quinta-feira, 26 de abril de 2007


fotografia
[Carreiras]


não há semáforos à entrada da aldeia.
no entanto, o vermelho cai constantemente
sobretudo para aqueles que
querendo avançar
vêm de fora, sendo de dentro.

não há sequer uma passagem para peões
ou qualquer limite de velocidade
que justifique a sua presença.
existem, porém, semáforos invisíveis
que não obrigam a parar
mas conseguem que o automóvel
parta mais depressa.

por vezes sem cor, revelam dois ou três
rostos conhecidos (na terra), sentados
todo o dia na esplanada do café ou
(daqui por uns anos) debaixo de uma das árvores do largo
num albergue ou à porta da casa mortuária.

só o verde parece não existir
para aqueles cuja presença incomoda as pedras.
para esses, os semáforos têm apenas duas lâmpadas
uma amarela, outra vermelha.

não se vêem, mas existem
à entrada da aldeia – numa das curvas da estrada
depois do portão (sempre aberto) do cemitério.


*

dois poiais sempre ao redor. mas poderiam ser
dois cabos eléctricos a debruar a fachada da igreja
dois focos a escurecerem a torre ou apenas
duas placas com erros de ortografia.

assim se constrói uma aldeia.
mesmo quando existem roldanas
lembrando o embargo da construção.

a terra é a mesma. e se, em cinquenta anos, foi
cemitério, parque infantil, balneário público, junta
de freguesia e parque de estacionamento, a culpa
é apenas do terreno, instável, apesar da rocha.
a essência fica e o odor é o mesmo.
e não será uma trasladação em caixão de chumbo
que irá resolver o assunto.


*

das tascas nem uma sobrou.
a única que ainda se ergue
com portas há muito fechadas
será, com certeza, um quarto de cama
ou uma casa de banho privativa.

a rua nem sobe nem desce.
até os andores, em dia de procissão, preferem
agora estrada nova, num povo onde
as imagens têm reforma compulsiva
sem processo disciplinar nem culpa formada.

as bocas, essas, calam-se. como se as casas
e todas as palavras fossem clandestinas
não vão alguns ser como o santo
que, primeiro, se negou ao chibo da promessa
mas depois já corria atrás dele.

a alegria permanece, apesar das nuvens
e da cortiça (quase humana) que não sai
mesmo depois dos nove anos
correndo o risco de perder a serventia.

a alegria permanece. a vontade fica. regressa.
embora traçada a negro no rosto
daqueles cujo automóvel encontra
todos os dias (ou quase todos)
um sinal vermelho à entrada desta aldeia.



(para Maria Guadalupe Alexandre)


RV (foto e poema)

segunda-feira, 23 de abril de 2007


CASTELO DE VIDE

E SEUS ARREDORES
EM 1758


Memórias Paroquiais de Castelo de Vide
(Memória nº. 222, volume 10, folhas 1461 a 1489)


I

Freguesia de São João Baptista
(folhas 1461 a 1476)


Notícia da muito sempre leal, nobre, grande e notável vila de Castelo de Vide.





Está esta vila na província do Alentejo. Pertence à comarca e bispado de Portalegre, de cuja cidade dista duas léguas.



Nos tempos antigos foi único senhor desta vila Gonçalo Anes de Abreu que, por sê-lo, se nomeia na crónica de el-rei Dom João o 1º “Gonçalo Anes de Castelo de Vide”, a quem este rei comprou o senhorio, atendendo à importância de tão grande vila.
El-rei Dom Afonso V a deu por engano a Vasco Martins de Melo, mas depois se arrependeu e lhe tirou o senhorio e lhe deram por equivalente [a] alcaidaria-mor de Évora e o povo sessenta mil reais brancos. E para a segurar na Coroa lhe deu privilégio de que nunca mais saísse dela nem fosse dada a nenhuma pessoa, por de maior qualidade que fosse, cuja mercê foi feita em capítulo de Cortes, e a carta dada depois em Lisboa em vinte e quatro de Junho de mil e quatrocentos e sessenta e um. E nesta carta refere tudo o que está dito nesta primeira resposta e deixa a sua benção a todos os reis sucessores que guardarem este privilégio e a maldição aos que o quebrarem.
El-rei Dom João o 3º. a deu a seu irmão o infante Dom Duarte. Opôs-se a vila a esta mercê e el-rei escreveu uma carta em vinte e seis de Agosto aos principais da vila, ano de 1540, nomeando-os a todos por seus nomes, persuadindo-os com muitas urbanidades a que consentissem à mercê, visto ser dada a um infante seu irmão, filho de um rei, de quem receberia muitos favores e honras. A mercê não teve efeito. É tradição que o povo fez representação a el-rei quanto importava à Coroa o ter esta vila, e que o santo justo rei, quando leu a representação, dissera “têm razão”. A carta original se conserva nesta vila e dela consta que foi portador dela o desembargador António Cardoso, e que trazia a Carta de Crença para patear com os moradores.



