segunda-feira, 10 de junho de 2019




CARTA ABERTA A JOÃO MIGUEL TAVARES

Caro João Miguel,
Tomo a liberdade de tratar-te por tu. Somos afinal conterrâneos, apesar de não nos conhecermos. A nossa idade é muito próxima. Imagino que, como eu, tenhas nascido no velho Hospital da Misericórdia, em pleno Rossio portalegrense; tu, em Setembro, eu dois meses depois. Escrevo-te depois de ter escutado pela televisão, comovido, a tua intervenção como responsável pelas comemorações do Dia de Portugal. Não poderia deixar de fazê-lo ao ouvir-te evocar o teu avô que, ao fundo da Rua de Elvas, dava sopa àqueles que dela precisavam, ao sentir o significado daquela casa ao cimo da Avenida Frei Amador Arrais que foi e é a tua e, sobretudo, ao ter contido com alguma dificuldade as lágrimas quando te ouvi mencionar o destino de tantos portalegrenses que, para cumprirem o seu destino, se viram obrigados a deixar o seu concelho.
Poderia ficar por aqui e agradecer-te, com a maior profundidade. Mas cortaria metade da verdade. Poderia dizer que o meu destino foi igual ao teu e ao de tantos da nossa terra. Mas não contaria a história toda, porque é mentira.
Se bem conheces o nosso concelho, e acredito que sim, sabes que o destino daqueles que nasceram e cresceram com a democracia não foi igual para todos. Os filhos do funcionalismo público e das elites locais, seja lá isso o que for, nascidos e criados na cidade, nunca tiveram o mesmo tratamento que os filhos dos operários, das costureiras e dos pequenos agricultores que tiveram como destino crescer nas aldeias da serra e dos arredores. Os sacrifícios, acredito, seriam semelhantes em cada família; mas enquanto os sacrifícios da classe média citadina podiam oferecer aos seus a universidade, fora de Portalegre, quem vinha de outros meios era obrigado a contentar-se com os cursos ministrados pelas escolas do Instituto Politécnico de Portalegre, mesmo que tivesse notas e capacidades para marchar até outras paragens. Como dizia uma grada senhora, era uma espécie de prémio de consolação.
Estou grato à democracia por ter criado instituições de ensino superior em pequenas cidades de província; se assim não fosse, ter-me-ia ficado pelo ensino secundário e ver-me-ia transformado num apagado empregado bancário ou de secretaria, talvez num contabilista, mesmo que tivesse asas para outros voos. Assim sendo, filho de um operário da Robinson e de uma costureira, vindo das serranias das Carreiras, não tirei (é certo) o curso de História que sempre ambicionei ou o de Geografia e Planeamento Regional para o qual tinha altas classificações, apesar de ter sido um dos agraciados com o Prémio Francisco Fino para os melhores alunos do secundário do nosso município, mas desenrasquei-me com uma licenciatura em ensino de Português e Francês, tirada na nossa cidade, porque para ela ainda ia havendo dinheiro, sabe Deus com que esforço e privações, embora para mais fosse impossível. Sem cunhas e sem parentes que me abrissem a porta fora de Portalegre, tive de me contentar com o que havia e dar o meu melhor, sabendo bem demais, mas tentando esquecer, que partia para a meta da vida numa posição diferente da de outros meus conterrâneos...
Foi no final dessa licenciatura que comecei a tomar consciência de outra realidade. Aluno no último ano do nosso saudoso Carlos Garcia de Castro, poeta grande cujo mérito, refugiado na interioridade, nunca foi reconhecido como deveria ter sido pelo "meio literário", foi ele quem me abriu os olhos para o que Portalegre era há 25 anos e, infelizmente, continua a ser. Nunca esquecerei a sua frase: "Concorra para sair daqui. Nesta terra nunca lhe perdoarão ser filho de um operário e de uma costureira." Concorri, mas passados anos caí na tentação de aceitar um convite para regressar. Durante três anos, fui professor na instituição de Ensino Superior onde recebera a minha formação inicial. Seduzido para a política por estratégias ardilosas, estive quase a entrar para o partido que agora nos governa. Acontece que, no momento decisivo, me deu para ser independente e recusei atravessar para esse lado. Paguei caro. Não tardou muito que deixasse de haver lugar para mim e, apesar de ter o meu mestrado concluído e iniciado o doutoramento, fui preterido. Eu tive de regressar ao exílio e quem ficou, apenas com a licenciatura (!), teve o lugar garantido durante vários anos, talvez por ser filha de um ex-autarca do Partido da mão fechada. Só então percebi tudo quanto Carlos Garcia de Castro me dissera. Em Portalegre, cópia em miniatura do Portugal que abomina o mérito e tu hoje denunciaste com a firmeza que te conhecemos, não se perdoa a falta de currículo familiar e muito menos pensarmos pela nossa cabeça, sobretudo se isso fizer sombra a alguém bem instalado ou puser em causa o seu pequeno poder ou a sua mediocridade.
Sou hoje um portalegrense exilado que bem gostaria de curar-se dessa doença que se chama Portalegre. Teria uma vida muito mais tranquila. Não nego: o exílio tem-me trazido muitos momentos felizes, algumas alegrias que nunca atingiria se tivesse ficado pelo Corro lagóia. Mas, confesso-te, são alegrias amargas que, a cada momento, me recordam essa condição de migrante por vontade alheia. A minha árvore tem raízes e custa-me saber que os seus frutos são colhidos por outros porque da minha terra existe uma incessante e nefasta ventania que lhe vergou o tronco e fez crescer a copa noutra direcção.
Sabes, João, ao ouvir o teu discurso de hoje - que só não me fez verter lágrimas porque, caramba!, um homem não chora - vi pela televisão os meus pais aplaudindo-te. Também devem ter sentido fundamente as tuas palavras, lembrando o seu filho único que a várias centenas de quilómetros as ouvia. Portugal ainda é uma Portalegre ampliada, porque, como dizia Raul Brandão a propósito de Gomes Freire de Andrade, aqui não ganham os inteligentes, mas (para nossa desgraça colectiva) os mais espertos.
Bem hajas pelas palavras que tiveste a coragem de dizer. Espero que a voragem deste país não as apague tão depressa. Um abraço firme e comovido do teu conterrâneo

