segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009


O ESTUDO DA TOPONÍMIA
(notas metodológicas)

Na leitura dos topónimos, embora tendo sempre em conta o quanto fogem à fixação as explicações propostas para a etimologia de um nome, devemos ter sempre em conta alguns princípios metodológicos básicos que reduzam o perigo de cairmos em fantasias ou disparates.
Em primeiro lugar, devemos ter consciência do carácter objectivo da designação toponímica. Nesse sentido, é importante ter em conta os princípios defendidos por Álvaro Galmés de Fuentes:
“[…] al analizar y estudiar la etimologia de cualquier topónimo hemos de tener en cuenta el hecho de la racionalidad inicial de su nomenclatura. […] creo que el hablante, creador de la toponímia, es mucho más racional de lo que parece deducirse de las explicaciones de algunos etimólogos, y así lo mismo que llama al pan, pan, y al vino, vino, al monte le llama monte, y a la peña, peña, y al valle, valle, y al llano, llano, y al río, río, etc. Ahora bien, para distinguir entre varios montes o varias peñas, puden éstos recibir adjetivaciones complementarias, pero siempre haciendo referencia a sus cualidades físicas reales […].” (Fuentes, 1992: 313)
É crucial ter em conta também a opinião de Galmés Fuentes no que respeita às transformações sofridas pelos nomes de lugar ao longo de séculos ou (frequentemente) de milénios:
“[…] los topónimos, en su evolución o por el desuso de la lengua que les dio origen, pueden hacerse opacos, y es entonces cuando tiene lugar la reinterpretación, operada en la conciencia lingüistica del hablante, que tiende a reagrupar formas etimológicamente oscuras com raices conocidas de aspecto semejante […]” (idem)
Nesta evolução, concordo com o papel interpretativo (e erosivo) das classes cultas, onde se incluem, numa fase tardia, muitos etimólogos:
“[…] No es normalmente el pueblo quien más interviene en estas reinterpretaciones asociativas; con frecuencia son las personas cultas, y aun los mismos especialistas del lenguaje, a quienes corresponde mayor participación en ellas. […] / Con respecto a la toponimia quienes más han intervenido, sin duda, en su alteración han sido precisamente los profesionales encargados de registrar los topónimos o de consignarlos en escrituras. Me refiero, naturalmente, a los secretarios de ayuntamiento, a los registradores, a los escribanos o a los notarios. Éstos, con frecuencia foráneos y desconecedores de las peculiaridades lingüisticas del lugar, son los grandes artífices de llamativas asociaciones etimológicas. […]” (idem)
É nossa convicção que a toponímia, apesar de muitas vezes só poder ser conhecida através de documentos escritos mais ou menos recentes, é uma manifestação da linguagem oral dos grupos humanos que ocupam e observam (ou ocuparam e observaram) um determinado lugar. Daí que muitas designações – embora as suas primeiras atestações escritas datem apenas do século XIX ou já da centúria anterior à nossa – sejam de facto muito antigas, várias vezes fósseis de línguas ancestrais.
Sendo racionais e distintivos, os topónimos nunca poderão entretanto ser entendidos sem o contexto em que se inserem ou inseriram. A nomeação de um lugar nunca pode separar-se da sua geografia, da sua história e da sua mitologia. Embora nem todos os nomes vejam o(s) seu(s) significado(s) apoiado(s) em múltiplas referências contextuais, parece-me imprescindível trabalhar nesta base metodológica, que não dispensa o conhecimento integrado da cultura local nas suas várias dimensões. Por isto nos parece muito mais correcto estudar a toponímia com base num método etnológico do que num método positivista, seja ele “histórico” (que apenas tem em conta as atestações escritas, sem as discutir ou criticar, frequentemente) ou “filológico” (que apenas interpreta os nomes com base numa sua suposta etimologia, muitas vezes desenraizada).
Na senda de alguns autores estrangeiros, quem em Portugal mais se tem preocupado com o desenvolvimento e aplicação desse “método etnológico” tem sido Moisés Espírito Santo. Dele nos socorremos para a definição do modo de trabalho:
“[…] É um método de terreno. Consiste em descobrir a significação do nome a partir do seu envolvimento geográfico e da sua relação com os nomes/sítios vizinhos. Parte-se do princípio da objectividade do nome. Isto é, a nomeação era a objectivação ou singularização do local. Os nomes significavam qualquer coisa que existia ou se fazia no local; não eram poéticos nem postos ao acaso das aparências. Significavam o que lá existia ou se fazia: ‘fonte’, ‘encosta’, ‘rio’, ‘porto’, ‘mina’, ‘palácio’, ‘santuário’, ‘feira’… As populações viviam em autarcia. Esses sítios/nomes não necessitavam de outros atributos, uma vez que as populações que os nomearam eram isoladas e podiam não conhecer mais nenhum sítio com esse nome. […] / […] O método etnológico exige, portanto, a observação do terreno ou, pelo menos, o uso duma cartografia minuciosa e alguma informação etnológica sobre os sítios. […]” (Espírito Santo, 2004: 351-352).
Segundo o autor de A Religião Popular Portuguesa, esta prática metodológica tem aplicação mais pormenorizada através do chamado “método dos sistemas”, proposto em 1927 por Victor Berard como forma de estudo da toponímia fenícia do Mediterrâneo, presente na Odisseia de Homero. A interpretação do nome deve então submeter-se à passagem por três sistemas, em simultâneo (cf. Espírito Santo, 2004: 352):
1. “sistema verbal” (correspondência fonética, de acordo com as regras da linguística);
2. “sistema local ou geográfico” (o topónimo deve fazer referência a acidentes naturais do relevo, do sistema hidrológico, etc.);
3. “sistema histórico ou lendário” (devem existir referências históricas ou lendárias relacionadas com o sítio).
Moisés Espírito Santo aperfeiçoou entretanto este método, aprofundando-o de maneira a acrescentar-lhe fiabilidade e a permitir o estudo de alguns topónimos que lhe fugiam, por se referirem “a uma qualquer actividade social, religiosa, etc., sem relação com a geografia, e sem ter deixado rastos históricos ou mitológicos”. Acrescentou-lhe assim a regra da “constelação dos nomes”:
“[…] tendo em conta o ‘sistema verbal’ (a evolução da palavra segundo as regras linguísticas), a significação de um nome estará garantida quando ela tiver relação com a significação dos nomes em volta: o nome vizinho pode ser um sinónimo ou uma tradução noutra língua […]. Pode o nome estar numa relação de complementaridade com os vizinhos […]. Esta regra da constelação pode testar-se, comparando com os nomes idênticos doutras regiões, porque os topónimos […] são repetitivos e, observando bem, podem organizar-se por constelações de nomes.” (Espírito Santo, 2004: 352)
Segundo o mesmo autor, há no entanto um cuidado a ter:
“[…] da actual coincidência de dois nomes em regiões diferentes não se deduz, automaticamente, que ambos tenham tido a mesma origem no passado. Com origens verbais diferentes, podem ter evoluído foneticamente para o mesmo nome, nomeadamente pela força da escrita e dos registos. Há que interpretá-los dentro dos respectivos contextos.” (idem)


