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quarta-feira, 17 de junho de 2020

AS IGREJAS DE CASTELO DE VIDE FAZEM FALTA

            Castelo de Vide é uma terra afortunada. Ao contrário de outras localidades – que ainda hoje lamentam os desvarios e vandalismos do passado, causadores da destruição de tantos edifícios valiosos –, a terra de Salgueiro Maia detém no perímetro do seu concelho um património invejável seja sob que ponto de vista for. É, ainda, uma vila venturosa pelas gentes que nela habitam. Sem os castelo-videnses, teríamos no mesmo lugar do Alto Alentejo uma qualquer feia povoação, sem identidade e sem brilho, abastardada por uma sucessão de atentados urbanísticos e patrimoniais promovidos pelos seus habitantes e autorizados pelos serviços camarários. Felizmente, temos o contrário disso tudo – e essa realidade eleva a urbe aos olhos dos portugueses e dos estrangeiros.
            Entre as pessoas que dão vida a Castelo de Vide, há cidadãos de corpo inteiro que, ao longo do tempo, têm assumido a defesa do seu património. Se no passado não conseguiram evitar a demolição de uma parte das suas muralhas (e, nelas, da célebre “Porta da Aramenha”, proveniente da cidade romana de Ammaia), bem como de alguns edifícios religiosos, como a importante igreja do Espírito Santo ou a matriz antiga de Póvoa e Meadas, pode dizer-se que há uma linhagem de gente que não tem deixado destruir peças importantes da sua identidade artística e arquitectónica (popular ou erudita). Uns chegaram à investigação, à escrita e à publicação (César Videira, João António Gordo, Raposo Repenicado, Diamantino Sanches Trindade, Maria Guadalupe Alexandre, Diogo Salema Cordeiro, Jorge Rosa, Rosário Salema Carvalho, etc.); outros, mantendo-se mais ou menos na sombra, trabalharam de outro modo pela salvaguarda, valorização e divulgação do património da comunidade – que é parte integrante, diga-se, do património nacional. Nos últimos anos, merece especial relevo a actividade da associação denominada Grupo de Amigos de Castelo de Vide, que tem aliado a defesa dos interesses locais à edição de livros e à impressão do jornal “Notícias de Castelo de Vide”, também disponível na internet sob a forma de blogue.  
            Se alguém pensa, por isto, que Castelo de Vide precisa de mim para “liderar” a defesa do seu património, decerto tem uma visão desfocada da realidade do concelho. Como investigador, é certo que assinei artigos na “Invenire – Revista de Bens Culturais da Igreja” (editada pela Conferência Episcopal Portuguesa) em que estudei obras de arte e tradições da vila onde nasceu Garcia de Orta; destaquei a localidade no meu livro “Santo António na Região de Portalegre”; publiquei artigos sobre as ruínas da ermida de São Paulo e sobre a igreja de Santa Maria da Devesa (com algumas novidades históricas); divulguei uma parte dos textos tradicionais do concelho em vários cadernos editados com a literatura oral da Serra de São Mamede; dei destaque à literatura castelo-vidense na volumosa antologia “Poetas e Escritores da Serra de São Mamede”; e, sobretudo, investiguei a toponímia, a heráldica, a história e o património do concelho no livro “A Vide e o seu Castelo”, obra hoje esgotada, a precisar de reedição revista e muito aumentada. Tal trabalho, que tenciono continuar (nomeadamente no doutoramento em História da Arte que me ocupará nos próximos quatro anos), não me transforma no entanto num elemento imprescindível na luta pela defesa do património concelhio, embora não lhe vire a cara, ao não esquecer que uma parte dos meus antepassados nasceu nesse município. Agradeço a honra que me foi concedida em duas publicações vindas a lume no jornal “Alto Alentejo”, nas quais surjo como “líder” de um grupo de pessoas de Castelo de Vide, mas não a mereço. Se manifestei o meu repúdio público pelas intenções do pároco viti-castrense e de mais algumas pessoas em vender a abandonada igreja de São Miguel (situada na Serra que já teve o nome do Comandante das Milícias Celestes e principal defensor da Igreja e do povo de Israel), limitei-me a fazer eco de uma notícia criada e difundida pelo Grupo de Amigos de Castelo de Vide no jornal que publica. Partilhei a notícia no “facebook” e comentei-a, dando o meu apoio aos castelo-videnses, estupefactos perante um incompreensível e pouco claro ataque ao seu património medieval. É certo que difundi a notícia e pus os meus fracos préstimos à disposição dos defensores do património local, mas nada fiz que outros não tivessem feito. O seu a seu dono…
            Há quem defenda publicamente que “as igrejas de Castelo de Vide não fazem falta”. Permito-me discordar. Fazem tanta falta quanto as muralhas de várias épocas que envolvem a vila, quanto o castelo que lhe deu nome, quanto as antas e outros vestígios arqueológicos que povoam o município, quanto o pelourinho que se ergue em frente aos Paços do Concelho, quanto muitas tradições seculares que dão identidade à urbe. Diria mesmo que, dado o seu estatuto, fazem até mais falta. Com o que digo, não estou a estabelecer uma hierarquia, mas apenas a dizer que uma estratégia pastoral imaginativa, dialogante e aberta já lhes teria dado utilidade comunitária além do seu valor patrimonial, pois se não há cultura sem culto, também não há culto sem cultura.
