sexta-feira, 4 de dezembro de 2009


Notas sobre a
IGREJA DE SÃO PAULO (Castelo de Vide)

A igreja de São Paulo – situada na ponta oeste da Serra de Castelo de Vide, no monte designado no século XII “rostrum de Melrica” – é hoje um edifício arruinado, a que com muita dificuldade se acede, devido à densa vegetação que o rodeia. Localiza-se sensivelmente no sítio onde, em 1509/1510, Duarte Darmas desenhou uma das atalaias de Castelo de Vide. É possível que parte do templo (a capela-mor) tenha aproveitado na sua construção o que restaria da estrutura militar de vigia. Os restos observáveis parecem apontar nesse sentido.
Construída provavelmente na segunda metade do século XVI, a igreja tinha quatro compartimentos de pequena dimensão, reconhecíveis ainda hoje nas ruínas: nave única, capela-mor, sacristia e um outro espaço cuja funcionalidade desconhecemos, talvez a casa do ermitão.
Não existem quaisquer indícios que nos permitam vislumbrar como seria a fachada do templo, virada sensivelmente a nascente, ou a sua cobertura. A capela-mor é quadrangular e era coberta por uma cúpula hemisférica, de que ainda restam vestígios caiados.
Trata-se de uma capela filiável nas cubas mouriscas, de que existem numerosos exemplares por todo o sul de Portugal. Só no concelho de Castelo de Vide existem pelo menos mais dois, infelizmente também arruinados: as ermidas da Senhora das Virtudes (no Vale da Bexiga) e de São Silvestre (junto da estrada para a Póvoa), a que se pode ainda juntar a ousia de Nossa Senhora da Penha, embora seja circular. Perto, no concelho de Portalegre, temos ainda a capela lateral da Senhora da Alegria, na igreja de Carreiras, e as ruínas da pequenina igreja de São Tomé, no cimo do monte da Penha. Sem sabermos até que ponto são apenas emanações tardias da tradição moura ou vestígios antigos de espaços cultuais do islamismo fatimida, depois cristianizados, estas estruturas são de qualquer modo uma reminiscência histórica e arquitectónica das ermidas muçulmanas, relacionadas com cultos populares islamizados ou integráveis num islamismo muito heterodoxo, próximo do sufismo. Nas palavras de Artur Goulart de Melo Borges, são constituídas por “um corpo cúbico com uma cobertura cupular hemisférica, forrada exteriormente ou por simples reboco deixando ver a sua forma característica, ou por telhado de quatro águas escorrendo em curvatura ao jeito da cúpula” (Borges, 1985: 198). Simultaneamente oratórios e postos de vigia militar, neles vivia “um santo asceta – morabito ou marabuto – que aí recebia e orientava os fiéis e onde poderia vir a ser sepultado, continuando assim esse lugar a ser objecto de veneração. O termo morábito passou inclusivamente a significar também o próprio edifício” (Borges, 1985: 200). De acordo com este investigador, estas estruturas podem dividir-se em várias tipologias, dependendo da sua localização estratégica. A igreja de são Paulo de Castelo de Vide pertence à tipologia 1A, dado que tem uma situação estratégia em altitude pronunciada, permitindo abranger vasta panorâmica, associada ao isolamento. As outras tipologias são as seguintes: 1B, se a situação em altitude está ligada a uma localização na periferia dos povoados; 1C, se a altitude se junta a uma localização no interior das povoações; 2, se estão isoladas, mas sem altitude, associadas a estradas, rios ou atalaias; 3A, se não têm situação estratégica aparente e existem na periferia dos povoados; e 3B, se se localizam nos povoados, sem situação estratégica vislumbrável (cf. Borges, 1985: 200-201).
Não se sabe ao certo quando se deram o abandono e a ruína desta pequena igreja de Castelo de Vide (cujas ruínas necessitam de conservação e valorização). Cremos, no entanto, que terão ocorrido já em finais do século XVIII ou no século XIX, dado que em 1758 a ermida de São Paulo ainda era alvo de culto.

Bibliografia consultada:
Borges, Artur Goulart de Melo (1985) – “As ‘kubbas’ alentejanas – Monumentos de origem ou influência muçulmana no Distrito de Évora”. Actas do Congresso sobre o Alentejo – Semeando novos rumos, primeiro volume, Évora, Outubro: 198 – 202.
Cid, Pedro (2005) – As Fortificações Medievais de Castelo de Vide. Lisboa, IPPAR.
Trindade, Diamantino Sanches (1989) – Castelo de Vide – Arquitectura Religiosa, vol. 1. (2ª edição), Lisboa, Câmara Municipal de Castelo de Vide.

1 comentário:

Margarida Pereira disse...

Fico muito contente que haja quem, como o Ruy Ventura, faça estudos e apresente notas sobre construções antigas e infelizmente em ruínas, como a Igreja de São Paulo em Castelo de Vide, entre outras. Era muito bom e importante que se pudessem recuperar.Margarida Pereira

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