Toda a vila tinha no ano de mil e quinhentos e setenta e dois 1400 vizinhos (consta do tombo da Câmara, fl. 213 vº). No ano de 1608 tinha mil e seiscentos vizinhos (consta do mesmo tombo, fl. 316). No ano de 1674 tinha dois mil vizinhos (consta do alvará de privilégio de “vila notável”, do que se vê se enganou Rodrigo Mendes da Silva na sua Población, dando-lhe por este tempo 800 vizinhos. Diminuíram-se estes com a demolição do Bairro da Mealhada no princípio da Guerra da Quádrupla Aliança, pois no ano de 1734 tinha a vila 1811 vizinhos, contados os róis das confissões das três freguesias, dos quais eram da matriz de Santa Maria 1908 [sic], da de São João 486, da de Sant´ Iago 227, e hoje se acha a povoação com insensível diferença.



Está esta vila situada em o alto de um monte. E da parte do sul lhe fica a alta serra de São Miguel, mui vizinha. Desta vila se descobre[m]: Castelo Branco, a 9 léguas de distância; Vila Velha do Ródão, a 5 léguas de distância; Monsanto da Beira, a 12 léguas; estas da província da Beira. E outras em confusão, em grande distância, porque se vêem as serras da Gata, da Estrela, e Plasência e muitas outras. Vê-se também da Estremadura portuguesa Abrantes, a 11 léguas. Da Estremadura castelhana, San Tiago, a 4 léguas. Da província do Alentejo: Montalvão, 4 léguas; Póvoa das Meadas, 2 léguas; Nisa, a 3; Marvão, a 1 légua. Muit[a]s mais se veriam desta província, se da parte do Sul não ficara a serra de São Miguel, de cujo alto se vêem dez arcebispados e bispados, e três priorados. Este[s] são o do Crato, Avis e o de Alcântara. E por todas as parte até perder ao longe muito a vista.



Tem esta vila termo próprio. No tempo antigo o teve maior, porque se lhe desanexaram os termos das vilas das Meadas e Póvoa das Meadas, o das Meadas em 23 de Julho da era de César de 1345 e o da Póvoa anos depois. E por esta razão a igreja das Meadas era filial da matriz antiga desta vila e a da Póvoa filial da de Sant´ Iago. E por isso hoje todas as três freguesias desta vila têm dízimos da Póvoa, onde se juntam os dos dois termos desanexados.



As três paróquias de Castelo de Vide estão dentro dos muros e no termo desta vila. Só há duas pequeninas povoações chamadas uma o Valador (por corrupção de Lavador, por haver aí um grande nascimento de água em que se lava a roupa desta vila) e tem 12 fogos e está da parte de cá da serra de São Miguel. E outro se chama o Monte da Casada e tem 11 fogos e está da parte de lá da serra e dista da vila um quarto de légua. E ambos estes montes são da freguesia de São João.
Quanto ao espiritual, há um montinho no termo de Portalegre chamado Monte do Andreu, que pertence à minha freguesia e tem 8 vizinhos. Poucos anos há que o cura das Carreiras requereu a Vossa Excelência lhe anexasse o tal Monte à sua freguesia, alegrando se lhe tinha desmembrado dela na Guerra da Aclamação, por estar[em] vizinhos a esta praça e, medrosos da guerra, se vieram meter na sua freguesia. Porém foram achados nos livros desta freguesia muitos termos de baptismos de meninos deste Monte, muitos anos antes da tal guerra.