            A igreja de São Miguel não está arruinada, como tem sido dito. Está apenas abandonada porque a abandonaram há várias dezenas de anos, entregando-a à sua sorte e às forças da natureza. Aconteceu o mesmo a outras ermidas castelo-videnses, o que se lamenta. Desde que lhe retiraram as imagens aí veneradas, não mais foi reparada, limpa ou valorizada. Mas não é uma ruína. Não será muito difícil repará-la e dar-lhe nova vida, associando-a talvez à ermida de Nossa Senhora da Penha, sua vizinha, que não tem espaço para lá se celebrar a eucaristia, nem no dia da festa, ou instalando aí um agrupamento de escuteiros ou… (os castelo-videnses saberão – e parece que a edilidade já está a dar bons passos no sentido de não se apagar esse património). Essa igreja, já existente no século XV, era local de encontro dos cristãos-novos na centúria de quinhentos, tendo assim um valor memorial inalienável. Com potencial arqueológico importante, ninguém nos garante que por debaixo da sua cal não haja surpresas. Não deve ser vista, todavia, como algo que se possa separar da sua envolvente, tanto próxima – onde avulta um entorno prodigioso do ponto de vista natural e paisagístico – quanto alargada. Pergunto: não seria possível criar uma rota do sagrado que envolvesse todos estes edifícios ainda de pé e mesmo aqueles de que já só sobram ruínas? Ou será melhor defender o que defendiam alguns cidadãos de Guimarães no século XIX, ao quererem demolir o castelo da cidade porque o “progresso” seria levantar ali um “bairro operário”?
            É certo que em Castelo de Vide e no seu concelho nunca existiram igrejas dedicadas a São Martinho ou à Senhora da Saúde (como alguém escreveu), mas o valor memorial e patrimonial de igrejas e capelas como as que existem no concelho alentejano é algo que não pode ser desperdiçado seja por quem for. Desde uma igreja de Santiago (que investigadores internacionais já identificaram como uma antiga mesquita) à do Salvador do Mundo (anterior à nacionalidade e ligada ao cristianismo moçárabe), passando pelo Senhor do Bonfim (com um admirável conjunto de pinturas murais), ao Bom Jesus e à Senhora do Carmo (com retábulos que urge estudar, restaurar e divulgar, no âmbito da comunidade de artistas que existiu em Castelo de Vide nos séculos XVII e XVIII), a Santo Amaro (uma admirável igreja barroca!), às medievais São Roque e Santo Amador e a muitas outras, há um imenso conjunto de oportunidades a explorar – no âmbito de uma religiosidade aberta, de um turismo religioso e cultural e de uma estratégia inteligente de desenvolvimento local. É um erro pensar que as igrejas só merecem estar de pé enquanto lá se celebrar missa todos os domingos. Não foram construídas para isso. A maior parte delas, desde o dia da sua inauguração, só teve eucaristia uma vez por ano (ou no dia da sua festa ou no dia do sufrágio de quem lá estava enterrado, em geral os seus fundadores). A sua manutenção era assegurada por um ermitão, que aí vivia de graça e em troca de habitação gratuita tinha de assegurar a abertura de portas aos fiéis. Hoje em dia serão usadas de outro modo, com fins distintos. Não serão todavia menos dignos.
            Dar valor a uma igreja, ainda que pequena e humilde, mas histórica, é respeitar um passado que nos mantém de pé, pois faz parte das nossas raízes. Não há futuro sem passado. É muito urgente dar valor a este e a outros patrimónios, sobretudo num tempo em que motivações espúrias querem “purificar” a nossa memória, derrubando e vandalizando estátuas e pessoas, levando-nos para a barbárie. Acredito que os negócios sejam sedutores, que a pressa de resolver situações seja má conselheira, que a imaginação nem sempre seja abundante, que pressões várias – nem sempre legítimas – façam esquecer o dever maior. Não é por acaso que o Direito Canónico afirma só ser válida a alienação “de ex-votos oferecidos à Igreja, ou de coisas preciosas em razão da arte ou da história” com licença expressa da Santa Sé, permitindo todavia que, além do culto, da piedade e da religião, o bispo diocesano permita nas igrejas “outros actos ou usos, que não sejam contrários à santidade do lugar”. Mesmo que as circunstâncias tenham levado à perda da bênção do local, é sempre possível dar-lhes um uso digno que respeite a sua integridade memorial, arquitectónica e artística. Há exemplos vários disso mesmo no Alentejo e no país, alguns bem perto. Não é preciso reinventar a roda…
            Um dos primeiros actos de São Francisco depois da sua conversão foi promover nos arredores de Assis a reparação da igreja de São Damião, que ameaçava ruína e estava abandonada. Para isso, vendeu tudo o que tinha e, segundo contam as suas biografias medievais, chegou a andar pela sua terra a pedir pedras para a reconstrução, prometendo recompensas divinas. Nem todos podemos chegar ao exemplo maior dos santos, mas – como me disse um dia, era eu adolescente, o saudoso Cónego Justo, membro do Cabido da Sé de Portalegre – “se nem todos conseguimos ser santos, todos temos a obrigação de ser nobres e honrados”. Haja nobreza de carácter, honra e humildade e a situação das igrejas de Castelo de Vide será resolvida a pouco e pouco pelos castelo-videnses, pelas suas autoridades civis e por quem dirige a sua paróquia. Não me passa pela cabeça que venham a ter uma atitude menos digna. O Paráclito os espicaçará.

