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sábado, 25 de julho de 2020



PORTALEGRE:
CLASSIFICAR PATRIMÓNIO,
APAGAR PATRIMÓNIO


            Segundo noticiou o jornal “Alto Alentejo”, na sua edição de 15/7/2020, os vereadores da Câmara Municipal de Portalegre aprovaram por unanimidade o início do processo de classificação de cerca de quatro dezenas de bens culturais existentes no concelho. Fizeram bem. É uma decisão honrada. Tal iniciativa só pode merecer o aplauso de quem reconhece valor inalienável à herança histórica, arquitectónica e artística dessa parte do Alto Alentejo.
            Propor uma classificação não é, contudo, classificar. É apenas dar início a um longo processo, decidido fora dos gabinetes municipais. Um rol tão grande, diz-se, pode mesmo criar obstáculos intransponíveis à classificação dos bens em causa. Bem sabemos o quanto os organismos que tutelam o Património Cultural português carecem gravemente de meios humanos e financeiros para acudir a todo o serviço que lhes cai sobre a secretária. Há quem lembre que propor a salvaguarda de tantos monumentos de uma só vez costuma ser estratégia usada por autarcas que desejam mostrar serviço perante os seus eleitores quando, na realidade, não têm qualquer desejo de classificar seja o que for (sabendo bem demais que a avalanche assim provocad será razão bastante para que tudo seja arquivado no fundo das gavetas). Isto afirma quem há mais de 20 anos trata desses assuntos… e tem sido responsável pela organização e tramitação de processos de classificação ao mais alto nível. Quero crer, todavia, que a intenção de quem fez tal proposta conjunta terá sido séria. O futuro confirmará ou não a minha percepção. Para já, merecem reconhecimento aqueles que a votaram favoravelmente, pondo a Cultura acima de outros interesses menos dignos.
            Não me pronuncio sobre os cerca de 40 bens culturais a classificar. Não há nenhum que não mereça a distinção. Ainda assim, sublinho a minha satisfação por ver entre eles vários edifícios de boa arquitectura do século XX, cuja dignidade e valor não são menores por não terem sido elevados em séculos anteriores, normalmente mais prestigiados. Não deixo todavia de estranhar que alguns edifícios sejam propostos para classificação depois de terem sido total ou parcialmente demolidos e, de seguida, abastardados ou substituídos por réplicas sem qualquer valor. Não me pronuncio sobre o rol proposto pelos gestores da Câmara Municipal de Portalegre e aprovado pela unanimidade dos vereadores. Espero apenas que a classificação seja concluída com sucesso e tenha como consequência a valorização, recuperação e/ou revitalização desse património concelhio, doravante – se assim se concretizar – mais protegido contra intervenções e vizinhanças que deveriam envergonhar toda a gente, a começar por quem as aprovou e/ou promoveu.
            Não obstante, parece-me justo manifestar a minha estranheza – e até a minha indignação – por tudo quanto foi apagado da proposta municipal. Refere o jornal “Alto Alentejo” que a lista incluiu imóveis arrolados no PDM de 2011, juntando-lhe propostas diversas que recebeu (não se sabe de quem e em que circunstâncias). Pretende proteger “casas brasonadas, conventos, igrejas, um conjunto habitacional popular e edifícios modernistas e contemporâneos, de elevado valor arquitectónico”. Perante essa justificação (aceitável, mas parcial), estranha-se a quase inteira exclusão do rico património arqueológico concelhio, que Portalegre teima em não cartografar nem inventariar, contribuindo para a sua destruição. Urge ainda perguntar se a parte norte do concelho de Portalegre ainda faz parte desse município ou, se fazendo parte dele, é conhecida por quem governa, administra e gere a edilidade há pelo menos uma década.
