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quarta-feira, 25 de julho de 2018



MILAGRE QUE FEZ
Ex-voto do Senhor dos Aflitos reaparece
mais de 40 anos depois de “perdido”


         Nunca estaremos suficientemente gratos aos coleccionadores de arte sacra do nosso país. Pensemos o que pensarmos sobre o seu amor às peças que foram e vão juntando ao longo de uma vida, quantas vezes com sacrifício pessoal, temos de reconhecer que graças à sua actividade se salvaram e salvam muitas obras da nossa cultura. Essa gratidão deve ser ainda maior quando, em determinado momento da sua vida, se sentiram na obrigação de devolver as peças adquiridas ao usufruto público, cedendo-as ou vendendo-as a museus ou a outras instituições que, de algum modo, continuaram e/ou continuam a sua devoção àqueles objectos, onde as mãos dos criadores humanos tentaram expressar a sua interpretação da palavra de Deus, da religiosidade humana ou das figuras e narrativas que, ao longo de séculos, edificaram a história religiosa de Portugal e de outras paragens. Nunca é demais lembrar as palavras do Papa Francisco que, num livro intitulado “La Mia Idea di Arte” (infelizmente indisponível em português), sublinha o papel evangelizador da pintura, da escultura, da arquitectura, da música e de outras artes, ao serem, mais do que muitos discursos teológicos, vias eloquentes de interpretação da revelação apostólica. Essa sua capacidade não se esbate nem desaparece quando as peças, levadas por circunstâncias diversas, saem dos edifícios religiosos. Tornam-se antes vias especiais que continuam a levar, subtilmente, mesmo aos descrentes, a mensagem divina.
         Não podemos esquecer o quanto devemos agradecer aos coleccionadores “de santos”. Sem eles, muito património ter-se-ia perdido, levado pela ignorância e pela arrogância dos homens (clérigos e leigos), pela ambição e pela estupidez que moveu tantas épocas da nossa História, pelas “modas” que, frequentemente, lançaram para a poeira das arrecadações das igrejas esculturas, pinturas, livros, alfaias e outros objectos valiosíssimos e belíssimos, só porque não correspondiam aos padrões “estéticos” daqueles que eram os seus fiéis depositários. Dizia-me há anos um importante responsável eclesiástico do nosso país que, “muitas vezes, até os ladrões valorizam mais as peças que a Igreja possui do que muitos dos seus detentores, cuja única preocupação é vender ou atirar para o lixo o que parece velho e inadequado à sua miopia ou mandar repintar nos santeiros de Braga e de Fátima as peças que os nossos antepassados nos legaram…” Acrescentava: “Pelo menos os ladrões e os coleccionadores dão valor ao que temos…”
         Na altura, as suas palavras deixaram-me sem resposta e puseram-me a pensar. Embora reconhecendo as várias excepções que há pelo país, cujo mérito nunca será demais realçar (sobretudo perante os que agem de outro modo, vandalizando o que no fundo não lhes pertence), vi-me obrigado a concordar com esse prelado. E, cá entre nós, o tempo tem-lhe dado razão.
         Homens como José Régio, Ruy Sequeira, Ernesto Vilhena e alguns mais cumpriram um papel importantíssimo na nossa cultura. Podemos discutir os seus métodos e o seu sentido de oportunidade, o cuidado que nem sempre tiveram no registo da proveniência das obras de arte que foram comprando, mas temos de nos vergar à lógica da sua actuação e à maneira como, depois, devolveram o património ao público mais ou menos crente. Se nem todas as instituições a quem legaram ou venderam as suas colecções se mostram dignas desse património recebido, é outra conversa que não cabe neste artigo. Pensemos nas que têm trabalhado de outro modo, dando bons exemplos, como o Museu Nacional de Arte Antiga, a Casa-Museu José Régio, a Casa-Museu Padre Belo, o Museu da Consolata em Fátima ou a Fundação Robinson.

