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terça-feira, 8 de janeiro de 2013


Alegrete (Portalegre):
Santas Mães
proveniente da demolida igreja de Santa Maria
(último quartel do século XV)

(Hoje no Seminário de Portalegre.)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A chegada milagrosa
da imagem de São Pedro a Alegrete






1

Versão recolhida por José António Teixeira Rebelo, pároco de Alegrete, em 1758 (Rebello, 1758 in Ventura, 1995: 100).



[…] A imagem de são Pedro dizem ser Angelical.




2

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 303).



A imagem de S. Pedro foi parar ao Algarve a quando da sua feitura, levando uma legenda que indicava: Alegrete. Duvidosos ou ignorando mesmo a localização de tal terra, resolveram os moradores do lugar onde chegou a imagem colocá-la em cima de um carro puxado por dois bravos e possantes bois. Sem que ninguém os guiasse, os bois vieram ter ao lugar onde a capela foi edificada e ali pararam. […] Logo que a imagem foi tirada do carro, assim os bois morreram.




Nossa Senhora da Alegria
salva Alegrete da peste






1

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 303 – 304).



Consta que em 1582 grassou uma grande epidemia de peste no Distrito de Portalegre, vindo nessa altura viver algum tempo para Alegrete o sábio e virtuoso Bispo D. Frei Amador Arrais, que nesse mesmo ano, em fins de Janeiro, tomara posse da diocese de Portalegre.
O povo de Alegrete, receoso de que tal epidemia o atingisse e vitimasse, resolveu tirar Nossa Senhora d’ Alegria do seu altar e levou-a para as muralhas mais altas onde a colocou e deixou à vista de toda a povoação. Fizeram-lhe preces fervorosas que foram ouvidas pela Mãe de Deus. Em sinal de gratidão prometeram festejá-la anualmente no dia 15 de Agosto. E a promessa tem-se cumprido desde então até agora, cantando-se estas estrofes:

[…]
Pu[s]eram nossos antigos
A Senhora na muralha
Que nos livrasse da peste
Que era mal que a todos dava.

[…]
A Senhora d’ Alegria
Não está em casa, foi fora,
Foi visitar os enfermos
Que estão na última hora.



2

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 304).



[…] a peste entrou na vila e dizimou muita gente, tendo só escapado uma família na Ruinha, hoje rua da Saúde. Então o povo, para que não morressem todos, foi buscar Nossa Senhora d’ Alegria, colocou a sua imagem na muralha e dirigiu-lhe fervorosas súplicas, que foram atendidas, cessando a peste. Daí, o voto gratulatório, realizando-se a festa tradicional que deu lugar a grandes manifestações de alegria.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Srª. da Lapa
– 5000 anos depois os gestos repetem-se

Jorge de Oliveira



Realizou-se no passado dia 20 de Setembro a Romaria em honra de Nª. Srª. da Lapa, situada junto a Besteiros, na freguesia de Alegrete. Contudo, manda a tradição que esta festividade se realize no último domingo de Setembro, que este ano cairia no dia 27, isto é, no dia das eleições para o Parlamento. Para evitar atropelos e incómodos adiantou-se uma semana a romaria. A festa de gosto popular divide-se em dois espaços: junto à ermida e no terreiro de Besteiros, à volta da “rotunda” do sobreiro. A parte religiosa tem o seu ponto alto na missa celebrada à porta da ermida, incapaz de acolher todos quantos a este paradisíaco local se deslocam. É antecedida pela chegada das imagens religiosas que, com a pompa que a circunstância possibilita, são transportadas em “carrinha” aberta engalanada e acompanhadas pelos festeiros e pelo padre celebrante.

O ritual repete-se. Alguns dias antes caia-se a ermida, aqui e ali dão-se uns retoques no telhado porque o último Inverno foi bravo. O reboco é reposto onde teima em cair. Alinda-se o altar, varre-se o adro e limpa-se a casa do ermitão. No dia da festa elevam-se aos respectivos nichos as imagens, mas a de Nª. Srª. da Lapa apenas espreita o quinhentista altar. Fica à porta para presidir à celebração. O manto de seda e renda reveste-se de notas do cumprimento de promessas, mal se avistando a policromia com que os barristas de Portalegre, dos finais do século XVI, quiseram decorar a pequena imagem da Virgem que segura o Menino no braço direito. Fios e medalhas de ouro enrolam-se ao pescoço da imagem, lembrando outras promessas.