            Poderia referir a ausência nessa proposta de classificação de qualquer bem das freguesias de Alagoa e de São Julião ou, ainda, o estranho apagamento de vários bens valiosíssimos da freguesia da Ribeira de Nisa, como as ruínas medievais da Provença, a igreja de Nossa Senhora da Esperança (antigo Convento de Santo António) ou a Quinta de São Bento. É como se não tivessem, entre as suas fronteiras, património relevante… Mas têm. Na Ribeira de Nisa, propõe-se a classificação de um “convento de S. Francisco”, mas como tal edifício não existe nem nunca existiu na freguesia, é o mesmo que nada propor…
            Mais grave se me afigura todavia o tratamento discriminatório dado à freguesia de Carreiras, que já no inventário do património distrital, elaborado em 1943 por Luiz Keil, foi completamente ignorada. Naquele tempo, não havia estradas para lá chegar. Hoje essas estradas existem, o seu património está divulgado, mas parece que os gestores da edilidade portalegrense querem continuar uma lamentável tradição…
            Para a Câmara Municipal de Portalegre, pelos vistos, não tem qualquer valor o património carreirense. Nada valem a anta da herdade de João Martins, o povoado neolítico do Veloso e as ruínas da Alta Idade Média existentes nas suas proximidades, as estruturas megalíticas do Fraguil, as ruínas romanas ou medievais do Monte da Gente, a medieval Torre Alta ou Torre da Ribeira (ligada à família de D. Nuno Álvares Pereira), a calçada medieval que ligava Portalegre a Castelo de Vide e outros troços viários da mesma época, a quinhentista Torre Caldeira (mandada construir pela família dos alcaides-mores de Portalegre), a igreja de São Sebastião (edificada na primeira metade do século XVI, com capela dessa época, retábulos maneiristas já estudados a nível nacional, fachada barroca e pinturas murais tratadas em tese de doutoramento), um cruzeiro único de cantaria e azulejos (do século XVIII), pórticos de cantaria do século XVI, casas com varandas do mesmo século ou da centúria seguinte, a sua Torre do Relógio, etc. Nada disto teve valor para os autores do PDM de 2011, que ignoraram esse património, pondo-o em risco e contribuindo para a descaracterização de uma aldeia a que, com ironia, chamam “presépio”. A mesma opinião parecem ter agora, nove anos depois, aqueles que propuseram uma lista de património a classificar, ignorando esses e outros bem valiosos – e voltando a pôr em causa a sua sobrevivência.
            Há muitos anos que se fala no abandono dessa freguesia histórica do concelho de Portalegre, abandono que tem revestido várias manifestações indignas (a mais grave das quais foi a sua “extinção”, baseada em argumentos fraudulentos). É, assim, justo perguntar que destino teria essa parcela do território portalegrense se estivesse incluída num dos municípios vizinhos, Castelo de Vide ou Marvão. Na certa, Carreiras veria o seu património valorizado de outro modo – e não esquecido por pessoas que, com boa ou má intenção, com consciência ou sem ela, parecem querer apagar do concelho uma das suas mais belas e valiosas partes.
            Felizmente, a Lei permite que os requerimentos de classificação partam de simples cidadãos. A seu tempo, não deixarão de agir. Pode ser que essas iniciativas tenham mais sucesso do que a proposta de classificação da igreja carreirense feita há uns anos por técnica-superior do ex-IPPAR e que gente ardilosa enterrou sabe Deus onde…

