Caras amigas e caros amigos,


Gostaria muito de vos desejar individualmente

um Natal cheio de alegria e de paz.

Sendo isso impossível

(os leitores deste blogue já são alguns...),

mando-vos um abraço forte

e deixo aqui os meus desejos mais sinceros:

tudo de bom para vós!

Mestre Ulisses

um sapateiro carreirense

em Setúbal


Para conhecer melhor, leia aqui a reportagem.
CARREIRAS
segundo Maria Guadalupe
(continuação)


Falámos de "chafurdões" ou "safurdões" de tipo céltico abundantes no concelho de castelo de Vide. Acrescentamos que também existem no concelho de Marvão e que em ambas as circunscrições os há também de planta quadrada - tipo ibérico.
É pertinente lembrar que os celtas se juntaram aos Iberos (povos da Península Hispânica) dando origem aos Celtiberos.
Soube pelo carreirense Dr. Ruy Ventura que há 2 "safurdões" na freguesia de Carreiras: um na propriedade chamada Casépio, próxima do aglomerado populacional; outro na Tapada da Madrovaz (corruptela de Amaro Vaz) e um outro na Seixinhosa, propriedade dos limites da circunscrição, situada junto à estrada nacional nº 246 que liga Portalegre a Castelo de Vide.
São monumentos a preservar que vêm engrossar o conjunto dos já referenciados por arqueólogos e historiadores.
Trata-se de construções totalmente de pedra, com cobertura em falsa cúpula, portas geralmente viradas a Nascente e quase sempre situadas no cume de um "cabeço", sobre uma rocha, não longe de um curso de água.
A Drª Maria da Conceição Monteiro Rodrigues na obra "Carta Arqueológica do Concelho de Castelo de Vide" diz a certa altura o seguinte: "o problema da origem das construções circulares tem sido muito debatido, defendendo uns a tese céltica, outros a pré-céltica".
Por seu lado os autores de "Construções Primitivas em Portugal" consideram tanto as que acima referimos como as de planta de quadrada referindo que elas se encontram "em inúmeras partes, na Europa, Ásia e África; na Itália e Sardenha, na Jugoslávia, na Hungria, em França, na Espanha e Baleares, em Portugal, na Escócia e na Irlanda, na Arábia; no Norte de África, etc!".
Segundo a mesma obra, a difícil localização histórica das construções de falsa cúpula deve-se ao facto de haver dúvidas em relação à sua idade real (em Portugal).
Tendo em consideração "a rudeza de matérias, modos de construção, aspecto e erosão da pedra" na maioria dos casos parece realmente tratar-se de edificação muito antigas.
Lembram os mesmos autores que "faltam inscrições datas e referências, concretas em quaisquer textos".
Além disso parece que em Portugal não se perdeu a técnica da construção em falsa cúpula ao longo dos séculos, visto que algumas edificações são actuais, havendo em alguns sítios construções em actividade.

Bibliografia
Oliveira, Ernesto; Veiga, de, Fernando Galhano e Benjamim Pereira - "Construções Primitivas em Portugal"; Rodrigues, Maria da Conceição Monteiro - "Carta Arqueológica do Concelho de Castelo de Vide



(in Fonte Nova, nº 1511, de 8/12/2007)
CARREIRAS
(segundo Maria Guadalupe)


Falemos então dos celtas.
Antes de tudo e porque o nosso objectivo é "Viver Carreiras", diremos que foram os "responsáveis" pela manutenção do som "e" (aberto) em vez de "a" proveniente de "A" tónico latino.
Os carreirenses sabem que os mais velhos normalmente iletrados (e isto não significa incultos) dizem brinquer por brincar, fumer por fumar, bureco em vez de buraco, cedede por cidade, varejer, por varejar, etc.
É uma característica dos falares da Beira Baixa e do Nordeste Alentejano de origem céltica, que se mantém viva nos nossos dias e é prova da permanência desse povo nesta parte do país.
É que antes que os romanos submetessem a Península Ibérica já os Celtas permaneciam nela havia muitos séculos.
O berço desta civilização foi a Europa Central - Boémia e Baviera, mas a partir do século V a.c. estes povos começaram a deslocar-se para Ocidente e até ao Mar do Norte.
No ano 300 antes da nossa Era ocupavam os territórios dos seguintes países: Irlanda, Grã-Bretanha, França, Suiça, Espanha, Portugal e uma parte da Turquia.
Tinham uma escrita própria o "ogam". Foram encontradas nas Ilhas Britânicas gravadas nas arestas de blocos de pedra, cerca de 360 inscrições celtas em escrita ogâmica.
O alfabeto consiste num sistema de golpes e "teriam sido necessárias toneladas de pedras para escrever qualquer frase".
Os Celtas desconfiavam dos textos escritos e só registavam o que não tinha importância. O saber dos druidas (sacerdotes), os longos poemas antigos e as narrações dos feitos heróicos dos antepassados eram transmitidos oralmente.
Restam inscrições votivas, de moedas, contas de mercadores e o calendário de Coligny.
Em Portugal são de origem céltica, entre outros, os seguintes topónimos: Bragança, Penafiel, Coimbra, Penacova, Setúbal e Évora.
Os vocábulos "camisa", "caminho" e "légua", tão vulgares em todo o país têm também a referida origem.
E como continuaremos a falar dos Celtas, lembramos, a finalizar que aos "chafurdões" do concelho de Castelo de Vide, de planta redonda e falsa cúpula se costuma chamar de tipo céltico.