*

         Vem esta introdução a propósito de uma peça portalegrense recentemente redescoberta pelo autor deste artigo. Trata-se de um dos ex-votos pertencentes ao espólio do Santuário do Senhor Jesus dos Aflitos, situado na paróquia de São Domingos dos Fortios, no concelho de Portalegre.
         Local de culto nascido por volta de 1713 à sombra de uma pequena cruz de madeira, onde foi pintada a figura de Cristo paciente e sofredor, é ainda hoje um eixo da religiosidade do Alto Alentejo, movendo devotos e peregrinos, sobretudo no dia da sua festa, actualmente celebrada no início de Maio. O trabalho meticuloso e incansável do Cónego Bonifácio Bernardo tem permitido aos interessados um conhecimento pormenorizado da sua história, cuja leitura enriquece o nosso entendimento das múltiplas dimensões da vida dessa parte de Portugal nos últimos trezentos anos. É imprescindível ler o seu livro “Senhor Jesus dos Aflitos, Origens – 1713-1845” (Edições Colibri, 2000), sendo ainda muito importante consultar outro volume em que editou um parte da documentação do santuário; prevê-se para breve um terceiro – e com impaciência o aguardamos.
         Entre o património dessa igreja, situada numa herdade, entre sobreiros, avulta a sua colecção de ex-votos, pequenos quadros gratulatórios oferecidos ao longo de séculos pelos devotos, manifestando e dando graças pelos prodígios que viveram por intercessão do Senhor. O conjunto não tem a dimensão dos que se podem admirar no Senhor Jesus da Piedade (Elvas), na Senhora do Carmo (Azaruja, Évora) ou na Senhora d’ Aires (Viana do Alentejo), mas ultrapassando a meia centena são um importante testemunho artístico, antropológico, sociológico e religioso da devoção secular. Podem hoje ser admirados por quem se disponha a folhear o catálogo da exposição itinerante “Imagens de Fé”, promovida pela Diocese de Portalegre – Castelo Branco; o conjunto portalegrense foi, aliás, o motor dessa mostra. Se a exposição não se preocupou com o enquadramento histórico das peças (o que se lamenta), tal não diminui de modo algum o seu valor e oportunidade.
         Desde há algumas décadas que se sabia, contudo, que faltava à colecção dos Aflitos um dos seus mais interessantes ex-votos, ainda do século XVIII. Observado e registado pela investigadora Maria Tavares Transmontano, que copiou e publicou a sua inscrição na sua “Monografia de Portalegre” (1997), terá levado descaminho entre 1965 e 1975. Era dado como perdido, sem se saber sequer se o desaparecimento seria devido a roubo ou a venda indevida. Nem uma foto ficara dele…
         Há poucos dias, folheando o volumoso catálogo intitulado “Christus”, editado no Porto pela Irmandade dos Clérigos como veículo de divulgação da colecção de imagens de Cristo que agora aí se expõem, após doação da colecção do Dr. António Miranda, deparei-me na página 171 com o ex-voto desaparecido do Santuário do Senhor dos Aflitos. Calcularão o que sentiu este investigador e defensor do património religioso da sua terra e de outras terras…
         Registado com o número de inventário ICP 1576, tem 24,6 cm de altura por 39,4 de largura. É uma pintura a óleo sobre madeira, datada de 1777, com a seguinte inscrição (sou fiel à ortografia original): “Milagre que fes o Senhore dos Afelitos a Francico Antonio que foi cazeiro na erdade do Alcade que sendo acometido por hum lobo deramado este ce lhe lancou aos peitos de que resultou o bradar pelo Senhore dos Aflitos imediatamente o dito lobo se retirou ficando o dito devoto sem nen huma lezaõ foi feito este milagre no anno de 1777”. A mão, popular, que executou esta obra foi também autora de outras pinturas existentes no Santuário, tendo inclusive repintado os ex-votos mais antigos.
         Impõem-se, agora, todas as necessárias diligências para que o seu volte ao seu dono e o “prodígio” se complete. A Paróquia dos Fortios e a Diocese não deixarão morrer decerto o assunto. Sabemos agora onde está e quem lá o depositou. Só não sabemos como chegou às mãos do coleccionador…
         Tantos anos depois, bem podem os portalegrenses dizer como escreviam os antigos autores dessas pinturinhas: “Milagre que fez o Senhor dos Aflitos…”


RUY VENTURA
(Artigo publicado no jornal "Alto Alentejo", nº. 584, de 25 de Julho/2018.)

quarta-feira, 5 de abril de 2017



OBRAS NA IGREJA 
DE SÃO DOMINGOS DOS FORTIOS (PORTALEGRE)

Chegou ao meu conhecimento que é desta que as ruínas da igreja de São Domingos, matriz da paróquia de Fortios, no concelho de Portalegre, vão ser reedificadas, após mais de 90 anos de abandono. Só posso estar contente!
A recuperação contemplará, decerto, a escavação das ruínas romanas e paleocristãs que estão por debaixo do solo, bem como a recuperação da pintura mural ainda de inícios dos século XVI, das mais antigas da região. Confio que assim será! De outra maneira, não se respeitaria o património aí existente. O padre Américo Agostinho, a Comissão Diocesana de Arte Sacra e o Senhor Dom Antonino Dias trabalharão decerto nesse sentido, conscientes que estão do valor do imóvel, da suas história e do tesouro arqueológico que lhe subjaz.