RUY VENTURA
(artigo publicado no jornal "Alto Alentejo", de 22/7/2020)

segunda-feira, 10 de junho de 2019




CARTA ABERTA A JOÃO MIGUEL TAVARES

Caro João Miguel,
Tomo a liberdade de tratar-te por tu. Somos afinal conterrâneos, apesar de não nos conhecermos. A nossa idade é muito próxima. Imagino que, como eu, tenhas nascido no velho Hospital da Misericórdia, em pleno Rossio portalegrense; tu, em Setembro, eu dois meses depois. Escrevo-te depois de ter escutado pela televisão, comovido, a tua intervenção como responsável pelas comemorações do Dia de Portugal. Não poderia deixar de fazê-lo ao ouvir-te evocar o teu avô que, ao fundo da Rua de Elvas, dava sopa àqueles que dela precisavam, ao sentir o significado daquela casa ao cimo da Avenida Frei Amador Arrais que foi e é a tua e, sobretudo, ao ter contido com alguma dificuldade as lágrimas quando te ouvi mencionar o destino de tantos portalegrenses que, para cumprirem o seu destino, se viram obrigados a deixar o seu concelho.
Poderia ficar por aqui e agradecer-te, com a maior profundidade. Mas cortaria metade da verdade. Poderia dizer que o meu destino foi igual ao teu e ao de tantos da nossa terra. Mas não contaria a história toda, porque é mentira.
Se bem conheces o nosso concelho, e acredito que sim, sabes que o destino daqueles que nasceram e cresceram com a democracia não foi igual para todos. Os filhos do funcionalismo público e das elites locais, seja lá isso o que for, nascidos e criados na cidade, nunca tiveram o mesmo tratamento que os filhos dos operários, das costureiras e dos pequenos agricultores que tiveram como destino crescer nas aldeias da serra e dos arredores. Os sacrifícios, acredito, seriam semelhantes em cada família; mas enquanto os sacrifícios da classe média citadina podiam oferecer aos seus a universidade, fora de Portalegre, quem vinha de outros meios era obrigado a contentar-se com os cursos ministrados pelas escolas do Instituto Politécnico de Portalegre, mesmo que tivesse notas e capacidades para marchar até outras paragens. Como dizia uma grada senhora, era uma espécie de prémio de consolação.
Estou grato à democracia por ter criado instituições de ensino superior em pequenas cidades de província; se assim não fosse, ter-me-ia ficado pelo ensino secundário e ver-me-ia transformado num apagado empregado bancário ou de secretaria, talvez num contabilista, mesmo que tivesse asas para outros voos. Assim sendo, filho de um operário da Robinson e de uma costureira, vindo das serranias das Carreiras, não tirei (é certo) o curso de História que sempre ambicionei ou o de Geografia e Planeamento Regional para o qual tinha altas classificações, apesar de ter sido um dos agraciados com o Prémio Francisco Fino para os melhores alunos do secundário do nosso município, mas desenrasquei-me com uma licenciatura em ensino de Português e Francês, tirada na nossa cidade, porque para ela ainda ia havendo dinheiro, sabe Deus com que esforço e privações, embora para mais fosse impossível. Sem cunhas e sem parentes que me abrissem a porta fora de Portalegre, tive de me contentar com o que havia e dar o meu melhor, sabendo bem demais, mas tentando esquecer, que partia para a meta da vida numa posição diferente da de outros meus conterrâneos...
Foi no final dessa licenciatura que comecei a tomar consciência de outra realidade. Aluno no último ano do nosso saudoso Carlos Garcia de Castro, poeta grande cujo mérito, refugiado na interioridade, nunca foi reconhecido como deveria ter sido pelo "meio literário", foi ele quem me abriu os olhos para o que Portalegre era há 25 anos e, infelizmente, continua a ser. Nunca esquecerei a sua frase: "Concorra para sair daqui. Nesta terra nunca lhe perdoarão ser filho de um operário e de uma costureira." Concorri, mas passados anos caí na tentação de aceitar um convite para regressar. Durante três anos, fui professor na instituição de Ensino Superior onde recebera a minha formação inicial. Seduzido para a política por estratégias ardilosas, estive quase a entrar para o partido que agora nos governa. Acontece que, no momento decisivo, me deu para ser independente e recusei atravessar para esse lado. Paguei caro. Não tardou muito que deixasse de haver lugar para mim e, apesar de ter o meu mestrado concluído e iniciado o doutoramento, fui preterido. Eu tive de regressar ao exílio e quem ficou, apenas com a licenciatura (!), teve o lugar garantido durante vários anos, talvez por ser filha de um ex-autarca do Partido da mão fechada. Só então percebi tudo quanto Carlos Garcia de Castro me dissera. Em Portalegre, cópia em miniatura do Portugal que abomina o mérito e tu hoje denunciaste com a firmeza que te conhecemos, não se perdoa a falta de currículo familiar e muito menos pensarmos pela nossa cabeça, sobretudo se isso fizer sombra a alguém bem instalado ou puser em causa o seu pequeno poder ou a sua mediocridade.
Sou hoje um portalegrense exilado que bem gostaria de curar-se dessa doença que se chama Portalegre. Teria uma vida muito mais tranquila. Não nego: o exílio tem-me trazido muitos momentos felizes, algumas alegrias que nunca atingiria se tivesse ficado pelo Corro lagóia. Mas, confesso-te, são alegrias amargas que, a cada momento, me recordam essa condição de migrante por vontade alheia. A minha árvore tem raízes e custa-me saber que os seus frutos são colhidos por outros porque da minha terra existe uma incessante e nefasta ventania que lhe vergou o tronco e fez crescer a copa noutra direcção.
Sabes, João, ao ouvir o teu discurso de hoje - que só não me fez verter lágrimas porque, caramba!, um homem não chora - vi pela televisão os meus pais aplaudindo-te. Também devem ter sentido fundamente as tuas palavras, lembrando o seu filho único que a várias centenas de quilómetros as ouvia. Portugal ainda é uma Portalegre ampliada, porque, como dizia Raul Brandão a propósito de Gomes Freire de Andrade, aqui não ganham os inteligentes, mas (para nossa desgraça colectiva) os mais espertos.
Bem hajas pelas palavras que tiveste a coragem de dizer. Espero que a voragem deste país não as apague tão depressa. Um abraço firme e comovido do teu conterrâneo