(actualizou-se a ortografia e pontuação do documento; continua)

quinta-feira, 19 de abril de 2007


Carreiras (Portalegre)
Rua do Ribeirinho
ENGANOS

Umas das vantagens da internet é conseguirmos aceder a informações e opiniões livres de censura, daquela censura que normalmente corta a dignidade dos seres humanos, impondo-lhes o medo.Há poucos dias descobri este comentário no Portugal Diário sobre uma realidade que, pela geografia, me é muito próxima. Embora não concorde com tudo quanto afirma (não estou convencido da inocência de Sócrates e sei que o anterior bispo de Portalegre, antes de se aposentar, expulsou dos seus domínios os burlões que por lá havia), aqui o deixo à consideração dos leitores:

Lopo de Carvalho
2007-04-15 01:17
Em sã consciência, não me parece que o chefe do governo se tenha metido em falsificações ou enganos quanto às suas habilitações literárias. Mais tarde ou mais cedo isso será claro. No entanto, é facto que em Portugal há pessoas, gente decerto disfuncional, que se arroga ter curso superior sem de facto o ter. No Alentejo, mais concretamente na cidade de Portalegre, conhecem-se dois casos que são públicos e manifestos, ainda que um tenha tido mais divulgação: o de um indivíduo que durante cerca de um quarto de século desempenhou o cargo de professor e até de director dum estabelecimento de ensino sem ter habilitações próprias, pois forjara os documentos que o davam como licenciado. O caso está sob a alçada da Policia Judiciária. Outro caso é o de um fulano que, sem ter também habilitação apropriada, se apresentou durante cerca de vinte anos como doutor, chegando a desempenhar um cargo de relevo num periódico portalegrense, onde perseguia quem não lhe agradava e agia discricionariamente. Em diversas ocasiões chegou a participar em "sessões culturais" junto do anterior Bispo de Portalegre e Castelo Branco, deixando que o apresentassem como doutor. Hoje sabe-se que não é assim por, de acordo com o que referiu na rádio local um conhecido articulista da mesma, ter sido desmascarado. Mas o mais estranho é que, apesar disto, já tem sido convidado para algumas sessões na Biblioteca daquela cidade, onde continua a ser apresentado como doutor. É um caso insofismável e pergunta-se: o ministério da Educação, através dos funcionários dos ramos intermédios locais, tem conhecimento deste caso? Se não tem, é muito estranho que ainda não tenha. Mas se tem, porque deixa que exista um caso tão esquisito...e disfuncional? Aquela parte do Alentejo não se rege por leis como o resto de Portugal?

(in Estrada do Alicerce)

quarta-feira, 18 de abril de 2007


INVENTÁRIO


Carreiras
[primeira versão]

Tudo poderia ser dito – excepto, talvez, a alegria.
Tanto tempo depois, a estrada continua por terminar. A árvore parece mais esguia (cortaram-lhe há pouco quase um terço da copa).
O automóvel dá, no entanto, a mesma volta – trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.
De Lisboa até aqui são duzentos e trinta quilómetros, a que metade de um corpo regressa permanentemente, como se fora à voz dos sinos (embalando os mortos), à altura das pedras, como se desenhassem um fim de tarde.
A criança desce até às profundezas da terra, encontrando, na súbita angústia de um pulover molhado, o caldo de farinha – situado, ainda hoje, no número cinco da rua da Calçadinha.



Carreiras
[segunda versão]

