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segunda-feira, 23 de março de 2009

ACLARAR A MEMÓRIA

Nos tempos mais recentes, a bibliografia do Norte Alentejano viu-se enriquecida com a publicação de novos livros que têm como característica comum (infelizmente nem sempre generalizada) permitirem entender melhor a sua identidade cultural em geral e, particularmente, a sua História. Depois de alguns volumes que foram oportunidades perdidas, pela falta de rigor e até pela alteração de documentos (para que se criassem fundamentos que servissem de base a teses improváveis), há que realçar edições oportunas e rigorosas.
Excluindo do rol alguns sobre os quais já tracei algumas linhas (como por exemplo o livro de Pedro Cid sobre as fortificações de Castelo de Vide e a monografia de Rosário Salema de Carvalho sobre a matriz dessa vila), permito-me destacar:
1. Memória Historica da Muito Notavel Villa de Castello de Vide, de César Videira, publicado originalmente em 1908, e que agora – cem anos depois – viu de novo as luzes da imprensa numa reedição anotada, revista e aumentada com base em notas do autor, fruto de um trabalho devotado e atento de Ana Patrício, Diogo Cordeiro, Francisco Sepúlveda Teixeira, Joaquim Neves de Carvalho, Rosário Salema de Carvalho e Pedro Sá;
2. As Forcas do Distrito de Portalegre, de Jorge de Oliveira e Ana Cristina Tomás, ainda de 2007, onde se apresenta uma faceta pouco agradável do nosso passado, mas de inegável interesse para a compreensão de uma parte importante do património arqueológico da região – a precisar, nalguns concelhos (como o de Portalegre), de levantamento e estudo sérios, de modo a destruir a inércia propositada que beneficia sobretudo quantos querem destrui-lo para mais facilmente construírem os seus “projectos urbanísticos” ou “turísticos”;
3. Marvão à mesa com a tradição, de Adelaide Martins, Emília Mena e Teresa Simão, publicado em 2008 com um esclarecedor prefácio do arqueólogo Jorge de Oliveira, oferecendo-nos, para além de um larguíssimo repositório das receitas de cozinha confeccionadas ao longo de séculos por uma população carenciada mas inteligente no aproveitamento dos recursos à sua disposição, um quadro realista do viver diário desse canto do Portugal raiano.



Mais recentemente, Bonifácio Bernardo, membro do cabido da Sé de Portalegre, publicou o livro Aldeia dos Fortios – Memória Histórica. Integra-se no rol das obras que enriquecem o nosso conhecimento da região. Nas suas 612 páginas não foge à abertura de hipóteses e à ousadia da interpretação, constituindo um autêntico arquivo de documentos que, decerto, incitarão outros investigadores a debruçarem-se sobre as matérias nele abordadas ou aí afloradas. Convenhamos: ao lado da criação artística, não haverá talvez tarefa mais meritória nos domínios do espírito do que a do reavivar da memória de um grupo humano, seja ele uma pequena comunidade ou um país. Nasce daí o maior mérito do cónego Bonifácio Bernardo, cujo rigor se manifesta mais uma vez, depois de um também interessante estudo sobre o santuário portalegrense do Senhor Jesus dos Aflitos.
Com a leitura deste livro, além do que se expôs, temos agora em mãos pedras fundamentais para a edificação da história de um dos templos mais enigmáticos do Norte Alentejano: a igreja de São Domingos dos Fortios, onde a arqueologia evidencia vestígios romanos e moçárabes, a precisarem de escavação e estudo – não vá um diabo ignorante e construtor tecê-las… Temos também em mãos elementos para aprofundar o entendimento da toponímia do lugar, onde nomes como Cova da Onça, Reluto, Boavista, Monte Tourinho, Matamores e outros apontam para uma presença humana pré-romana, logo muito antiga.

