terça-feira, 22 de maio de 2007

CASTELO DE VIDE EM 1758
(freguesia de Sant' Iago - continuação)


É sem nave alguma. Tem uma capela-maior, com seu retábulo antigo. Nele está um sacrário com o Santíssimo Sacramento, com o patrono Sant’ Iago Maior. Tem uma imagem de Nossa [Senhora] do Livramento e os evangelistas São João e São Mateus. Tem um altar do Senhor Crucificado, milagroso e tem seus devotos, que lhe fazem sua festa; está da parte da Epístola, fora do arco. Tem outro altar da Senhora do Amparo, da parte do Evangelho e também com a mesma devoção. Tem outro altar de Santa Teresa, algum dia Santa Apolónia, capela particular que instituiu o licenciado João Vivas Barbas, prior proprietário desta mesma igreja, com missas cada um ano na mesma capela. Tem outro altar da Senhora da Encarnação, de pedra lavrada à moderna o arco, e com sua tribuna de madeira dourada; e tem quatro missas pelas festas do ano, por lhe deixar uma devota umas propriedades de raiz, que rendem cinco mil e quinhentos réis cada um ano. Tem uma capela de Santo António de Lisboa, com seus devotos que lhe fazem sua festa e lhe ornam o seu altar. Está pegado a ele outro altar de São Gregório, cujo não se diz missa por ter pouco vão. E da outra parte para o poente está o baptistério baptismal. Tem mais outro de Santa Ana, por lhe trazerem a sua imagem da ermida que se arruinou detrás do castelo, e cujo altar algum dia era de São Bento, donde existe ainda a sua imagem com muita devoção. São oito altares.
Há nela as confrarias actuais. Sant’ Iago, patrono dos mercadores desta vila; haverá perto de noventa anos que foi aprovada pelo Ordinário. E as mais são, por devoção, a Senhora do Amparo, Santo Cristo Crucificado, Santo António. O proprietário, o prior, apresenta o cura e tesoureiro desta mesma paroquial, a quem paga da sua côngrua ou dízimos que lhe toca a sua parte. E algum dia apresentava o cura da vila da Póvoa e Meadas e o tesoureiro, a quem paga o que lhe toca por o rapta [sic].
Tem de renda esta paroquial igreja de Sant´ Iago, entre todos os dízimos, centeio, trigo, milho e mealheiros e tudo o mais. Um ano por outro rende cento e cinquenta mil réis, estes cativos, e destes se pagam as propinas per annum. Ao tudo oitenta mim réis antes mais para cima. Os dízimos das igrejas de Castelo de Vide e vila da Póvoa e Meadas se partem da maneira seguinte. Faz-se o monte em três terços. Primeiro terço é para as dignidade da cidade da Guarda, por haver sido Portalegre antigamente deste bispado. E os outros dois terços do principal se partem três quinhões: destes leva um a comenda e os beneficiados de Santa Maria da Devesa; e os outros segundos que restam se partem em cinco partes, das quais duas são para a fábrica da Guarda, e duas para o prior proprietário de Sant´ Iago e uma parte para o prior de São João Baptista de Malta.
Tem esta minha freguesia fogos duzentos e quarenta e sete, pessoas de confissão e comunhão seiscentas e vinte e sete, de confissão menores cento e quinze. São o número a tudo setecentas e quarenta e duas pessoas.
Esta paroquial igreja está à frente da fonte do Martinho e da serra de São Paulo, donde os castelhanos combateram esta praça para a arruinarem. A porta principal está para o Poente. Junto a ela a muralha, que está entre o meio o Curral do Concelho cinquenta passos. Está para o Nascente e Sul ou soão a porta travessa, para a Carreira de Sant´ Iago, rua primeira da freguesia. Outra porta da mesma parte, serventia da sacristia, está toda ao temporal. E não tem naves algumas. Tem o seu coro. E antigamente tinha o seu órgão para as funções e festividades da Igreja. É pequena e tem de regalia, por antiga que foi a primeira freguesia, sair ainda dela a procissão da