DOIS DOCUMENTOS
PARA A HISTÓRIA DE CASTELO DE VIDE
divulgados pelo Cónego Bonifácio Bernardo
Igreja de S. João (Baptista) de Castelo de Vide: (19.06.1514)
Em Abril de 1999, encontrei uma folha solta entre os documentos do Cabido da Sé de Portalegre, do tempo de D. Pedro Vaz Gavião, e que a seguir transcrevo, por linha, ressalvando eventuais deficiências de leitura, dada a dificuldade da grafia (Incluo pontuação por mim):
1 “Joham rroiz, prior de sam martynho, vjg(air)o em a comarqa
2 daquem tejo, do bj(s)pado da gu(ar)da, por ho mujto rr(everen)do em Xr(ist)o
3 padre s(enh)or dom p(edr)o, p(or) merce de d(eo)s e da santa egreja
4 de rroma b(is)po b(is)po da mesma, prjor de santa Cruz,
5 do conselho del rrej nosso s(e)n(h)or e seu capellão mor:
6 A q(ua)ntos esta mjnha carta de vjsjtaçam for mostrada
7 saude em Jehsus Xr(ist)o nosso s(e)n(h)or: Faço saber que, vjsjtan-
8 do eu a egreja de sam joham da vjlla de castello da-
9 vjde, em p(e)soa do capellam e dallgu(n)s fregueses
10 esto he o que mandej fazer na dita egreja por serviço de d(eo)s
11 e bem e honra da dita egreja: achej que ho prjor
12 nom pos a casa como lhe foy mandado p(or) o b(is)po. Man-
13 do que a ponha ate fim de Jan(ei)ro, sob pena de
14 500 r(ei)s p(ar)a a se (= Sé) e vjg(air)o e o ey por condenado nas penas. E
15 mando aos fregueses que façam da ponta da
16 escada de d(iog)o a(fons)o da parte de baixo hum fecho
17 q(ue) chegue aos degraos emtulhado e abaixo llogo
18 out(r)o e out(r)o arryba da porta do emtulho com call-
19 çada; q(ue) fique com o tavollejro ate ffim deste t(erm)o
20 sob pena de 5.000 rr(ei)s p(ar)a se e vjg(air)o; mando aos fre-
21 gueses q(ue) façam as portas da travesa do norte
22 ate natall sob pena de 3 mil rr(ei)s p(ar)a a se e vjg(air)o. Mando
23 aos ditos fregueses q(ue) acabem de allegear
24 a egreja ate natall sob pena de 2 mil rr(ei)s p(ar)a o vjg(air)o.
25 Mando ao capellam que pubrjq(u)e esta carta
26 aos fregueses a oferta e ponha esta carta
27 em caderno com as houtras sob pena de
28 escumunhão e guarde e cu(m)pra as constituições
29 do s(enh)or bispo dante em a villa de cas-
30 tello davide, sob o meu synall e sello
31 do dito s(enh)or q(ue) ante my(m) anda. XIX
32 dias de junho fernam rroiz escrivam
33 a fez de mjll e qujnhentos e quatorze
34 annos. ff. yoham
35 rroiz “
No verso, consta, à esquerda do selo assinado: “sam jº” . Por cima do mesmo selo: “pg ao sello XXX r(ei)s”; e por baixo do mesmo: “ao escrivam XXIIII r(ei)s”
Comentário pessoal:
1. Julgo tratar-se do acabamento da igreja de S. João Baptista de Castelo de Vide; pelos seguintes indícios: 1º a menção dos fechos, pelo menos três; a colocação das portas na travessa norte; a calçada; a colocação do tabuleiro da igreja até Janeiro de 1515; acabem de lajear a igreja; o entulho. Se assim for, então esta igreja é construída logo no início do século XVI (1514).
2. Quem visita? O vigário, i. é. o arcipreste de (?), João Rodrigues.
3. Quem redige a acta durante a visita: Fernando Rodrigues.
4. Em que data: 19 de Junho de 1514.
5. D. Pedro. Trata-se de D. Pedro Vaz Gavião, sucessor de D. Álvaro de Chaves, no bispado da Guarda. Era capelão–mor de D. Manuel I, que o nomeara para aquele cargo, nos finais de 1496. Alexandre VI confirma a sua nomeação no início de 1497. Tomou posse do bispado em 14 de Maio de 1497.
