quinta-feira, 3 de dezembro de 2009



IGREJA DO MÁRTIR SÃO SEBASTIÃO
(Carreiras, Portalegre)



De acordo com os dados disponíveis, é difícil determinar a data da edificação da igreja de São Sebastião das Carreiras. Há porém uma lenda que a faz remontar aos tempos imemoriais em que a aldeia terá sido fundada.
Os diversos indícios documentais não permitem no entanto que recuemos para além de finais do século XV. É possível que já existisse em 1501, ano em que os priores das igrejas de Portalegre dividiram entre si os moradores (mais concretamente, os moleiros) que viviam na área rural do concelho. Nesta data é atribuído ao pároco de São Lourenço o encargo de administrar os sacramentos aos que moravam entre o caminho de Marvão e o caminho de Castelo de Vide, área hoje em parte pertencente à freguesia de Carreiras (cf. S/A, 1983). Em 1544, antes mesmo da criação da diocese, era já sede de paróquia.
No início da década de 1580 as cartas nascidas da presença nesta igreja do visitador ou do bispo de Portalegre, mostram-nos um templo que ameaçava ruína nas paredes e no tecto - prova da sua antiguidade. É nesta altura que D. Frei Amador Arrais ordena aos mordomos do Mártir Santo que a reparem, recolhendo fundos entre a população, dando assim cumprimento a um acordo antigo entre os moradores da aldeia e o pároco de São Lourenço da cidade, de que fora filial. As obras concluíram-se em 1584, mas anos depois foram necessárias novas reparações. Em finais do século XVI a igreja tinha três altares: o maior, o de Santo António e o do Nome de Jesus. Nesta altura terá sido também construída a capela de Nossa Senhora da Alegria, então provavelmente com outra invocação mariana, embora os documentos sejam silenciosos a seu respeito.
Em 1629 foi alvo de nova reparação, embora não saibamos que alterações trouxe. À primeira metade do século XVII pertence ainda o retábulo da capela mor, que terá sido posteriormente modificado para a instalação do trono.


Retábulo da capela-mor (meados do século XVII)
(Foto de RV)
 Em meados do século XVIII o templo precisava de novas obras de beneficiação e de ampliação. Comparado em 1758 a uma ermida, continuava com três altares (sendo os laterais agora dedicados a Nossa Senhora e a Santo Cristo ou Senhor da Paciência). Carecia no entanto de um baptistério e de um campanário onde o sino se pudesse tocar por fora, para além de outras carências menores. A comunidade, aliada ao padre Alexandre Xavier Ferreira, decide então reconstruir a igreja. As obras iniciam-se em 1771, sendo concluídas só em 1778, devido à escassez de recursos. A altura e o comprimento são aumentados, ficando com uma nova fachada dotada de torre sineira.
Foram de pouco vulto as alterações que sofreu até à década de 1960. A partir desta data, o corpo da igreja é descaracterizado, com a eliminação dos altares laterais e a substituição do tecto de madeira por betão armado.



Estamos perante um templo de pequenas dimensões, constituído pela aglomeração de vários volumes em torno da nave e da capela mor. Entre eles destacam-se a torre sineira, a capela lateral de Nossa Senhora da Alegria e o trono, para além de outras dependências, como o baptistério.


Retábulo da capela de Nossa Senhora da Alegria (1ª metade do século XVII)
(Foto de RV.)

A fachada é virada a poente e apresenta as feições que recebeu na década de 70 do século XVIII. Apresenta um portal em granito de grão fino, com bases abauladas e sanca, sobrepujado por um registo em azulejo de meados do século XVIII representando o Mártir São Sebastião e por um óculo de iluminação. O campanário situa-se a norte, com três sineiras (uma delas tapada), rematado por uma pirâmide quadrangular com toscos pináculos em granito nos vértices e cata-vento.


Registo de azulejos na fachada (meados do século XVIII, oficina lisboeta).
(Foto de RV)

A nave foi quase totalmente adulterada na segunda metade do século XX. Apresenta uma cobertura de betão onde antes estava um tecto de asna em castanho. Possuía dois retábulos laterais em madeira, de finais de setecentos, dedicados à Senhora do Rosário e a Santo António - recentemente desaparecidos. Nela se pode observar ainda o púlpito, com base em cantaria e balaustrada de madeira pintada. O coro foi reconstruído há poucos anos.
No lado norte situam-se vários corpos anexos. Destacamos, em primeiro lugar, o baptistério, com pia instalada em 1901 e gradeamento em madeira torneada datado de 1782. De seguida a capela dedicada desde o século XVIII a Nossa Senhora da Alegria: uma construção de inspiração islâmica, com planta quadrangular e cúpula hemisférica assente sobre pendentes, onde merece relevo o pequeno retábulo maneirista inspirado em obras do escultor Gaspar Coelho, mestre de vários altares da Sé de Portalegre. Este espaço foi decorado com pinturas murais, ainda existentes, mas completamente caiadas.
A capela-mor é o espaço mais preservado da igreja. Apresenta um tecto pintado a fresco por mão regional, com abundante decoração grutesca fitomórfica que enquadra as representações de São Sebastião e São João Baptista, ladeando uma custódia - numa alusão ao Santíssimo Sacramento. O retábulo, embora recebendo inspiração do maneirismo de Gaspar Coelho, é uma obra já da primeira metade do século XVII ou posterior. Duas grandes pinturas sobre madeira, ladeadas por colunas, representam São Gregório Magno(ou São Silvestre) e São José, num conjunto coroado por uma outra em hemiciclo onde figuram São Miguel e outros anjos salvando as almas do Purgatório. Ao centro temos o arco de abertura para o espaço do trono, com abóbada também possuidora de frescos com volutas. O sacrário actual foi ali colocado na década de 1940, sendo ladeado por esculturas de vulto pleno representando São Sebastião e o Menino Deus.
Do recheio deste templo destaca-se a sua colecção de esculturas, com peças dos séculos XVI, XVII e XVIII, entre as quais sobressaem as representações do padroeiro e da Senhora do Rosário, de excepcional qualidade, e duas peças pertencentes aos "barros de Portalegre" (Sant' Ana e Santo Isidro). Merecem também relevo algumas peças de ourivesaria, nomeadamente uma custódia em prata dourada, do início de seiscentos.
O estado de conservação é muito bom, necessitando porém de restauro criterioso os retábulos e algumas das imagens aí veneradas.

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