Ressurreição de Cristo Senhor Nosso (depois da Ressurreição da matriz, que sai primeiro) e também a do Corpo de Deus, assistidas estas com todas as confrarias e com o clero, que serão setenta, com pena de excomunhão e outra com pena pecuniária, se faltarem por ser mais antiga, que era o Rei Salvador do Mundo, que é a primeira ermida desta paroquial, com uma capela-mor só com seu trono e tribuna. Nele está uma imagem de Nossa Senhora do Pilar, que algum dia tinha irmandade. Está da parte do Evangelho o Rei Salvador do Mundo e da Epístola um Senhor crucificado. No terramoto teve ruína em uma parede. Está já reparada.
Está outra ermida do apóstolo Santo André, com capela-mor só.
Está outra ermida do apóstolo São Pedro. É igreja bastante, com sua capela-mor, donde está uma imagem de Nossa Senhora da Nazaré e [o] apóstolo São Pedro. Com sua sacristia, têm os padres por devoção de lhe cantarem missa com seu sermão e armação no dia vinte e nove de Junho. E algum dia teve irmandade.
Tem outra ermida da imagem da Senhora da Luz, capela particular, igreja com seu alpendre e sacristia. Tem capela-mor com a imagem da Senhora da Luz. Esta Senhora é milagrosa dos olhos, donde concorrem romeiros desta vila e arredores em o dia da primeira oitava da festa da Ressurreição de Cristo Senhor Nosso. Se faz festa com missa cantada e sermão, que manda dizer o instituidor da dita capela.
Tem outra ermida de São Silvestre, com sua capela-mor, donde está o santo. E tem seus mordomos, que se lhe faz festa nesta mesma primeira oitava da Páscoa, nesse mesmo dia, donde concorre todo este povo de Castelo de Vide e de fora. E andando as bestas ao redor da igreja do santo três voltas, têm por fé não terem dor de barriga e protecção do santo, salva a fé.
Tem uma ponte de cantaria só com um arco na ribeira de São João. Esta se acha com cinco azenhas neste distrito, desde o lagar de Dom João até ao lagar de António Torres. Estas moem todo o ano pão de centeio só. E quatro também servem de lagar de azeite. Tem dois pisões, que estão derrubados, por não haver mistério deles, senão no tempo da guerra, por estarem debaixo da artilharia.
Tem as fontes seguintes: fonte de Pero Boi, fonte do Souto, fonte do Cortiço, fonte do Porto da Póvoa e Meadas, fonte dos Corolheiros [sic]. Estas nunca se secaram no tempo da seca.
Estes engenhos moem todo o ano da água que nasce do cano, sítio das Lajes Preta, um grande safredo de penhasco de pedra, donde rebenta a dita água que principia a ribeira de São João, até se ajuntar com a ribeira da Vide, deste termo. E as tais duas ribeiras se ajuntam no rio de Sever. Tem este distrito de Sant’ Iago estes engenhos e ribeira.
Tem hortaliça, azeite, vinho, fruta de guarda. E estas águas livres, sem pensão alguma. Tem castanha e tapadas onde se semeiam centeios, milhos, cevadas. E a maior abundância dos frutos desta terra é centeio. Tem borregos, chibos e bezerros e bácoros.
Tem correio, que vai buscar cartas no sábado à cidade de Portalegre e na quarta-feira seguinte as leva.
E desta vila de Castelo de Vide à capital do reino dista trinta e tantas léguas, que é a nossa Lisboa.
Estas notícias referidas acima da minha paroquial igreja e freguesia de Sant’ Iago desta vila é só dela, do seu distrito, e ter eu conhecimento de muitas certezas e conhecer. Há sete anos que vivo em esta vila e paroquial igreja, por mercê de Sua Magestade Fidelíssima, que ma deu de propriedade e colado nela em oito de Junho de 1752. E por não achar mais notícias da dita paroquial igreja e freguesia, represento o papel escrito a Vossa Excelência, em Maio, 18, de 1758.

Súbdito e humilde venerador e cap. o prior Domingos de Figueiredo

(continua)

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