RUY VENTURA
(artigo publicado no jornal "Alto Alentejo", de 17/6/2020)




segunda-feira, 20 de abril de 2020

IGREJA DE SANTA MARIA DA DEVESA
Castelo de Vide

Ruy Ventura
(texto e foto)


Com provável origem moçárabe, a primeira igreja de Castelo de Vide a assumir a função de matriz foi a do Rei Salvador do Mundo, situada nos arredores da vila. Assim o diz uma tradição muito antiga, a qual afirma que a segunda foi a de Santiago Maior, talvez resultante da adaptação ao culto cristão de uma mesquita. Anterior a Santa Maria da Devesa terá sido ainda outra igreja medieval, existente no castelo e antepassada da actual ermida de Nossa Senhora da Alegria (a padroeira do burgo).
O templo imponente que hoje se eleva – um dos mais amplos de todo o Alentejo – resulta da reconstrução iniciada em 1789 e concluída já na segunda metade do século XIX, ocorrendo a abertura solene a 28 de Setembro de 1873. A primitiva ermida dedicada à Virgem, edificada na devesa ou rossio extramuros da vila, terá nascido na segunda metade do século XIII. Em 1311, aí instituíram Lourenço Pires e Domingas Joanes uma capela, à qual deixaram os seus bens, entregues à administração dos “confrades da albergaria de Santa Maria”. Entre essa data e 1321 terá sido elevada ao estatuto de paróquia, juntando-se a outras quatro (Santiago, Salvador, São Pedro e São Lourenço).
Na sequência dessa promoção, o pequeno edifício terá recebido uma ampliação gótica. Se a igreja isolada que podemos ver num desenho de Duarte d’ Armas datado de 1509-1510 é, de facto, a matriz de Castelo de Vide, então na primeira década do XVI já teria essas características, exibindo uma estrutura típica do gótico depurado, adoptado por todo o país, nomeadamente nas igrejas paroquiais. Se as três naves, com a central mais elevada, evidenciam uma construção medieval, a capela-mor quadrangular, com contrafortes a meio dos panos murários, ladeada por uma torre sineira, denuncia uma intervenção posterior, datável já do período manuelino, talvez ainda de finais do século XV. Nada de estranhar, sendo Santa Maria a cabeça de uma comenda da Ordem de Cristo.
Um desenho inédito anónimo, de execução não posterior aos primeiros anos do século XVIII, nem anterior a 1680, dá-nos uma imagem mais concreta da matriz. Nessa panorâmica de Castello da Vide, Santa Maria da Devesa é representada com destaque volumétrico no meio de um denso casario, tendo a rodeá-la, no entanto, um adro espaçoso. A sua aparência não era já aquela que Duarte d’Armas registou. A largura da fachada, com três janelões, uma janela mais pequena e um pórtico grandioso (que parece de volta perfeita), denuncia uma estrutura interna com três naves, coberta, todavia, por um telhado com duas águas. A sul da capela-mor, elevava-se uma sineira de grandes dimensões, edificada diagonalmente em relação à Casa da Câmara. Essa torre ocuparia, assim, um lugar hoje aberto, poucos metros a norte do sítio onde se ergue o pelourinho.
Embora com dimensões menores do que o actual edifício, a primitiva matriz não se instalaria num espaço muito distinto daquele que agora ocupa a sua sucessora. Em 1758, o P.e João Aires Baptista fala-nos já de uma igreja integrada no Padroado Real, mas “aruinada, não pello terramoto do anno de 1755 mas por muito velha”. A paróquia estava então instalada na Colegiada do Espírito Santo, pois em 1749 o bispo de Portalegre, D. Fr. João de Azevedo, havia dado ordem para a sua demolição e reedificação. Pelos apontamentos desse pároco ficamos a saber que as suas três naves possuíam nove altares, aí estando instaladas seis confrarias.
O edifício desaparecido foi recebendo várias campanhas de obras. Regista-se, por exemplo, a intenção de substituir o retábulo-mor em pintura mural, considerado um “escandalo”. Para executá-lo, chegou a ser contratado em 1610 o marceneiro lisboeta Manuel Ribeiro, mas tal obra nunca chegou a fazer-se. Só em 1662 o pintor portalegrense Manuel de Faria celebraria escritura para a execução dessa peça retabular. Em 1678-1679, o pintor José de Carvalho, também de Portalegre, dourou o altar de Nossa Senhora do Rosário, onde se incluía uma Árvore de Jessé. Pela mesma data, o elvense Afonso Vaz foi encarregue de dourar o retábulo do Santíssimo Sacramento, tendo ainda a obrigação de pintar a abóbada, os frisos e o frontispício da capela-mor, bem com as suas grades. Não obstante estas intervenções artísticas, entre 1682 e 1684 Santa Maria da Devesa sofreu uma intervenção importante, ao ponto de o culto ter de passar para outra igreja. Talvez date dessa época a substituição do portal, modificado cerca de 1748, o qual ainda hoje subsiste como entrada principal do novo imóvel, ao qual foi adaptado, apesar das suas dimensões algo desajustadas em tão alta e larga fachada.
O edifício actual demorou 84 anos a concluir, se estabelecermos como data limite o ano da sua inauguração, 1873. A construção terminou em 1822, mas a ornamentação do interior demoraria mais algumas décadas. O projecto quase catedralício de Santa Maria da Devesa, ainda hoje anónimo, mostra uma gramática barroca que, a pouco e pouco, se foi adaptando nos pormenores ornamentais a novas estéticas, sem deixar uma atitude simplificadora, habitual nas traduções regionais de arquitecturas eruditas. Podemos assim encontrar elementos do Rococó a par de evidências neoclássicas, ombreando com outras que já denotam um certo romantismo, aquele que recuperou sem preconceitos apontamentos de estilos anteriores ao século XVIII. A organização do amplo espaço interior – em cruz latina, com capela-mor larga e pouco funda, transepto, cruzeiro coberto por enorme cúpula, nave com vários tramos divididos por pilastras, entre as quais existem arcos encimados por tribunas, e coro a toda a largura, sustentado por uma abóbada muito abatida – lembra alguns edifícios lisboetas das eras pombalina e pós-pombalina, v.g., a basílica do Sagrado Coração de Jesus, à Estrela, ou a igreja de São Domingos, traçada por Manuel Caetano de Sousa.  
Povo e elites, paróquia, confrarias, município e até o Estado suportaram os enormes custos da edificação da hodierna igreja. Construção levantada de raiz, não deixou ela de aproveitar subsistências da antiga matriz. Tal reciclagem correspondeu não só à necessidade racionalizar os recursos disponíveis, mas também a uma atitude eclética, vigente nos tempos em que os trabalhos se iniciaram e desenvolveram, que aceitou e promoveu a inclusão em edifícios modernos  de elementos mais antigos.
Na actual estrutura vislumbram-se, pois, várias peças arquitectónicas e ornamentais mais antigas, como um arco maneirista na entrada do baptistério ou, talvez, uma escadaria manuelina numa das torres sineiras. O retábulo-mor, com ornamentação neomaneirista, é das peças mais recentes, tendo sido executado pouco depois de 1867, a partir de um risco do arquitecto lisboeta Manuel Afonso Rodrigues Pita. No transepto e na nave encontramos, contudo, obras anteriores, destacando-se o retábulo de Nossa Senhora do Rosário (1771) e o de São Pedro (hoje de São José, saído da mesma mão), bem como o do Senhor dos Passos ou das Almas (talvez de inícios do século XIX, mas modificado em 1885). O retábulo do Santíssimo Sacramento, em mármores, data de 1829, não devendo ser muito posterior aquele que se eleva no lado oposto, dedicado a Nossa Senhora do Carmo. Bastante mais recente é o de Nossa Senhora de Fátima, o qual, numa estética revivalista, imitou em 1954 o que lhe está fronteiro. As paredes laterais da capela-mor acolhem, por seu turno, um conjunto de pinturas figurativas, consequência das grandes obras promovidas na igreja entre 1945 e 1950. Tirando o Regresso do Filho Pródigo e o Repouso na Fuga para o Egipto, saídos do pincel anacrónico de Luísa Salema Cordeiro e Alice Gordo Barata, respectivamente, todas as restantes foram executadas entre 1952 e 1953 por Adolfo Bugalho, mostrando uma estética menos apegada ao passado. São especialmente interessantes aquelas que ilustram o versículo 2 do Salmo 42 (41) e o versículo 17 do capítulo 19 do Evangelho segundo São Mateus.
Esta igreja acolhe uma numerosa colecção de obras de arte sagrada, parte delas integradas na reserva visitável denominada Museu de Arte Sacra Cón.º Albano Vaz Pinto. Com peças que vão dos finais da Idade Média ao século XX, aí se salientam várias esculturas pétreas: Santa Maria da Devesa (século XV, acaso da órbita do escultor coimbrão João Afonso); uma Trindade quatrocentista; um Santiago Peregrino da mesma época; um Santo não identificado, do mesmo autor que esculpiu um Santo André do Museu Nacional de Arte Antiga; um mutilado São Lourenço (talvez de João de Ruão); um decapitado São Pedro e um São Roque, ambos já de Quinhentos. Entre as obras lígneas, merecem referência a barroca Sacra Parentela, uma Nossa Senhora do Loreto (saída no primeiro quartel do século XVIII das mãos dos calipolenses Francisco Freire e Manuel de Oliveira), além da série de Santos da Ordem Terceira de São Francisco, cujas cabeças denotam a intervenção de muito boa oficina lisboeta da segunda metade de Setecentos.
           