quinta-feira, 2 de maio de 2019


… E A MEMÓRIA DA CIDADE QUE SE LIXE

Lê-se na página da sucursal portalegrense do Partido Socialista que, em Assembleia Municipal, fez aprovar – apenas com a abstenção do PSD – a atribuição do nome de Mário Soares à “popularmente conhecida rotunda do navio”. Parece que esta decisão já mereceu a concordância da comissão municipal de toponímia. Tanto quanto vim a saber, a sucursal concelhia do Partido Comunista Português, para não ficar atrás e cobrando, quiçá, o voto favorável dos seus eleitos, propôs ou vai propor que outra rotunda ou avenida ou rua lagóia venha a ter o nome de Álvaro Cunhal. (Se tal se concretizar, o que não duvido, teremos uma verdadeira geringonça portalegrense – só faltando o beco Miguel Portas ou João Semedo ou Francisco Louçã ou Catarina Martins ou Fernando Rosas para a trempe ficar completa...)
Ainda correu pela cidade e arredores que a ideia inicial dos comunistas era rasurar a designação “Avenida do Bonfim”, nascida do santuário homónimo onde tem início, tão querido das gentes da cidade onde nasci. Mas parece que a coisa ficou pelo caminho, talvez por saberem que o regulamento municipal impede (ou desaconselha) a substituição de nomes históricos oficialmente consagrados – ou, mais provavelmente, por se lembrarem que essa artéria passaria a desembocar na rotunda agora soarista, o que provocaria não poucos engulhos aos dois adversários políticos, caso cá estivessem, vendo-se assim de braço dado, quase aos beijinhos, na pública rotunda. Mas adiante. Confesso que gostaria de ouvir, vinda das profundas, a voz cava do nunca desmentido devoto das práticas e doutrinas soviéticas dizendo ao meu ouvido: “Olhe que não, olhe que não…” A mais de duzentos quilómetros de Portalegre tenho todavia informações seguras de que tal má nova é mesmo certa – verdade, verdadinha. E lamento. Funda e fundadamente lamento!
Não está em causa o mérito ou demérito das figuras que, agora, em vésperas de eleições, um punhado de políticos do burgo quer reverenciar à custa da identidade da urbe, nem sequer o facto de tais personalidades pouco ou nada terem que ver com a cidade. Tiveram qualidades e defeitos como toda a gente. Nalgumas situações contribuíram para o bem do povo, noutras prejudicaram-no e noutras foram impedidos (graças a Deus!) de prejudicá-lo. Estão em causa os critérios e os jogos políticos e sociais que movem a exaltação de Cunhal e Soares e apagam, ao mesmo tempo, Fernando Pessoa (sim, esteve em Portalegre!), Humberto Delgado, Salgueiro Maia, Matilde Rosa Araújo (sim, viveu na cidade!), Ramalho Eanes, Amaro da Costa ou, até, para falar nos portalegrenses de nascimento ou de coração, Soror Isabel do Menino Jesus, Eusébio Leão, Joaquim Miranda da Silva, Pe. José Patrão, Carlos Garcia de Castro ou Carrilho da Graça... Está sobretudo em causa o modo como se desrespeita e/ou menospreza com estas e outras decisões a memória urbana e histórica de Portalegre, expressa no nome legítimo dos seus lugares, criado pelo povo que neles viveu ao longo de séculos. (Seria indigno, pergunto, o nome ancestral do local, “Moinho de Vento”? Causaria brotoeja uma referência à Fábricas das Sedas que aí existiu?)