Antes e depois da celebração assiste-se a um invulgar, estranho e interessantíssimo ritual. Sob o altar uma baixa e estreita porta abre-se dando passagem a todos quantos querem visitar o milenar espaço de culto. É verdade, por trás do altar esconde-se uma gruta natural, aberta na rocha quartzítica, onde se guardam memórias de tempos muito recuadas. Alguns dizem que ainda se vê, do lado esquerdo, a imagem do cavaleiro que estará na origem do milagre. Dizem-nos que está pintada a negro mas que já é muito difícil observar. Com velas na mão, as gentes, em fila, precipitam-se para o interior da gruta. Quando lhe perguntamos porque o fazem, apenas nos respondem que sempre o fizeram e os seus antepassados já o faziam. Qual ritual de passagem para um outro mundo original as pessoas curvam-se ou rastejam, à luz dos círios e transpõem o altar, o santo dos santos, para o outro lado. As mães pela mão levam os mais jovens que de olhos arregalados procuram descobrir o mistério que se esconde para lá do altar. E para lá do altar, depois de ultrapassada o estreito corredor entra-se na gruta, onde as memórias da ermida original, cristã, e não só, se misturam com as imagens que os homens pré-históricos pintaram nas paredes deste abrigo, que também foi seu santuário. Por entre os laivos de cal que ainda se conservam da primitiva ermida e se elevam sobre o derrubado muro do original altar descobrem-se, pintadas a traço grosso, de cor vermelha, imagens esquemáticas semelhantes às que se conhecem nos vizinhos abrigos pré-históricos da freguesia da Esperança, ou de Alburquerque. Foi, há pelo menos 5000 anos, que os homens que por estas paragens deambulavam se serviram desta lapa para pintarem memórias da sua passagem, dos seus mitos, dos seus receios ou das suas devoções. São traços esquemáticos que hoje dificilmente entendemos, mas que estão lá a testemunhar como 5000 anos depois os gestos se repetem. Trata-se, em boa verdade, de um local único. Com uma paisagem deslumbrante, próximo de uma fonte, em frente da qual se abre um fértil vale, hoje, na sua maioria, terras de Espanha, o homem pré-histórico apropriou-se do abrigo natural e nas paredes da gruta aí pintou, com tinta indelével, mensagens que até nós chegaram. Pelo menos na Idade-média a gruta pré-histórica foi resgatada pelo cristianismo. Restos de uma primitiva construção, observam-se por detrás do actual altar. Aqui viveria um ermita em meditação. Eventualmente, também aqui se terá cultuado Alá e, posteriormente, o espaço convertido ao cristianismo, onde algum cenobita terá sobrevivido das esmolas que os das redondezas lhe traziam. Nos finais do século XVI ou nos inícios do século XVII a ermida é remodelada, adquirindo, genericamente, a traça que hoje ainda apresenta. Terão sido as influências do longo e purificador Concílio de Trento que obrigaram à renovação do espaço e que por ordens do culto bispo Amador Arraes foram globalmente aplicadas em toda a diocese.

Terminada a celebração, que desta vez teve um significado acrescido ( o padre Marcelino despediu-se da sua comunidade, de partida para a Sé de Portalegre ) os romeiros vão visitar a memória do espaço adjacente à ermida. Noutra concavidade natural, provavelmente também com vestígios pré-históricos, mas esta totalmente caiada, desenvolve-se a casa da última família que aqui viveu e que da ermida tomava conta. A memória desses tempos preserva-se no mais pequeno pormenor. Os velhos leitos ainda estão preparados, a mesa, as cadeiras e os outros pobres “tarecos” parecem esperar pelo regresso dos seus velhos donos. É mais um local de visita obrigatória. Neste espaço os romeiros mais idosos sussurram velhas histórias à medida que entram e saem.