quinta-feira, 2 de maio de 2019


… E A MEMÓRIA DA CIDADE QUE SE LIXE

Lê-se na página da sucursal portalegrense do Partido Socialista que, em Assembleia Municipal, fez aprovar – apenas com a abstenção do PSD – a atribuição do nome de Mário Soares à “popularmente conhecida rotunda do navio”. Parece que esta decisão já mereceu a concordância da comissão municipal de toponímia. Tanto quanto vim a saber, a sucursal concelhia do Partido Comunista Português, para não ficar atrás e cobrando, quiçá, o voto favorável dos seus eleitos, propôs ou vai propor que outra rotunda ou avenida ou rua lagóia venha a ter o nome de Álvaro Cunhal. (Se tal se concretizar, o que não duvido, teremos uma verdadeira geringonça portalegrense – só faltando o beco Miguel Portas ou João Semedo ou Francisco Louçã ou Catarina Martins ou Fernando Rosas para a trempe ficar completa...)
Ainda correu pela cidade e arredores que a ideia inicial dos comunistas era rasurar a designação “Avenida do Bonfim”, nascida do santuário homónimo onde tem início, tão querido das gentes da cidade onde nasci. Mas parece que a coisa ficou pelo caminho, talvez por saberem que o regulamento municipal impede (ou desaconselha) a substituição de nomes históricos oficialmente consagrados – ou, mais provavelmente, por se lembrarem que essa artéria passaria a desembocar na rotunda agora soarista, o que provocaria não poucos engulhos aos dois adversários políticos, caso cá estivessem, vendo-se assim de braço dado, quase aos beijinhos, na pública rotunda. Mas adiante. Confesso que gostaria de ouvir, vinda das profundas, a voz cava do nunca desmentido devoto das práticas e doutrinas soviéticas dizendo ao meu ouvido: “Olhe que não, olhe que não…” A mais de duzentos quilómetros de Portalegre tenho todavia informações seguras de que tal má nova é mesmo certa – verdade, verdadinha. E lamento. Funda e fundadamente lamento!
Não está em causa o mérito ou demérito das figuras que, agora, em vésperas de eleições, um punhado de políticos do burgo quer reverenciar à custa da identidade da urbe, nem sequer o facto de tais personalidades pouco ou nada terem que ver com a cidade. Tiveram qualidades e defeitos como toda a gente. Nalgumas situações contribuíram para o bem do povo, noutras prejudicaram-no e noutras foram impedidos (graças a Deus!) de prejudicá-lo. Estão em causa os critérios e os jogos políticos e sociais que movem a exaltação de Cunhal e Soares e apagam, ao mesmo tempo, Fernando Pessoa (sim, esteve em Portalegre!), Humberto Delgado, Salgueiro Maia, Matilde Rosa Araújo (sim, viveu na cidade!), Ramalho Eanes, Amaro da Costa ou, até, para falar nos portalegrenses de nascimento ou de coração, Soror Isabel do Menino Jesus, Eusébio Leão, Joaquim Miranda da Silva, Pe. José Patrão, Carlos Garcia de Castro ou Carrilho da Graça... Está sobretudo em causa o modo como se desrespeita e/ou menospreza com estas e outras decisões a memória urbana e histórica de Portalegre, expressa no nome legítimo dos seus lugares, criado pelo povo que neles viveu ao longo de séculos. (Seria indigno, pergunto, o nome ancestral do local, “Moinho de Vento”? Causaria brotoeja uma referência à Fábricas das Sedas que aí existiu?)
Estudei com demora a toponímia da cidade e as motivações que a foram criando, alterando, rasurando ou apagando. Vem tudo num longo artigo intitulado “Toponímias de Portalegre: da Idade Média ao século XX”, publicado há uns anos no nº. 12 da “Ibn Maruán – Revista Cultural do Concelho de Marvão” (hoje a necessitar de reedição revista e aumentada). Sei bem o que valem as chamadas “comissões de toponímia”, como são nomeadas, o que as move, a sua competência e os regulamentos que fazem, desfazem e aplicam. Não esqueço a ligeireza do conhecimento que, salvo raras excepções, possuem da História e da memória colectiva – e o (des)respeito que têm por ela. Basta-me recordar