Para mais informações, sugiro a leitura do meu artigo: http://nortealentejano.blogspot.pt/2016/08/sao-domingosdos-fortios-uma-igreja.html

RUY VENTURA

sexta-feira, 5 de agosto de 2016



SÃO DOMINGOS DOS FORTIOS – UMA IGREJA A PRESERVAR

            Entre as várias dezenas de locais de culto cristão edificados no actual município de Portalegre, a igreja de São Domingos tem um estatuto especial. Abandonada e progressivamente arruinada desde há 90 anos a esta parte, continua a atrair a atenção da população local, dos investigadores e dos interessados pelo património religioso.
            Há razões para tal. Não podendo considerar-se um monumento cimeiro na arte nacional ou sequer regional, possui ainda assim elementos materiais e imateriais que a elevam a um estatuto ímpar, como edifício e como memória. Passadas nove décadas de erosão, bem merece um restauro e uma reedificação que respeitem todos os valores que a envolvem e que a ela estão subjacentes. Decerto não se descobrirá aí “o maior tesouro junto que há no mundo” nem “os dous sinos muito grandes enterrados ao pé de uma figueira alvar, cheios de ouro amoedado”. O tesouro é outro – e deve ser preservado custe o que custar.

*

            A igreja de São Domingos, matriz de Fortios, situa-se a curta distância do cemitério da localidade, sobrepondo-se a um conjunto de ruínas que, decerto, remontam à época luso-romana. É ainda hoje fácil encontrar nas suas redondezas materiais de superfície desses tempos e aí foram descobertas pelo menos duas inscrições em caracteres latinos. Uma delas, datável do século I d. C., muito mutilada e hoje desaparecida em local incerto do Museu Nacional de Arqueologia, está estudada e pertencerá a uma estela funerária de um escravo liberto. A segunda, ainda no local, tem gerado grandes dúvidas de leitura (“um texto assaz sibilino”, escreveu José d’ Encarnação): estando escrita no alfabeto latino, apresenta uma expressão púnica (língua falada pelos indígenas) que indica a existência no local de uma albergaria (o que está de acordo tanto com a passagem pelas proximidades de uma via romana quanto com alguns topónimos locais, com a mesma origem semita).
            As estruturas existentes no local – há alguns séculos decerto mais visíveis do que agora – intrigaram certamente quem as vislumbrava. Chegou-se a localizar aí a cidade de Ammaia, por causa das “grandes ruínas de edifícios antigos e muitas pedras de cantaria lavradas”, que foram interpretadas como “povoação grande” (Pe. Sotto Maior, 1616) ou, em alternativa, “algum Comvento” (Pe. Freire Tavares, 1758). Há depois, ainda hoje, vestígios pétreos no edifício indicando que aos edifícios luso-romanos deve ter sucedido alguma igreja (paleo-cristã, visigótica ou moçárabe), anterior portanto à nossa nacionalidade. O orago São Domingos é assim estranho à vista destes dados: ou se deve a uma substituição ocorrida nos séculos XIII ou XIV ou, então, resulta da metamorfose do nome de uma divindade anterior ao cristianismo.