2.

À semelhança do que acontece na chamada “toponímia rural”, até meados do século XIX a toponímia urbana era também meramente funcional. Ninguém se preocupava, como hoje, em impor os seus valores ou ideais políticos, tornando a designação do espaço uma “simples convenção [resultante] de cíclicas ondas comemorativas que espalharam por todas as vilas e cidades portuguesas nomes e datas que o correr do tempo tem esvaziado de sentido” (Andrade, 1993: 123), chegando a apagar oficialmente nomenclaturas antigas, sem olhar ao risco de apagamento de uma parte significativa da memória colectiva.
A toponímia antiga, fosse rural ou urbana, partia do conhecimento profundo dos lugares, nascendo da observação cuidada e experimentada para a nomeação dos múltiplos espaços da localidade e sua envolvência. Não eram portanto necessárias quaisquer placas de identificação ou outros elementos oficializando e fixando a designação, como acontece nos nossos dias. Bastava o conhecimento empírico e a transmissão oral, sendo a oficialização (sempre relativa e provisória, coexistindo por vezes várias designações atribuídas ao mesmo local) apenas um modo de consagrar (interpretando, frequentemente mal, a oralidade) nos documentos escritos (alvarás, escrituras, tombos, registos paroquiais e outros) aquilo que já corria na voz dos habitantes desses lugares há vários séculos ou milénios.
Está mais ou menos estabelecida a ideia de que o processo de atribuição de topónimos por decisão oficial se terá iniciado em meados do século XIX com a Regeneração (embora ainda no Antigo Regime, a partir do governo do Marquês de Pombal, se verifiquem episódios pontuais com uma atitude semelhante perante a nomeação do espaço). Esta estratégia tem visado sobretudo objectivos doutrinários, de forma a levar as populações a assumirem como seus os valores dos sucessivos regimes políticos – embora com resultados práticos muito débeis, perante uma memória colectiva secular ou milenar que, na grande maioria dos casos, teima manter em uso os nomes antigos, desprezando ou esquecendo os oficiais (cf. Ventura, 2002: 416). Paralelamente, a nomeação oficial tem visado ainda a valoração pública de personalidades dos domínios político ou social, ora consagrando figuras locais ora homenageando actores nacionais – que o tempo, muitas vezes, se encarrega de mergulhar (justa ou injustamente) no esquecimento.

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