Estudei com demora a toponímia da cidade e as motivações que a foram criando, alterando, rasurando ou apagando. Vem tudo num longo artigo intitulado “Toponímias de Portalegre: da Idade Média ao século XX”, publicado há uns anos no nº. 12 da “Ibn Maruán – Revista Cultural do Concelho de Marvão” (hoje a necessitar de reedição revista e aumentada). Sei bem o que valem as chamadas “comissões de toponímia”, como são nomeadas, o que as move, a sua competência e os regulamentos que fazem, desfazem e aplicam. Não esqueço a ligeireza do conhecimento que, salvo raras excepções, possuem da História e da memória colectiva – e o (des)respeito que têm por ela. Basta-me recordar muitas e muitas das suas incompreensíveis (ainda que bem intencionadas) decisões – valorizando gente com escasso valor e ostracizando os que deveras o tiveram. Chega-me relembrar pelo menos um dos seus pretéritos membros (entretanto falecido) que, além de ter inventado uma “Rua dos Aleatórios” na toponímia setecentista de Portalegre, defendia a eliminação de grande parte dos nomes antigos como coisa bolorenta e pouco civilizada… Já não me deixa, pois, boquiaberto a forma leviana e por vezes caricata com que nomeiam as novas vias de circulação. Não me espanta, ainda, que as mudanças toponímicas continuem a ser uma triste realidade, mesmo que a população portalegrense não as queira – pois nunca sobre tal assunto foi, é ou será consultada. Pelos vistos a salvaguarda, valorização e divulgação deste património imaterial ainda não chegou à terra onde nasci (nem a boa parte do nosso país, diga-se em abono da verdade). Com desgosto o escrevo.
Dir-me-ão que as tentativas de rasura não são de agora, que as homenagens interesseiras são já velhas. Têm toda a razão. Começaram, ainda que timidamente, no século XIX, com o regime liberal. O nome das praças, das alamedas, das ruas, das travessas e até dos becos passou a ser campo fértil de todas as propagandas, de todos os interesses e de todas as vaidades. Houve é certo boas intenções, embora com maus resultados. Graças a Deus nunca tivemos em Portalegre autarcas que durante o seu mandato impusessem o seu nome a ruas e edifícios, como sucedeu noutras terras do Alto Alentejo e do Entre Douro e Minho. Mas o fluído canino das várias tendências políticas e de muitas vaidadezinhas individuais ou de grupo foi manchando não poucos nomes ancestrais da nossa cidade e de quase todas as terras do nosso país.
Ironia das ironias, o povo (que nunca foi tido nem achado nessas artimanhas e sobrancerias) esteve-se sempre lixando para os nomes novos, a não ser quando atribuídos a espaços urbanizados de novo – e ainda assim nem sempre. Passados muitos decénios (por vezes mais de um século) sobre essas alterações decretadas pelo sectarismo político das vereações, continuou a usar os topónimos antigos. Os exemplos em Portalegre são eloquentes. A rua Alexandre Herculano continua a ser de Santo André, a 31 de Janeiro teima em ser dos Canastreiros, o parque Miguel Bombarda, a avenida George Robinson e a rua de Olivença nunca deixarão de ser Corredoura, a rua 5 de Outubro nunca abdicou de ser Direita, o largo 28 de Janeiro pertence ainda à Fonte Nova, a rua Mouzinho de Albuquerque apenas do Pirão é chamada, não esquecendo a Luiz Barahona que do Castelo nunca se livrará, a Cândido dos Reis que nunca esconderá o Cano, a Almeida Garrett que nos conduz ainda ao Mercado (embora ele já esteja noutras partes), a França Borges que persiste na sua referência ao Bargado, o largo Serpa Pinto que adoptou (demolida a igreja da Madalena aí existente) a boneca de uma fonte...
A lista poderia continuar, mas não vale a pena aborrecer os leitores. Convém todavia registar com irónico agrado as designações populares bem recentes que os sábios transeuntes vão já dando a outros lugares com urbanização contemporânea, ignorando com orgulhosa altivez o desrespeito de que são alvo – neste e noutros domínios – por uma boa parte dos seus representantes eleitos. Ou alguém tem dúvidas de que a agora chamada “Rotunda Mário Soares” continuará a ser para todos a tão simples “rotunda do navio”? Não tenho quaisquer dúvidas. Afinal, nestes e noutros achados, “o povo é quem mais ordena”. Por mais que isso provoque comichões nalguns que se têm como procuradores sobranceiros da população.