A tarde vai caindo e a festa ainda está meio. Os santos descem dos altares, as cadeiras e bancos regressam à igreja, o sino volta a tocar antes que a portada que o guarda se encerre até para o ano. A “carrinha” engalanada volta receber os santos e algumas santas festeiras que de fato domingueiro as acompanham. A igreja é fechada a sete chaves, apenas lá ficando cópias sem valor das imagens originais, porque essas, agora, em procissão regressam a Besteiros. Junto ao velho Posto da Guarda Fiscal a Banda de Alegrete espera a imagem de Nª. Srª. da Esperança. Aqui se inicia o cortejo a pé até ao centro das festas, à volta do velho sobreiro que agonia desde que alcatroaram o entorno. As imagens recolhem aos novos e improvisados templos e o tempo religioso dá lugar ao tempo pagão. Está na hora da tourada, dos petiscos, do vinho e da cerveja e do bailarico. Para o ano, se no último domingo de Setembro não houver eleições para o Parlamento a Srª. da Lapa voltará a visitar o seu multi-milenar templo.

Fonte:
consultado a 10/2/2011

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


Igreja de Santa Maria ou de Santa Ana
(Alegrete)


Quanto no ano de 1725 o doutor João de Sequeira Sousa, juiz de fora de Arronches, se dirigiu a Alegrete para proceder à medição do local onde existira a igreja de Santa Ana, já nada se conseguia vislumbrar deste antigo templo. Ainda assim, a memória serviu de auxiliar: “fomos ao Sitio que hoje se chama de Santa Anna junto á muralha do Castello da parte de fora da parte de Santa Maria por sima da Igreja de São Pedro para effeyto de demarcar o terreno da Igreja que tinha sido da Senhora Santa Anna e por se não descubrir a largura, nem o cumprimento, mas somente se verificar que naquele sitio tinha sido por assim o depor o Sargento mor Gregorio Mergulhão, e os louvados afirmarem o ouvirem dizer geralmente mandou o dito Juis de fora, e tombo firmar hum marco com quatro testemunhas para a todo o tempo constar”.
Este extracto do Tombo dos bens da Capella de Santa Anna, guardado no Arquivo Distrital de Portalegre, prova-nos que a igreja já não existia no primeiro quartel do século XVIII. Aponta ainda uma localização precisa para o monumento desaparecido: junto à Porta de Santa Maria, encostado às muralhas, sobre a igreja de São Pedro.
A invocação de Santa Ana, mãe da Virgem Maria, é no entanto tardia na história deste templo, aparecendo unicamente a partir da década de 70 do século XVII. Antes dessa data, a igreja era de Santa Maria ou de Nossa Senhora, dando origem inclusivamente à designação toponímica de uma das portas das muralhas de Alegrete. Teve origem numa capela (legado pio) instituída por Vasco Anes e outros benfeitores, colocada sob a protecção da Virgem. Dotada com vastas propriedades no concelho de Alegrete e noutros limítrofes, era administrada pela Câmara da vila, à qual pertencia “a nomeação e elleyção de administrador, e capellão, Cuja elleyção sua Magestade constuma confirmar plo seu Dezembargo do Passo”.
Desconhecemos a data desta instituição. A situação não era diferente da que existia no início do século XVIII: “por ser muyto antiguissima não há notiçia della, tendose feyto exactas deligençias tanto nos Cartorios desta Vila, Como no desta Provedoria [de Portalegre]”. Deveria remontar, contudo, à Idade Média, tendo em conta que já existia na segunda metade do século XV.
O primeiro documento em que claramente se menciona a igreja de Santa Maria data de 1477. Nesse ano, a 5 de Maio, uma carta dada em Évora em nome de D. Afonso V, mas assinada pelo futuro D. João II, então príncipe regente, nomeia Lopo Vaz de Camões (um descendente de Vasco Pires de Camões, alcaide-mor de Portalegre? um ascendente do poeta autor d’ Os Lusíadas?) “em toda a Sua vida por Provedor da capella de Sancta Maria de Alegrete, e todolos bens que a ella pertencem”. Na mesma carta, este fidalgo (“cavaleyro de nossa caza”) é autorizado a “arendar, e desarrendar, aforar, e desaforar, e fazer dos bens da dita Capella todo o que Sentir que he bem, e proveyto della”, mas com uma condição: “que o dito Lopo váas Levante a Igreja, e ponha em ella cálix, e vestimenta, e