Celebrou sínodo na Guarda, pois que em 12 de Maio de 1500 encontrava-se nesta cidade, durante o qual foram aprovadas as suas segundas constituições, depois impressas, sendo já bispo da Guarda D. Jorge de Melo. Em 1507 foi nomeado por D. Manuel I Prior de Santa Cruz de Coimbra, sendo confirmado pelo Papa Júlio II.
Incrementou as obras da Sé da Guarda, no que gastou enormes quantias. Mandou realizar obras no dito mosteiro de santa Cruz: túmulos de D. Afonso Henriques e de D. Sancho I, na capela mor. Morreu neste mosteiro em 13 de Agosto de 1516.
A maior parte do tempo residiu na corte e no mosteiro onde faleceu.
Do maço 10, nº 1, folhas 27-28, arquivo do Cabido PTG, transcrevo:
“Posse de hum Benefficio de santa Maria da devêza de Castelo de Vide [1]
Auto da posse que foi dada ao padre / Pedro allvares do benefficio da igreja / de samta Maria da devesa da villa de / Castello davide que ficou por falle- / cimento do padre andre pires que delle / foi ulltimo posuidor /
Ano do nacimemto de nosso Senhor Jesus / Xpo de mill e quinhemtos e oitemta / e sete annos aos vimte e hum dias do mês / de Agosto em há villa de Castello / davide demtro na igreja de samta Maria da / devessa em a capella mor da dita igreja / estamdo presemtes os padres frey dioguo dias / vigairo da igreja de São João da dita villa e / vigairo da vara e manoell llopes e o Licenciado / João nogueiro benefficiado na dita igreja / e antonjo llopes que serve na dita igreja / o benefficio de João roiz e martim Vaz / e outros muitos padres de missa e andre allvares / meirinho do ecclesiastico na dita villa / e estamdo todos asi jumtos peramte elles pare- / ci eu notairo imfra nomeado e o reverendo padre / pedro allvares secretario do muito illustre / senhor bispo deste bispado e lloguo por / elle dito padre pedro allvares foi dito a mjm / notairo e aos ditos padres que ho muito illustre / senhor dom Amador araiz bispo deste / bispado lhe fizera ora mercê de o afaser (?) //
Fª 27v
de o assemtar e comfirmar no benefficio / que ficou ora por fallecimemto do padre andre / pires furtado benefficiado que foi na dita igreja / de samta Maria por o dito benefficio ser de sua / apresemtação e comfirmação como comsta- / ria da carta de comfirmação e apresemtação / e collação que lloguo ahi apresemtou que / me requeria a mjm notairo que comforme / a ella lhe desse a posse do dito benefficio na / dita igreja que ---apo (?) fiquara do dito andre pires / que delle foi ulltimo posuidor e lloguo / eu notairo tomej em minhas mãos a dita car- / ta de comfirmação e apresemtação do dito senhor / bispo e em allta voz a llj aos ditos padres / abaixo asinados e elles diserão que não tinhão / duvjda de lhe ser dada a dita posse a quall / posse lhe eu dej pella manejra seguimte / § ho llevej ao alltar mor e lhe vesti hua / sobrepellis e lhe metj na mão callices / e missais e chaves da dita igreja e sobio / ao choro e se semtou em hua cadeira / e lleo em hu brevjario e cerou as portas / da dita igreja e abrjo e paseou pella / dita igreja pacifficamemte e tomou / em suas mãos terra e pedra e pao da / dita igreja que lhe eu notairo emtreguej / e por fazerem os padres da igreja hu / officio de defumtos elle dito padre //
Fª 28
pedro allvares se assemtou com elles a camtar / ho dito officio de defumtos e dise hua / llição de defumtos camtada e llevou / parte da offerta que se offereceo no dito / officio e por esta maneira eu notairo lhe dej / a dita posse do dito benefficio reall e au- / tuall e ficou comtinnuando a posse / do dito benefficio e esto todo sem comttra- / dição de pessoa allgua e hos ditos / padres muito comtemtes e allegres lhe / derão todos o por o bem e diserão que erão / comtemtes de com elle dito padre servirem / e lhe darem toda a parte que lhe couber / comforme a seu benefficio e com todo / lhe dej e o ouve por dada a dita posse / da sobredita maneira e todos asinarão / os atrás nomeados como testemunhas manoell sea / sea notairo apostollico o fiz e / me pedio estromento de posse e eu lho / dej.
frey Dioguo Dias
+ +
L(icencia)do joanes nugueiro Anntº Lopes
manoell martim
lopez vaz
Amdre allvares
[1] Grafia do Cónego António Fernandes da Costa.
