Angelina gloriosa




1

Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins (1913-1997) e recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Rui Pedro Ventura.



Andorinha gloriosa,
Tão formosa c’m’ à rosa.
Quando Deus quis nascer,
Toda a Terra esclareceu.
Veio o anjo São Gabriel
Procurando p’la pastorinha.
“Pastorinha do bom dia!”
Já lá vem Santa Maria
Por aquele perro cão
Rezando uma oração
C’ o seu livrinho na mão.
Nem pus a mão na cruz,
Nem disse “Amém Jesus”.
Mas anda cá, Luís Teixeira,
Que serás meu embaixador.
Vás além àquele castelo,
Qu’ hás-de ver um mouro perro.
Procura-lhe se é cristão.
Se ele disser que não,
Pega no teu cutelo,
Espeta-le no coração.
Ó cutelo para estimar!
Tem as relicas do perdão
Com que foi asseteado
O mártir São Sabastião.



2

Versão de Ribeira de Nisa (Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano (Transmontano, 1989: 57).



Andorinha gloriosa
Tão formosa como a rosa
Quando Deus em ti nasceu
Toda a terra esclareceu.
Vinde, vinde, pastorinha
Pastorinha do bom dia.
Lá vem Santa Maria
Com seu livrinho na mão
Rezando uma oração
Por aquele perro cão
Que pôs a mão na Cruz
E não disse Amém Jesus.
CENSOS 2011

Resultados preliminares do concelho de Portalegre:
http://www.portugal.gov.pt/pt/GC19/Documentos/MAAP/Fichas_Municipios/Portalegre.pdf
[Ao entrar no cemitério]




"Cruz das Almas", no cemitério de Carreiras (Portalegre)

[Deus vos salve, corpos santos]



1

Versão de Carreiras (Portalegre), recolhida e publicada por Maria Tavares Transmontano (Transmontano, 1976: 127). Transcrição rectificada por Rui Pedro Ventura.



Deus te salve, ó finado,
Que estás por baixo de mim.
Tu já foste como eu
E eu hei-de ser com’ a ti.
Tu pede a Deus por mim
Que eu peço a Deus por ti. (1)



2

Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Cesaltina Esperança Mena (n. 1921) e recolhida por Rui Pedro Ventura em 2001.



Deus vos salve, corpos santos,
Que já foram como nós.
Pécim a Deus por mim,
Que eu rezarei a Deus por vós.



3

Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Rosária da Conceição Pedro (1926-2008) e recolhida por Rui Pedro Ventura em 1994.



Deus vos salve, ó almas santas,
Que já foram como nós,
Peçam a Deus por nós
Que peço a Jesus por vós.



(1) Esta versão, a mais antiga, era recitada quando se entrava na igreja, ou seja, no tempo em que os enterramentos aí se faziam. Era antecedida pela oração de entrada no templo, “Deus te salve, casa santa”, e terminada com a fórmula de conclusão: “Quem a souber que a diga, / Quem a não souber que a aprenda, / Que no Dia do Juízo / Lá terá quem na pretenda.” Trata-se de uma oração cripto-judaica, uma versão da “oração dos mortos” ou de “entrada no cemitério” dos cristãos-novos de Belmonte, publicada por Samuel Schwarz: “Deus vos salve lá passados, / fostes vivos como nós, / nós seremos como vós, / lá nesse céu onde estais / pedi ao Senhor por nós, / que, neste vale de lágrimas, / pediremos ao Senhor por vós.” (Schwarz, 1925: 96 – 97).
O poço sem fundo do castelo de Marvão






1

Versão recolhida por Maria Guadalupe Alexandre antes de 1996.



Existiu um poço na praça principal do castelo de Marvão, junto à torre de menagem. Tinha uma escada circular. As pessoas ao descerem as escadas, por serem tão íngremes, sentiam tonturas e caíam no fundo que estava cheio de água.
Nessa água habitavam monstros que, naturalmente, comiam as pessoas. Dizem os habitantes que em certas noites se ouviam os gritos das almas dos que lá morreram.
Atribuem aos cristãos a construção da cisterna que tem uma ligação ao chamado “poço sem fundo”. […]
O túnel que liga o poço à cisterna, mais ou menos a meio, tem uma sala escavada na rocha, que contém bancos também escavados. Por cima dos bancos, há uma espécie de nichos. As pessoas chamavam-lhe a sala de conferência dos deuses. Os deuses reunir-se-iam aí nas alturas do combate para decidirem a sorte dos atacantes e dos atacados.