todalas outras couzas que á dita Capella cumprirem”. E ainda com a obrigação de mandar dizer “cada Sabádo em cada huma Semana huma missa, e mais todas as festas principaes de Santa Maria polas almas dos defuntos que os ditos bens Leyxarão à dita Capella”. O documento coloca-nos uma dúvida em relação à origem da igreja. D. Afonso V obriga Lopo Vaz de Camões a “levantar” o templo. Não sabemos no entanto se o verbo aponta para um construção nova, de raiz, ou para uma reconstrução. Colocamos no entanto a hipótese de uma existência anterior: em primeiro lugar porque o legado pio (anterior a 1477) necessitaria de um espaço específico para o cumprimento das obrigações religiosas a ele vinculadas; em segundo porque a invocação de “Santa Maria” é tipicamente medieval, muito anterior a uma data tão avançada quanto o último quartel de quatrocentos. Seja como for, parece-nos claro que após o diploma do rei Africano foi edificado um novo templo, devidamente equipado pelo provedor da capela nas suas necessidades materiais.
No primeiro quartel do século XVII a igreja de Santa Maria era descrita da seguinte forma: “Tem a dita capella a Irmida extramuros da dita villa de Alegrete á porta de Sancta Maria que tomou o nome desta mesma Irmida, a qual he huma Irmida de uma só nave”. Nessa data, nela celebrava missa quotidiana o capelão, havendo festa solene no dia de Santa Ana. Talvez por essa razão a invocação primitiva foi sendo substituída, ao ponto de só a mãe de Maria ser recordada a partir do século XVIII.
Este templo de Alegrete sofreu no entanto várias vicissitudes. Numa inquirição realizada a 23 de Dezembro de 1672, Manuel Soilheiro, sargento-mor da vila, com 61 anos, afirmava: “nesta villa extramuros havia huma Igreja, e se chamava a de Sancta Anna, a qual Igreja se derribou por cauza das guerras”. A guerra seria então a da Restauração. E é natural que uma igreja encostada às muralhas, junto de uma das suas portas, fosse atacada pelo inimigo – ou demolida pelos alegretenses, para não facilitar a entrada das forças opositoras no espaço muralhado. Noutra inquirição, realizada em 1712, Pedro Moreira (com 70 anos de idade) recordava no entanto “que o Capellão Manoel Rodrigues Reedificou a dita capella, de abobada a Igreja e huma sanchristia”.
A sorte da antiga igreja de Santa Maria não foi, no entanto, duradoura. Durante a Guerra da Sucessão de Espanha (1704-1713) o edifício foi demolido por razões de segurança: “por estar contigua ao castello […] se mandou derribar quando o inimigo na guerra passada prizidiou a praça de Arronches”. Não mais foi reconstruído.
O seu recheio foi então transferido para a igreja de São João Baptista, matriz de Alegrete. Aí, provisoriamente, continuaram a ser cumpridas as disposições dos instituidores da capela, mais precisamente no altar onde fora colocada a imagem de Santa Ana. Poucos anos depois, a escultura foi transferida para a igreja do Espírito Santo, onde passou a ser venerada em capela própria, dotada de sacristia particular, com entrada independente pela rua Direita da vila.
Com a implantação da República e profanação do templo onde se encontrava a imagem da avó de Jesus Cristo, esta regressou à matriz de Alegrete, local onde foi observada e fotografada por Luís Keil no início dos anos 40 do século XX (cf. Keil, 1943: 150). Em 1955 foi exposta ao público no Seminário Diocesano de Portalegre, no âmbito da mostra de Arte Sacra aí realizada aquando da inauguração desse edifício. Lamentavelmente, as autoridades eclesiásticas não mais a fizeram regressar à localidade para onde fora adquirida ou mandada esculpir, provavelmente por Lopo Vaz de Camões. Esteve ainda presente na exposição comemorativa do 450 da Diocese de Portalegre, realizada no ano 2000, não mencionando estranhamente o catálogo (organizado pelo padre José Patrão) a sua proveniência.
Esta peça do século XV é o último documento artístico proveniente da antiga igreja de Santa Maria de Alegrete: uma escultura gótica em pedra de ançã, policromada, com 76 centímetros, representando as Santas Mães (ver foto).



sexta-feira, 4 de dezembro de 2009




IGREJA DE SÃO PEDRO
(Alegrete, Portalegre)