terça-feira, 8 de julho de 2008


Sobre as origens de Santo António das Areias


A zona central e mais antiga de Santo António implanta-se numa suave encosta, maioritariamente, exposta ao poente, drenada por linhas de água de curso sazonal, das quais se destaca o Ribeiro do Lobo e a Ribeira do Tragazal. Ainda que até esta data não tivesse sido identificada qualquer referência a esta aldeia anterior a 1569, poderemos equacionar a hipótese deste lugar ter sido ocupado a partir dos fins do Império Romano. Esta hipótese assenta na estratégia de povoamento da Alta-Idade-Média que se constata na área do actual concelho de Marvão. Com a destruição da cidade de Ammaia e sob a pressão dos Bárbaros, verifica-se, sobretudo a partir dos finais do século V, uma nova forma de ocupação dos solos. Pequenos e médios casais agrícolas começam a estabelecer-se nas encostas suaves, não muito longe de linhas de água, envoltos por terras com alguma aptidão agrícola mas, sobretudo, não muito evidentes na paisagem. A instabilidade política obrigava a alguma precaução. Desses conturbados tempos conhecemos vários testemunhos nas imediações de Santo António das Areias. Destes destacam-se os pequenos habitats da Água da Cuba, da Patinha da Burra, da Asseiceira, da Ranginha, do Lagar dos Frades ou o da Feijoeira. Qualquer destes sítios arqueológicos, infelizmente nunca estudados, apresenta uma implantação orográfica muito semelhante à que se verifica em Santo António. Provavelmente, esta aldeia terá origem num desses habitats que, após a Reconquista Cristã, gradualmente foi crescendo vindo a merecer a edificação de um templo dedicado a S. Marcos.Se lermos as “Memórias Paroquiais” lá encontramos a referência a este templo que se implantaria um pouco acima da actual “Casa do Povo”, não muito longe da velha Fonte da Vala. Esse templo, em torno do qual se constituiu o primeiro cemitério da aldeia, terá sucumbido quando se procedeu à transladação colectiva para o actual, já em inícios do século XX.Embora não tenhamos qualquer informação sobre a data da construção da Igreja de S. Marcos ela seria, seguramente, anterior à de Santo António. Esta presunção assenta na maior antiguidade do culto a S. Marcos e, sobretudo, na memória toponímica que ainda hoje se guarda, por exemplo, em Valência de Alcântara, em relação a esta aldeia. Os mais idosos do lado de lá da fronteira quando se referem à aldeia de Santo António das Areias denominam-na por S. Marcos. Eventualmente, esta antiga toponímia poderá ter, também, alguma relação estreita com a afluência de espanhóis às festas em honra de S. Marcos. Mas, exactamente, a festividade e feira que anualmente se organiza em honra de S. Marcos, a maior e mais concorrida do concelho, comparada com a já muito esquecida procissão em honra de Santo António, parece reforçar a nossa interpretação de que, originariamente, esta povoação terá emergido em torno da desaparecida igreja de S. Marcos e posteriormente, terá então sido construído um novo templo dedicado a Santo António, no sítio das Areias.A nova igreja, provavelmente construída na segunda metade do século XVI, terá originado outra organização urbana em torno do novo e mais amplo templo, contribuindo para a perca de centralidade da de S. Marcos. A data aventada para a edificação da Igreja de Santo António assenta na leitura da inscrição gravada no capitel do cruzeiro onde, com dificuldade, ainda se lê 1569. Se a nossa leitura estiver correcta e se o cruzeiro for contemporâneo da construção da igreja, a data da centúria de setecentos que se mostra gravada na base granítica que sustentou o púlpito que se encontrava no interior da Igreja de Santo António deverá corresponder a uma fase de remodelação ou reconstrução deste templo e não à data da sua fundação.De qualquer forma, esta data da centúria de setecentos é bastante posterior ao mais antigo registo paroquial que se conhece para esta aldeia. Estranhamente, este registo reporta-se a um baptismo datado de 1715. Dizemos estranhamente porque, por norma, os mais antigos registos reportam-se, exclusivamente, aos óbitos. Naturalmente, esta norma aplica-se, essencialmente, aos registos paroquiais mais antigos, datáveis dos finais do século XV e século XVI. Iniciando-se o primeiro livro de registos com um baptismo no ano de 1715 e constando no mesmo livro o assento do primeiro casamento em 1716 e o primeiro óbito em 1722, é provável que esta freguesia tivesse sido constituída no ano de 1715, ou um pouco mais cedo, embora já neste local existissem dois templos mas nenhum deles constituído, até essa data, como sede paroquial. As gentes residentes neste local estariam vinculadas a uma das freguesias sediadas em Marvão, ganhando a sua autonomia apenas no início do século XVIII.


Jorge de Oliveira

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