muitas e muitas das suas incompreensíveis (ainda que bem intencionadas) decisões – valorizando gente com escasso valor e ostracizando os que deveras o tiveram. Chega-me relembrar pelo menos um dos seus pretéritos membros (entretanto falecido) que, além de ter inventado uma “Rua dos Aleatórios” na toponímia setecentista de Portalegre, defendia a eliminação de grande parte dos nomes antigos como coisa bolorenta e pouco civilizada… Já não me deixa, pois, boquiaberto a forma leviana e por vezes caricata com que nomeiam as novas vias de circulação. Não me espanta, ainda, que as mudanças toponímicas continuem a ser uma triste realidade, mesmo que a população portalegrense não as queira – pois nunca sobre tal assunto foi, é ou será consultada. Pelos vistos a salvaguarda, valorização e divulgação deste património imaterial ainda não chegou à terra onde nasci (nem a boa parte do nosso país, diga-se em abono da verdade). Com desgosto o escrevo.
Dir-me-ão que as tentativas de rasura não são de agora, que as homenagens interesseiras são já velhas. Têm toda a razão. Começaram, ainda que timidamente, no século XIX, com o regime liberal. O nome das praças, das alamedas, das ruas, das travessas e até dos becos passou a ser campo fértil de todas as propagandas, de todos os interesses e de todas as vaidades. Houve é certo boas intenções, embora com maus resultados. Graças a Deus nunca tivemos em Portalegre autarcas que durante o seu mandato impusessem o seu nome a ruas e edifícios, como sucedeu noutras terras do Alto Alentejo e do Entre Douro e Minho. Mas o fluído canino das várias tendências políticas e de muitas vaidadezinhas individuais ou de grupo foi manchando não poucos nomes ancestrais da nossa cidade e de quase todas as terras do nosso país.
Ironia das ironias, o povo (que nunca foi tido nem achado nessas artimanhas e sobrancerias) esteve-se sempre lixando para os nomes novos, a não ser quando atribuídos a espaços urbanizados de novo – e ainda assim nem sempre. Passados muitos decénios (por vezes mais de um século) sobre essas alterações decretadas pelo sectarismo político das vereações, continuou a usar os topónimos antigos. Os exemplos em Portalegre são eloquentes. A rua Alexandre Herculano continua a ser de Santo André, a 31 de Janeiro teima em ser dos Canastreiros, o parque Miguel Bombarda, a avenida George Robinson e a rua de Olivença nunca deixarão de ser Corredoura, a rua 5 de Outubro nunca abdicou de ser Direita, o largo 28 de Janeiro pertence ainda à Fonte Nova, a rua Mouzinho de Albuquerque apenas do Pirão é chamada, não esquecendo a Luiz Barahona que do Castelo nunca se livrará, a Cândido dos Reis que nunca esconderá o Cano, a Almeida Garrett que nos conduz ainda ao Mercado (embora ele já esteja noutras partes), a França Borges que persiste na sua referência ao Bargado, o largo Serpa Pinto que adoptou (demolida a igreja da Madalena aí existente) a boneca de uma fonte...
A lista poderia continuar, mas não vale a pena aborrecer os leitores. Convém todavia registar com irónico agrado as designações populares bem recentes que os sábios transeuntes vão já dando a outros lugares com urbanização contemporânea, ignorando com orgulhosa altivez o desrespeito de que são alvo – neste e noutros domínios – por uma boa parte dos seus representantes eleitos. Ou alguém tem dúvidas de que a agora chamada “Rotunda Mário Soares” continuará a ser para todos a tão simples “rotunda do navio”? Não tenho quaisquer dúvidas. Afinal, nestes e noutros achados, “o povo é quem mais ordena”. Por mais que isso provoque comichões nalguns que se têm como procuradores sobranceiros da população.

RUY VENTURA 
(Texto publicado a 2/5/2019 no jornal portalegrense "Alto Alentejo"; foto de RV.)

quarta-feira, 25 de julho de 2018



MILAGRE QUE FEZ
Ex-voto do Senhor dos Aflitos reaparece
mais de 40 anos depois de “perdido”


