhã.
A bicicleta seguia – completamente só – apenas com o equilíbrio retirado ao vento ou à figueira (de que hoje resta somente um rasgo sobre o muro).
São assim as estações. Mesmo em julho, as nuvens guardam-nos de um sol demasiado intenso.



Cemitério

O casaco, a camisa, uma gravata de duas cores – e esta agonia (espécie de contentamento), do outro lado do muro, para onde poucos olham.
O homem veste, pela última vez, um murmúrio, a inocência nos olhos, um lençol que se estende a todo o campo.
O hóspede abandona a casa – para sempre -, esquecendo até que fora recebido minutos depois de uma morte (uma porta entre muitas). Não mais reclama, dentro do coração, a sombra a tapar metade da fotografia.
(Desta cidade guardo a data de nascimento, um telhado, uma figura na neblina. As crianças correm para o rio, mesmo que fique a cem quilómetros de distância. O medo permanece, mesmo nos melhores livros. Abre a janela, ao fundo do bosque. Entreolha essa gota de suor. Vem mostrar um rosto quase escondido: a música, uma ponte que não termina – e só assim alcança esta margem.)



(Texto - publicado no jornal O Zurara, de Mangualde - e foto de RV.)

quarta-feira, 7 de março de 2007

JOÃO GARÇÃO

Inventário Portalegrense

ao Orlando Neves


Um senhor muito sério que lixou uma empresa,
certas madames que dizem sempre sim!
Alguns políticos que só jogam à defesa,
jovens drogados pròs lados do Bonfim...

O Ensino que aqui é bestial,
o Comércio que comercia muito bem.
A Cultura que é fenomenal
- entre os vivos e os que o Senhor lá tem...

Um quotidiano que só nos dá prazer,
um futuro esperançoso a toda a hora.
Pena é que a malta jovem, ao crescer
p´ra ter emprego tenha que ir embora...

Um Alentejo calmo e sossegado
conforme diz o Chefe da Polícia
agente competente e informado
que isto revela sem qualquer malícia...

Mas, caro eleitores, o que se há-de fazer
se isto é assim aqui e em qualquer banda?

pergunta um político com a voz a tremer...
- Deus guarde Portalegre em quem lá anda!

(in Líricas e Satíricas, BSA, 2000)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

CARLOS GARCIA DE CASTRO


TARRO – CAFÉ-RESTAURANTE

O Tarro fica na cidade nova
e quase sempre resplandece ao sol.

- Para ir ao Tarro é preciso um estilo.

À noite, na esplanada ao pé do lago,
lá onde voga um par de cisnes negros
no mesmo tom credencial dos bens
que ali se dão a consumir sorrisos,
crianças sociais de bicicleta
prosseguem o à-vontade de mostrar
como se é, se está ou se parece.

Comercial, seu nome de Café,
de Restaurante, de Snack-Bar – O Tarro
não é concisamente um edifício,
vale um desejo e faz como um perfume
quando se expande e torna indiscrição.

Ia dizê-lo a víscera da Cidade...

desta cidade de ambições solúveis,
bela amante que se dá e foge!
ali palpita na leveza a forma
do mal por bem dizer grandezas mínimas.

Já se lá vai para namorar sentado,
escandalizar – de amor, ou posição
que, embora vaga para fazer convites,
é necessário para sonhar política:

há sempre um caso para contar no Tarro!

Lá estão à porta adolescentes vários,
contemplativos, a fumar porquês,
nos automóveis dos rapazes ricos,
motor e chapa, as vibrações da alma.

Somos do Tarro! andamos a estudar!
nas escolas, no Colégio, no Liceu,
e os nossos pais, os transigentes, pagam,
dão-nos vontades de até ir para a Tropa.
São bons estes degraus para nos sentarmos
a conversar e a discutir justiça,
são bons para nos ouvirmos em silêncio,
pasmados de remorso e de preguiça.

A certa hora habitual conjunta,
quase só vêm os senhores doutores,
tanto os que o são de conhecida fé,
como os da fama pessoal, ambígua.

Então se evolam os odores do Tarro!

lembram as missas de solene incenso
as cigarrilhas do vapor lustroso
que os gestos dignifica e os sapatos...

- ninguém lhe escapa ao gozo, se lá entra.

Daí que este retrato, esta paisagem,
banal decerto na Província magna,
não nos aperta, é como num museu.
Aqui, porém, cá dentro, em Portalegre,
onde inocência, pequenez, vaidade,
incrível, genial contradição
da sua urbanidade e vocativo,
são a virtude vegetal dos pombos,
- isso já custa, quase faz um perigo,
diria o acidente de um juízo:

- olhar o passarinho, e ver-lhe as penas
como se elas e a cor do seu verniz
logo soubessem às carninhas mansas.

(in Os Lagóias e os Estrangeiros, Câmara Municipal de Portalegre, 1992)

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