*



            A igreja que hoje conhecemos, apesar de abandonada e meio-arruinada, permite-nos entender o que foi a sua evolução a partir de finais do século XV. Deve resultar da reconstrução total do edifício anterior à Reconquista Cristã em época indeterminada.
            Se tivermos em conta o tamanho da capela-mor, o templo não deveria ser grande, sendo com toda a certeza apenas dotado de uma pequena nave e, talvez, de uma não maior sacristia. Nessa capela guardam-se ainda vestígios de pelo menos duas fases decorativas, em pintura mural: um retábulo fingido que deverá ser ainda de finais da Idade Média ou de inícios do século XVI (sendo um dos exemplos mais antigos deste tipo de arte na região, fazendo par com o retábulo da igreja de Santa Maria de Marvão); e uma decoração em esgrafito, imitando silhares de pedra, que será do período compreendido entre 1560 e 1575. Sobre esta decoração, foi instalado em data indeterminada – mas decerto já no último quartel do século XVII ou inícios de setecentos – um retábulo de marcenaria, pintura e escultura, hoje perdido, mas de que restam duas tábuas (S. Bento e Sta. Maria Madalena, tendo desaparecido uma com S. Miguel), atribuíveis ao pincel do pintor portalegrense José Carvalho.
            Não sabemos em que data a igreja de Fortios – a que “os mouros chama[va]m S. Domingos da Penha”, como refere o Pe. Diogo Sotto Maior – passou a ter estatuto paroquial. O manancial de informação recolhido no excelente livro do Cónego Bonifácio Bernardo (cuja leitura recomendo vivamente) indica-nos apenas que desde 1501 os sacramentos eram administrados pelo pároco de Sta. Maria do Castelo de Portalegre, sendo provável que a freguesia tenha sido criada por volta de 1575.
            Não sabemos ainda em que data a igreja passou a ter a largura que ainda hoje se verifica nem quando se instalaram os altares colaterais dedicados a São João Baptista e a Nossa Senhora do Rosário (antes com o título do Socorro). É provável que tenha sido nesse último quartel de quinhentos ou já no século XVII, inícios, altura em que se deu algum investimento artístico, visível por exemplo na interessante imagem de Nossa Senhora com Menino, em pedra, proveniente das oficinas de Coimbra dessa época. Terá sido nesse período que a parede sobre os retábulos secundários e o arco da capela-mor recebeu pintura mural, que surge por debaixo da cal. Em 1758 a sua aparência era a seguinte:
            “[…] [tem] três altares, maior e colaterais; no maior uma Imagem sagrada de Cristo na Cruz, ao lado do Evangelho [São Domingos], ao da Epístola santo António. O colateral do lado direito tem Nossa Senhora do Rosário em pedra mármore, aos lados o Salvador do Mundo e são Macário; e o do esquerdo São João Baptista e ao lado direito são Miguel. A capela-mor está de abóbada, e o mais corpo da Igreja se sustenta em duas colunas de pedra de cantaria, e sobre elas e grosso das paredes quatro traves, que pelo modo com que estão dividem a Igreja em três naves […]”
            Na segunda metade do século XVIII, os altares colaterais receberam dois retábulos tardo-barrocos de alvenaria pintada (que deverão ser preservados em futura reconstrução, pois são bom exemplo de uma arte muito difundida, hoje estudada com atenção pelos historiadores de arte). Já no século XIX, meados, foram retiradas as colunas que dividiam a igreja, tornando-a mais ampla; nessa época, recebeu a igreja várias imagens de santos, valiosas, provenientes de conventos extintos em Portalegre, nomeadamente do convento de Santo António. A fachada, dotada de pórtico de volta perfeita, em cantaria, datável de finais do século XVI, possuía apenas um campanário. Só muito tardiamente recebeu uma torre sineira.
            Em mau estado de conservação, as diligências do pároco da época não conseguiram impedir a sua derrocada parcial em 1925 e a transferência da sede paroquial para a pequena e insuficiente igreja de São Sebastião, situada na aldeia dos Fortios. Houve tentativas de reconstrução logo em 1926/27, chegando a ser reedificada e alteada a torre, em 1929. O facto é que todas as diligências se goraram e noventa anos depois continua numa triste ruína.
            Espera-se que o futuro lhe traga melhores dias. Se tal reconstrução ocorrer, como se deseja, ela deve respeitar e restaurar todos elementos patrimoniais artísticos ainda subsistentes, com a intervenção de técnicos especializados, devidamente certificados. Será ainda uma boa ocasião para a arqueologia escavar tão rico local. Certamente não perderá o seu tempo.


Ruy Ventura
(artigo publicado no jornal "Alto Alentejo")

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Lenda do tesouro da igreja de São Domingos

(Fortios)



Versão de Fortios (Portalegre), recolhida em finais do século XVI ou princípios do século XVII por Diogo Pereira Sotto Maior (1984) – Tratado da Cidade de Portalegre, (introdução, leitura e notas de Leonel Cardoso Martins), Lisboa, INCM / Câmara Municipal de Portalegre: 42.



[M]e deixeram alguns velhos daqueles montes que se tem por tradição antiga haver naquele lugar (aquém os mouros chamam S. Domingos da Penha) o maior tesouro junto que há no mundo, porque afirmam estarem dous sinos muito grandes enterrados ao pé de ũa figueira alvar, cheios de ouro amoedado […].
Lenda da moura dos Fortios




Versão de Fortios (Portalegre), recolhida (em 1984) e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – Subsídios para uma Monografia de Portalegre, Portalegre, Câmara Municipal de Portalegre: 133 – 134.



Dizem que um moço, ao voltar do namoro, passou por uma velhinha com um tabuleiro de passas, que lhe disse:

- “Tire uma passinha.”

Ele recusou, ela insistiu, e ele tirou duas passas. Quando já tinha andado um bom bocado de caminho, lembrou-se de comer uma passa, mas ficou espantado ao encontrar duas moedas de ouro. Voltou ao sítio onde tinha encontrado a velha, e ali encontrou o tabuleiro com meio braço humano. Pensando no ouro levantou o meio braço, e então ouviu tantos gemidos e tão fortes, que faziam tremer o chão.