RUY VENTURA 
(Texto publicado a 2/5/2019 no jornal portalegrense "Alto Alentejo"; foto de RV.)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013



Lendas da serra de São Mamede
(Castelo de Vide, Marvão e Portalegre)
 
colecção redes & enredos
na Apenas Livros 
 
Organizador: Ruy Ventura
 
ISBN: 978-989-618-441-4
Edição: 60 páginas
 
 
Preço: 4,50 € (6% de IVA incluído)
 
Recolha de lendas dos concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre.

Mais informações em:
http://apenas-livros.com/pagina/apenas_de_cordel/indice?id=537

terça-feira, 29 de outubro de 2013

ENTREVISTA DADA
AO "DIÁRIO DO ALENTEJO"
(25/10/2013)



Como surgem os dois volumes de Literatura Tradicional da Serra de São Mamede (castelo de Vide, Marvão e Portalegre)?

Os dois primeiros cadernos são a concretização de um projeto que acalento há quase duas décadas, desde que comecei a recolher em várias localidades desses municípios muitos textos quase em vias de desaparecimento. É um tesouro que não poderia esfumar-se... Sendo uma região riquíssima em património imaterial, muito felizmente já publicado, precisava de ver reunidos contributos dispersos, não só para devolver às populações a sua tradição, como também para pôr à disposição dos investigadores esse material devidamente organizado. Além disso, tenho em mão uma quantidade impressionante de recolhas inéditas, efetuadas durante os três anos em que lecionei a cadeira de Literatura Oral no Instituto Politécnico de Portalegre. O trabalho foi interrompido com a minha saída da instituição, mas era preciso organizar e divulgar todo esse arquivo, que conta talvez com milhares de textos. Tendo surgido o convite da parte da presidente do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, professora Ana Paula Guimarães, e da responsável pela Apenas Livros, dra. Fernanda Frazão, aceitei deitar mãos à tarefa com muito gosto.


O primeiro edita romances religiosos. O segundo edita orações, benzeduras, ensalmos, esconjuros e orações parodiadas. Seguir-se-á um terceiro?

Os dois primeiros cadernos já estão à venda em várias livrarias e no sítio da Apenas Livros, na Internet. As provas do terceiro, que publicará boa parte das lendas de castelo de Vide, Marvão e Portalegre, foram entregues esta semana e já estão no prelo. Para já sairão estes três, que receberam financiamento do IELT/Universidade Nova de Lisboa e de fundos da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Se tudo correr bem, em 2014 serão organizados outros, que publicarão nomeadamente romances tradicionais, romances vulgares, cancioneiro e contos. 

O que exigiu este projeto de recolha?

Como disse, foi um projeto construído ao longo de cerca de 20 anos. Exigiu a recolha junto de vários informantes em muitas localidades da região e a transcrição de textos a partir de bibliografia (alguma muito difícil de encontrar). O trabalho não teria sido no entanto tão completo se eu não tivesse contado com a colaboração de vários colectores que tinham os seus textos na gaveta, como por exemplo Maria do Carmo Alexandre, Maria Tavares Transmontano, Maria Guadalupe Alexandre, Maria da Liberdade Alegria e vários alunos meus da Escola Superior de Educação de Portalegre, cujos trabalhos guardei. Recentemente, tive de proceder a novas transcrições de parte do espólio e à classificação dos textos. Resta-me dizer que esta iniciativa é um caminho, não uma meta.

Bruna Soares

sexta-feira, 18 de outubro de 2013



LITERATURA TRADICIONAL 
DA SERRA DE SÃO MAMEDE

organização de Ruy Ventura
editado pela Apenas Livros, em Lisboa
na colecção “À mão de respigar”
com apoio do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional e da Fundação para a Ciência e Tecnologia



(introdução geral, no primeiro caderno)