Bibliografia fundamental:
DIAMANTINO SANCHES TRINDADE, Castelo de Vide – Subsídios para o Estudo da Arqueologia Medieval, Lisboa, Assembleia Distrital de Portalegre, 1979; DIAMANTINO SANCHES TRINDADE, Castelo de Vide – Arquitectura Religiosa, I, 2.ª ed., Lisboa, Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1989; PEDRO CID, As Fortificações Medievais de Castelo de Vide, Lisboa, Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, [2005]; ROSÁRIO SALEMA DE CARVALHO, Igreja de Santa Maria da Devesa, Matriz de Castelo de Vide, [Castelo de Vide], Câmara Municipal de Castelo de Vide, 2006; CÉSAR VIDEIRA, Memoria Historica de Muito Notavel Villa de Castello de Vide, 3.ª ed., Lisboa, Edições Colibri-Universidade de Évora, Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades, 2008; PATRÍCIA ALEXANDRA RODRIGUES MONTEIRO, A Pintura Mural no Norte Alentejo (Séculos XVI a XVIII: Núcleos Temáticos da Serra de S. Mamede, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2012 (dissertação de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa); RUY VENTURA, A Vide e o seu Castelo – Notas sobre a Toponímia, a História e a Heráldica de Castelo de Vide, Évora-Castelo de Vide, Editora Licorne – Grupo de Amigos de Castelo de Vide, [2016].


quarta-feira, 25 de julho de 2018



MILAGRE QUE FEZ
Ex-voto do Senhor dos Aflitos reaparece
mais de 40 anos depois de “perdido”


         Nunca estaremos suficientemente gratos aos coleccionadores de arte sacra do nosso país. Pensemos o que pensarmos sobre o seu amor às peças que foram e vão juntando ao longo de uma vida, quantas vezes com sacrifício pessoal, temos de reconhecer que graças à sua actividade se salvaram e salvam muitas obras da nossa cultura. Essa gratidão deve ser ainda maior quando, em determinado momento da sua vida, se sentiram na obrigação de devolver as peças adquiridas ao usufruto público, cedendo-as ou vendendo-as a museus ou a outras instituições que, de algum modo, continuaram e/ou continuam a sua devoção àqueles objectos, onde as mãos dos criadores humanos tentaram expressar a sua interpretação da palavra de Deus, da religiosidade humana ou das figuras e narrativas que, ao longo de séculos, edificaram a história religiosa de Portugal e de outras paragens. Nunca é demais lembrar as palavras do Papa Francisco que, num livro intitulado “La Mia Idea di Arte” (infelizmente indisponível em português), sublinha o papel evangelizador da pintura, da escultura, da arquitectura, da música e de outras artes, ao serem, mais do que muitos discursos teológicos, vias eloquentes de interpretação da revelação apostólica. Essa sua capacidade não se esbate nem desaparece quando as peças, levadas por circunstâncias diversas, saem dos edifícios religiosos. Tornam-se antes vias especiais que continuam a levar, subtilmente, mesmo aos descrentes, a mensagem divina.
         Não podemos esquecer o quanto devemos agradecer aos coleccionadores “de santos”. Sem eles, muito património ter-se-ia perdido, levado pela ignorância e pela arrogância dos homens (clérigos e leigos), pela ambição e pela estupidez que moveu tantas épocas da nossa História, pelas “modas” que, frequentemente, lançaram para a poeira das arrecadações das igrejas esculturas, pinturas, livros, alfaias e outros objectos valiosíssimos e belíssimos, só porque não correspondiam aos padrões “estéticos” daqueles que eram os seus fiéis depositários. Dizia-me há anos um importante responsável eclesiástico do nosso país que, “muitas vezes, até os ladrões valorizam mais as peças que a Igreja possui do que muitos dos seus detentores, cuja única preocupação é vender ou atirar para o lixo o que parece velho e inadequado à sua miopia ou mandar repintar nos santeiros de Braga e de Fátima as peças que os nossos antepassados nos legaram…” Acrescentava: “Pelo menos os ladrões e os coleccionadores dão valor ao que temos…”
         Na altura, as suas palavras deixaram-me sem resposta e puseram-me a pensar. Embora reconhecendo as várias excepções que há pelo país, cujo mérito nunca será demais realçar (sobretudo perante os que agem de outro modo, vandalizando o que no fundo não lhes pertence), vi-me obrigado a concordar com esse prelado. E, cá entre nós, o tempo tem-lhe dado razão.
         Homens como José Régio, Ruy Sequeira, Ernesto Vilhena e alguns mais cumpriram um papel importantíssimo na nossa cultura. Podemos discutir os seus métodos e o seu sentido de oportunidade, o cuidado que nem sempre tiveram no registo da proveniência das obras de arte que foram comprando, mas temos de nos vergar à lógica da sua actuação e à maneira como, depois, devolveram o património ao público mais ou menos crente. Se nem todas as instituições a quem legaram ou venderam as suas colecções se mostram dignas desse património recebido, é outra conversa que não cabe neste artigo. Pensemos nas que têm trabalhado de outro modo, dando bons exemplos, como o Museu Nacional de Arte Antiga, a Casa-Museu José Régio, a Casa-Museu Padre Belo, o Museu da Consolata em Fátima ou a Fundação Robinson.

