terça-feira, 27 de novembro de 2007

VIDA DE SOLDADO

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.



"Adeus minha querida mãe, vou seguir o meu caminho,
Agora desprezado, já não tenho os seus carinhos.
Adeus rapazes amigos, que eu os vou abraçar,
Lembrem-se do infeliz que vai para melitar."
(A tropa era muito ruim...)
Assim qu' ò quartel cheguei, à secretaria fui chamado.
"Diga lá como se chama e im que terra foi criado."
Derim-me então um papel e eu fui ver o que dezia.
"Soldado número doze da segunda bataria."
"Agora vais ser soldado, paisana já o não és.
(Enganei-me...)
Ó primeiro sargento eu me fui apresentar.
Mandou-me tomar um banho e o meu cabelo cortar.
Eu fui a tomar um banho numa água muito fria.
Cortaram-me o meu cabelo, perdi a minha alegria.
"Agora vais ser soldado, paisano já o não és.
Vais a ser demudado da cabeça até aos pés.
Toma lá a tua roupa, a camisa veste já.
Veste também as calças e as botas estão acolá.
Veste o teu colete e veste o casacão
E veste também o capote e aperta o cinturão.
Agora já és soldado, esquecido da paisana,
Vai dezêr ao quartelêro que te dê a roupa da cama."
Eu subi mais uma escada um pouco atrapalhado.
Cheguei à porta, parei: "Dá licença senhor cabo?"
"O que é que tu queres?" - De modo me falou.
"Venho buscar roupa da cama, o meu primeiro mandou."
"Toma lá a tua roupa, dois lençóis e duas mantas,
Vai fazer a tua cama na caserna número tantas."
(Não diz o número.)
Fui fazer a minha cama junto dos meus companheiros.
Não conhecia nenhuns, pareciam-me todos estrangeiros.
Quando foi no outro dia, tocou logo a alvorada.
"Põe-te de pé ó galucho, se não levas cinturada!"
E eu pus-me logo de pé, o meu café fui tomar
E no fim disto tudo, a instrução fui começar.
Depois da tropa acabada, dei a vida aborrecida.
"Ó meus belos camaradas, vou a dar a despedida.
Adeus rapazes amigos dum posto igual a mim,
Adeus amigo rancheiro, adeus amigo clarim.
Adeus ó fonte da estrada, onde eu água fui beber.
Adeus muéres e cavalos, nunca mais os quero ver.
Adeus senhor comandante, ó meu tenente-coronel,
Adeus ó meu aspirante, nunca mais volto ao quartel."

(Aprendi muito nova, mas nunca me esqueci por causa dos meus irmãos.)

1 comentário:

Anónimo disse...

Sou militar reformado
E reli a sua história
Ficando sensibilizado
Por tão boa memória.

Pesquisar neste blogue

Etiquetas

Arquivo do blogue

JUDEUS E CRISTÃOS-NOVOS DE CASTELO DE VIDE em livro imprescindível O Laboratório de Estudos Judaicos vai editar mais dois volumes...