Segundo uma velha lenda conhecida na região, a igreja de São Pedro terá sido na Idade Média a primeira sede paroquial de Alegrete. Se fizermos fé nesta hipótese, ela remontará então ao século XIII, a tempos anteriores ao reinado de D. Dinis, responsável pelo foral dado a Alegrete e pelo urbanismo gótico do espaço situado dentro das muralhas desta vila, antiga sede de concelho, hoje integrada no território de Portalegre.
A construção arruinada que hoje podemos observar não deverá no entanto ir além de finais do século XV, como confirma Luís Keil (cf. Keil, 1943: 150), tendo sido alvo de remodelações nas centúrias seguintes.
A igreja é constituída por galilé, nave, capela-mor e sacristia. Teve ainda uma pequena sineira (de que não restam quaisquer vestígios), como parece indicar um dos sinos existentes na torre do relógio de Alegrete, datado de 1668 e dedicado a São Pedro.
A galilé possui arcos de volta inteira em alvenaria. Deve ser obra de meados do século XVI, embora existam ainda vestígios de uma construção anterior com a mesma função.
A entrada na igreja faz-se por um portal em arco de asa de cesto, em granito aparelhado, com esquinas chanfradas. É ladeado por duas pequenas janelas e sobrepujado por outra de maiores dimensões.
A capela-mor é o espaço mais interessante desta igreja. O arco do cruzeiro é de volta perfeita assente sobre pilastras, em granito aparelhado, co
m esquinas chanfradas, arrancando de impostas decoradas com motivos vegetalistas (quadrifólios) e antropomórficos. É coberta por uma abóbada de berço, com sanca saliente, inteiramente decorada com esgrafitos imitando os tectos apainelados. Possui no centro uma pintura em tons de ocre, posterior, representando um brasão com os atributos de São Pedro (as chaves). Esta parte da igreja foi, até à Primeira República, em grande parte coberta por azulejos de tapete, azuis e amarelos, de que restam hoje apenas parcos vestígios. Com a retirada dos mesmos foi posto a descoberto um importante conjunto de painéis em pintura mural, representando maioritariamente passos da vida do padroeiro da igreja. A decoração mural ocupava a totalidade das paredes laterais e estendia-se ainda à parede fundeira desta capela, onde - para além da banqueta do altar - se situava o nicho que albergava a imagem de São Pedro, sobrepujado por um óculo, hoje cego.
No corpo da igreja existem restos de dois pequenos retábulos colaterais, elaborados em alvenaria, dentro do estilo comum na região durante o século XVIII, na linha do barroco / rococó populares. Esta parte do templo era coberta por um tecto de madeira, hoje desaparecido com o púlpito, de que restam ainda vestígios. É possível que as paredes laterais desta parte do edifício tivessem também decoração em pintura mural, entretanto coberta pela cal, que ainda subsiste. A entrada lateral para a nave, situada à direita de quem olha para a capela-mor, é guarnecida no exterior por um pequeno pórtico em cantaria com arco abatido e esquinas chanfradas, típicos do século XVI, em cujo alinhamento existe ainda uma cruz esculpida em granito.
A igreja de São Pedro, aberta ao culto até ao início do regime republicano, foi em grande parte destruída e vandalizada nas décadas seguintes. Quando em 17 de Março de 1945 se lavrou o auto de entrega e restituição deste templo à comissão fabriqueira da paróquia de Alegrete, estava já "em completo estado de ruinas" (Maçãs, 1991: 26). Os azulejos do século XVII tinham desaparecido em mãos desconhecidas. O restante recheio fora recolhido na igreja paroquial.

A mais notável de todas as peças pertencentes a esta igreja é a imagem do padroeiro, hoje venerada no antigo altar de São Miguel na igreja matriz de Alegrete. Envolta em lendas, certamente relacionadas com a sua beleza escultórica, era considerada em 1758 como "Angelical" (Rebello, 1758 in Ventura, 1995: 100). Trata-se de uma imagem sedente de São Pedro investido na função papal, escultura gótica em mármore policromado, datada de finais do século XV, segundo proposta de Luís Keil (cf. Keil, 1934: 150).

quinta-feira, 4 de outubro de 2007



IGREJA DE SÃO JOÃO BAPTISTA
(Alegrete)