Largou-o cheio de medo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

ACLARAR A MEMÓRIA

Nos tempos mais recentes, a bibliografia do Norte Alentejano viu-se enriquecida com a publicação de novos livros que têm como característica comum (infelizmente nem sempre generalizada) permitirem entender melhor a sua identidade cultural em geral e, particularmente, a sua História. Depois de alguns volumes que foram oportunidades perdidas, pela falta de rigor e até pela alteração de documentos (para que se criassem fundamentos que servissem de base a teses improváveis), há que realçar edições oportunas e rigorosas.
Excluindo do rol alguns sobre os quais já tracei algumas linhas (como por exemplo o livro de Pedro Cid sobre as fortificações de Castelo de Vide e a monografia de Rosário Salema de Carvalho sobre a matriz dessa vila), permito-me destacar:
1. Memória Historica da Muito Notavel Villa de Castello de Vide, de César Videira, publicado originalmente em 1908, e que agora – cem anos depois – viu de novo as luzes da imprensa numa reedição anotada, revista e aumentada com base em notas do autor, fruto de um trabalho devotado e atento de Ana Patrício, Diogo Cordeiro, Francisco Sepúlveda Teixeira, Joaquim Neves de Carvalho, Rosário Salema de Carvalho e Pedro Sá;
2. As Forcas do Distrito de Portalegre, de Jorge de Oliveira e Ana Cristina Tomás, ainda de 2007, onde se apresenta uma faceta pouco agradável do nosso passado, mas de inegável interesse para a compreensão de uma parte importante do património arqueológico da região – a precisar, nalguns concelhos (como o de Portalegre), de levantamento e estudo sérios, de modo a destruir a inércia propositada que beneficia sobretudo quantos querem destrui-lo para mais facilmente construírem os seus “projectos urbanísticos” ou “turísticos”;
3. Marvão à mesa com a tradição, de Adelaide Martins, Emília Mena e Teresa Simão, publicado em 2008 com um esclarecedor prefácio do arqueólogo Jorge de Oliveira, oferecendo-nos, para além de um larguíssimo repositório das receitas de cozinha confeccionadas ao longo de séculos por uma população carenciada mas inteligente no aproveitamento dos recursos à sua disposição, um quadro realista do viver diário desse canto do Portugal raiano.



Mais recentemente, Bonifácio Bernardo, membro do cabido da Sé de Portalegre, publicou o livro Aldeia dos Fortios – Memória Histórica. Integra-se no rol das obras que enriquecem o nosso conhecimento da região. Nas suas 612 páginas não foge à abertura de hipóteses e à ousadia da interpretação, constituindo um autêntico arquivo de documentos que, decerto, incitarão outros investigadores a debruçarem-se sobre as matérias nele abordadas ou aí afloradas. Convenhamos: ao lado da criação artística, não haverá talvez tarefa mais meritória nos domínios do espírito do que a do reavivar da memória de um grupo humano, seja ele uma pequena comunidade ou um país. Nasce daí o maior mérito do cónego Bonifácio Bernardo, cujo rigor se manifesta mais uma vez, depois de um também interessante estudo sobre o santuário portalegrense do Senhor Jesus dos Aflitos.
Com a leitura deste livro, além do que se expôs, temos agora em mãos pedras fundamentais para a edificação da história de um dos templos mais enigmáticos do Norte Alentejano: a igreja de São Domingos dos Fortios, onde a arqueologia evidencia vestígios romanos e moçárabes, a precisarem de escavação e estudo – não vá um diabo ignorante e construtor tecê-las… Temos também em mãos elementos para aprofundar o entendimento da toponímia do lugar, onde nomes como Cova da Onça, Reluto, Boavista, Monte Tourinho, Matamores e outros apontam para uma presença humana pré-romana, logo muito antiga.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

LENDA DA SERRA DE MATAMORES
(Fortios)


1

Versão de Fortios (Portalegre), recolhida pelos alunos da Escola Básica do Primeiro Ciclo de Fortios e publicada em http://www.eb1-fortios.rcts.pt/


A serra do Mata Amores teve origem no nome Mato de Mouros.
Dizem as pessoas que em tempos que já lá vão, aparecia nessa zona uma princesa moura, de beleza rara e que vivia nas pedras.
Todos a desejavam ver, mas ela só aparecia na manhã de S. João com um tabuleiro de passas à cabeça para oferecer às pessoas. Diz a lenda que quem entrasse na sua casa ficava encantado e nunca mais regressava.




2


Versão de Fortios (Portalegre) recolhida (em 1984) e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – Subsídios para uma Monografia de Portalegre, Portalegre, Câmara Municipal de Portalegre: 132.



Dizem que na Serra do Mata Amores, Freguesia dos Fortios – Portalegre, há uma princesa encantada. Aparece a vender passas na manhã de S. João. Quem entrar na sua casa de pedra fica encantado.

