terça-feira, 10 de abril de 2007

"Fortios"
viagem à volta de um topónimo


(para o Cónego Dr. Bonifácio Bernardo)

Parece certo – se atendermos à informação veiculada em inícios do século XVII por Diogo Pereira Sotto Maior no seu Tratado da Cidade de Portalegre – que “São Domingos da Penha” era o topónimo que denominava nessa época a actual freguesia dos Fortios, no concelho de Portalegre. Nesse nome, em época indeterminada mas remota, haviam sido ligadas duas realidades: uma religiosa, o orago da paróquia (São Domingos de Gusmão), e outra orográfica, referenciando o acidente geológico que nas proximidades da igreja matriz se situa, chamado no século XVIII “serra de S. Domingos” ou “da Penha do Bufo”.
O actual nome da freguesia, “Fortios” – que em inícios de seiscentos era apenas a denominação do seu principal aglomerado –, impôs-se com o tempo, devido ao aumento do seu número de habitantes, substituindo hoje o topónimo antigo, como aconteceu também com o vizinho “Monte da Urra”, cujo nome apagou a antiga designação paroquial, “Sant’ Iago de Caiola”.
Várias têm sido as explicações dadas por filólogos e investigadores para o nome “Fortios”, inicialmente ligado a um “monte” que, mais tarde, passou a ser “aldeia” – devido ao seu relevo populacional e, certamente, urbanístico. (Convém referir que, no português antigo, “monte” e “aldeia” eram quase sinónimos – havendo entre eles somente uma distinção no tamanho do aglomerado, sendo “monte” um pequeno núcleo habitacional e “aldeia” um habitat de maiores dimensões. (É significativo o apontamento do pároco da Ribeira de Nisa, em 1758, ao escrever nessa data que a sua freguesia tinha “muitos lugares, ou aldeyas, ainda que não populózos, por cuja razão se chamão montes”.)) O crescimento do “Monte dos Fortios” seria já significativo em finais do século XVI, pois nessa altura (1586) os seus moradores conseguem autorização do bispo D. Frei Amador Arrais para construírem uma nova igreja, desobrigando-os de receberem os sacramentos na igreja matriz de São Domingos, situada a alguma distância.
Alexandre Carvalho Costa (1950) coloca a hipótese de “Fortios” derivar de “fortim”. Esta hipótese é no entanto contrariada por Joaquim da Silveira, que o acha nascido do apelido espanhol “Fortis”. Por sua vez, Xavier Fernandes atribui-lhe origem obscura, caso não esteja relacionado com a palavra latina “furtiuuos”, significando oculto, escondido, secreto. José Pedro Machado, em 1984, acha entretanto que “Fortios” é a forma plural de “Fortio”, “em alusão a pessoas do local pertencentes a família com este apelido”. “Fortio”, por seu lado, deve ser alcunha derivada de “forte” (a que foi acrescentado o sufixo “-io”, com o significado de “colectividade” ou “quantidade”), ou então uma forma popular de “furtivo”.
Em qual das hipóteses devemos confiar, pela força da probabilidade? Parece-me mais sólida a de José Pedro Machado, próxima na forma da de Joaquim da Silveira: “Fortios” é a forma plural do apelido/alcunha “Fortio”. Até porque os pequenos aglomerados populacionais nascidos durante a Idade Média receberam muitas vezes o nome do proprietário (ou do povoador), seguindo a tradição dos povos germânicos anterior à invasão islâmica, bem visível ainda no norte de Portugal. Devemos ter em conta também que só nos últimos séculos o nome “Fortios” surge isolado, pois nas suas origens está quase sempre dependente do topónimo genérico “Monte”, que adjectiva, indicando que o “monte” pertence ou pertenceu aos “Fortios”, isto é, à família “Fortio”.
Mas tudo não passaria de uma hipótese, se não existissem provas da presença na região de alguém com esse apelido, algo raro mesmo na documentação antiga... Mas felizmente existem. Transcrevendo o tombo dos bens incluídos na comenda de Santa Maria a Grande, de Portalegre, pertencente à Ordem de Cristo, elaborado em 1509, encontrámos uma referência preciosa. Referindo-se a propriedades da sucessora dos Templários existentes na zona da Mata, refere a dado passo o documento:“Iunto da sobredita courella de Vinha [“camjnho da mata honde chamã a fonte delrrey”], tem a hordem outra que com ella parte ao sul & parte ao norte com vinha de dieg’ aluarez fortío”.
Ficamos assim a saber, através deste extracto do texto supracitado, que no início do século XVI existiu realmente no território da actual freguesia dos Fortios um proprietário (Diogo Álvares) cujo apelido ou alcunha era “Fortio” – o que vem provar documentalmente a teoria de José Pedro Machado. É natural que nos terrenos deste homem (dele, de seus descendentes ou dos seus ascendentes...) se tenha construído o “monte”, já “aldeia” em 1586 – tão importante na então freguesia de São Domingos da Penha que, séculos depois, conseguiu apagar esse nome, para ser apenas “Fortios”.


(Artigo publicado n' O Distrito de Portalegre)

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