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
quinta-feira, 14 de junho de 2007
CASTELO DE VIDE EM 1758
(conclusão)
É tradição de que a Rainha Santa vendeu a el-rei Dom Dinis esta vila e de como nos tempos adiante el-rei Dom Fernando a trocou com a Ordem de Cristo por Castro Marim.
É esta vila assistida de todos os frutos em bastante abundância, assim de pão, vinho, azeite, castanha e dos mais, excepto de espinho. E a maior abundância é de centeio e milho miúdo. Tem muitos gados de lã e cabelo.
É excessiva no contrato de matar porcos gordos, que há ano que passa de sete mil porcos dos que nela se matam na fega e se chacinam e se vão vender à Corte.
Há nela o trato e fábrica de panos de cor, a saber: saragoças, verdes e azuis. Para estes tem quatro tintes em que se lhes dá a dita cor de verde. Terá setenta teares, em que se tecem os panos, que há ano que passam de seis mil panos que se fabricam.
É tão abundante de águas que se contam no termo desta vila mais de trezentas fontes de nome. E as principais são as seguintes: a fonte da Vila, que está dentro dela com quatro bicas; a fonte do Martinho, de cantaria bem elevada e com quatro bicas; a fonte de Pero Boi, com uma bica; a fonte Nova, com duas; a fonte dos Besteiros. E a fonte da Mealhada, muito celebrada, pois dizem que à sua água é experimentado remédio contra a dor nefrítica; está extramuros para a parte de Portalegre, coisa de um tiro de espingarda da muralha; é toda ela e o mais que lhe pertence e orna de pedra de cantaria, e no meio do frontispício tem as armas desta vila, scillicet castelo cercado com uma vide.
É cercada de duas ribeiras, a saber, a de São João, que tem nascimento no sítio do Cano e corre pela parte do reino, e a ribeira da Vide, que tem o nascimento no Prado e corre pela parte de Castela. E ambas próximas à vila. E nesta ribeira da Vide há dezassete azenhas de moer pão e corre pelo distrito da minha freguesia e a outra pelo distrito das outras duas freguesias. E se vão meter no rio de Sever. Este rio de Sever tem nascimento nos Olhos de Água, termo da vila de Marvão, e vem ao termo desta vila em espaço de meia légua, pouco mais ou menos. E é quem divide os reinos. É abundante de peixes, a saber: barbos e bogas e algumas trutas.
Esta vila tem juiz de fora e Câmara e também juiz dos órfãos, que não é letrado. E é próprio o ofício.
Tem feira franca de um dia em dez de Agosto e outra em quinze de Janeiro.
Não tem correio. Serve-se do de Portalegre por um estafeta que leva as cartas em quarta-feira e as vai buscar no sábado à dita cidade, que dista duas léguas.
Desta vila à cidade de Lisboa distam trinta e quatro léguas.
No castelo desta vila está uma torre muito forte de pedra, com seus quinais. E para a parte do Sul está meia caída e arruinada, o que lhe procedeu de mina que lhe deitaram os castelhanos nas guerras passadas.
Não padeceu esta vila ruína considerável no terramoto do ano de 1755, pois só caiu o capelo da torre do Espírito Santo em que estão os sinos; e ainda assim se acha. E à ermida da Senhora dos Remédios, que é de abóbada, também abriu nela e paredes; e assim se acha e se serve a gente dela. O convento de São Francisco, que é de abóbada, também abriu em partes, mas sem perigo, e já se acha reparado.