A aparição de Nossa Senhora dos Prazeres
(Castelo de Vide)






1

Versão de Castelo de Vide, recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 136).



Nossa Senhora apareceu a um pastorinho no local onde está situada a capela [Vale de Açor, Ponte de Sor] e disse-lhe que fosse a Castelo de Vide pedir aos lavradores para ali construírem uma capela. Assim fizeram, escolhendo para orago dessa capela Nossa Senhora dos Prazeres.
Mais tarde, por motivo de grande estiagem, os lavradores de Castelo de Vide, prometeram anualmente fazer uma festa em honra de Nossa Senhora dos Prazeres, se d’ Ela obtivessem a graça da chuva necessária para os seus campos. A graça foi concedida, chovendo abundantemente. E desde então até hoje, os lavradores de Castelo de Vide lá vão à Ponte de Sor venerar festivamente Nossa Senhora dos Prazeres […].



2

Versão de Castelo de Vide, recolhida e publicada por Maria Guadalupe Transmontano Alexandre (Alexandre, 1987: 476 – 477).



Andando um pastorinho negro com seu rebanho pela Herdade de Alparrajão apareceu-lhe Nossa Senhora que lhe pediu o seguinte:
“Devia vir a Castelo de Vide dizer aos lavradores que lhe construíssem uma capela no local, onde celebrariam uma festa em Sua honra no dia 8 de Setembro de cada ano”.
Perante o embaraço do jovem negro que se mostrou desconhecedor da terra onde deveria dirigir-se explicou a Virgem que “caminhasse até encontrar muitos homens juntos”. E assim chegou.
Não logrou no entanto convencer os destinatários da mensagem e voltou para junto do rebanho. Nossa Senhora apareceu de novo e depois de ouvir o pastorinho enviou-o pela segunda vez a esta vila. E ainda a incredulidade foi a resposta obtida pelo pobre caminheiro. Voltou e pela terceira vez viu a Virgem que lhe prometeu então um milagre:
“Diz-lhes que é tão verdade o que lhes transmites como o será o facto à vista deles te tornares branco”.
E o humilde mensageiro dirigiu-se a Castelo de Vide e falou aos lavradores. O milagre operou-se e perante ele cessaram as objecções. Montaram a cavalo e foram à Herdade de Alparrajão, trazendo uma Imagem que encontraram para a Igreja de Santiago da sua terra.
Conta-se que os cavalos corriam e não se lhes via pinga de suor. Mas o pedido não fora satisfeito. E assim ao outro dia a Imagem desapareceu da vila.
Fizeram então construir a capela na Herdade e começaram a celebrar a festa que ainda hoje se mantém.



3

Versão de Ponte de Sor, recolhida por Primo Pedro da Conceição Freire Andrade e citada por Maria Guadalupe Alexandre (Alexandre, 1987: 478).



[…] Nossa Senhora apareceu uma vez dentro de uma toca de uma azinheira. Um pastor de Castelo de Vide, que apascentava o seu rebanho por ali, encontrou a imagem e levou-a, um dia, para a Igreja da sua terra. Tempos depois, Nossa Senhora voltou ao local da primeira aparição. Novamente o pastor a encontrou e voltou a levá-la. E quantas vezes a Senhora foi levada para Castelo de Vide, quantas vezes voltou a aparecer ali. Então, […] o povo mandou construir no local uma Igreja, cujo altar-mor é no sítio da própria azinheira, que para o efeito foi serrada.
Lugar onde se diz ter existido um torre.

O castelo das Carreiras (Portalegre)






1

Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins em 1994 e recolhida por Rui Pedro Ventura.



Carreiras teve castelo,
Já foi grande e amuralhada,
Onde moravam as lindas mouras
Nos lindos tempos passados.



2

Versão de Carreiras (Portalegre), contada por Maria Tavares Transmontano em 2009 e recolhida por Rui Pedro Ventura.



O castelo era no sítio que tem esse nome, no cimo do povo. Está muito diferente de quando eu era gaiata, escavaram o terreno quando fizeram a fonte [em 1948].
Onde era a quadra das bestas do professor Casa Nova antes havia uma casa quadrada por dentro e redonda por fora, que tinha a porta por fora ao nível do primeiro andar e lá dentro descia-se por umas escadas estreitinhas. O Casa Nova derrubou tudo quando fez a casa.
No outro lado da rua, por detrás de uma casa, está lá um terraço a que se sobe por uma escada estreita. Era o assento de uma torre. A gente ia p’ra lá brincar em gaiatas, porque a escola feminina era ao lado, e achávamos graça a um nicho que lá está que parece o duma ermida, feito com umas pedras.
Dizem que lá morava o capitão da freguesia.
Ali perto havia duas ogivazinhas, a porta de uma casinha que está ao pé da casa mortuária e outra nas traseiras da casa que comprou o Mateus da Catrina.