Biografia
Alexandre, Maria Guadalupe - Etnografia, Folclores e Linguagem de Castelo de Vide, 1976; Maçãs, Delmira Maria Filomena Benito - Pela Europa de Celtas e Romanas, Lisboa 1993; Walter, Henriette - A Aventura das Línguas do Ocidente - a sua origem, a sua história, a sua geografia, Paris, 1994

(in Fonte Nova, nº 1509. de 1/12/07)
VIDA DE SOLDADO

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.



"Adeus minha querida mãe, vou seguir o meu caminho,
Agora desprezado, já não tenho os seus carinhos.
Adeus rapazes amigos, que eu os vou abraçar,
Lembrem-se do infeliz que vai para melitar."
(A tropa era muito ruim...)
Assim qu' ò quartel cheguei, à secretaria fui chamado.
"Diga lá como se chama e im que terra foi criado."
Derim-me então um papel e eu fui ver o que dezia.
"Soldado número doze da segunda bataria."
"Agora vais ser soldado, paisana já o não és.
(Enganei-me...)
Ó primeiro sargento eu me fui apresentar.
Mandou-me tomar um banho e o meu cabelo cortar.
Eu fui a tomar um banho numa água muito fria.
Cortaram-me o meu cabelo, perdi a minha alegria.
"Agora vais ser soldado, paisano já o não és.
Vais a ser demudado da cabeça até aos pés.
Toma lá a tua roupa, a camisa veste já.
Veste também as calças e as botas estão acolá.
Veste o teu colete e veste o casacão
E veste também o capote e aperta o cinturão.
Agora já és soldado, esquecido da paisana,
Vai dezêr ao quartelêro que te dê a roupa da cama."
Eu subi mais uma escada um pouco atrapalhado.
Cheguei à porta, parei: "Dá licença senhor cabo?"
"O que é que tu queres?" - De modo me falou.
"Venho buscar roupa da cama, o meu primeiro mandou."
"Toma lá a tua roupa, dois lençóis e duas mantas,
Vai fazer a tua cama na caserna número tantas."
(Não diz o número.)
Fui fazer a minha cama junto dos meus companheiros.
Não conhecia nenhuns, pareciam-me todos estrangeiros.
Quando foi no outro dia, tocou logo a alvorada.
"Põe-te de pé ó galucho, se não levas cinturada!"
E eu pus-me logo de pé, o meu café fui tomar
E no fim disto tudo, a instrução fui começar.
Depois da tropa acabada, dei a vida aborrecida.
"Ó meus belos camaradas, vou a dar a despedida.
Adeus rapazes amigos dum posto igual a mim,
Adeus amigo rancheiro, adeus amigo clarim.
Adeus ó fonte da estrada, onde eu água fui beber.
Adeus muéres e cavalos, nunca mais os quero ver.
Adeus senhor comandante, ó meu tenente-coronel,
Adeus ó meu aspirante, nunca mais volto ao quartel."

(Aprendi muito nova, mas nunca me esqueci por causa dos meus irmãos.)
Soledade Martinho Costa


OS TEUS VERSOS

(a José Duro)


Os versos que escreveste
Foram poucos
Mas vestiam de negro
Já era o luto
Que por ti punha
A força do poema.

Dizer aqui teu nome
Pouco importa.

Mas se tão cedo
Entregaste a vida à morte
E a morte conheceste
E a cantaste
És mais do que um poeta
E és mais forte.

Porque soubeste cantar
A própria morte
E foram versos
O pranto que choraste.