         Nunca estaremos suficientemente gratos aos coleccionadores de arte sacra do nosso país. Pensemos o que pensarmos sobre o seu amor às peças que foram e vão juntando ao longo de uma vida, quantas vezes com sacrifício pessoal, temos de reconhecer que graças à sua actividade se salvaram e salvam muitas obras da nossa cultura. Essa gratidão deve ser ainda maior quando, em determinado momento da sua vida, se sentiram na obrigação de devolver as peças adquiridas ao usufruto público, cedendo-as ou vendendo-as a museus ou a outras instituições que, de algum modo, continuaram e/ou continuam a sua devoção àqueles objectos, onde as mãos dos criadores humanos tentaram expressar a sua interpretação da palavra de Deus, da religiosidade humana ou das figuras e narrativas que, ao longo de séculos, edificaram a história religiosa de Portugal e de outras paragens. Nunca é demais lembrar as palavras do Papa Francisco que, num livro intitulado “La Mia Idea di Arte” (infelizmente indisponível em português), sublinha o papel evangelizador da pintura, da escultura, da arquitectura, da música e de outras artes, ao serem, mais do que muitos discursos teológicos, vias eloquentes de interpretação da revelação apostólica. Essa sua capacidade não se esbate nem desaparece quando as peças, levadas por circunstâncias diversas, saem dos edifícios religiosos. Tornam-se antes vias especiais que continuam a levar, subtilmente, mesmo aos descrentes, a mensagem divina.
         Não podemos esquecer o quanto devemos agradecer aos coleccionadores “de santos”. Sem eles, muito património ter-se-ia perdido, levado pela ignorância e pela arrogância dos homens (clérigos e leigos), pela ambição e pela estupidez que moveu tantas épocas da nossa História, pelas “modas” que, frequentemente, lançaram para a poeira das arrecadações das igrejas esculturas, pinturas, livros, alfaias e outros objectos valiosíssimos e belíssimos, só porque não correspondiam aos padrões “estéticos” daqueles que eram os seus fiéis depositários. Dizia-me há anos um importante responsável eclesiástico do nosso país que, “muitas vezes, até os ladrões valorizam mais as peças que a Igreja possui do que muitos dos seus detentores, cuja única preocupação é vender ou atirar para o lixo o que parece velho e inadequado à sua miopia ou mandar repintar nos santeiros de Braga e de Fátima as peças que os nossos antepassados nos legaram…” Acrescentava: “Pelo menos os ladrões e os coleccionadores dão valor ao que temos…”
         Na altura, as suas palavras deixaram-me sem resposta e puseram-me a pensar. Embora reconhecendo as várias excepções que há pelo país, cujo mérito nunca será demais realçar (sobretudo perante os que agem de outro modo, vandalizando o que no fundo não lhes pertence), vi-me obrigado a concordar com esse prelado. E, cá entre nós, o tempo tem-lhe dado razão.
         Homens como José Régio, Ruy Sequeira, Ernesto Vilhena e alguns mais cumpriram um papel importantíssimo na nossa cultura. Podemos discutir os seus métodos e o seu sentido de oportunidade, o cuidado que nem sempre tiveram no registo da proveniência das obras de arte que foram comprando, mas temos de nos vergar à lógica da sua actuação e à maneira como, depois, devolveram o património ao público mais ou menos crente. Se nem todas as instituições a quem legaram ou venderam as suas colecções se mostram dignas desse património recebido, é outra conversa que não cabe neste artigo. Pensemos nas que têm trabalhado de outro modo, dando bons exemplos, como o Museu Nacional de Arte Antiga, a Casa-Museu José Régio, a Casa-Museu Padre Belo, o Museu da Consolata em Fátima ou a Fundação Robinson.

*

         Vem esta introdução a propósito de uma peça portalegrense recentemente redescoberta pelo autor deste artigo. Trata-se de um dos ex-votos pertencentes ao espólio do Santuário do Senhor Jesus dos Aflitos, situado na paróquia de São Domingos dos Fortios, no concelho de Portalegre.
         Local de culto nascido por volta de 1713 à sombra de uma pequena cruz de madeira, onde foi pintada a figura de Cristo paciente e sofredor, é ainda hoje um eixo da religiosidade do Alto Alentejo, movendo devotos e peregrinos, sobretudo no dia da sua festa, actualmente celebrada no início de Maio. O trabalho meticuloso e incansável do Cónego Bonifácio Bernardo tem permitido aos interessados um conhecimento pormenorizado da sua história, cuja leitura enriquece o nosso entendimento das múltiplas dimensões da vida dessa parte de Portugal nos últimos trezentos anos. É imprescindível ler o seu livro “Senhor Jesus dos Aflitos, Origens – 1713-1845” (Edições Colibri, 2000), sendo ainda muito importante consultar outro volume em que editou um parte da documentação do santuário; prevê-se para breve um terceiro – e com impaciência o aguardamos.
         Entre o património dessa igreja, situada numa herdade, entre sobreiros, avulta a sua colecção de ex-votos, pequenos quadros gratulatórios oferecidos ao longo de séculos pelos devotos, manifestando e dando graças pelos prodígios que viveram por intercessão do Senhor. O conjunto não tem a dimensão dos que se podem admirar no Senhor Jesus da Piedade (Elvas), na Senhora do Carmo (Azaruja, Évora) ou na Senhora d’ Aires (Viana do Alentejo), mas ultrapassando a meia centena são um importante testemunho artístico, antropológico, sociológico e religioso da devoção secular. Podem hoje ser admirados por quem se disponha a folhear o catálogo da exposição itinerante “Imagens de Fé”, promovida pela Diocese de Portalegre – Castelo Branco; o conjunto portalegrense foi, aliás, o motor dessa mostra. Se a exposição não se preocupou com o enquadramento histórico das peças (o que se lamenta), tal não diminui de modo algum o seu valor e oportunidade.
         Desde há algumas décadas que se sabia, contudo, que faltava à colecção dos Aflitos um dos seus mais interessantes ex-votos, ainda do século XVIII. Observado e registado pela investigadora Maria Tavares Transmontano, que copiou e publicou a sua inscrição na sua “Monografia de Portalegre” (1997), terá levado descaminho entre 1965 e 1975. Era dado como perdido, sem se saber sequer se o desaparecimento seria devido a roubo ou a venda indevida. Nem uma foto ficara dele…
         Há poucos dias, folheando o volumoso catálogo intitulado “Christus”, editado no Porto pela Irmandade dos Clérigos como veículo de divulgação da colecção de imagens de Cristo que agora aí se expõem, após doação da colecção do Dr. António Miranda, deparei-me na página 171 com o ex-voto desaparecido do Santuário do Senhor dos Aflitos. Calcularão o que sentiu este investigador e defensor do património religioso da sua terra e de outras terras…
         Registado com o número de inventário ICP 1576, tem 24,6 cm de altura por 39,4 de largura. É uma pintura a óleo sobre madeira, datada de 1777, com a seguinte inscrição (sou fiel à ortografia original): “Milagre que fes o Senhore dos Afelitos a Francico Antonio que foi cazeiro na erdade do Alcade que sendo acometido por hum lobo deramado este ce lhe lancou aos peitos de que resultou o bradar pelo Senhore dos Aflitos imediatamente o dito lobo se retirou ficando o dito devoto sem nen huma lezaõ foi feito este milagre no anno de 1777”. A mão, popular, que executou esta obra foi também autora de outras pinturas existentes no Santuário, tendo inclusive repintado os ex-votos mais antigos.
         Impõem-se, agora, todas as necessárias diligências para que o seu volte ao seu dono e o “prodígio” se complete. A Paróquia dos Fortios e a Diocese não deixarão morrer decerto o assunto. Sabemos agora onde está e quem lá o depositou. Só não sabemos como chegou às mãos do coleccionador…
         Tantos anos depois, bem podem os portalegrenses dizer como escreviam os antigos autores dessas pinturinhas: “Milagre que fez o Senhor dos Aflitos…”