Tem uma serra que chamam de São Paulo, a qual dá princípio a casa ou ermida deste santo. É próxima a esta vila em menos distância que o de meio quarto de légua e fica defronte da vila para a parte do Poente, de forma que lhe tira a vista, por ser muito alta. Nela estão mais duas ermidas, uma de Nossa Senhora da Penha e a outra de São Miguel. E àquela vão deste povo todos os sábados muita gente com devoção. Nesta está um outeiro ou cabelo muito alto a que chama o “Outeiro do Facho”, por razão de que nas guerras passadas mostravam dali facho, quando vinha o inimigo. Não se cultiva a mais dela, por ser de terra maninha e de penhascos grandes. Corre para as partes de Castela e dizem alguns que continua esta serra até Madrid, mas não conserva o nome de Serra de São Paulo.
O rio de Sever, de que já falámos, vai-se meter no Tejo no termo da vila de Montalvão, conservando sempre o seu nome. É inavegável e usa-se dele livremente e tem alguns moinhos de moer pão.
Há uma ribeira, chamada a de Nisa, que corre pelo termo desta vila. Vem do de Portalegre e se mete no Tejo no termo de Nisa. E tem no termo desta vila uma ponte com três arcos, tudo de pedra e cal. E as nossas ribeiras de São João e da Vide, com os seus nomes, se vão meter no rio de Sever.
Há no termo desta vila três atalaias: uma no caminho da Escusa ou de Marvão e tem o nome de Atalaia da Escusa; outra chamada a do Picoto e outra chamada a do Pereiro, que estão para as partes de Castela e servem para vigiar no tempo da guerra.
Tem dois moinhos de vento, que se formaram há poucos anos, e não moem de presente, por serem neste país rijos os ventos.
Na serra de São Paulo há dois montes, um chamado o Monte da Casada e o outro o do Andreu.
É o que posso informar desta vila e desta freguesia de Santa Maria, matriz.
Em Castelo de Vide, 18 de Maio de 1758.
O vigário de Santa Maria, João Aires Baptista
(conclusão)
É tradição de que a Rainha Santa vendeu a el-rei Dom Dinis esta vila e de como nos tempos adiante el-rei Dom Fernando a trocou com a Ordem de Cristo por Castro Marim.
É esta vila assistida de todos os frutos em bastante abundância, assim de pão, vinho, azeite, castanha e dos mais, excepto de espinho. E a maior abundância é de centeio e milho miúdo. Tem muitos gados de lã e cabelo.
É excessiva no contrato de matar porcos gordos, que há ano que passa de sete mil porcos dos que nela se matam na fega e se chacinam e se vão vender à Corte.
Há nela o trato e fábrica de panos de cor, a saber: saragoças, verdes e azuis. Para estes tem quatro tintes em que se lhes dá a dita cor de verde. Terá setenta teares, em que se tecem os panos, que há ano que passam de seis mil panos que se fabricam.
É tão abundante de águas que se contam no termo desta vila mais de trezentas fontes de nome. E as principais são as seguintes: a fonte da Vila, que está dentro dela com quatro bicas; a fonte do Martinho, de cantaria bem elevada e com quatro bicas; a fonte de Pero Boi, com uma bica; a fonte Nova, com duas; a fonte dos Besteiros. E a fonte da Mealhada, muito celebrada, pois dizem que à sua água é experimentado remédio contra a dor nefrítica; está extramuros para a parte de Portalegre, coisa de um tiro de espingarda da muralha; é toda ela e o mais que lhe pertence e orna de pedra de cantaria, e no meio do frontispício tem as armas desta vila, scillicet castelo cercado com uma vide.
É cercada de duas ribeiras, a saber, a de São João, que tem nascimento no sítio do Cano e corre pela parte do reino, e a ribeira da Vide, que tem o nascimento no Prado e corre pela parte de Castela. E ambas próximas à vila. E nesta ribeira da Vide há dezassete azenhas de moer pão e corre pelo distrito da minha freguesia e a outra pelo distrito das outras duas freguesias. E se vão meter no rio de Sever. Este rio de Sever tem nascimento nos Olhos de Água, termo da vila de Marvão, e vem ao termo desta vila em espaço de meia légua, pouco mais ou menos. E é quem divide os reinos. É abundante de peixes, a saber: barbos e bogas e algumas trutas.