Do livro “A Palavra Nua”

CARREIRAS (Portalegre)
segundo Maria Guadalupe



Eis-me aqui ainda com a capacidade de me deslumbrar perante as coisas simples, o apego, a leitura de paisagens, a sede da essência dos lugares e o sabor do Humanismo que caracterizou a minha geração.
Sinto também a necessidade de partilhar conhecimentos, de aprender e de ensinar, de valorizar personalidades.Viver numa aldeia implica, necessariamente, conhecer o pulsar da comunidade mas pode começar-se pela meditação. Depois de enchermos os olhos de beleza, podemos fechá-los e encarar o universo das interrogações. Procurar descobrir, entender, explicar, interiorizar e amar são marcos de um caminho que me proponho percorrer com todos os leitores, especialmente com os carreirenses.
Vamos lembrar a localização da "aldeia-presépio" para considerarmos dois aspectos que me parecem interessantes. O primeiro diz respeito ao facto da circunscrição se estender por encostas e vales da Região de São Mamede, entalada entre dois concelhos com riqueza histórica - o de Castelo de Vide e o de Marvão. O segundo refere-se à localização da parte urbana, empoleirada num contraforte, espécie de ponta nordestina do Concelho de Portalegre.
Tal situação, agravada pela falta de estradas que se fez sentir até meados do século XX, favorecida, por outro lado, pelas raízes históricas, fez com que os citados concelhos se constituíssem, tal como o de Portalegre, pólos de atracção da comunidade carreirense.
Disso são testemunhos os mercados-francos de Castelo de Vide, bem como a influência do pensamento político, especialmente no início do século passado, a tradição das "rijas bailaradas" no termo de Marvão, a fama da Taberna do Ânjaro (Ângelo) nos Alvarrões e as Veredas de contrabando.
Naturalmente houve casamentos (vários, entre os meus antepassados), estreitaram-se laços de parentesco e a ligação cultural manteve-se até os nossos dias.
Como acontece com todas as freguesias portuguesas, a de Carreiras foi antes a Paróquia de São Sebastião. O termo paróquia significa "congregação de fregueses", entendendo-se por fregueses os filhos da igreja.
São, as paróquias circunscrições antiquíssimas, reflexos de um certo "ordenamento do território" levado a cabo pela Igreja Católica na Europa do século IV, ao sentir necessidade de dividir as dioceses que se tinham estruturado no século II. As paróquias, raízes das actuais freguesias, têm 1600 anos!
Não acreditamos que a de Carreiras seja tão antiga... Mas... que existia nesta região há 16 séculos? Tentaremos responder na próxima semana.

Bibliografia
1. "Civilização Cristã"- Dicionário Temático Larousse (Círculo de Leitores)
2. "Diciona'rio Ilustrado da História de Portugal"- Publicações Alfa
3. Machado, José Pedro- "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa
4. Informações Especiais de Maria F. Tavares Transmontano

*


Há 16 séculos, há mais séculos ainda existia na região a cidade romana de Ammaia, na actual Aramenha, com suas muralhas e portas, seu fórum (praça principal) com termas, templo, suas chefias e actividades, servida por várias estradas que a ligavam a centros importantes.
Situava-se na província da Lusitânia que tinha como capital Mérida (Emérita).
A sua municipalização "deve ter ocorrido no século I e controlava um território vasto em parte coincidente com o distrito de Portalegre".
Dos quatro eixos viários da cidade, um seguia para Sul, utilizando a ponte da Madalena, passando pelos carris, "local onde foi detectado um vestígio do empedrado da calçada", continuava pelos Alvarrões e descia para o lado da Ribeira de Nisa, contornando o Cabeço do Mouro, até Portalegre donde se estendia até Mérida.
Esta via passava , como agora passa a estrada nacional nº 359, a escassos quilómetros do contraforte sobre o qual se situa a aldeia de Carreiras.
Até ao momento presente desconhecemos a existência de qualquer achado arqueológico desta época no território da freguesia e por isso só a proximidade dum núcleo populacional e administrativo importante nos leva a admitir que o "sítio" pudesse ser habitado.
Não esquecemos que, em 1911, foi encontrada em Fortios uma estela funerária romana que depois de permanecer no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, infelizmente desapareceu. Fora colocada na sepultura de um menino de 3 anos de idade, liberto (filho de escravos) e nela se podia ler a expressão - que a terra te seja leve.
Ora esta aldeia do concelho de Portalegre fica bem mais distante de Ammaia que a de Carreiras e nesta última a citada expressão latina e habitualmente usada como traduzindo um desejo de grande repouso para quem morrer.
Poderia ter existido no "sítio" da "Aldeia Presépio" um pequeno aglomerado populacional, então denominado VICUS.
O que é certo é que o respeito dos velhos carreirenses, pelo fogo da lareira está relacionado com o culto doméstico da população romana.
Disso falaremos no próximo número.