A chegada milagrosa
da imagem de São Pedro a Alegrete






1

Versão recolhida por José António Teixeira Rebelo, pároco de Alegrete, em 1758 (Rebello, 1758 in Ventura, 1995: 100).



[…] A imagem de são Pedro dizem ser Angelical.




2

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 303).



A imagem de S. Pedro foi parar ao Algarve a quando da sua feitura, levando uma legenda que indicava: Alegrete. Duvidosos ou ignorando mesmo a localização de tal terra, resolveram os moradores do lugar onde chegou a imagem colocá-la em cima de um carro puxado por dois bravos e possantes bois. Sem que ninguém os guiasse, os bois vieram ter ao lugar onde a capela foi edificada e ali pararam. […] Logo que a imagem foi tirada do carro, assim os bois morreram.




Nossa Senhora da Alegria
salva Alegrete da peste






1

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 303 – 304).



Consta que em 1582 grassou uma grande epidemia de peste no Distrito de Portalegre, vindo nessa altura viver algum tempo para Alegrete o sábio e virtuoso Bispo D. Frei Amador Arrais, que nesse mesmo ano, em fins de Janeiro, tomara posse da diocese de Portalegre.
O povo de Alegrete, receoso de que tal epidemia o atingisse e vitimasse, resolveu tirar Nossa Senhora d’ Alegria do seu altar e levou-a para as muralhas mais altas onde a colocou e deixou à vista de toda a povoação. Fizeram-lhe preces fervorosas que foram ouvidas pela Mãe de Deus. Em sinal de gratidão prometeram festejá-la anualmente no dia 15 de Agosto. E a promessa tem-se cumprido desde então até agora, cantando-se estas estrofes:

[…]
Pu[s]eram nossos antigos
A Senhora na muralha
Que nos livrasse da peste
Que era mal que a todos dava.

[…]
A Senhora d’ Alegria
Não está em casa, foi fora,
Foi visitar os enfermos
Que estão na última hora.



2

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 304).



[…] a peste entrou na vila e dizimou muita gente, tendo só escapado uma família na Ruinha, hoje rua da Saúde. Então o povo, para que não morressem todos, foi buscar Nossa Senhora d’ Alegria, colocou a sua imagem na muralha e dirigiu-lhe fervorosas súplicas, que foram atendidas, cessando a peste. Daí, o voto gratulatório, realizando-se a festa tradicional que deu lugar a grandes manifestações de alegria.
A vida de Jesus Cristo

Versão de Carreiras (Portalegre), recolhida por Augusto Relvas em 1949. Recitada por Maria Lopes, avó do colector (Relvas, 1992). Transcrição revista por Rui Pedro Ventura.