Esta vila tem juiz de fora e Câmara e também juiz dos órfãos, que não é letrado. E é próprio o ofício.
Tem feira franca de um dia em dez de Agosto e outra em quinze de Janeiro.
Não tem correio. Serve-se do de Portalegre por um estafeta que leva as cartas em quarta-feira e as vai buscar no sábado à dita cidade, que dista duas léguas.
Desta vila à cidade de Lisboa distam trinta e quatro léguas.
No castelo desta vila está uma torre muito forte de pedra, com seus quinais. E para a parte do Sul está meia caída e arruinada, o que lhe procedeu de mina que lhe deitaram os castelhanos nas guerras passadas.
Não padeceu esta vila ruína considerável no terramoto do ano de 1755, pois só caiu o capelo da torre do Espírito Santo em que estão os sinos; e ainda assim se acha. E à ermida da Senhora dos Remédios, que é de abóbada, também abriu nela e paredes; e assim se acha e se serve a gente dela. O convento de São Francisco, que é de abóbada, também abriu em partes, mas sem perigo, e já se acha reparado.
Tem uma serra que chamam de São Paulo, a qual dá princípio a casa ou ermida deste santo. É próxima a esta vila em menos distância que o de meio quarto de légua e fica defronte da vila para a parte do Poente, de forma que lhe tira a vista, por ser muito alta. Nela estão mais duas ermidas, uma de Nossa Senhora da Penha e a outra de São Miguel. E àquela vão deste povo todos os sábados muita gente com devoção. Nesta está um outeiro ou cabelo muito alto a que chama o “Outeiro do Facho”, por razão de que nas guerras passadas mostravam dali facho, quando vinha o inimigo. Não se cultiva a mais dela, por ser de terra maninha e de penhascos grandes. Corre para as partes de Castela e dizem alguns que continua esta serra até Madrid, mas não conserva o nome de Serra de São Paulo.
O rio de Sever, de que já falámos, vai-se meter no Tejo no termo da vila de Montalvão, conservando sempre o seu nome. É inavegável e usa-se dele livremente e tem alguns moinhos de moer pão.
Há uma ribeira, chamada a de Nisa, que corre pelo termo desta vila. Vem do de Portalegre e se mete no Tejo no termo de Nisa. E tem no termo desta vila uma ponte com três arcos, tudo de pedra e cal. E as nossas ribeiras de São João e da Vide, com os seus nomes, se vão meter no rio de Sever.
Há no termo desta vila três atalaias: uma no caminho da Escusa ou de Marvão e tem o nome de Atalaia da Escusa; outra chamada a do Picoto e outra chamada a do Pereiro, que estão para as partes de Castela e servem para vigiar no tempo da guerra.
Tem dois moinhos de vento, que se formaram há poucos anos, e não moem de presente, por serem neste país rijos os ventos.
Na serra de São Paulo há dois montes, um chamado o Monte da Casada e o outro o do Andreu.
É o que posso informar desta vila e desta freguesia de Santa Maria, matriz.
Em Castelo de Vide, 18 de Maio de 1758.
O vigário de Santa Maria, João Aires Baptista
segunda-feira, 28 de maio de 2007

CASTELO DE VIDE EM 1758
(continuação)
Freguesia de Santa Maria da Devesa
(folhas 1481 a 1489)
Da parte do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo de Portalegre, meu senhor, me foi apresentado um memorial para informar sobre o que pertence saber desta terra e do mais que se expressa no dito papel, a que respondo o seguinte.
Castelo de Vide, vila de Portugal, fica no Alentejo. É da comarca e bispado da cidade de Portalegre, da qual dista duas léguas. É vila notável e nobre, com voto em cortes no banco onze.
Tem por armas um castelo cercado com uma vide. Dizem alguns que a estas armas e a este nome deu ocasião uma grande vide que teve o castelo. Querem outros com paronomásia que esta vila se chame “Castelo de Vide” porque divide Portugal de Castela, por está na raia em distância de duas léguas.
O castelo é obra de el-rei Dom Dinis e foi senhor dela o infante D. Afonso, seu irmão.
É de el-rei e é alcaide-mor desta vila o conde meirinho-mor do reino.