As ruas das Carreiras onde eu nasci (após ter visto a luz em Portalegre e sangue novo em Lisboa) já não existem. São outros os nomes, outras as pedras – que teimam em não deixar esquecer a calçada antiga -, outras as casas. Só o horizonte não mudou ainda: a mesma serra, o mesmo azul longínquo, os mesmos sobreiros rompendo por entre as lajes, a escola, rompendo a folhagem das acácias e das amoreiras.
Entre o número oito da rua da Fonte Nova e o número cinco da Calçadinha, pouco resta de há vinte e cinco anos.
A fonte perdeu alguns dos seus azulejos e deixou de ter malvariscos pelo São João.
A dona Maria José já não se preocupa com as suas dálias, algures entre as minhas duas tangerineiras. O ti’ João Narciso já não abre a sua meia-porta vermelha, nem a ti’ Bernarda fica comigo na altura das azeitonas.
O barro desapareceu hoje dos caminhos (assim como os escaravelhos, e os burros escorregando até em frente às ruínas da Casa da Carreirinha).
Do Chão da Amoreira, como eu ainda o conheci, ficou apenas uma nesga de terra apertada entre duas casas. Os castanheiros, os abrunheiros, o muro (quase segurando a oliveira), situam-se no mesmo lugar que hoje ocupa a casa da avó - amarela, com barras brancas, um botaréu cheio de craveiros, uma roseira fazendo esquina frente ao canto do lume, do outro lado da rua, entre as flores dos rapazinhos e a parede de pedra solta, há muito tempo esbarrondada.
O Ribeirinho é hoje só nome de rua. Já ninguém lava nas suas águas, empresadas junto de uma figueira velha. Desapareceu sob o alcatrão e a sarrisca, para dar lugar a uma estrada larga.
Continuo, no entanto, a regressar a este espaço, como se regressasse chamado pela voz dos sinos, que tanto embalam os mortos quanto repicam carreirense novo ou hora de procissão. O automóvel (como há uns anos a camioneta) continua a dar a mesma volta, trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.



Calçadinha, nº 5 (1)

Haverá sempre alguém acenando para a mesa. Um garfo – ou somente um guardanapo – traduzindo para a mesa o sabor da terra.
È preciso, no entanto, entrar como se a noite fosse um sótão que há muito desapareceu.
A rua – ela própria – não mais retomou o cheiro de há mais de vinte anos: a porta comunicava com a cozinha, mesmo ao cimo das escadas, sob a telha de vidro; a lâmpada pendia da madre. Havia sempre alguém acenando para a mesa. Do lado de fora, pelo postigo. Apenas de dentro, de tantas coisas – o garfo, a navalha escondida por detrás da lareira, o copo de água voltado sobre um corpo que parte.
Sem habitantes, a casa regressou, talvez a três quilómetros de distância. Uma janela ilumina o quarto, embora os passos sejam os mesmos.
Como a água, atravessando de memória o forno, o horizonte. Ou, em silêncio, alguns animais. A escritura, perdida na mudança.



Calçadinha, nº 5 (2)
- para meu avô, Joaquim Camejo Biscainho

Quanto lhe custariam os amendoins comprados na taberna da aldeia? Retirados um a um do pequeno saco de plástico, ao mesmo tempo que o tilintar das moedas sobre o balcão e as vozes na tarde iam acompanhando as cartas de jogar, os vinténs de cobre cruzando o espaço, buscando no jogo a distância entre o sabor do vinho e o preço, verdadeiro, das ruas em pleno domingo. Quanto lhe custariam a idade e próprio sorriso (tão longínquo quanto os olhares dentro do retrato, a caixa de pedreiro distante na escuridão, como uma navalha dentro perdida dentro do bolso)? Entre a cama e a lembrança das pequenas coisas (apenas visíveis na sombra dalgum olhar molhado), quanto lhe custariam o miar do gato a adormecer na lareira, as castanhas comidas como luzes, a bicicleta – substantivo próprio à espera de um lugar dentro da geografia – ?
A memória faz a sua selecção, não consentindo sequer em mostrar-nos os seus sinais de angústia e de morte. Apenas alguns minutos – e o mundo circula como um automóvel, silhueta estranha que vamos decifrando em torno da comoção e do cansaço.
Ao fim e ao cabo, entre o deve e o haver dos sentimentos, as perguntas subsistem. Das respostas, apenas vão aparecendo páginas dispersas no inventário dos sentidos – de regresso à claridade do horizonte.