Martírios do Senhor



Nasceu Cristo em Belém.
Ali se viu a Virgem magoada,
Sozinha.
Jesus Cristo tinha.
Com São José se via.
Logo ali lhe acudia
Um preto e uma cigana
A Jesus, neto de Ana,
Visitar.
Deu o Céu em abaixar,
Dando a casa resplendores,
Onde vieram os três pastores
A trazer,
A Jesus Cristo oferecer
Suas fazendas e bens,
Onde vieram os Santos Reis
Também para o adorar.
O Céu, a Terra e o Mar,
Tudo ali ajoelhou
E a Virgem sempre ficou
Pura.
Já temos a salvação segura
Só com este nascimento
E o Augusto Sacramento
Aqui é que principia.
É o Filho de Maria
Que já hoje foi nascido,
Já hoje foi concebido
Por obra e graça
Do Divino Espírito Santo,
Que nele o seu divino poder tanto,
Que é Senhor do mundo inteiro,
Por Deus e homem verdadeiro
Se aclama.
É a fé que se derrama
Por toda a Palestina,
Que é uma fonte de doutrina
Cristã.
É aquela manhã
Que [a]o mundo deu claridade.
É o Sol da Divindade
Que apareceu.
É o maná que choveu
Lá no deserto de Cima.
É a hóstia divina,
Consagrada.
É de Jacob a escada
Por onde o anjo desceu.
Agora é que o mundo se ergueu
De pecar.
Aquele é que foi palpitar
Nas margens do Jordão,
Que lhe pôs seu primo João
“Jesus de Nazaré”.
Jesus de Nazaré,
Salvação, graça e fé,
Disso está o mundo cheio.
Está servindo de recreio
Às almas puras.
Para se cumprir as Escrituras
Se obrigou Cristo a padecer.
E agora é que vamos ver
Os tormentos que o Senhor passou,
As gentes que sustentou.
Com cinco pães e dois peixes
Se fartaram cinco mil pessoas
E ainda sobejou comida.
É bem que o autor da Vida
Fabrique destes banquetes.
Deram-se doze ramalhetes
Ao lava-pés.
Os mandamentos são dez,
Que são os dez cordeiros.
Judas por trinta dinheiros
Vendeu o seu Redentor,
Sendo-Lhe um falso e traidor.
Usou-lhe dessa traição,
Levou seu Mestre à prisão
Por um ósculo de paz.
Junto a casa de Anás
Vai o Senhor conduzido
Entre algozes metido.
Vai preso
Com um ódio tão aceso,
Que lhes terriquem os dentes.
Nem amigos nem parentes!
E consentistes!
Oh mundo, ainda não vistes
Outro como este padecer.
Ouvireis o sangue a correr,
Soando.
É o maldito povo gritando
“Crucifica! Crucifica!”
E é o ódio que implica
Na maldade
E o Senhor com piedade
Tudo isto aguentou,
Todo porque tentou
Deixar o mundo em paz.
Lá em casa de Caifás,
Onde Pedro se negou,
O Senhor disse: “Eu é que sou
O Filho do Padre Eterno,
Que do Inferno
Hei-de tirar as almas.”
O ministro bate as palmas,
Dá um grito violento.
“Faz das pedras sustento,
Se podes!
Lá irás para o rei Herodes.
Lá terás morte de cruz.”
Lá verás, meu bom Jesus,
De Herodes para Pilatos.
Leram seus lindos actos,
Nunca o acharam criminoso.
E o maldito povo raivoso
Sempre gritando que morra.
Morreu Cristo em Jerusalém
Sem cometer nenhuns delitos.
Eram tantos os gritos
Que entoam
E muito longe soam.
Na rua da amargura
Apareceu a Virgem Pura
Chorando,
Que ia procurando
Pelo seu Filho adorado,
Que naquele estado
O via
Feito vale de agonia,
Tal outro não podia haver.
E o Senhor, sem poder,
Caiu com a cruz no chão.
Disse Cristo para Simão:
“Ajuda-me, Simão,
A esta cruz tão pesada!”
E caiu de joelhos na calçada.
Simão foi com a cruz ao Calvário
Onde o Senhor foi crucificado
À força de violência.
Deixou Cristo com paciência
Cravar Seus divinos pés e mãos.
Talvez seus passos vãos
Lhes causassem pensamentos,
Lhes causassem tormentos,
Lhes causassem os espinhos
Para a cabeça
E para que o mundo conheça
O mar em que eu navego.
Um caso se achou. Um cego
Com uma lança,
Que é cego e não alcança,
Só pelo tacto é que feriu.
Logo daquele peito saiu
O sangue da divindade.
Deixou Cristo à Cristandade
Suas chagas em aberto.
Vieram soldados por duas vezes
Com martelos e torquezas
Para Cristo despregar,
Para o irem sepultar
Numa sepultura nova.
Ali foi o Senhor descido à cova,
Onde o Sol perdeu a luz,
Onde o Sol se encerrou.
Só a Mãe de Jesus chorou.
O evangelista João
Chorava que esmorecia.
Onde vieram as três Marias
Numa noite nebulosa e escura
Buscar Cristo à sepultura.
Respondeu um serafim:
“Jesus não está aí.
Ressuscitou.
Foi triunfante para o Céu,
Para a companhia do seu Divino Pai,
Da Senhora com o seu manto,
Do Divino Espírito Santo,
Da Estrela Matutina,
Da Santíssima Trindade.”
Ámen.