Está situada mais em monte do que em vale e menos em campina.
É praça de armas, cercada de muros bastantemente fortes. Tem neles quatro portas para entradas e saídas, que são: a porta da Aramenha, para as partes de Marvão e Portalegre; a porta Nova, para a parte de Castela; e as portas de São João e São Pedro, para as partes do reino. E esta porta de São Pedro é dentro do castelo. É este murado e fechado sobre si e está situado para a parte do Norte e há dentro dele mais de cento e cinquenta vizinhos e também a igreja de Nossa Senhora da Alegria, com um convento que mandou fazer Dona Mariana Eugénia, para nele viverem freiras franciscanas, o que não tem tido efeito, por se embargar depois de feito, por parte de el-rei, com o fundamento de estar próximo do armazém da pólvora, que está dentro do mesmo castelo e aos muros dele.
Consta esta minha freguesia de Santa Maria da Devesa, matriz desta vila de Castelo de Vide, de mil e cem vizinhos. E tem quatro mil pessoas de confissão e comunhão. Tem mais duas freguesias, que são a paroquial igreja de São João Baptista, que é da Malta, e a paroquial igreja de Sant´ Iago, a qual é de el-rei. E têm ambas priores que dirão o mais.
Desta vila, como fica em monte, se descobrem as vilas seguintes: a vila de Marvão, que dista uma légua; a vila de Nisa, que dista três léguas; a vila de Montalvão, que dista quatro léguas; a Póvoa das Meadas, que dista duas léguas; a vila de Castelo Branco, que dista dez léguas; o lugar de Sant´ Iago, do reino de Castela, que dista cinco léguas. E para a parte do poente nada se descobre, por razão da serra de São Paulo, que impede a vista por ser muito alta e próxima a esta vila para o Poente.
Tem termo que confina com o de Portalegre em menos distância desta vila meia légua. Confina com o de Marvão em distância de meia légua. Com o de Castela em distância de duas léguas, sendo a divisa um rio chamado o Sever. E confina com o da vila de Alpalhão em distância de légua e meia e com o de Nisa na mesma distância. E com o da Póvoa na mesma distância.
Esta paróquia está dentro da vila, é a matriz. É o seu orago Nossa Senhora ou Santa Maria da Devesa, a qual está hoje arruinada, não pelo terramoto do ano de 1755, mas por muito velha. E pretendendo-se concertar, se conheceu seria inútil o concerto e cuida-se em se demolir para se fazer igreja nova, respectiva à multidão dos vizinhos.
Compunha-se de três naves com capela-mor e altar-mor e altar do Sacramento, altar de Nossa Senhora do Carmo, altar de Nossa Senhora do Rosário, altar do Santo Cristo, altar do Anjo da Guarda, altar de Nossa Senhora da Boa Morte e altar das Almas e altar de Santa Luzia, que por todos são nove altares. Tem de presente seis irmandades, a saber: a de Nossa Senhora da Assunção, que é dos clérigos; a do Sacramento; a de Nossa Senhora do Carmo; a de Nossa Senhora do Rosário; a das Almas; a de Nossa Senhora da Boa Morte.
É esta igreja do padroado real. Sua Magestade é quem apresenta. É o pároco vigário, tendo tanto trabalho por ser esta freguesia das maiores da província do Alentejo. Só tem de côngrua cinquenta mil réis, que são pagos pela comenda, e é o seu comendador o Excelentíssimo Marquês de Tancos.
Tem quatro beneficiados, os quais apresenta o Excelentíssimo Senhor bispo de Portalegre, e são pagos pela oitava parte dos dízimos, e lhe dará a renda anualmente em cinquenta ou sessenta mil réis. Não têm pensão de clero e só a de paroquiarem as semanas, alternativamente com o vigário, que sempre serve em todas.
Tem dois conventos: um dos recoletos da Ordem de São Francisco; e outro que é o hospital de São João de Deus, em que tão somente se curam os soldados, à custa de el-rei. E do convento de São Francisco é padroeir[a] a Câmara desta vila.
Tem Casa da Misericórdia com hospital para se curarem os pobres. E tem de renda mais de seiscentos mil réis.