 
Sendo por agora impossível encontrar uma data precisa para a primeira edificação da igreja de São João Baptista, matriz da vila de Alegrete, parece-nos segura a hipótese da sua origem remontar ao século XIII, uma vez que nesta centúria foi sede de uma das primeiras comendas templárias no Alto Alentejo (cf. Rosa, 2001: 60)
Construída no interior do espaço fortificado, mesmo à porta principal das muralhas e com entrada por um pequeno adro, o templo que actualmente podemos encontrar é, no entanto, fruto de uma reconstrução ocorrida no século XVI, correspondendo em grande parte a uma interpretação popular dos cânones do chamado "Estilo Chão", expressão dominante do decoro e da austeridade propostos pela Contra-Reforma tridentina. Alguns elementos arquitectónicos e decorativos correspondem, porém, já ao século XVIII.
Da construção medieval pouco ou nada resta, embora seja muito provável que o construtor quinhentista tenha mantido o espírito da planta gótica. Supomos assim (mas sem base documental) que o templo original teria também três naves, com igual número de capelas. Não será difícil pensá-lo, tendo em conta que este modelo foi glosado até à exaustão por todo o país, com exemplos na nossa região (a igreja de Santa Maria de Marvão, vg.). Procedentes da igreja primitiva deverão ser duas das imagens expostas ao culto, ambas em mármore policromado: São Sebastião, do século XV, e Santo António, de inícios de quinhentos (cf. Keil, 1943: 150).
A fachada actual da igreja, virada a nascente, é bastante simples. Alongada, é composta por três corpos, separados por pilastras, correspondentes a igual número de naves no interior; no centro rasgam-se a porta de entrada e uma janela de iluminação. A sul possui uma torre sineira com quatro olhais, rematada por uma pirâmide pentagonal e decorada por quatro pináculos em alvenaria, decoração empregue igualmente na ornamentação do corpo mais a norte.
O interior é, como se disse, é composto por três naves (a que corresponde igual número de capelas fundeiras, intercomunicantes). Os arcos de volta inteira que as dividem assentam sobre colunas toscanas de granito.
A decoração interior da igreja corresponde a alterações ocorridas durante o século XVIII.
A capela-mor, com tecto apainelado quinhentista, possui um retábulo rococó com estrutura muito semelhante à de outros de execução popular existentes na região: trono central (neste caso resumido apenas à abertura) e sacrário, ladeados por dois pares de colunas marmoreadas e por duas peanhas, encimado por um frontão (aqui contracurvado). Nele são veneradas imagens de São João Baptista (uma boa peça do século XVI, com ligações à arte flamenga), de Cristo Crucificado e do Menino Jesus, do tipo "Salvador do Mundo".



Os retábulos das capelas colaterais seguem o mesmo figurino, embora com menor qualidade artística. Possuem camarins envidraçados que resguardam as imagens dos respectivos titulares: do lado do Evangelho o Senhor dos Passos (outrora da Visitação, pertencente à Misericórdia de Alegrete) e, do lado da Epístola, Nossa Senhora da Alegria (antigamente "do Rosário") - ambas de roca. Também a norte existem mais três pequenos altares. O primeiro, dedicado a São Miguel, possui uma pintura sobre tela, com interesse meramente iconográfico, representando a salvação das almas do Purgatório. O segundo, em tosca alvenaria, era dedicado no século XVIII a Santo António, sendo actualmente da Senhora de Fátima. Do terceiro é titular Nossa Senhora do Socorro, representada através de uma escultura maneirista estofada e policromada, dotada de uma intensa expressividade.
Sem coro, esta igreja paroquial de Alegrete possui ainda o seu baptistério, situado no piso térreo da torre sineira, embora actualmente (seguindo os ditames do Concílio Vaticano II) a pia baptismal em granito se encontre à direita da capela mor. O púlpito, ainda observado por Luís Keil no seu lugar ("à esquerda, [...] encostado à primeira coluna junto à capela-mor" (Keil, 1943: 150)), já não existe. De entre os elementos arquitectónicos deste templo merecem ainda referência duas pias de água-benta em mármore, assentes sobre finos colunelos - obras delicadas do século XVI.Para além de tudo isto, o recheio deste edifício compõe-se também de outras peças interessantes e valiosas, nomeadamente alguma ourivesaria (do século XV a setecentos), banquetas barrocas de estanho e várias esculturas em madeira e em pedra, provenientes de igrejas de Alegrete hoje sem culto, em ruínas ou desaparecidas

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