*

         Vem esta introdução a propósito de uma peça portalegrense recentemente redescoberta pelo autor deste artigo. Trata-se de um dos ex-votos pertencentes ao espólio do Santuário do Senhor Jesus dos Aflitos, situado na paróquia de São Domingos dos Fortios, no concelho de Portalegre.
         Local de culto nascido por volta de 1713 à sombra de uma pequena cruz de madeira, onde foi pintada a figura de Cristo paciente e sofredor, é ainda hoje um eixo da religiosidade do Alto Alentejo, movendo devotos e peregrinos, sobretudo no dia da sua festa, actualmente celebrada no início de Maio. O trabalho meticuloso e incansável do Cónego Bonifácio Bernardo tem permitido aos interessados um conhecimento pormenorizado da sua história, cuja leitura enriquece o nosso entendimento das múltiplas dimensões da vida dessa parte de Portugal nos últimos trezentos anos. É imprescindível ler o seu livro “Senhor Jesus dos Aflitos, Origens – 1713-1845” (Edições Colibri, 2000), sendo ainda muito importante consultar outro volume em que editou um parte da documentação do santuário; prevê-se para breve um terceiro – e com impaciência o aguardamos.
         Entre o património dessa igreja, situada numa herdade, entre sobreiros, avulta a sua colecção de ex-votos, pequenos quadros gratulatórios oferecidos ao longo de séculos pelos devotos, manifestando e dando graças pelos prodígios que viveram por intercessão do Senhor. O conjunto não tem a dimensão dos que se podem admirar no Senhor Jesus da Piedade (Elvas), na Senhora do Carmo (Azaruja, Évora) ou na Senhora d’ Aires (Viana do Alentejo), mas ultrapassando a meia centena são um importante testemunho artístico, antropológico, sociológico e religioso da devoção secular. Podem hoje ser admirados por quem se disponha a folhear o catálogo da exposição itinerante “Imagens de Fé”, promovida pela Diocese de Portalegre – Castelo Branco; o conjunto portalegrense foi, aliás, o motor dessa mostra. Se a exposição não se preocupou com o enquadramento histórico das peças (o que se lamenta), tal não diminui de modo algum o seu valor e oportunidade.
         Desde há algumas décadas que se sabia, contudo, que faltava à colecção dos Aflitos um dos seus mais interessantes ex-votos, ainda do século XVIII. Observado e registado pela investigadora Maria Tavares Transmontano, que copiou e publicou a sua inscrição na sua “Monografia de Portalegre” (1997), terá levado descaminho entre 1965 e 1975. Era dado como perdido, sem se saber sequer se o desaparecimento seria devido a roubo ou a venda indevida. Nem uma foto ficara dele…
         Há poucos dias, folheando o volumoso catálogo intitulado “Christus”, editado no Porto pela Irmandade dos Clérigos como veículo de divulgação da colecção de imagens de Cristo que agora aí se expõem, após doação da colecção do Dr. António Miranda, deparei-me na página 171 com o ex-voto desaparecido do Santuário do Senhor dos Aflitos. Calcularão o que sentiu este investigador e defensor do património religioso da sua terra e de outras terras…
         Registado com o número de inventário ICP 1576, tem 24,6 cm de altura por 39,4 de largura. É uma pintura a óleo sobre madeira, datada de 1777, com a seguinte inscrição (sou fiel à ortografia original): “Milagre que fes o Senhore dos Afelitos a Francico Antonio que foi cazeiro na erdade do Alcade que sendo acometido por hum lobo deramado este ce lhe lancou aos peitos de que resultou o bradar pelo Senhore dos Aflitos imediatamente o dito lobo se retirou ficando o dito devoto sem nen huma lezaõ foi feito este milagre no anno de 1777”. A mão, popular, que executou esta obra foi também autora de outras pinturas existentes no Santuário, tendo inclusive repintado os ex-votos mais antigos.
         Impõem-se, agora, todas as necessárias diligências para que o seu volte ao seu dono e o “prodígio” se complete. A Paróquia dos Fortios e a Diocese não deixarão morrer decerto o assunto. Sabemos agora onde está e quem lá o depositou. Só não sabemos como chegou às mãos do coleccionador…
         Tantos anos depois, bem podem os portalegrenses dizer como escreviam os antigos autores dessas pinturinhas: “Milagre que fez o Senhor dos Aflitos…”


RUY VENTURA
(Artigo publicado no jornal "Alto Alentejo", nº. 584, de 25 de Julho/2018.)

domingo, 29 de outubro de 2017



Em defesa do património religioso
 
– agir é preciso... E depressa!