A Lenda do Mártir Santo
(Fortios)



1
Versão de Fortios (Portalegre), recolhida pelos alunos da Escola Básica do 1º. Ciclo de Fortios e publicada em http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://www.eb1-fortios.rcts.pt/Lenda.jpg&imgrefurl=http://www.eb1-fortios.rcts.pt/terra/capela.htm&usg=__x5XTWiHIFsbMAdQRFokGw6Y5EX0=&h=216&w=310&sz=11&hl=pt-PT&start=6&tbnid=HfEiaKuKxVpQSM:&tbnh=82&tbnw=117&prev=/images%3Fq%3D%2522m%25C3%25A1rtir%2Bsanto%2522%26gbv%3D2%26hl%3Dpt-PT


Diz a lenda que, no ano 700, a capela do Mártir Santo era o sítio onde as pessoas rezavam ao seu santo.
Nessa altura, os reis queriam destruir todas as igrejas.
Um dia, um rei mouro mandou destruir a capela.
As pessoas juntaram-se, na capela, onde rezavam para que nada acontecesse e pedindo um milagre ao seu Santo.
Quando os cavaleiros, que vinham destruir, iam a subir a rua (muito inclinada) aconteceu um milagre: os cavalos não a conseguiram subir, escorregaram e ajoelharam-se, não conseguindo chegar até ao largo.
Assim, a capela passou a chamar-se "Capela do Mártir Santo" e o largo onde se situa também tem o mesmo nome.




2

Versão de proveniência desconhecida, recolhida (em 1984) e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – Subsídios para uma Monografia de Portalegre, Portalegre, Câmara Municipal de Portalegre: 133.



Diz-se que, em tempos remotos, os inimigos atacaram este povo, e com cavalos, tentaram subir as rochas.
Um homem gritou:
- “Valha-me o Mártir Santo!”…
Os cavalos imediatamente dobraram as patas e não conseguiram subir mais.
Em louvor deste milagre, fizeram a Igreja de S. Sebastião, que ficou sendo o Padroeiro da Freguesia.


sexta-feira, 18 de julho de 2008

JOVEM SEDUZIDA
É DESPREZADA PELO PRETENDENTE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.



CANTIGA

Eu amava uma menina, tinha-lhe muita amizade.
Falava-lhe à meia-noite e todos os dias à tarde.
Um dia lhe perguntei qual era a sua intenção:
"Se não logro carinhos teus, rebento de paixão."
"Se tu lograsses carinhos meus, ai de mim, o que seria?
Matavas o teu desejo, casar comigo não querias."
"Casava, querida, casava. Junto ao pé de quem sou
Tenho o sentido perdido, já não sei onde estou.
Já não sei onde estou, minha terra onde fica.
Remédios para te ver já os não há na botica."
Desceu pela escada abaixo, na mão direita me pegou.
"Boa cama cidadão." Logo ali se deitou.
Logo ali se ajoelhou a um Senhor que ela tinha.
"Os cinco sentidos que eu tenho os emprego em ti menina."
Primeiro era cheirar o cheiro da linda rosa.
Corria-lhe a mão pelo rosto, era coisa preciosa.
Quando foi o nascer da aurora, estava em estado de cair.
"Deixa-me ir daqui embora, antes que me vejam ir.
Não quero que a sua mãe diga que eu vim aqui dormir."
"Vai-te falso, vai-te ingrato, já lograste carinhos meus.
Lá irás ao Purgatório fazer contas com Deus."
"Se eu for ao Purgatório, hei-de ir com boa tenção.
Quero que Deus me perdoe como perdoou ao bom ladrão."
Torradas, boas torradas, eu aqui bem as torrei.
Fazias-te fina comigo, mas eu bem te apanhei.
Torradas, novas torradas, torradas, café, cebola.
Difamei uma bela donzela, casar com ela? Xô rola!
JOVEM PÕE NAMORADA À PROVA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Antónia Grilo, de 83 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA


"Onde vais ó padeirinha de pucarinha na mão?"
"Vou à fonte buscar água, olaré, para amassar o meu pão."
"Para amassar o teu pão, padeirinha faz-me um bolinho.
Eu já daqui não abalo, olaré, sem tu me dares um beijinho."
"Um beijinho não te dou, porque não to posso dar.
Se a minha mãe lá souber, olaré, não me faltaria ralhar."
"Se a tua mãe te ralhar, tu não lhe baixes a asa.
Se ela te quiser bater, olaré, tu foges para minha casa."
"Para tua casa não vou. Não tenho lá que fazer.
Se a minha mãe me ralhar, olaré, o meu remédio é sofrer."
"Gosto de ti, ó padeirinha, do teu modo de falar.
Se sempre falares assim, olaré, depressa vamos casar."
JURAMENTO AMOROSO

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Recolha do Rancho Folclórico dos Fortios. Transcrição de Ruy Ventura.