Virgem Maria no Calvário
(Casa-Museu José Régio, em Portalegre)
Santa Bárbara

Santa Cecília

São Jerónimo

São José

São Sebastião

Marvão:
conjunto de pinturas murais
descobertas numa casa da vila
SOBRE O TOPÓNIMO
"CASTELO DE VIDE"


O sítio Fonte da Vila (http://www.fontedavila.org/) já publicou o meu novo artigo, intitulado A Vide e o seu Castelo (e outros toopónimos da terra de Cristovam Pavia). Como o título indica, reflecte sobre o topónimo "Castelo de Vide" e, ainda, sobre outras designações da vila, tais como "Aldeia", "Arçário", "Arrochela", "Poço de Aluáca", "Mascarro", etc. O texto pode ser lido em: http://www.fontedavila.org/multimedia/doc_textos_artigos/ta_rv_cv_toponimo.pdf
Agradeço desde já a leitura.


Interpretação do Percurso


por Ruy Ventura



1 – Carreiras

Aldeia situada a 600 m de altitude. Existem nesta freguesia vestígios de ocupação humana muito antiga. Do Neolítico, identificaram-se o povoado do Veloso e a anta da herdade do João Martins, próxima da anta do Soveral, já no concelho de Castelo de Vide. Descobriram-se, entretanto, moedas do século I d. C. e vestígios de povoados da alta Idade Média. A aldeia, com mais do que provável origem medieval, terá nascido de um ponto de reunião dos pastores (cabreiros) da região, no Rossio. Nas proximidades situava-se um pequeno reduto fortificado, talvez com origem anterior, que deveria servir para acolher o gado e a população em caso de necessidade. A igreja de São Sebastião, nascida talvez sobre um santuário antigo, deverá ter sido edificada na Baixa Idade Média. Teve reconstruções em finais do século XVI e nos últimos decénios do século XVIII. A urbanização da aldeia terá pretendido ligar núcleos habitacionais mais antigos, identificável nos locais denominados Castelo, Castelinho, Arrabalde e Cabril. Embora tenha um traçado adaptado às curvas de nível da encosta da serra de Castelo de Vide, manifesta preocupações de regularidade. Deverá datar de inícios do século XVI.





2 - Fonte dos Carvoeiros

Altitude 670 m. A fonte e o parque de merendas foram construídos nos anos 60 do século XX. A sua designação é muito mais antiga, não tendo relação com carvoarias, mas com um termo semita relacionado com sítios de pastagem. Magnífica vista panorâmica; à esquerda na direcção sudeste avista-se o pico de S. Mamede (1025 m de altitude), o ponto mais elevado a sul do Tejo.





3 – Início da calçada medieval

Aqui inicia-se a descida pela calçada medieval, é possível observar o travamento estrelado da calçada. A via a percorrer é uma parcela da estrada que ligava Portalegre a Castelo de Vide. No estado actual, a sua construção deve remontar à Idade Média, mas terá sido instalada sobre uma rota muito mais anterior, seguramente da época muçulmana, talvez até da época romana.



4 - Fonte Branca e Água Todo o Ano

Altitude 545 m. Trata-se de uma fonte de mergulho, com arquitectura que deve remontar à Idade Média, embora com remodelações posteriores. Serviria para abastecimento dos viajantes e para sua purificação (o que é sugerido pelo seu nome, derivado do árabe “baraka”). Perto existe a quinta da Água Todo o Ano, que terá sido um local de veraneio dos padres da Ordem de Malta, que paroquiavam a igreja de S. João de Castelo de Vide.



5 Monte da Gente

Desta zona da calçada pode avistar-se um pequeno cabeço arborizado com sobreiros onde se situam ruínas de edifícios. Segundo alguns arqueólogos, pertencerão a um fortim romano, não sendo no entanto impossível que sejam de um pequeno povoado medieval.



6 Torre de Caldeira

A sudoeste da Fonte de Branca situam-se os edifícios abandonados de uma antiga herdade, onde se destaca uma torre, datada de finais do século XVI ou de princípios do século XVII. Foi mandada construir pela família Caldeira de Tavares, de onde saíram alguns alcaides-mores de Portalegre.



7 Horta das Cinco

Perto desta pequena quinta há ruínas de uma estalagem medieval, onde ainda se pode observar um forno de cozer pão. No final da calçada, vê-se o edifício da Quinta do Prior, talvez do século XVIII. Perto está o monte do Morujo, onde há um chafurdão arruinado (abrigo de pastores anterior à nacionalidade).



8 Calçada medieval secundária

Calçada medieval de acesso a Carreiras. Ramal da via principal acabada de percorrer. À esquerda vê-se um cabeço pedregoso, o Fraguil, no cimo do qual existe um afloramento granítico com configuração fálica (talvez um menir ou o bétilo de um santuário anterior aos romanos).