Foi há um par de anos. Entrei na loja de uns missionários em Fátima, uma das maiores do centro da localidade. Falando com um familiar de uma peça de arte sacra antiga a precisar de conservação competente (hoje felizmente bem restaurada, com critérios éticos e científicos), fui prontamente interpelado pela empregada do estabelecimento. Solícita, sem grande noção das conveniências, interrompeu a conversa e atirou, de arrancada: “Se quiser, temos um senhor muito jeitoso que a põe como nova...”
Percebi que a senhora me confundira com um sacerdote. Fiquei estupefacto, respondi de forma evasiva, mas fiquei a pensar: “Quem resiste a estas abordagens se não tiver ética, educação, juízo, pudor ou um bispo com mão de ferro e sabedoria de um diplomata? Quem?”
Multiplicam-se pelo nosso país casos de raspagem e repinte de esculturas e retábulos das nossas paróquias, de vandalismo aplicado a telas, tábuas e pinturas murais centenárias. São peças importantes do património espiritual dos crentes e, também, elementos inalienáveis da nossa memória coletiva. São obras de arte e criações inspiradas e, como tal, merecem o mais escrupuloso respeito. Outra coisa não diz, aliás, o Direito Canónico. A situação a que chegámos é todavia muito grave, mesmo que vejamos alguns exemplos de boas práticas, pontuais e minoritários, que não escondem a “selva” que por aí vai, do Algarve ao Alto Minho, com exemplos recentes de perigoso retrocesso.
Enquanto tivermos como fiéis depositários do património religioso pessoas que, à parte a sua competência pastoral, revelam (como autarcas deslumbrados ou construtores civis siderados) uma ânsia incontrolável, querendo “deixar obra” construída, esculpida ou pintada a todo o custo, continuaremos a assistir atónitos à destruição do nosso património artístico e espiritual. Enquanto se manifestar um insaciável voluntarismo que olha para as obras de arte como objectos utilitários sem valor intrínseco e não como manifestações materiais, visíveis, de Deus connosco, continuaremos a testemunhar um vandalismo cujos agentes, ainda por cima, se apresentam com ares de esteticistas ou maquilhadoras de bairro pobre. Enquanto quem de direito não agir com rapidez, ciência e firmeza, parando os desmandos que violam as leis do País e o Código do Direito Canónico, ou deixando mesmo de colaborar com eles, continuaremos a multiplicar os lamentos por um património perdido, quiçá para sempre.
Não será tempo de todos nós – investigadores, conservadores-restauradores, museólogos, amantes da arte, sacerdotes com sabedoria, fiéis com ética e estética, simples amantes do património – fazermos algo além dos simples comentários no “feicebuque”? Se o não fizermos, talvez seja tarde. E não valerá a pena tecermos mais tarde um rol de lamentações.

Artigo publicado nos jornais "Diário do Alentejo" (Beja), "Alto Alentejo" (Portalegre) e "Raio de Luz" (Sesimbra).

sábado, 7 de outubro de 2017




CASTELO DE VIDE
CONVENTO DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

"Tem esta villa Convento dos Recoletos de sam Francisco fumdado e dotado por Gaspar de Mattos e sua Mulher Brites de Mattos da principal nobreza desta Villa e derão para o dito convento se fazer as suas Cazas e para Cerca a sua quinta em 14 de Março de 1584 por declaração que elle foy fazer á câmara em 20 de Outubro tornou a câmara a declarar dava mais 400 000 digo quatrocentos mil reis á quinta se chamava da Conceição e sobre a porta tinha huma Imagem desta senhora daqui tomou o nome e orago o dito convento e sobre a porta da Igreja está a mesma Imagem que estava na porta da quinta; deixou gaspar de Mattos o padroado a seu sobrinho Diogo Cardozo de Mattos há certas penções em seu testamento que não aprovou e por sua morte houve contenda entre ouito sobrinhos e se anulou seu testamento e os Religiozos tomarão por padrueira a Camara desta Villa em segunda feira 20 de Mayo de 1589 se lançou a primeira pedra na obra em 2 de Agosto de 1592 se disse a primeira missa tem a Igreja sinco altares a couza mais notável que há neste convento he hum retrato e Imagem verdadeira de Cristo a qual está fixada na porta do sacrario a qual trouse de Roma Frey Diogo sarrano Mouzinho //  [...] Frade Clau[s]tral a pintura he de adimiravel primor em lamina de cobre e por baxo tem huma inscrição com letras de ouro que dis o seguinte = Retrato, e Imagem verdadeira de IESUS Christo salvador e senhor nosso o qual foy tirada de Amiralda pello Gram Turco e mandado de prezente ao Papa Innocencio VIII para efeito de resgatar hum hirmão que tinha cativo."

Padre Manuel Carrilho Gil
Memória Paroquial da Freguesia de São João Baptista
(Memória n.º 222, volume 10, folhas 1461 - 1476)

sábado, 8 de julho de 2017



RAÍZES DE ALGUNS SANTUÁRIOS 
DO NORTE ALENTEJANO

A minha comunicação deste ano no Congresso Internacional "Terras de Endovélico" será sobre as origens antigas dalguns santuários do Norte Alentejano, partindo das lendas a eles associadas e analisando alguns vestígios materiais que aí se podem observar. Decidi escolher sete que apresento em fotografia. Usarei da palavra no sábado, dia 15, pelas 16 horas, no Centro Cultural do Alandroal, município organizador deste evento já com tradição na cultura alentejana, nacional e ibérica.
Serão apresentados e estudados os seguintes santuários:
* Fraguil (Carreiras - Portalegre);
* Senhora da Redonda (Alpalhão - Nisa);
* Senhora da Penha (Castelo de Vide);
* Senhora da Estrela (Marvão);
* São Cristóvão (Portalegre);
* São Sebastião (Carreiras - Portalegre);
* e São Domingos (Fortios - Portalegre).


Imagens de Nossa Senhora veneradas no Norte Alentejano e abordadas por Frei Agostinho de Santa Maria:

I - Da imagem de Santa Maria do Castelo, venerada no Convento dos Agostinhos Descalços [em Portalegre] (trata-se, na realidade, da imagem de Santa Maria a Grande) - pp. 367 e 368

II - Da imagem de Nossa Senhora da Esperança [venerada na igreja paroquial de Ribeira de Nisa, antigo convento de frades capuchos] - pp. 368 a 371

III - Da milagrosa imagem de Nossa Senhora da Estrela da Vila de Marvão - pp. 371 a 384

IV - Da imagem de Nossa Senhora da Penha extra-muros da Cidade de Portalegre - pp. 384 a 387

V - Da milagrosa imagem de Nossa Senhora dos Milagres da Villa do Assumar - pp. 387 - 389

VI - Da milagrosa imagem de Nossa Senhora a Redonda de Alpalhão - pp. 389 a 391

VII - Da imagem de Nossa Senhora da Graça de Nisa a Velha - pp. 391 a 394

VIII - Da imagem de Nossa Senhora dos Prazeres ou da Esperança [Nisa a Velha] - pp. 395 a 398

IX - Da imagem de Nossa Senhora da Luz, do Convento de Santo Agostinho de Arronches - pp. 398 a 401

X - Da imagem de Nossa Senhora da Livração, em Castelo de Vide - pp. 402 a 403

XI - Da imagem de Nossa Senhora da Alegria ou da Assunção [Portalegre] - pp. 403 a 405

XII - Da imagem de Nossa Senhora dos Remédios, do Convento de São Francisco [Portalegre] - pp. 406 a 407

XIII - Da antiga imagem de Nossa Senhora da Vitória que se venera na paróquia de Sant' Iago da Cidade de Portalegre - pp. 407 a 412