Bibliografia
IBN MARUAN nº 12 - 2002
Borges, Sofia: A Cidade Romana de Ammaia - As Termas do Fórum - (Notícia Preliminar); Carneiro, André: O Fim do Império e a Cristianização no território da CIVITAS AMMAIENSIS - Mudança e Continuidade no Concelho de Fronteira; Carvalho, Joaquim: Ammaia e a sua RedeViária - Algumas propostas de trabalh; Mantas, Vasco GIL: - Libertos e Escravos na Cidade - Luso-Romana de Ammaia; Pereira, Sérgio: Dois Depósitos Monetários encontrados na porta Sul (Ammaia); Civilização Romana - Dicionário Temático Larousse - 1992

*


Deixámos o leitor, no último artigo, com uma pergunta tão ousada que não conseguiremos responder de uma forma simples e segura.
Falta-nos o trabalho e os conhecimentos do arqueólogo. Mas, apesar de tudo, poderemos tecer algumas considerações sobre a possibilidade de as primeiras habitações de Carreiras não passarem de construções circulares de muros de pedra seca e cobertura vegetal (giestas...) em forma de cone.
Não o fazemos levianamente mas com base nas informações de grandes investigadores portugueses.
Com efeito, na obra intitulada "Construções Primitivas em Portugal" da autoria de Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira pode ler-se: "... nos primórdios da civilização humana todas as construções ou formas habitacionais não eram mais do que simples abrigos".
E também, a propósito do tipo de construção a que fizemos referência: "... é muito frequente no Alentejo e encontra-se em várias partes da província".
E ainda: "No Distriro de Portalegre toma particular relevo, além de Alpalhão e Cratyo, por toda a Serra de S. Mamede, no concelho de Marvão, perto de Castelo de Vide e sobretudo na povoação de Cabeçudos".
Segundo a mesma fonte existem também em Castro Verde, Amareleja (Moura), Reguengos, Alandroal, Juromenha, Elvas e Santa Eulália.
Poderão dizer-nos que nada prova que os tais "sochas" (e usamos a maneira de dizer da região), especialmente usadas nos nossos dias para abrigar animais, tenham uma origem tão remota.
E é bom que tal seja notado, porque afinal é necessário compreender o evoluir do homem no tempo.
A propósito de Carreiras e das marcas de civilização Romana deixadas nos seus costumes, fixámo-nos nos primeiros séculos antes e depois da nossa era, achando que o "sítio" deveria já ser povoado.
Acontece que antes dos Romanos outros povos estanciaram na nossa região e nela deixaram vestígios, o que nos leva a crer que a povoação terá uma origem ainda mais antiga.
Um desses vestígios, de que falaremos em devido tempo, é de carácter linguístico e aponta para uma zona celtizada.
E quem foram os celtas?
Falaremos deles na próxima semana.

Veiga de Oliveira, Ernesto - Fernando Galhano e Benjamim Pereira - "Construções Primitivas em Portugal", 2ª edição, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1988


Estes são os primeiros artigos de Maria Guadalupe Alexandre sobre Carreiras, publicados no bissemanário Fonte Nova, números 1497 (20/10/07), 1499 (27/10/07) e 1505 (17/11/07). Segundo a autora afirma, outros se seguirão. Iremos arquivando o material por aqui, na secção "Documentos".

JOVEM PARTE PARA A TROPA NOS AÇORES

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.



CANTIGA

Desde 26 de Março
Que outra nova vou contar.
Quando desse dia me lembro,
Minha vida eu cismar.

Adeus gloriosa cidade.
Quando recebi a novidade,
Ninguém me pôde valer.
Disse adeus à minha querida mãe,
Meu pai e irmãos também,
Nunca me hei-de esquecer.

Em Portalegre embarquei,
Momentos a suspirar.
Em Santa Apolónia cheguei,
Perto das bocas do mar.

Um dia triste e chuvoso,
Estava muito desgostoso
Na gloriosa capital.
Entre lágrimas fui deixar
[.....................................]
Metrópole continental.

Assim que no barco entrei
Cercado de dor e mágoa,
Três dias e três noites andei
Vendo apenas céu e água.

No fim de três dias de viagem
Sem ver terra nem ramagem,
Sem ter grandes dissabores,
Terra ao longe avistei
Onde aí desembarquei
No arquipélago dos Açores.

Despedi-me então do barco
Às portas de São Miguel,
Onde abunda o tabaco
E a batata doce como o mel.

