MARIA LUCÍLIA MOITA
(Alcanena, 1928 - Abrantes, 2011)


Aprendi com ela o que é a Arte, acompanhando-a em silêncio enquanto pintava o Arco da Fonte Nova. Muitos ainda se lembrarão da sua figura esguia, carregando a tela e os pincéis pelas ruas de Carreiras ou encaminhando-se para a casa da ti' Ana Rita, na Rua Nova, onde almoçava e descansava. Só hoje soube que faleceu, em Abrantes, no verão passado. Que a terra lhe seja leve!
Loja, Contra-loja e Armazém
de Carlos Garcia de Castro




Carlos Garcia de Castro (n. 1934) é autor desde 1955 de sete livros de poemas – o mais recente é Gloria Victis de 2007. Neste livro de memórias, o ponto de partida é o seu olhar para dentro da loja de seu pai: «Das poucas vezes que agora vou à loja – é estranho. As prateleiras não têm peças de panos. Os riscados, popelinas, os percais. As chitas, as gorgorinas, as gangas e as flanelas. Os cotins. As sarjas. Os surrobecos.»

O autor apresenta-se («Cresci duma casa para a loja e para a minha rua. Sou da cidade.») e apresenta o seu livro: «este livro que fala da minha terra não a ultrapassa nem ilumina, é decididamente paroquial.» Nas suas páginas, diversa poesia surge intercalada embora o seu autor tenha advertido: «a Poesia quase não é procurada nas livrarias». Memória de um tempo e de um mundo, a família e o comércio são dois dos pilares do texto: dos irmãos António, Miguel e Maria de Jesus aos netos Mafalda, Madalena, Diogo com passagem pela divisa «O comércio é para servir mas não é criado de ninguém».

Nascido na Rua dos Violeiros, sempre o autor gostou de Tunas: «Conheci-os muito bem. O sr. Madeira, violino. Os irmãos Facha, violino e guitarra. O sr. Testa. O sr. Rosado, acordeão. O Amaral com o banjo. Mestre Carvalho, acordeonista. Era a Tuna. Passava devagar.» Dentro da Cidade, surge a Loja: «Para a loja convergiam e da loja emergiam as operações e os ritmos particulares das nossas vidas. Não consigo lembrar esta cidade sem lembrar a loja». Ao longo de 213 páginas o autor mantém o projecto: «Dizer por escrito: a minha terra; a nossa casa; a loja; os rapazes (empregados); os meus pais - não cabe na literatura. Não sendo já saudade, é sentimento e sinal». O tempo da loja não era só trabalho; havia baile no salão: «Bota cá l´cença! Era a senha de quem vinha e queria bailar com aquela». Se o par se negava a transitar a rapariga, «havia porrada, todas as noites, ao sábado no salão».

A memória tem coisas tangentes à realidade de agora, como o Banco de Portugal desse tempo: «Solene como uma igreja, onde se falava em surdina aos guichets, confessionários. Um luxo estático. Sobranceria. Riqueza. Discrição nos movimentos. Concentração. Tudo lá parecia uma cerimónia, os ritos apropriados, liturgia, exactidão, ameaça. Não lhes sabia o sentido». As oito páginas de fotobiografia tornam o volume ainda mais fascinante.

(Edições Colibri, Capa: Raul Ladeira, Editor: Fernando Mão de Ferro)

José do Carmo Francisco

Escultura de São Sebastião
do século XVI
venerada em Carreiras (Portalegre)
desde 1936
(antes do restauro de 2011)

A mesma escultura
depois do restauro de 2011.

Escultura de São Sebastião
venerada em Carreiras (Portalegre)
entre o século XVI e 1936
(antes do restauro de 2011).



A mesma escultura depois do restauro de 2011.

Angelina gloriosa




1

Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins (1913-1997) e recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Rui Pedro Ventura.



Andorinha gloriosa,
Tão formosa c’m’ à rosa.
Quando Deus quis nascer,
Toda a Terra esclareceu.
Veio o anjo São Gabriel
Procurando p’la pastorinha.
“Pastorinha do bom dia!”
Já lá vem Santa Maria
Por aquele perro cão
Rezando uma oração
C’ o seu livrinho na mão.
Nem pus a mão na cruz,
Nem disse “Amém Jesus”.
Mas anda cá, Luís Teixeira,
Que serás meu embaixador.
Vás além àquele castelo,
Qu’ hás-de ver um mouro perro.
Procura-lhe se é cristão.
Se ele disser que não,
Pega no teu cutelo,
Espeta-le no coração.
Ó cutelo para estimar!
Tem as relicas do perdão
Com que foi asseteado
O mártir São Sabastião.



2

Versão de Ribeira de Nisa (Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano (Transmontano, 1989: 57).



Andorinha gloriosa
Tão formosa como a rosa
Quando Deus em ti nasceu
Toda a terra esclareceu.
Vinde, vinde, pastorinha
Pastorinha do bom dia.
Lá vem Santa Maria
Com seu livrinho na mão
Rezando uma oração
Por aquele perro cão
Que pôs a mão na Cruz
E não disse Amém Jesus.