Fonte Nova, nº 8 (1)
- para a D. Maria José Soares

Ao fundo da rampa (onde outrora fora uma latada) havia uma construção de madeira e folha de zinco. Na varanda, permaneceram, durante dezoito anos, duas barricas com água da Fonte Nova e, uma vez por ano, com algumas arrobas de azeitona. O tanque tinha um odor diferente de tudo quanto o rodeava – guardava um pouco de nós nas suas águas sem movimento.
De tempos a tempos, era preciso gatear a cancela com pregos sem serventia ou com arame retirado a algum fardo de palha. Delimitava um espaço que não deveríamos ultrapassar, embora (sobre o muro) fosse fácil dirigir o olhar até uma casa rasteira, onde apenas a porta comunicava luz ao interior da cozinha.
(Foram precisos alguns anos para que entendesse a disposição deste corpo – desvanecendo-se.)
Junto à salsicharia, a avenida deixava de existir. A cor desaparecera há muito. A música da varanda partia até debaixo da tangerineira. No inverno, uma parte da rua escurecia – subitamente.
Certo dia, foi preciso entregar a chave – como se o carteiro passasse a recusar os degraus que vão até ao primeiro andar. A porta de madeira, posta na horizontal, deixou de ser suficiente para nos resguardar da chuva. Em compensação, passaram a existir folhas de jornal entre o vidro e a grade – para que o sol ficasse menos intenso.



Fonte Nova, nº 8 (2)

Mesmo antes, não era decerto o melhor lugar para atravessar até ao outro lado do edifício. Um tanque, talvez uma acácia. Duas ou três sacadas numa das últimas madrugadas de dezembro.
Alguém reduz os alicerces da casa. Lembro o jardim, de oliveira a oliveira, a escada de cimento, o braço – segurando -, a melancolia.
(Decidi guardar o envelope na última gaveta da cómoda. Ponho os nossos nomes entre os objectos cujo significado nos absorve. É difícil determinar as ressonâncias quando abandonamos, pelas dez da manhã, uma cidade que cresce.)
Nunca tive realmente um quintal. Demasiado perto ou demasiado longe para que a possamos alcançar, a imagem cresce de quinze em quinze dias, ainda que o passeio seja apenas o início de um nascimento.
A porta abre-se, como se fosse a linha do horizonte. Entre duas noites de chuva, tudo está em tudo, tudo nos pertence.



Avenida

Partiu para sempre – o peso sobre o assento, até Castelo de Vide, parando no Carvalhal.
Subia com pressa a rua do Canto, repetindo, sem parar, o preço dos frutos, o calor do pão, logo pela manhã.
A bicicleta seguia – completamente só – apenas com o equilíbrio retirado ao vento ou à figueira (de que hoje resta somente um rasgo sobre o muro).
São assim as estações. Mesmo em julho, as nuvens guardam-nos de um sol demasiado intenso.



Cemitério

O casaco, a camisa, uma gravata de duas cores – e esta agonia (espécie de contentamento), do outro lado do muro, para onde poucos olham.
O homem veste, pela última vez, um murmúrio, a inocência nos olhos, um lençol que se estende a todo o campo.
O hóspede abandona a casa – para sempre -, esquecendo até que fora recebido minutos depois de uma morte (uma porta entre muitas). Não mais reclama, dentro do coração, a sombra a tapar metade da fotografia.
(Desta cidade guardo a data de nascimento, um telhado, uma figura na neblina. As crianças correm para o rio, mesmo que fique a cem quilómetros de distância. O medo permanece, mesmo nos melhores livros. Abre a janela, ao fundo do bosque. Entreolha essa gota de suor. Vem mostrar um rosto quase escondido: a música, uma ponte que não termina – e só assim alcança esta margem.)



(Texto - publicado no jornal O Zurara, de Mangualde - e foto de RV.)

Carreiras (Portalegre)
Calçadinha

terça-feira, 10 de abril de 2007

"Fortios"
viagem à volta de um topónimo


(para o Cónego Dr. Bonifácio Bernardo)