RUY VENTURA
(Artigo publicado no jornal "Alto Alentejo", nº. 584, de 25 de Julho/2018.)

sábado, 9 de dezembro de 2017

JUDEUS E CRISTÃOS-NOVOS DE CASTELO DE VIDE
em livro imprescindível


O Laboratório de Estudos Judaicos vai editar mais dois volumes, o n.os 6 e 7, da colecção de Estudos Judaicos, respeitantes a Castelo de Vide, sob o título Judeus de Castelo de Vide e Cristãos-Novos. Da Identidade às Linhagens [Séculos XV a XX] , da autoria de Luís Projecto Calhau.
Os dois volumes totalizam 680 páginas, nas quais se procurou estudar detalhadamente a genealogia de 45 famílias cristãs-novas de Castelo de Vide, terra natal de Garcia d’Orta e, também, de Salgueiro Maia, capitão de Abril, que descendia de cristãos-novos.
Pelos processos-crime sabemos que muitos judeus de Castelo de Vide rumaram para Curaçao (Antilhas Holandesas), Amesterdão, Veneza, Toledo, Constantinopla, Rouen (França), Salónica. México, Peru, Haia e Jerusalém.

Se pretender beneficiar do preço de subscrição, até ao próximo dia 21 de Dezembro, deverá contactar Nuno Borrego (ngpborrego@gmail.com). Mais informações estão disponíveis em: http://www.nunoborrego.pt/books/