Pouso, Castelo de Vide:
fachada e interior da igreja de São Pedro
(fotos de RV, 2011)

Castelo de Vide:
Carreira de Baixo numa foto de inícios do século XX
vendo-se ao fundo a igreja do Espírito Santo, frente ao convento da Conceição.
À espera no Calvário.

A procissão sai da igreja do Calvário.

Início da procissão.

Senhor Morto seguido por Nossa Senhora da Soledade.

Nossa Senhora da Soledade.

Entrada na Carreira de Cima.

Percorrendo a Carreira de Cima, até à Matriz.

Procissão na Carreira de Cima.

Depois do Senhor Morto, o andor de Nossa Senhora da Soledade entra na igreja de Santa Maria da Devesa.


Castelo de Vide:
procissão do Enterro do Senhor
(22/4/2011, RV)
"Anunciação", pintura de Fra Angelico


SENHORA DA ENCARNAÇÃO


Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Rosária da Conceição Pedro, nascida em 1926 e falecida em 2008. Declarou tê-la aprendida com seu pai, Manuel Pedro (1887-1958), na infância. Recolhida, em 1985, e transcrita por Ruy Ventura.


Senhora da Encarnação,
Senhora do Verbo Divino,
Deitai-me a Vossa divina bença,
Que eu vou por este caminho
À procura da salvação,
Do Sacramento Divino.
Ó meu Pai todo poderoso,
Filho dum Pai tão amoroso,
Uma alma que me deste
Não a deixeis morrer triste.
Se já Deus te quer levar,
Vai-te confessar.
Quem a souber, que a diga.
Quem a ouvir, qu' àprenda,
Saberá no Dia de Juízo
O bem que lhe pretenda.
Quem esta oração disser
Um ano, dia a dia,
Terá a su' alma tã' pura
C'mà c'roa da Virgem Maria.




LENDA DE NOSSA SENHORA DA PENHA
(CASTELO DE VIDE)



1.

Versão de Castelo de Vide, publicada em http://noticiasdecastelodevide.blogspot.com/2007/08/hoje-dia-da-senhora-da-penha.html (consulta a 22/2/2010).

Reza a lenda da Senhora da Penha que, andando certo dia um pastor a guardar o rebanho, viu um grupo de malfeitores que planeavam roubar-lhe as ovelhas.
Tendo nessa altura invocado Nossa Senhora que apareceu ao pastor montada num burrinho, cujas pegadas ainda hoje podem notar-se no granito, transformou o dia em noite, impedindo assim que se consumasse o roubo.
O povo da Vila, vendo que na serra era de noite e sabendo posteriormente o que tinha acontecido, resolveu edificar uma capela à Senhora da Penha. Escolheu para o local o sítio do Pouso, situado no sopé da serra.
Mas cada vez que as obras eram iniciadas, eram misteriosamente destruídas, chegando o povo de Castelo de vide a montar guarda durante a noite para impedir tal destruição o que não resultou.
Só quando a capela se começou a construir no local da aparição é que foi possível completá-la e assim altaneira, olha a vila.



2.

Versão de Castelo de Vide, recolhida por Raul Amaral Marques e publicada a 3/2/2011 em: http://amaral-marques.blogspot.com/2011/02/lenda-da-senhora-da-penha.html (consulta a 22/2/2011).


A LENDA DA SENHORA DA PENHA

Reza a lenda da Senhora da Penha que, andando certo dia um pastor a guardar o rebanho, viu um grupo de malfeitores que planeavam roubar-lhe as ovelhas.
Tendo nessa altura invocado Nossa Senhora que apareceu ao pastor montada num burrinho, cujas pegadas ainda hoje podem notar-se no granito, transformou o dia em noite, impedindo assim que se consumasse o roubo.
O povo da Vila, vendo que na serra era de noite e sabendo posteriormente o que tinha acontecido, resolveu edificar uma capela à Senhora da Penha. Escolheu para o local o sítio do Pouso, situado no sopé da serra.
Mas cada vez que as obras eram iniciadas, eram misteriosamente destruídas, chegando o povo de Castelo de Vide a montar guarda durante a noite para impedir tal destruição o que não resultou.
Só quando a capela se começou a construir no local da aparição é que foi possível completá-la e assim altaneira, olha a vila.
Esta igreja remonta ao séc. XVI. Fica situada no cimo da serra de São Paulo, a 1 km para Sudoeste de Castelo de Vide.
Ao subir para a Capela de Nossa Senhora da Penha, existe um assento de pedra, do lado esquerdo da escadaria de acesso, onde toda a gente se vai sentar para dizer uma quadra que os mais velhos cantavam:

“Cadeirinha de Nossa Senhora,
Cadeirinha do meu bem;
Onde se sentou Nossa Senhora
Sento-me eu também”

Conta o povo que quem se sentar na cadeirinha, levantar os pés do chão e pedir três desejos e não os revelar a ninguém, esses desejos seriam concedidos.