Tem um forte muito bem murado, a que se chama o forte de São Roque, dentro do qual só está a igreja deste santo, que é advogado da peste. E é festejado pelos vizinhos e é guardado pelos soldados com guarda quotidiana. Está situado para a parte do Sul.
Tem mais esta vila uma igreja no distrito desta minha freguesia chamada a Colegiada do Espírito Santo, em que rezam em coro sete beneficiados, que terão de renda cinquenta e cinco mil réis em cada ano, pouco mais ou menos, e um tesoureiro a quem se dá vinte. Instituição de Nicolau de Matos e Brites de Jesus, hoje é padroeiro Paulo Nogueira de Andrade, da cidade de Lisboa. Tem altar-mor esta igreja, tem altar de Santo Estêvão, tem altar de São Marcos, tem altar de Nossa Senhora da Conceição, que é da irmandade dos militares desta praça, onde hoje se acha a freguesia de Santa Maria, matriz, pela ruína e lhe ser esta filial. E não tem naves.
Fora dos muros, tem: a ermida de Nossa Senhora dos Remédios, de abóbada, com um altar; a ermida de São Vicente Ferrer, com um altar; a ermida de Nossa Senhora da Vitória; a ermida de Nossa Senhora do Carmo; a ermida do Bom Jesus, de Pero Galego; a ermida de Santo Amador, que dista uma légua para as partes de Castela, a quem se faz festa em uma oitava da Páscoa, e se faz procissão das Almas por estarem ali enterrados muitos castelhanos, que morreram em choque que tiveram com os portugueses nas guerras passadas, de que ainda hoje se diz “a derrota de Santo Amador” e por isso se faz a comemoração das Almas.
(folhas 1481 a 1489)
Da parte do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo de Portalegre, meu senhor, me foi apresentado um memorial para informar sobre o que pertence saber desta terra e do mais que se expressa no dito papel, a que respondo o seguinte.
Castelo de Vide, vila de Portugal, fica no Alentejo. É da comarca e bispado da cidade de Portalegre, da qual dista duas léguas. É vila notável e nobre, com voto em cortes no banco onze.
Tem por armas um castelo cercado com uma vide. Dizem alguns que a estas armas e a este nome deu ocasião uma grande vide que teve o castelo. Querem outros com paronomásia que esta vila se chame “Castelo de Vide” porque divide Portugal de Castela, por está na raia em distância de duas léguas.
O castelo é obra de el-rei Dom Dinis e foi senhor dela o infante D. Afonso, seu irmão.
É de el-rei e é alcaide-mor desta vila o conde meirinho-mor do reino.
Está situada mais em monte do que em vale e menos em campina.
É praça de armas, cercada de muros bastantemente fortes. Tem neles quatro portas para entradas e saídas, que são: a porta da Aramenha, para as partes de Marvão e Portalegre; a porta Nova, para a parte de Castela; e as portas de São João e São Pedro, para as partes do reino. E esta porta de São Pedro é dentro do castelo. É este murado e fechado sobre si e está situado para a parte do Norte e há dentro dele mais de cento e cinquenta vizinhos e também a igreja de Nossa Senhora da Alegria, com um convento que mandou fazer Dona Mariana Eugénia, para nele viverem freiras franciscanas, o que não tem tido efeito, por se embargar depois de feito, por parte de el-rei, com o fundamento de estar próximo do armazém da pólvora, que está dentro do mesmo castelo e aos muros dele.
Consta esta minha freguesia de Santa Maria da Devesa, matriz desta vila de Castelo de Vide, de mil e cem vizinhos. E tem quatro mil pessoas de confissão e comunhão. Tem mais duas freguesias, que são a paroquial igreja de São João Baptista, que é da Malta, e a paroquial igreja de Sant´ Iago, a qual é de el-rei. E têm ambas priores que dirão o mais.
Desta vila, como fica em monte, se descobrem as vilas seguintes: a vila de Marvão, que dista uma légua; a vila de Nisa, que dista três léguas; a vila de Montalvão, que dista quatro léguas; a Póvoa das Meadas, que dista duas léguas; a vila de Castelo Branco, que dista dez léguas; o lugar de Sant´ Iago, do reino de Castela, que dista cinco léguas. E para a parte do poente nada se descobre, por razão da serra de São Paulo, que impede a vista por ser muito alta e próxima a esta vila para o Poente.