Índice


Apresentação
Introdução
1. Castelo de Vide e o seu enquadramento geográfico
2. Primeiras referências à presença judaica na região
3. A proximidade com a fronteira e a importância da alfândega de Marvão
4. A convivência entre judeus e cristãos
5. A judiaria e o seu enquadramento geográfico
6. Práticas e cerimónias
7. Rumo à diáspora
8. Confissões e denúncias
9. O manuscrito de autor desconhecido
10. Ilustres, da região de Castelo de Vide, descendentes de cristãos-novos
e de judeus .. 00
11. Mito ou realidade
12. Indicadores estatísticos
13. Limitações, dificuldades e barreiras à investigação
Título I – Carrilho e Aldana, de Castelo de Vide
§ 1.º - Carrilho | Castro | Aldana | Barreto de Sousa
§ 2.º - Carrilho de Matos | Sousa | Machado Homem, de Rio de Janeiro
Título II – Henriques, de Castelo de Vide
§ 1.º - Henriques | Castro | Godinho | Leitão
§ 2.º - Castro | Leitão | Fernandes
§ 3.º - Mendes | Álvares ou Gonçalves
§ 4.º - Berenguer de Andrade
§ 5.º - (Desentroncados) Vaz Colaço
Título III – Lopes e Ilhoa de Aldana, de Castela para Castelo de Vide
§ Único - Lopes
Título IV – Albuquerque, de Castela para Castelo de Vide
§ Único - Albuquerque
Título V – Álvares e Luna, de Castelo de Vide
§ 1.º - Álvares | Luna | Cardeira, de Vila Viçosa | Franco, de Borba
§ 2.º - Luna
Título VI – Gonçalves, de Castelo de Vide
§ 1.º - Gonçalves | Mendes | Henriques
§ 2.º - Gonçalves | Lopes | Gomes | Rodrigues
Título VII – Aires Pais, de Castelo de Vide
§ 1.º - Gomes | Lopes | Rodrigues
§ 2.º - Pais | Rodrigues | Aires Samorano
§ 3.º - Rodrigues | Aires | Gonçalves
Título VIII – Santilhana, de Castelo Branco para Castelo de Vide
§ 1.º - Santilhana | Henriques Brandão | Cunha Falcão | Cunha de Oliveira ... 000
§ 2.º - Santilhana
Título IX – Orta, de Castelo de Vide rumo à diáspora
§ 1.º - Orta | Soares | Pinto
§ 2.º - Orta | Pimentel | Canis | Pimentel | Abeniacar
§ 3.º - Pimentel
§ 4.º - Henriques | Senior | Marchena | Senior y Calvo
§ 5.º - Marchena | Senior
§ 6.º - Marchena | Senior | Simmonds
§ 7.º - (Desentroncados) Orta, da Covilhã e de Portalegre
§ 8.º - (Desentroncados) Orta, de Castelo Branco
Título X – Gomes, de Castelo de Vide
§ Único - Gomes | Lopes
Título XI – Dias Machorro, de Castelo de Vide
§ 1.º - Dias | Rodrigues Machorro | Fernandes
§ 2.º - (Desentroncados) Machorro, de Póvoa e Meadas | Semedo | Costa
§ 3.º - (Desentroncados) Rodrigues | Álvares
Título XII – Garcia Medelhim, de Castela para Castelo de Vide
§ Único - Garcia Medelhim | Fernandes
Título XIII – Lopes Chaves, de Castelo de Vide
§ Único - Lopes | Chaves | Gonçalves
Título XIV– Fernandes Carrilho, de Castelo de Vide
§ 1.º - Fernandes | Carrilho | Sanches
§ 2.º - (Desentroncados) Carrilho | Lourenço
Título XV – Cáceres, de Cabeço de Vide com ligações a Castelo de Vide
§ Único - Cáceres | Costa
Título XVI – Delgado, de Castelo de Vide
§ Único - Delgado | Matos
Título XVII – Antunes de Figueiredo, de Fonte Arcada para Castelo de Vide
§ Único - Figueiredo | Pires de Sousa | Vargas
Título XVIII – Barrento, de Castelo de Vide
§ Único - Barrento | Leitão
Título XIX – Álvares Chaves, de Castelo de Vide
§ Único - Chaves | Álvares | Gomes
Título XX – Loução, de Castela para Castelo de Vide
§ Único - Loução, de Évora | Fernandes, de Évora | Espinosa, de Évora
Título XXI – Lopes Torres, de Castelo de Vide
§ 1.º - Dias | Torres | Fernandes | Martins
§ 2.º - (Desentroncados) Torres
§ 3.º - (Desentroncados) Garcia | Barrento | Vidal | Gomes Vieira, da vila de Redondo
Título XXII – Alva de Guevara, de Castela para Castelo de Vide
§ 1.º - Alva | Brandão
§ 2.º - Alva Brandão
§ 3.º - Brandão | Gomes | Cáceres | Leitão |Canelas, de Alpalhão | Sousa
| Bagorro | Tavares de Oliveira | Sousa Ferrão | Sousa de Lacerda
§ 4.º - Brandão | Barradas | Vieira de Andrade
§ 5.º - Gil Freire | Alva de Guevara | Brandão
§ 6.º - Alva de Guevara | Brandão
Título XXIII – Dias Tirado Ortega, de Castelo de Vide
§ 1.º - Ortega | Dias | Pinhão | Tristão | Matos | Carrilho Vilhana | Gonçalves de Mena | Vaz Botelho | Parente | Simões | Guerra | Serra | Manso
§ 2.º - Dias Tirado | Fernandes | Barrento Veludo | Martins Taçalho
| Tavares Rosa | Ramalhete | Figueiroa | Coelho | Costa | Palmeiro | Barros