Verso com efígie de Augusto coroado de louros
Legenda: PERM. IMP. CAESA[...]
Reverso com junta de bois fundacional
Legenda: EMERITA [...]


Moeda romana (dupôndio?) em bronze
 cunhada em Emerita Augusta (Mérida)
na época do imperador Augusto (sécs. I a. C. / I d. C.).
Encontrada numa horta da Granjeira
na freguesia de Carreiras (Portalegre) em 1987.
(Colecção de RV)

Srª. da Lapa
– 5000 anos depois os gestos repetem-se

Jorge de Oliveira



Realizou-se no passado dia 20 de Setembro a Romaria em honra de Nª. Srª. da Lapa, situada junto a Besteiros, na freguesia de Alegrete. Contudo, manda a tradição que esta festividade se realize no último domingo de Setembro, que este ano cairia no dia 27, isto é, no dia das eleições para o Parlamento. Para evitar atropelos e incómodos adiantou-se uma semana a romaria. A festa de gosto popular divide-se em dois espaços: junto à ermida e no terreiro de Besteiros, à volta da “rotunda” do sobreiro. A parte religiosa tem o seu ponto alto na missa celebrada à porta da ermida, incapaz de acolher todos quantos a este paradisíaco local se deslocam. É antecedida pela chegada das imagens religiosas que, com a pompa que a circunstância possibilita, são transportadas em “carrinha” aberta engalanada e acompanhadas pelos festeiros e pelo padre celebrante.

O ritual repete-se. Alguns dias antes caia-se a ermida, aqui e ali dão-se uns retoques no telhado porque o último Inverno foi bravo. O reboco é reposto onde teima em cair. Alinda-se o altar, varre-se o adro e limpa-se a casa do ermitão. No dia da festa elevam-se aos respectivos nichos as imagens, mas a de Nª. Srª. da Lapa apenas espreita o quinhentista altar. Fica à porta para presidir à celebração. O manto de seda e renda reveste-se de notas do cumprimento de promessas, mal se avistando a policromia com que os barristas de Portalegre, dos finais do século XVI, quiseram decorar a pequena imagem da Virgem que segura o Menino no braço direito. Fios e medalhas de ouro enrolam-se ao pescoço da imagem, lembrando outras promessas.




Antes e depois da celebração assiste-se a um invulgar, estranho e interessantíssimo ritual. Sob o altar uma baixa e estreita porta abre-se dando passagem a todos quantos querem visitar o milenar espaço de culto. É verdade, por trás do altar esconde-se uma gruta natural, aberta na rocha quartzítica, onde se guardam memórias de tempos muito recuadas. Alguns dizem que ainda se vê, do lado esquerdo, a imagem do cavaleiro que estará na origem do milagre. Dizem-nos que está pintada a negro mas que já é muito difícil observar. Com velas na mão, as gentes, em fila, precipitam-se para o interior da gruta. Quando lhe perguntamos porque o fazem, apenas nos respondem que sempre o fizeram e os seus antepassados já o faziam. Qual ritual de passagem para um outro mundo original as pessoas curvam-se ou rastejam, à luz dos círios e transpõem o altar, o santo dos santos, para o outro lado. As mães pela mão levam os mais jovens que de olhos arregalados procuram descobrir o mistério que se esconde para lá do altar. E para lá do altar, depois de ultrapassada o estreito corredor entra-se na gruta, onde as memórias da ermida original, cristã, e não só, se misturam com as imagens que os homens pré-históricos pintaram nas paredes deste abrigo, que também foi seu santuário. Por entre os laivos de cal que ainda se conservam da primitiva ermida e se elevam sobre o derrubado muro do original altar descobrem-se, pintadas a traço grosso, de cor vermelha, imagens esquemáticas semelhantes às que se conhecem nos vizinhos abrigos pré-históricos da freguesia da Esperança, ou de Alburquerque. Foi, há pelo menos 5000 anos, que os homens que por estas paragens deambulavam se serviram desta lapa para pintarem memórias da sua passagem, dos seus mitos, dos seus receios ou das suas devoções. São traços esquemáticos que hoje dificilmente entendemos, mas que estão lá a testemunhar como 5000 anos depois os gestos se repetem. Trata-se, em boa verdade, de um local único. Com uma paisagem deslumbrante, próximo de uma fonte, em frente da qual se abre um fértil vale, hoje, na sua maioria, terras de Espanha, o homem pré-histórico apropriou-se do abrigo natural e nas paredes da gruta aí pintou, com tinta indelével, mensagens que até nós chegaram. Pelo menos na Idade-média a gruta pré-histórica foi resgatada pelo cristianismo. Restos de uma primitiva construção, observam-se por detrás do actual altar. Aqui viveria um ermita em meditação. Eventualmente, também aqui se terá cultuado Alá e, posteriormente, o espaço convertido ao cristianismo, onde algum cenobita terá sobrevivido das esmolas que os das redondezas lhe traziam. Nos finais do século XVI ou nos inícios do século XVII a ermida é remodelada, adquirindo, genericamente, a traça que hoje ainda apresenta. Terão sido as influências do longo e purificador Concílio de Trento que obrigaram à renovação do espaço e que por ordens do culto bispo Amador Arraes foram globalmente aplicadas em toda a diocese.