Parece certo – se atendermos à informação veiculada em inícios do século XVII por Diogo Pereira Sotto Maior no seu Tratado da Cidade de Portalegre – que “São Domingos da Penha” era o topónimo que denominava nessa época a actual freguesia dos Fortios, no concelho de Portalegre. Nesse nome, em época indeterminada mas remota, haviam sido ligadas duas realidades: uma religiosa, o orago da paróquia (São Domingos de Gusmão), e outra orográfica, referenciando o acidente geológico que nas proximidades da igreja matriz se situa, chamado no século XVIII “serra de S. Domingos” ou “da Penha do Bufo”.
O actual nome da freguesia, “Fortios” – que em inícios de seiscentos era apenas a denominação do seu principal aglomerado –, impôs-se com o tempo, devido ao aumento do seu número de habitantes, substituindo hoje o topónimo antigo, como aconteceu também com o vizinho “Monte da Urra”, cujo nome apagou a antiga designação paroquial, “Sant’ Iago de Caiola”.
Várias têm sido as explicações dadas por filólogos e investigadores para o nome “Fortios”, inicialmente ligado a um “monte” que, mais tarde, passou a ser “aldeia” – devido ao seu relevo populacional e, certamente, urbanístico. (Convém referir que, no português antigo, “monte” e “aldeia” eram quase sinónimos – havendo entre eles somente uma distinção no tamanho do aglomerado, sendo “monte” um pequeno núcleo habitacional e “aldeia” um habitat de maiores dimensões. (É significativo o apontamento do pároco da Ribeira de Nisa, em 1758, ao escrever nessa data que a sua freguesia tinha “muitos lugares, ou aldeyas, ainda que não populózos, por cuja razão se chamão montes”.)) O crescimento do “Monte dos Fortios” seria já significativo em finais do século XVI, pois nessa altura (1586) os seus moradores conseguem autorização do bispo D. Frei Amador Arrais para construírem uma nova igreja, desobrigando-os de receberem os sacramentos na igreja matriz de São Domingos, situada a alguma distância.
Alexandre Carvalho Costa (1950) coloca a hipótese de “Fortios” derivar de “fortim”. Esta hipótese é no entanto contrariada por Joaquim da Silveira, que o acha nascido do apelido espanhol “Fortis”. Por sua vez, Xavier Fernandes atribui-lhe origem obscura, caso não esteja relacionado com a palavra latina “furtiuuos”, significando oculto, escondido, secreto. José Pedro Machado, em 1984, acha entretanto que “Fortios” é a forma plural de “Fortio”, “em alusão a pessoas do local pertencentes a família com este apelido”. “Fortio”, por seu lado, deve ser alcunha derivada de “forte” (a que foi acrescentado o sufixo “-io”, com o significado de “colectividade” ou “quantidade”), ou então uma forma popular de “furtivo”.
Em qual das hipóteses devemos confiar, pela força da probabilidade? Parece-me mais sólida a de José Pedro Machado, próxima na forma da de Joaquim da Silveira: “Fortios” é a forma plural do apelido/alcunha “Fortio”. Até porque os pequenos aglomerados populacionais nascidos durante a Idade Média receberam muitas vezes o nome do proprietário (ou do povoador), seguindo a tradição dos povos germânicos anterior à invasão islâmica, bem visível ainda no norte de Portugal. Devemos ter em conta também que só nos últimos séculos o nome “Fortios” surge isolado, pois nas suas origens está quase sempre dependente do topónimo genérico “Monte”, que adjectiva, indicando que o “monte” pertence ou pertenceu aos “Fortios”, isto é, à família “Fortio”.
Mas tudo não passaria de uma hipótese, se não existissem provas da presença na região de alguém com esse apelido, algo raro mesmo na documentação antiga... Mas felizmente existem. Transcrevendo o tombo dos bens incluídos na comenda de Santa Maria a Grande, de Portalegre, pertencente à Ordem de Cristo, elaborado em 1509, encontrámos uma referência preciosa. Referindo-se a propriedades da sucessora dos Templários existentes na zona da Mata, refere a dado passo o documento:“Iunto da sobredita courella de Vinha [“camjnho da mata honde chamã a fonte delrrey”], tem a hordem outra que com ella parte ao sul & parte ao norte com vinha de dieg’ aluarez fortío”.
Ficamos assim a saber, através deste extracto do texto supracitado, que no início do século XVI existiu realmente no território da actual freguesia dos Fortios um proprietário (Diogo Álvares) cujo apelido ou alcunha era “Fortio” – o que vem provar documentalmente a teoria de José Pedro Machado. É natural que nos terrenos deste homem (dele, de seus descendentes ou dos seus ascendentes...) se tenha construído o “monte”, já “aldeia” em 1586 – tão importante na então freguesia de São Domingos da Penha que, séculos depois, conseguiu apagar esse nome, para ser apenas “Fortios”.


(Artigo publicado n' O Distrito de Portalegre)

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