§ 3.º - Dias Ortega | Rosa, de Chancelaria
§ 4.º - Biscaia, de Gáfete | Biscaia Hortas | Hortas Botelho
§ 5.º - (Desentroncados) Barrento Veludo | Escudeiro | Carvalho
§ 6.º - (Desentroncados) Barrento Veludo | Rosa | Abelho | Ramilo | Portugal
§ 7.º - (Desentroncados) Gonçalves Veludo
§ 8.º - (Desentroncados) Gonçalves Veludo | Valdegas
§ 9.º - (Desentroncados) Dias Ortega
§ 10.º - (Desentroncados) Ramalhete | Velez | Alexandre | Cruz
Título XXIV – Barba Manita, de Castelo de Vide
§ 1.º - Fernandes Barba | Ortega | Mouzinho | Vaz Barba | Freire
§ 2.º - (Desentroncados) Manita
§ 3.º - (Desentroncados) Manita
Título XXV – Gomes de Castro, de Viseu para Castelo de Vide
§ Único - Gomes de Castro | Fernandes | Moniz | Pinheiro | Mourato | Tristão
Título XXVI – Rodrigues Pinheiro, de Nisa para Castelo de Vide
§ 1.º - Rodrigues | Gomes | Morão Pinheiro | Ramos
§ 2.º - Rodrigues | Pinheiro | Franco | Ramos
§ 3.º - Pinheiro
Título XXVII – Álvares Mergulhão, de Castelo de Vide
§ 1.º - Mergulhão | Carrilho Gil | Sequeira | Pinheiro | Rouqueiro
§ 2.º - Mergulhão
§ 3.º - Carrilho | Salgueiro Maia, do Capitão de Abril
§ 4.º - Sequeira
§ 5.º - (Desentroncados) Mergulhão | Dias
§ 6.º - (Desentroncados) Mergulhão | Costa
§ 7.º - (Desentroncados) Mergulhão
§ 8.º  - (Desentroncados) Mergulhão
Título XXVIII – Dias Narigão, de Castelo de Vide
§ 1.º - Vaz Narigão | Martins Estrada | Sequeira | Barrento | Correia | Tavares Maggessi
§ 2.º - Correia
§ 3.º - Sequeira
§ 4.º - Vaz Narigão | Baptista | Pedro
§ 5.º - Sequeira | Videira
§ 6.º - (Desentroncados) Dias Narigão
§ 7.º - (Desentroncados) Dias Narigão
§ 8.º - (Desentroncados) Dias Narigão | Travassos
§ 9.º - (Desentroncados) Dias Narigão
§ 10.º - (Desentroncados) Dias Narigão | Carrilho Valente | Lopes
Título XXIX – Gonçalves Tolosa, de Castelo de Vide
§ 1.º - Gonçalves Tolosa | Matos | Aires
§ 2.º - Ronquilho | Tavares Rosa
§ 3.º - (Desentroncados) Tolosa | Leitão
Título XXX – Carrilho e Albuquerque, de Castela para Castelo de Vide
Notas Preambulares
§ 1.º - Fernandes Carrilho | Mouzinho Barba
§ 2.º - Carrilho | Lobo da Gama
Título XXXI – Pais, de Castelo de Vide
§ Único - Pais | Gomes | Rodrigues
Título XXXII – Gomes Fernandes, de Montalvão para Castelo de Vide
§ 1.º- Lopes | Fernandes | Gonçalves
§ 2.º - Gomes | Rodrigues
§ 3.º - Mendes | Pinheiro, de Alandroal | Couto, de Vila Viçosa
§ 4.º - Mendes | Gomes | Carvalho
§ 5.º - Rodrigues Ramos
6.º - Melo e Lacerda, de Elvas | Melo e Lacerda Brederode de Andrade, de Elvas
§ 7.º - (Desentroncados) Bártolo | Rodrigues | Dias | Estrada
Título XXXIII – Fernandes Pinheiro, de Castelo Branco para Castelo de Vide
§ Único - Fernandes | Pinheiro | Cepeda
Título XXXIV – Gonçalves Henriques, de Castelo de Vide
§ 1.º - Gonçalves | Pecheiro | Silva | Paredes
§ 2.º - Gonçalves
§ 3.º - Henriques | Gonçalves
§ 4.º - Henriques
Título XXXV – Gonçalves Crato, da região da Guarda para Castelo de Vide
§ Único - Gonçalves | Rodrigues
Título XXXVI – Cáceres Rodrigues, de Fronteira para Castelo de Vide
§ 1.º - Cáceres | Gonçalves | Rodrigues
§ 2.º - (Desentroncados) Cáceres | Pires | Carrilho
§ 3.º - (Desentroncados) Cáceres
Título XXXVII – Lopes Gomes, de Fronteira
§ Único - Lopes | Gomes | Mendes
Título XXXVIII – Mendes Carrilho, de Portalegre
§ Único - Mendes | Gomes
Título XXXIX – Lopes Nunes, de Portalegre para Castelo de Vide
§ Único - Lopes | Orta | Fernandes
Título XL – Rodrigues de Luna, de Castelo Branco com ligações a Castelo de Vide
§ 1.º - Rodrigues | Brandão | Luna | Santilhana
§ 2.º - Montalto, do Doutor Elias Montalto
§ 3.º - Dias | Santilhana, de Castelo Branco | Aires
Título XLI – Fernandes Calcinas, de Castelo de Vide
§ Único - Fernandes Calcinas
Título XLII – Asnalhos e Oreia, de Castelo de Vide
§ Único - Asnalhos e Oreia
Título XLIII – «Perpétuos», de Castelo de Vide
§ Único - Rodrigues | Fernandes | Sarzedas | Dias Bijos
Título XLIV – Lopes, de Castelo de Vide
§ Único - Lopes
Título XLV – Pinto e Aranha, de Monforte e de Arronches para Castelo de Vide
§ Único - Pinto, de Monforte e Arronches | Aranha | Gomes | Machado
Outros Cristãos-Novos em Castelo de Vide
Judeus da Fase Pré-Édito
Judeus da Fase Pós-Édito
Documentos Anexos
Índice Onomástico