SAIAS DO BALDIO


"Em Portalegre fui caixeiro, na Urra fui lavrador,
N' Alagoa carpinteiro, nos Fortios sou cantador."
"Tens uma voz tão trinada, que me chega ao coração.
Ainda estou na minha casa, já sei que andas na função."
"Ouve lá ó rapariga o que eu agora te digo:
Se tu gostares de mil, quero ter falas contigo."
"Ó cantador afamado, coração de pedra dura,
Mas se falas a verdade o meu peito se aventura."
"Se tu me quisesses tanto como eu te quero de mais,
No caminho se encontravam meus suspiros com teus ais."
"As estrelas miudinhas fazem um céu bem composto.
Já Deus me chegou a tempo de ter amores ao meu gosto."
"Jura, amor, juramos ambos. Façamos jura bem feita.
Jura lá que me hás-de dar na igreja a mão direita."
"Ó meu amor, anda, vamos à igreja dar a mão,
Tapar as bocas ao mundo, descansar meu coração."
JOANINHA E O ESTUDANTE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Esteves, de 78 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA

"Olá menina Joaninha." "Boa noite, senhor Joãozinho."
"Está em casa sozinha?" "Estou à espera do meu paizinho."
"Está aqui sempre encerrada, já nunca quer aparecer.
Quando sai vai encantada, ninguém é capaz de a ver."
"Joãozinho, tenha paciência em eu lhe falar assim.
Não lhe deve fazer diferença, que não tem interesse em mim."
"Joaninha, não fales assim. Não digas palavras tais.
Eu não sofro de amor por ti, que é ainda muito mais."
"Joãozinho, eu bem sei que por mim não sofre nada.
Sei que sofre sim por quem, pela sua namorada."
"Namorada hei-de terr quando a Joaninha quiser,
Que eu não me quero prender ao amor de outra mulher."
"As juras do senhor estudante, desculpe eu dizer como são,
São tão firmes como a manteiga quando no focinho de um cão."
"Com essas tuas palavras quase me ias ofendendo.
Ainda um dia vem a saber o que por ti estou sofrendo."
"Joãozinho, eu bem sei que amanhã é doutor.
Eu bem sei que não mereço homem de tanto valor."
DESPIQUE ENTRE DOIS PRETENDENTES

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria José Paulo, de 85 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.

CANTIGA DO CARNAVAL

O Manuel e o Joaquim são dois jovens encantados,
Mas têm grandes problemas porque andam sempre zangados.
Não há quem na terra não veja, não há quem na terra não ouça.
Têm um grande problema: disputam a mesma moça.
Não há coisa mais bonita, nem coisa mais engraçada:
A rapariga é catita e eles brigam à desgarrada.
Um quer a Inês para si e diz que a faz feliz.
Outro nada lhe promete e em modo de verso lhe diz:
"Rapariga, pensa bem no que agora te digo,
Que só merece quem tem, eu mereço ficar contigo."
O Manuel já está zangado com a conversa do Joaquim:
"Já que és moço arrogado, chega-te cá para mim.
Ò Joaquim, assenta bem o que eu agora te digo:
Se ela pretende alguém, pretende ficar comigo."
"Dizes que fica contigo, já te digo que tem um preço.
A Inês fica comigo, pois sou eu que a mereço."
"Homem mais burro não conheço, julga que é o primeiro
E que a Inês o pretende porque tem muito dinheiro.
O dinheiro não é tudo, já te vou a ripostar.
Quando se acabar o dinheiro, como a vais governar?"
"Tu tens fala de enganar, e a resposta aí vai:
Quando o dinheiro acabar está o dinheiro do meu pai."
"Eu já te vou a dizer qual a nossa solução:
É preciso é amar, amar é ter coração."
"Se não te dou a razão, quem resolve é a Inês.
Não venhas com frases feitas, já não te digo outra vez."
"Agora tu tens razão e eu já estou decidido.
Vai acabar a discussão, fica contigo ou comigo."
"Sou apenas uma rapariga, não estou aqui para julgar.
Ainda não estou decidida qual dos dois levo ao altar."
E acabou a discussão, um sem fala, outro mudo.
Era apenas reinação que se faz no baile de entrudo.
DIÁLOGO ENTRE DOIS JOVENS
NA COLHA DA AZEITONA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.