Tem termo que confina com o de Portalegre em menos distância desta vila meia légua. Confina com o de Marvão em distância de meia légua. Com o de Castela em distância de duas léguas, sendo a divisa um rio chamado o Sever. E confina com o da vila de Alpalhão em distância de légua e meia e com o de Nisa na mesma distância. E com o da Póvoa na mesma distância.
Esta paróquia está dentro da vila, é a matriz. É o seu orago Nossa Senhora ou Santa Maria da Devesa, a qual está hoje arruinada, não pelo terramoto do ano de 1755, mas por muito velha. E pretendendo-se concertar, se conheceu seria inútil o concerto e cuida-se em se demolir para se fazer igreja nova, respectiva à multidão dos vizinhos.
Compunha-se de três naves com capela-mor e altar-mor e altar do Sacramento, altar de Nossa Senhora do Carmo, altar de Nossa Senhora do Rosário, altar do Santo Cristo, altar do Anjo da Guarda, altar de Nossa Senhora da Boa Morte e altar das Almas e altar de Santa Luzia, que por todos são nove altares. Tem de presente seis irmandades, a saber: a de Nossa Senhora da Assunção, que é dos clérigos; a do Sacramento; a de Nossa Senhora do Carmo; a de Nossa Senhora do Rosário; a das Almas; a de Nossa Senhora da Boa Morte.
É esta igreja do padroado real. Sua Magestade é quem apresenta. É o pároco vigário, tendo tanto trabalho por ser esta freguesia das maiores da província do Alentejo. Só tem de côngrua cinquenta mil réis, que são pagos pela comenda, e é o seu comendador o Excelentíssimo Marquês de Tancos.
Tem quatro beneficiados, os quais apresenta o Excelentíssimo Senhor bispo de Portalegre, e são pagos pela oitava parte dos dízimos, e lhe dará a renda anualmente em cinquenta ou sessenta mil réis. Não têm pensão de clero e só a de paroquiarem as semanas, alternativamente com o vigário, que sempre serve em todas.
Tem dois conventos: um dos recoletos da Ordem de São Francisco; e outro que é o hospital de São João de Deus, em que tão somente se curam os soldados, à custa de el-rei. E do convento de São Francisco é padroeir[a] a Câmara desta vila.
Tem Casa da Misericórdia com hospital para se curarem os pobres. E tem de renda mais de seiscentos mil réis.
Tem um forte muito bem murado, a que se chama o forte de São Roque, dentro do qual só está a igreja deste santo, que é advogado da peste. E é festejado pelos vizinhos e é guardado pelos soldados com guarda quotidiana. Está situado para a parte do Sul.
Tem mais esta vila uma igreja no distrito desta minha freguesia chamada a Colegiada do Espírito Santo, em que rezam em coro sete beneficiados, que terão de renda cinquenta e cinco mil réis em cada ano, pouco mais ou menos, e um tesoureiro a quem se dá vinte. Instituição de Nicolau de Matos e Brites de Jesus, hoje é padroeiro Paulo Nogueira de Andrade, da cidade de Lisboa. Tem altar-mor esta igreja, tem altar de Santo Estêvão, tem altar de São Marcos, tem altar de Nossa Senhora da Conceição, que é da irmandade dos militares desta praça, onde hoje se acha a freguesia de Santa Maria, matriz, pela ruína e lhe ser esta filial. E não tem naves.
Fora dos muros, tem: a ermida de Nossa Senhora dos Remédios, de abóbada, com um altar; a ermida de São Vicente Ferrer, com um altar; a ermida de Nossa Senhora da Vitória; a ermida de Nossa Senhora do Carmo; a ermida do Bom Jesus, de Pero Galego; a ermida de Santo Amador, que dista uma légua para as partes de Castela, a quem se faz festa em uma oitava da Páscoa, e se faz procissão das Almas por estarem ali enterrados muitos castelhanos, que morreram em choque que tiveram com os portugueses nas guerras passadas, de que ainda hoje se diz “a derrota de Santo Amador” e por isso se faz a comemoração das Almas.
(continua)
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