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terça-feira, 2 de outubro de 2007

CONDE CLAROS VESTIDO DE FRADE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Antunes, de 79 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


"Minha mãe fiz uma aposta, ou de perder ou de ganhar,
De dormir com a Marianinha antes do galo cantar."
"Não apostes, ó meu filho, nem tu queiras apostar.
Marianinha é muito fina, não se deixa enganar."
"Engano-a sim, minha mãe, que ela é boa de enganar.
Em ouvindo uma chalaça, põe-se logo a arreganhar."
José se vestiu de padre pela rua a passear.
Marianinha à janela, é caso de admirar.
"Uma senhora tão nobre a esta hora a passear?
Vou-me embora, Marianinha, já não posso mais esperar."
"Aguarde, senhor, aguarde, queira o senhor aguardar.
Se tarde se lhe fizer, no meu quarto há-de ficar."

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O FALSO CEGO

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro Os Transmontano no Alentejo (Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1998), pp. 65 e 66. Transcrição de Ruy Ventura.


Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
"Abram-me essa porta, também o postigo,
Emprestem-me um lenço que já venho ferido."
"Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
Que a minha portinha não se abre agora."
"Levante-se minha mãe da cama a dormir,
Venha ver o cego que está a pedir."
"Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho."
"Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho."
"Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
Ensinar o cego além para a estrada."
"Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
Que eu não sou o cego, sou seu namorado."

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O SOLDADINHO

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001. Publicada no suplemento cultural Fanal, do jornal O Distrito de Portalegre, nº 17, a 26.10.2001.


SOLDADINHO NOVO

"Adeus soldadinho novo que tão triste andas na guerra.
Ou te lembra pai ou mãe ou alguém da tua terra."
"Não me lembra pai nem mãe, nem ninguém da minha terra,
Só me lembra a minha amada, que era uma linda donzela."
"Toma lá este cavalo, vai a tua amada ver,
Mas no fim de sete meses há-des mo cá vir trazer."
Soldadinho, de contente, no cavalo s' amontou.
Chegando lá muito adiente, o Diabo o incuntrou.
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem."
(Não é assim.)
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem,
Aqui tens a tua amada, que t' amou com grande bem."
(Enganei-me.)
"Onde vás ó soldadinho, por que vás todo a termer?"
"Deixa-me lá ó diabo, vou a minha amada ver."
"Tua amada já é morta. Já é morta, bem na vi."
"Dá-me os sinais que levava, que me quero fiar em ti."
"Levava vestido d' ouro, camisa de carmesim.
Os padres qu' àcompanhavam não tinham conto nem fim.
Forem a abrir a cova cá no centro do jardim,
A enxada era de prata, o cabo de marafim."
"Mas seja o que Deus quiser, eu p'ra diente sempre vou."
A meio da sua jornada, um nuvraceiro s' armou.
"Não t' espantes cavalo branco, cavalheiro que nele vem.
Aqui tens a tua amada que t' amou com grande bem."
"Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim?"
"Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi."
"Se és a minha amada, beija-me agora aqui."
"Os lábios com qu' eu te beijava, já a cor deles perdi.
Vai-t' imbora, vai-t' imbora, vai-t' imbora amor eterno.
Já sinto por mim puxar lá das cordas do Inferno."
"Eu hei-d' ir àquele outêro, eu àquele outêro hei-d' ir.
Tanta vez t' hê-de bradar, até que m' há-des acudir."

(Aprendi, mas não era assim. E aqui está. Mas isto não aconteceu. O capitão não dava o cavalo ao soldado.)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

DONZELA GUERREIRA

Versão de Fortios, Portalegre. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA

"Deitei sortes à ventura para ver o qual se havia de matar,
Logo foi cair a sorte no capitão-general."
"Não te mates, ó meu pai, não te mates meu pai, não, não.
Dai-me espadas e cavalos que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo cabelo a ti te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Cabeleireiros há na terra que mo possam pôr no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos olhos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não,
que, quando eu andar na guerra, ponho meus olhos no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos peitos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Costureiros há na terra que me façam um algibão
[...................................] que me aperte o coração.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo andar, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, [.......................................]
Que eu quando andar na guerra faço passos de ganhão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
(Já na guerra.)
"[..........................................] [.......................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir jantar.
Se ela for mulher pelos bancos altos há-de passar
[............................................] e pelos baixos se há-de assentar."
D. Marcos não era parvo, pelos altos passou
[............................................] e pelos baixos se assentou.
"[..........................................] [.........................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir nadar,
Se ela for mulher não se há-de descalçar."
D. Marcos não era parvo [............................................]
Puxou por uma carta, pôs-se a ler e chorar.
"O que tens, ó D. Marcos? Por que estás a ler e chorar?"
"Tenho o meu pai morto, minha mãe vai-se enterrar.
Ao meu comandante peço se me pode dispensar."

(Nota: Os dois primeiros hemistíquios pertencem ao romance "Nau Catrineta".)

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