"De cima desta oliveira, vou-te fazer uma procura.
Diz-me cá, ó cantadeira, se a azeitona está madura."
"Valha-te Deus criatura, o que me vens procurar.
Uma mole outra mais dura, toda se tem que apanhar."
"Vai toda para o lagar para fazer azeite fino,
Para o Senhor se alumiar no sagrado altar divino."
"Eu já vi que és muito fino, percebo a tua intenção.
Põe a escada bem a pino, não deites ramos para o chão."
"Devagar se corre a mão, bem firme se põe a escada.
É Inverno, não é Verão, os ramos têm geada."
"Eu estou quase engadanhada, mas ao lume posso ir.
Para cantar à desgarrada, estou aqui para te ouvir."
"Contigo quero discutir para que tu me compreendas.
Não penses que eu vou cair nas malhas da tua renda!"
"A cantar nunca me ofendes, nem queiras imaginar.
Se és vendedor de fazendas, eu não te quero comprar."
"Vamos ter que mudar deste para outro olival.
Temos os panos a dobrar, já se não levam tão mal."
"O encarregado geral já deu ordem de partida.
Se a azeitona for igual, temos uma fega comprida."
"Azeitona bem miúda, fica depois em bagaço.
Cantando se leva a vida, é mais uma quadra que faço."
"Já vou sentindo cansaço de andar com escadas às costas.
Com o meu desembaraço, vou-te arranjando as respostas."
"Por aquilo que demonstras, vejo a tua dignidade.
Já vi que de mim não gostas, cantemos por amizade."
"Para te dizer a verdade, não tenhas essa ilusão.
No cantar não há maldade, no trabalho também não."
"Vamos pedir ao patrão que nos dê acabamento:
Café, fatias e pão, vinho, tomate e pimento."
"E um bailarico, lá dentro do quintal da laranjeira.
Para nosso divertimento nós fazemos a bandeira."
DESPIQUE ENTRE MARIDO E MULHER (1)

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA

"Deus te salve mulher ingrata, que estás muito bem deitada,
Nem o jantar me tens feito, estás uma bela empada."
"Por que me chamas empada? Diz-me: que mal te fiz eu?
Por não ter o jantar pronto, tu podes comer do meu.
Além de não ser bom, será assim igual ao teu."
"Tu eras mal empregada de não teres um bom jantar.
Tu deitada à boa vida e eu farto de trabalhar.
Ainda não digas, velhaca, que eu te hei-de governar."
"Pois se tu assim não querias, não tomasses tal estado.
Quer de noite, quer de dia, dois meninos ao meu lado.
Ainda te parece, marido, que é pequeno o meu fado."
"Oh, que grande trabalhadeira, com dois meninos que tem.
A tal tem seis e sete, tratam deles como as mães
[..............................] alinham os maridos também."
"Pois se tu assim não querias, não pedisses à minha mãe
Sem falares com o meu pai [............................................].
Por isso te digo, marido, vai-te embora, não te quero mais."

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O PATRÃO E A CRIADA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Recitada por Rosa Antão Carrilho, de 73 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


"Deolinda, tu não sabes a dor que o meu peito sente,
Em te não vendo em casa, fico logo descontente,
Em ouvindo a tua fala, fico louco de repente."
"Olha a graça do patrão, dá-me vontade de rir.
Não me estejas com chalaças, que a patroa pode ouvir."
"A patroa está dormindo, não ouve o que a gente diz.
Faz o serviço bem feito, que ainda vens a ser feliz.
No dia que eu fizer anos vais comigo a Paris."
"Era agora o que faltava era eu ir para o estrangeiro
Para fazer essa viagem, patrão, não tenho dinheiro.
Tenho os meus três muito certos guardados no mealheiro."
"É por esses três, menina, que tu tens em teu poder.
Qual é que há-de ser o dia em que me os hás-de deixar ver?
Tenho coragem e dinheiro para o mealheiro encher."
"A patroa também tem um mealheiro já usado.
Ainda há pouco que eu lho vi, que está todo escangalhado.
Deve ser do dinheiro que o patrão lá tem deitado."
Assassinato conjugal

A SALA DO MEU RECREIO

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria de Fátima Bicho, de 50 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


"Ai eu fui ao jardim da nora, fui colher a flor do alecrim.
Só tua mãe te criou, lindos olhos para mim."
"Anda minha amiga, anda, comigo dar um passeio.
Vamos comer um jantar à sala do meu recreio."
"À sala do teu recreio, isso não, não pode ser.
É que está lá a tua mulher, que nem à sombra me quer ver."
"Minha mulher não está lá, nem por estes dias vem.
Foi fazer uma visita ao seu pai e sua mãe."
Logo ao primeiro prato, logo ao prato primeiro,
Ela lhe disse para ele quem seria o cozinheiro.
"Come, minha amiga, come, não te faças amarela.
Olha que estás comendo da mais mimosa vitela."
"Da mais mimosa não é, é que ela deita amargor.
Mataste a tua mulher e foste para mim um traidor."
"Matei a minha mulher, e isto para a gente é segredo.
Ai toma lá estes anéis que ela trazia nos dedos."
"Os anéis que tu me deste também te servem a ti.
E mataste a tua mulher e também me matas a mim.
Venha povo, venha povo! Venha povo, venha ver!
Venha também a justiça para este ladrão prender.
Matou a sua mulher e ainda me a veio dar a comer."

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