Bibliografia 

domingo, 29 de outubro de 2017



Em defesa do património religioso
 
– agir é preciso... E depressa!


Foi há um par de anos. Entrei na loja de uns missionários em Fátima, uma das maiores do centro da localidade. Falando com um familiar de uma peça de arte sacra antiga a precisar de conservação competente (hoje felizmente bem restaurada, com critérios éticos e científicos), fui prontamente interpelado pela empregada do estabelecimento. Solícita, sem grande noção das conveniências, interrompeu a conversa e atirou, de arrancada: “Se quiser, temos um senhor muito jeitoso que a põe como nova...”
Percebi que a senhora me confundira com um sacerdote. Fiquei estupefacto, respondi de forma evasiva, mas fiquei a pensar: “Quem resiste a estas abordagens se não tiver ética, educação, juízo, pudor ou um bispo com mão de ferro e sabedoria de um diplomata? Quem?”
Multiplicam-se pelo nosso país casos de raspagem e repinte de esculturas e retábulos das nossas paróquias, de vandalismo aplicado a telas, tábuas e pinturas murais centenárias. São peças importantes do património espiritual dos crentes e, também, elementos inalienáveis da nossa memória coletiva. São obras de arte e criações inspiradas e, como tal, merecem o mais escrupuloso respeito. Outra coisa não diz, aliás, o Direito Canónico. A situação a que chegámos é todavia muito grave, mesmo que vejamos alguns exemplos de boas práticas, pontuais e minoritários, que não escondem a “selva” que por aí vai, do Algarve ao Alto Minho, com exemplos recentes de perigoso retrocesso.
Enquanto tivermos como fiéis depositários do património religioso pessoas que, à parte a sua competência pastoral, revelam (como autarcas deslumbrados ou construtores civis siderados) uma ânsia incontrolável, querendo “deixar obra” construída, esculpida ou pintada a todo o custo, continuaremos a assistir atónitos à destruição do nosso património artístico e espiritual. Enquanto se manifestar um insaciável voluntarismo que olha para as obras de arte como objectos utilitários sem valor intrínseco e não como manifestações materiais, visíveis, de Deus connosco, continuaremos a testemunhar um vandalismo cujos agentes, ainda por cima, se apresentam com ares de esteticistas ou maquilhadoras de bairro pobre. Enquanto quem de direito não agir com rapidez, ciência e firmeza, parando os desmandos que violam as leis do País e o Código do Direito Canónico, ou deixando mesmo de colaborar com eles, continuaremos a multiplicar os lamentos por um património perdido, quiçá para sempre.
Não será tempo de todos nós – investigadores, conservadores-restauradores, museólogos, amantes da arte, sacerdotes com sabedoria, fiéis com ética e estética, simples amantes do património – fazermos algo além dos simples comentários no “feicebuque”? Se o não fizermos, talvez seja tarde. E não valerá a pena tecermos mais tarde um rol de lamentações.

Artigo publicado nos jornais "Diário do Alentejo" (Beja), "Alto Alentejo" (Portalegre) e "Raio de Luz" (Sesimbra).

sábado, 7 de outubro de 2017




CASTELO DE VIDE
CONVENTO DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

"Tem esta villa Convento dos Recoletos de sam Francisco fumdado e dotado por Gaspar de Mattos e sua Mulher Brites de Mattos da principal nobreza desta Villa e derão para o dito convento se fazer as suas Cazas e para Cerca a sua quinta em 14 de Março de 1584 por declaração que elle foy fazer á câmara em 20 de Outubro tornou a câmara a declarar dava mais 400 000 digo quatrocentos mil reis á quinta se chamava da Conceição e sobre a porta tinha huma Imagem desta senhora daqui tomou o nome e orago o dito convento e sobre a porta da Igreja está a mesma Imagem que estava na porta da quinta; deixou gaspar de Mattos o padroado a seu sobrinho Diogo Cardozo de Mattos há certas penções em seu testamento que não aprovou e por sua morte houve contenda entre ouito sobrinhos e se anulou seu testamento e os Religiozos tomarão por padrueira a Camara desta Villa em segunda feira 20 de Mayo de 1589 se lançou a primeira pedra na obra em 2 de Agosto de 1592 se disse a primeira missa tem a Igreja sinco altares a couza mais notável que há neste convento he hum retrato e Imagem verdadeira de Cristo a qual está fixada na porta do sacrario a qual trouse de Roma Frey Diogo sarrano Mouzinho //  [...] Frade Clau[s]tral a pintura he de adimiravel primor em lamina de cobre e por baxo tem huma inscrição com letras de ouro que dis o seguinte = Retrato, e Imagem verdadeira de IESUS Christo salvador e senhor nosso o qual foy tirada de Amiralda pello Gram Turco e mandado de prezente ao Papa Innocencio VIII para efeito de resgatar hum hirmão que tinha cativo."

Padre Manuel Carrilho Gil
Memória Paroquial da Freguesia de São João Baptista
(Memória n.º 222, volume 10, folhas 1461 - 1476)

Pesquisar neste blogue

Etiquetas

Arquivo do blogue

CARTA ABERTA A JOÃO MIGUEL TAVARES Caro João Miguel, Tomo a liberdade de tratar-te por tu. Somos afinal conterrâneos, apesar de ...