Outra imagens marianas do Norte Alentejano abordadas no Santuário Mariano:

I - Da história de Nossa Senhora de Flor da Rosa, do Crato - pp. 416 a 420

II - Da miraculosa imagem de Nossa Senhora da Piedade ou de Rodes na Vila do Crato - pp. 421 a 422

III - Da milagrosa imagem de Nossa Senhora da Sanguinheira, em a Vila da Amieira - pp. 428 a 432





quarta-feira, 5 de abril de 2017



OBRAS NA IGREJA 
DE SÃO DOMINGOS DOS FORTIOS (PORTALEGRE)

Chegou ao meu conhecimento que é desta que as ruínas da igreja de São Domingos, matriz da paróquia de Fortios, no concelho de Portalegre, vão ser reedificadas, após mais de 90 anos de abandono. Só posso estar contente!
A recuperação contemplará, decerto, a escavação das ruínas romanas e paleocristãs que estão por debaixo do solo, bem como a recuperação da pintura mural ainda de inícios dos século XVI, das mais antigas da região. Confio que assim será! De outra maneira, não se respeitaria o património aí existente. O padre Américo Agostinho, a Comissão Diocesana de Arte Sacra e o Senhor Dom Antonino Dias trabalharão decerto nesse sentido, conscientes que estão do valor do imóvel, da suas história e do tesouro arqueológico que lhe subjaz.




Para mais informações, sugiro a leitura do meu artigo: http://nortealentejano.blogspot.pt/2016/08/sao-domingosdos-fortios-uma-igreja.html

RUY VENTURA

sábado, 17 de dezembro de 2016


O coordenador deste blogue 
deseja a todos os leitores e amigos 
do "Arquivo do Norte Alentejano"
um Santo Natal!

(Na imagem: "São João Baptista, Nossa Senhora e São José veneram o Menino Jesus adormecido", 
pintura do século XVII atribuída ao artista portalegrense José Carvalho,
existente na igreja matriz de Castelo de Vide.)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016



SÃO DOMINGOS DOS FORTIOS – UMA IGREJA A PRESERVAR

            Entre as várias dezenas de locais de culto cristão edificados no actual município de Portalegre, a igreja de São Domingos tem um estatuto especial. Abandonada e progressivamente arruinada desde há 90 anos a esta parte, continua a atrair a atenção da população local, dos investigadores e dos interessados pelo património religioso.
            Há razões para tal. Não podendo considerar-se um monumento cimeiro na arte nacional ou sequer regional, possui ainda assim elementos materiais e imateriais que a elevam a um estatuto ímpar, como edifício e como memória. Passadas nove décadas de erosão, bem merece um restauro e uma reedificação que respeitem todos os valores que a envolvem e que a ela estão subjacentes. Decerto não se descobrirá aí “o maior tesouro junto que há no mundo” nem “os dous sinos muito grandes enterrados ao pé de uma figueira alvar, cheios de ouro amoedado”. O tesouro é outro – e deve ser preservado custe o que custar.

*

            A igreja de São Domingos, matriz de Fortios, situa-se a curta distância do cemitério da localidade, sobrepondo-se a um conjunto de ruínas que, decerto, remontam à época luso-romana. É ainda hoje fácil encontrar nas suas redondezas materiais de superfície desses tempos e aí foram descobertas pelo menos duas inscrições em caracteres latinos. Uma delas, datável do século I d. C., muito mutilada e hoje desaparecida em local incerto do Museu Nacional de Arqueologia, está estudada e pertencerá a uma estela funerária de um escravo liberto. A segunda, ainda no local, tem gerado grandes dúvidas de leitura (“um texto assaz sibilino”, escreveu José d’ Encarnação): estando escrita no alfabeto latino, apresenta uma expressão púnica (língua falada pelos indígenas) que indica a existência no local de uma albergaria (o que está de acordo tanto com a passagem pelas proximidades de uma via romana quanto com alguns topónimos locais, com a mesma origem semita).
            As estruturas existentes no local – há alguns séculos decerto mais visíveis do que agora – intrigaram certamente quem as vislumbrava. Chegou-se a localizar aí a cidade de Ammaia, por causa das “grandes ruínas de edifícios antigos e muitas pedras de cantaria lavradas”, que foram interpretadas como “povoação grande” (Pe. Sotto Maior, 1616) ou, em alternativa, “algum Comvento” (Pe. Freire Tavares, 1758). Há depois, ainda hoje, vestígios pétreos no edifício indicando que aos edifícios luso-romanos deve ter sucedido alguma igreja (paleo-cristã, visigótica ou moçárabe), anterior portanto à nossa nacionalidade. O orago São Domingos é assim estranho à vista destes dados: ou se deve a uma substituição ocorrida nos séculos XIII ou XIV ou, então, resulta da metamorfose do nome de uma divindade anterior ao cristianismo.