         Com este opúsculo se inicia a edição de uma parte da literatura tradicional da serra de São Mamede, espaço do Nordeste Alentejano encostado à fronteira da Extremadura espanhola que compreende os concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre. Constituindo uma tentativa de sistematização e classificação do vastíssimo património literário oral que se foi produtransmitindo ao longo de séculos nessa região, não tem contudo esta publicação e outras que se sigam propósitos de exaustividade. Se se procura dar divulgação impressa ao maior número possível de textos e variantes, o organizador desta iniciativa tem consciência de que muito ficará por apresentar nestas páginas sem pretensão.
         Este caderno pediria um estudo introdutório que enquadrasse os textos e a região onde foram produzidos e/ou difundidos. Não é este contudo o tempo nem o espaço para tal empreendimento. Com um mínimo de aparato fica assim disponível uma parte da memória colectiva desses três municípios em que a desertificação demográfica, social e cultural vai acentuando uma inquietante erosão cuja velocidade vertiginosa levará decerto à perda da maior parte destes textos, quebrada que está quase por completo a sua cadeia de transmissão.
         Publicar este conjunto de artefactos literários é, também, conservá-los e dar-lhes um pouco de sopro vivificador, embora permaneça a angústia de ver obras vivas e abertas transformadas em múmias ou relíquias, pertencentes a um tempo rural e cíclico que nunca mais voltará tal como muitos de nós ainda o conhecemos. Talvez assim, contudo, tenham nova existência – e uma garantia de futuro.

         A transmissão de uma boa parte dos textos de literatura oral deveu-se às mulheres que, anonimamente, quase em segredo, foram mestras na sua memorização e na sua reprodução criativa. É por isso inteiramente justo que dedique este primeiro caderno a quem continua a ensinar-me e a incentivar-me (Felicidade Ventura, minha mãe; Maria Tavares Transmontano e Maria Guadalupe Alexandre, amigas e investigadoras, tão atentas quanto discretas) e a quem já faz parte do meu panteão pessoal, por dívidas imateriais que nunca pagarei (Rosária da Conceição Pedro, minha avó materna; Maria Josefa Baptista, minha avó paterna; e Maria da Liberdade Fernandes Alegria, minha amiga de quase quarenta anos; que a terra lhes seja leve).





I – Romances religiosos (primeiro caderno)

Anúncio do nascimento de Cristo aos pastores
Pobreza da Virgem em Belém
O castelo da Virgem
Nossa Senhora lavadeira
Reis
Sonho de Nossa Senhora
Do Horto ao Calvário
Testamento de Cristo
Retrato de Cristo
O monumento de Cristo
Vida de Cristo
Jesus Menino quer dizer missa
Jesus Cristo diz missa
A vida de Jesus Cristo
 [Senhora da Piedade]
O lavrador da Arada
A fé do cego
O cordão de Nossa Senhora
Devota da ermida
Separação do corpo da alma
Julgamento de uma alma
Santa Helena
Angelina gloriosa

Versões recolhidas em: Carreiras, Carvalhal, Castelo de Vide, Escusa, Fortios, Portagem, Portalegre, Porto da Espada, Rasa, Reguengo, Ribeira de Nisa, São Julião e São Salvador da Aramenha.


II – Orações, encomendações, ensalmos e esconjuros (segundo caderno)

Orações quotidianas
Orações próprias da missa
Orações relacionadas com outras práticas religiosas
Orações relacionadas com edifícios religiosos ou para-religiosos
Orações relacionadas com tarefas diárias
Orações relacionadas com a natureza
Orações diversas
Encomendações
Ensalmos / benzeduras
Esconjuros
Orações parodiadas

Versões recolhidas em: Alegrete, Carreiras, Carvalhal, Castelo de Vide, Escusa, Fortios, Portagem, Portalegre, Porto da Espada, Póvoa e Meadas, Rasa, Reguengo, Ribeira de Nisa, São Julião, São Salvador da Aramenha e Urra.


III – Lendas (terceiro caderno, ainda no prelo)

Lendas de:
Alegrete
Alvarrões
Aramenha
Besteiros
Carreiras
Castelo de Vide
Escusa
Fortios
Marvão
Portagem
Portalegre
Porto da Espada
Reguengo
Ribeira de Nisa
Serra de São Mamede
Urra




Literatura Tradicional da Serra de São Mamede (Castelo de Vide, Marvão e Portalegre)
I. Romances religiosos
Autor:  Ruy Ventura
Edição:  47 páginas
Estado:  disponível
Preço:  4,15 € (6% de IVA incluído) 
Recolha in loco de romances religiosos orais na serra de São Mamede, Alentejo