Terminada a celebração, que desta vez teve um significado acrescido ( o padre Marcelino despediu-se da sua comunidade, de partida para a Sé de Portalegre ) os romeiros vão visitar a memória do espaço adjacente à ermida. Noutra concavidade natural, provavelmente também com vestígios pré-históricos, mas esta totalmente caiada, desenvolve-se a casa da última família que aqui viveu e que da ermida tomava conta. A memória desses tempos preserva-se no mais pequeno pormenor. Os velhos leitos ainda estão preparados, a mesa, as cadeiras e os outros pobres “tarecos” parecem esperar pelo regresso dos seus velhos donos. É mais um local de visita obrigatória. Neste espaço os romeiros mais idosos sussurram velhas histórias à medida que entram e saem.

A tarde vai caindo e a festa ainda está meio. Os santos descem dos altares, as cadeiras e bancos regressam à igreja, o sino volta a tocar antes que a portada que o guarda se encerre até para o ano. A “carrinha” engalanada volta receber os santos e algumas santas festeiras que de fato domingueiro as acompanham. A igreja é fechada a sete chaves, apenas lá ficando cópias sem valor das imagens originais, porque essas, agora, em procissão regressam a Besteiros. Junto ao velho Posto da Guarda Fiscal a Banda de Alegrete espera a imagem de Nª. Srª. da Esperança. Aqui se inicia o cortejo a pé até ao centro das festas, à volta do velho sobreiro que agonia desde que alcatroaram o entorno. As imagens recolhem aos novos e improvisados templos e o tempo religioso dá lugar ao tempo pagão. Está na hora da tourada, dos petiscos, do vinho e da cerveja e do bailarico. Para o ano, se no último domingo de Setembro não houver eleições para o Parlamento a Srª. da Lapa voltará a visitar o seu multi-milenar templo.

Fonte:
consultado a 10/2/2011

Nossa Senhora da Alegria
(madeira policromada, de roca, sécs. XVII/XVIII)

Senhor dos Passos
(madeira policromada, de roca, séc. XIX/XX)

Cristo Crucificado
(madeira policromada e dourada, séc. XIX? - proveniente da região de Setúbal, tendo integrado o património paroquial em 2008.)


Carreiras (Portalegre):
imaginária existente na igreja paroquial (devidamente inventariada) (4)

(Fotos de RV.)
Santo Isidro
(barro policromado e dourado, séc. XVIII)

São Sebastião
(madeira policromada, sécs. XVI/XVII?)

São Sebastião
(madeira policromada e dourada, séc. XVI - proveniência desconhecida, tendo integrado o património paroquial na década de 1930.)


Carreiras (Portalegre):
imaginária existente na igreja paroquial (devidamente inventariada) (3)

(Fotos de RV.)
São Joaquim
(madeira policromada, sécs. XVI/XVII - proveniente de uma doação efectuada em finais do século XIX)

Sant' Ana e a Virgem
(barro policromado, 1774)

Nossa Senhora do Rosário
(madeira policromada, séc. XVIII?)

Menino Deus
(madeira policromada, séc. XVIII?)

São João Baptista
(madeira policromada e dourada, séc. XVI)

Carreiras (Portalegre):
imaginária existente na igreja paroquial (devidamente inventariada) (2)

(Fotos de RV.)