*



            A igreja que hoje conhecemos, apesar de abandonada e meio-arruinada, permite-nos entender o que foi a sua evolução a partir de finais do século XV. Deve resultar da reconstrução total do edifício anterior à Reconquista Cristã em época indeterminada.
            Se tivermos em conta o tamanho da capela-mor, o templo não deveria ser grande, sendo com toda a certeza apenas dotado de uma pequena nave e, talvez, de uma não maior sacristia. Nessa capela guardam-se ainda vestígios de pelo menos duas fases decorativas, em pintura mural: um retábulo fingido que deverá ser ainda de finais da Idade Média ou de inícios do século XVI (sendo um dos exemplos mais antigos deste tipo de arte na região, fazendo par com o retábulo da igreja de Santa Maria de Marvão); e uma decoração em esgrafito, imitando silhares de pedra, que será do período compreendido entre 1560 e 1575. Sobre esta decoração, foi instalado em data indeterminada – mas decerto já no último quartel do século XVII ou inícios de setecentos – um retábulo de marcenaria, pintura e escultura, hoje perdido, mas de que restam duas tábuas (S. Bento e Sta. Maria Madalena, tendo desaparecido uma com S. Miguel), atribuíveis ao pincel do pintor portalegrense José Carvalho.
            Não sabemos em que data a igreja de Fortios – a que “os mouros chama[va]m S. Domingos da Penha”, como refere o Pe. Diogo Sotto Maior – passou a ter estatuto paroquial. O manancial de informação recolhido no excelente livro do Cónego Bonifácio Bernardo (cuja leitura recomendo vivamente) indica-nos apenas que desde 1501 os sacramentos eram administrados pelo pároco de Sta. Maria do Castelo de Portalegre, sendo provável que a freguesia tenha sido criada por volta de 1575.
            Não sabemos ainda em que data a igreja passou a ter a largura que ainda hoje se verifica nem quando se instalaram os altares colaterais dedicados a São João Baptista e a Nossa Senhora do Rosário (antes com o título do Socorro). É provável que tenha sido nesse último quartel de quinhentos ou já no século XVII, inícios, altura em que se deu algum investimento artístico, visível por exemplo na interessante imagem de Nossa Senhora com Menino, em pedra, proveniente das oficinas de Coimbra dessa época. Terá sido nesse período que a parede sobre os retábulos secundários e o arco da capela-mor recebeu pintura mural, que surge por debaixo da cal. Em 1758 a sua aparência era a seguinte:
            “[…] [tem] três altares, maior e colaterais; no maior uma Imagem sagrada de Cristo na Cruz, ao lado do Evangelho [São Domingos], ao da Epístola santo António. O colateral do lado direito tem Nossa Senhora do Rosário em pedra mármore, aos lados o Salvador do Mundo e são Macário; e o do esquerdo São João Baptista e ao lado direito são Miguel. A capela-mor está de abóbada, e o mais corpo da Igreja se sustenta em duas colunas de pedra de cantaria, e sobre elas e grosso das paredes quatro traves, que pelo modo com que estão dividem a Igreja em três naves […]”
            Na segunda metade do século XVIII, os altares colaterais receberam dois retábulos tardo-barrocos de alvenaria pintada (que deverão ser preservados em futura reconstrução, pois são bom exemplo de uma arte muito difundida, hoje estudada com atenção pelos historiadores de arte). Já no século XIX, meados, foram retiradas as colunas que dividiam a igreja, tornando-a mais ampla; nessa época, recebeu a igreja várias imagens de santos, valiosas, provenientes de conventos extintos em Portalegre, nomeadamente do convento de Santo António. A fachada, dotada de pórtico de volta perfeita, em cantaria, datável de finais do século XVI, possuía apenas um campanário. Só muito tardiamente recebeu uma torre sineira.
            Em mau estado de conservação, as diligências do pároco da época não conseguiram impedir a sua derrocada parcial em 1925 e a transferência da sede paroquial para a pequena e insuficiente igreja de São Sebastião, situada na aldeia dos Fortios. Houve tentativas de reconstrução logo em 1926/27, chegando a ser reedificada e alteada a torre, em 1929. O facto é que todas as diligências se goraram e noventa anos depois continua numa triste ruína.
            Espera-se que o futuro lhe traga melhores dias. Se tal reconstrução ocorrer, como se deseja, ela deve respeitar e restaurar todos elementos patrimoniais artísticos ainda subsistentes, com a intervenção de técnicos especializados, devidamente certificados. Será ainda uma boa ocasião para a arqueologia escavar tão rico local. Certamente não perderá o seu tempo.


Ruy Ventura
(artigo publicado no jornal "Alto Alentejo")

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014


Programa da Agência Ecclesia (transmitido na RTP2)
sobre o património religioso de Castelo de Vide
e o seu convento de Nossa Senhora da Conceição.

Programa na Agência Ecclesia, transmitido pela RTP2.
Intervenção de Ruy Ventura sobre a história do convento da Senhora da Estrela, de Marvão.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014







Escusa (Marvão),
algumas imagens do seu património religioso aqui:
 http://no-cantinhodaescusa.blogspot.pt/2011/09/festa-de-st-antonio-na-escusa-2011.html

segunda-feira, 15 de julho de 2013


 
 
SANTO ANTÓNIO
NA REGIÃO DE PORTALEGRE
de Ruy Ventura
 
 
 
 
Desde finais do século XIX que Santo António é padroeiro da cidade e da diocese de Portalegre. Esta consagração veio culminar uma devoção enraizada pelo menos desde finais da Idade Média. A sua propagação terá sido facilitada pela presença na região, desde o século XIII, de um conjunto de comunidades franciscanas e pelos ditames emanados da Contra-Reforma tridentina.
Apesar destes dados, constata-se que a devoção ao santo lisboeta é sobretudo de índole popular. Em comunidades agro-pastoris ou urbanas, Fernando de Bulhões concentrou em si várias valências taumatúrgicas, concorrendo com outras devoções e substituindo inclusivé algumas delas (Santo Antão, por exemplo).
Nos concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre esta veneração deu origem a um conjunto muito interessante de tradições, textos e obras de arte que se apresentam e analisam no livro agora publicado.
 
 


 
No decurso da apresentação, no passado dia 13 de Julho de 2013, do meu livro Santo António na região de Portalegre, cumpre-me agradecer a presença das muitas dezenas de pessoas que tiveram a amabilidade de assistir a este acto de rememoração e homenagem ao padroeiro da cidade e da diocese de Portalegre e Castelo Branco. Entre os presentes, permito-me destacar D. Antonino Dias, prelado diocesano, a Dra. Adelaide Teixeira, presidente da Câmara Municipal, e o Prof. Dr. António Camões Gouveia, coordenador científico da Fundação Robinson. Devo ainda referir o cónego Bonifácio Bernardo, deão do Cabido da Sé, bem como os drs. José Pinto Leite, Jaime Azedo e Luís Pargana, além de outros investigadores, amigos e familiares que não listo, pois estão num lugar alto que não precisa de menção verbal. Terminando, quero ainda expressar a minha gratidão emocionada pelas palavras que me foram dirigidas pelas escritoras Maria Guadalupe Alexandre e Maria Tavares Transmontano, minhas conterrâneas de Carreiras.





Todos os interessados na leitura do meu livro "Santo António na região de Portalegre" que não conseguiram um exemplar na sessão de lançamento, poderão pedi-lo à Fundação Robinson, pelo email fund.rob@cm-portalegre.pt. Caso não o consigam por esta via, dado que a edição é limitada, desde já comunico que em breve estará disponível em formato digital no sítio da entidade que o publicou.

O "download" do livro pode ser feito em: http://www.fundacaorobinson.pt/publicacao,69,399,detalhe.aspx

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

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