Literatura tradicional da serra de São Mamede (Castelo de Vide, Marvão e Portalegre)
II. Orações, encomendações, ensalmos e esconjuros
Autor:  Ruy Ventura
Edição:  68 páginas
Estado:  disponível
Preço:  4,80 € (6% de IVA incluído) 
Recolha de património imaterial, ligado a oração e a cura, na região da serra de S. Mamede, Alentejo
http://apenas-livros.com/pagina/apenas_de_cordel/indice?id=528

segunda-feira, 15 de julho de 2013


 
 
SANTO ANTÓNIO
NA REGIÃO DE PORTALEGRE
de Ruy Ventura
 
 
 
 
Desde finais do século XIX que Santo António é padroeiro da cidade e da diocese de Portalegre. Esta consagração veio culminar uma devoção enraizada pelo menos desde finais da Idade Média. A sua propagação terá sido facilitada pela presença na região, desde o século XIII, de um conjunto de comunidades franciscanas e pelos ditames emanados da Contra-Reforma tridentina.
Apesar destes dados, constata-se que a devoção ao santo lisboeta é sobretudo de índole popular. Em comunidades agro-pastoris ou urbanas, Fernando de Bulhões concentrou em si várias valências taumatúrgicas, concorrendo com outras devoções e substituindo inclusivé algumas delas (Santo Antão, por exemplo).
Nos concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre esta veneração deu origem a um conjunto muito interessante de tradições, textos e obras de arte que se apresentam e analisam no livro agora publicado.
 
 


 
No decurso da apresentação, no passado dia 13 de Julho de 2013, do meu livro Santo António na região de Portalegre, cumpre-me agradecer a presença das muitas dezenas de pessoas que tiveram a amabilidade de assistir a este acto de rememoração e homenagem ao padroeiro da cidade e da diocese de Portalegre e Castelo Branco. Entre os presentes, permito-me destacar D. Antonino Dias, prelado diocesano, a Dra. Adelaide Teixeira, presidente da Câmara Municipal, e o Prof. Dr. António Camões Gouveia, coordenador científico da Fundação Robinson. Devo ainda referir o cónego Bonifácio Bernardo, deão do Cabido da Sé, bem como os drs. José Pinto Leite, Jaime Azedo e Luís Pargana, além de outros investigadores, amigos e familiares que não listo, pois estão num lugar alto que não precisa de menção verbal. Terminando, quero ainda expressar a minha gratidão emocionada pelas palavras que me foram dirigidas pelas escritoras Maria Guadalupe Alexandre e Maria Tavares Transmontano, minhas conterrâneas de Carreiras.





Todos os interessados na leitura do meu livro "Santo António na região de Portalegre" que não conseguiram um exemplar na sessão de lançamento, poderão pedi-lo à Fundação Robinson, pelo email fund.rob@cm-portalegre.pt. Caso não o consigam por esta via, dado que a edição é limitada, desde já comunico que em breve estará disponível em formato digital no sítio da entidade que o publicou.

O "download" do livro pode ser feito em: http://www.fundacaorobinson.pt/publicacao,69,399,detalhe.aspx

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013



 


Portalegre:
coro alto da igreja do convento de Santa Clara
durante um ensaio do Orfeão de Portalegre.
Nesse tempo ainda os belos frescos do século XVIII não tinham sido destruídos 
pelos responsáveis da adaptação a biblioteca...

Fonte:
http://www.facebook.com/#!/angelino.monteiro

segunda-feira, 2 de julho de 2012





Mais três fotos antigas de Portalegre.
As duas primeiras, na zona da Torre do Pessegueiro (c. 1940).
A última, da fachada da igreja de São Francisco (c. 1957).

Divulgadas em www.facebook.com
no grupo "Voz do Plátano".

quarta-feira, 27 de junho de 2012




Alterações no troço final da Rua de Elvas, em Portalegre, 
documentadas em 1939/49 por Carlos Curvelo.

Fonte:
http://www.facebook.com/#!/photo.php?fbid=197967636999311&set=o.249504805092293&type=1&theater

sexta-feira, 22 de junho de 2012


Registo de azulejos, 
do último quartel do século XVIII, 
existente no "Palácio Amarelo", em Portalegre.


Foto de Fátima Martelo in
http://www.facebook.com/#!/photo.php?fbid=482835735075916&set=o.249504805092293&type=1&theater

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