Lá os carneirinhos
Trabalham constantemente.
Fazem as vezes coitadinhos
Dos bois do continente.
Vinte centavos é uma sardinha
Na boca daquela gente.

Vejo-me cercado de mar
Para estas terras guardar
Junto de muitos soldados
Cheios de graça e glória,
Defendendo a memória
Dos nossos antepassados.

Batem-se de tal maneira
Do Nuno Álvares Pereira
Os campos de Aljubarrota,
Que há muitos, muitos anos
Defenderam os castelhanos,
Onde sofreram a derrota.

[......................................]
[......................................]
Começou por D. João,
Bravos heróis que havia
[......................................]
Em tempos que já lá vão.

[......................................]
ANGELINA GLORIOSA

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.


Andorinha gloriosa
Tão formosa c'm' à rosa,
Quando Deus quis nascer
Toda a Terra esclareceu.
Veio o anjo São Gabriel
Procurando p'la pastorinha.
- Pastorinha do bom dia!
Já lá vem Santa Maria
Por aquele perro cão
Rezando uma oração
C' o seu livrinho na mão.
Nem pus a mão na cruz,
Nem disse "Amen Jesus".
Mas anda cá Luís Teixeira,
Que serás meu embaixador.
Vás além àquele castelo,
Qu' hás-de ver um mouro perro.
Procura-lhe se é cristão.
Se ele disser que não,
Pega no teu cutelo,
Espeta-le no coração.
Ó cutelo para estimar,
Tem as relicas do perdão
Com que foi aseteado
O mártir São Sabastião.



MOSTEIRO DA PROVENÇA DE VALE DE FLORES
(Ribeira de Nisa, Portalegre)

Vem de longe a presença de eremitas no território dos concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre. Embora as referências documentais mais antigas remontem ao início do século XIV, a presença deste tipo de religiosos pode recuar pelo menos até à época muçulmana, se nos recordarmos do sítio arqueológico existente no ponto mais alto da serra de São Mamede, onde o achado de uma lápide com caracteres árabes levou alguns investigadores a colocar a forte hipótese de aí ter existido um “ribat“ fundado pelo movimento sufi. “Mamede” pode ser, aliás, uma adaptação portuguesa do nome do profeta do Islão. O santo era ainda um dos mais cultuados entre os moçárabes (cristãos arabizados), no período anterior à reconquista. Outros locais, alguns decerto mais tardios, mostram também vestígios de uma vida eremítica intensa, elevando muitos locais dos concelhos supracitados à categoria de “desertos”, tão propícios a uma entrega religiosa radical. A título de exemplo, citemos apenas São Gens, São Miguel e São Paulo (na serra de Castelo de Vide), São Tomé, São Mamede ou São Domingos dos Fortios (em Portalegre).

O mosteiro da Provença de Vale de Flores, situado no sopé da Serra de Frei Álvaro, na actual freguesia da Ribeira de Nisa (Portalegre) não terá nascido, portanto, como fenómeno isolado no seu contexto geográfico e religioso. Terá nascido antes como fruto do espírito de um lugar que, com as suas matas de carvalhos (ainda hoje densas), seria propício ao isolamento contemplativo. Estava, além disso, suficientemente perto das vias de comunicação para permitir a recolha de recursos, através da esmola dos transeuntes
que circulariam nos caminhos de Marvão e de Castelo de Vide, em cuja proximidade foi edificado.
A Provença tem no entanto uma vantagem sobre todos os outros sítios possivelmente ligados a uma vida religiosa eremítica: enquanto os seus irmãos navegam no território das hipóteses, dada a escassez documental e a inexistência de prospecções arqueológicas, toda a sua vida está razoavelmente documentada.






Não sabemos em que época se instalaram no “Vale de Flores” os primeiros eremitas. Quando em 1375 o rei D. Fernando doou a Fernão d’ Álvares Pereira, irmão do Santo Condestável, o “lugar dos proves” (isto é, “dos pobres”, nome pelo qual eram conhecidos os monges dependentes do mosteiro de São Paulo Eremita, na Serra de Ossa) – como recompensa pelos serviços prestados e a prestar por seu pai, frei Álvaro Gonçalves Pereira, prior da Ordem do Hospital –, já a presença dos religiosos é colocada no passado. Não sabemos que utilização deu Fernão Pereira ao território doado, embora pensemos que se lhe deve a construção da “Torre da Vargem”, ainda hoje existente nas proximidades. Falecido em finais de 1384 num ataque frustrado de seu irmão ao castelo de Vila Viçosa, integrado na crise de 1383-85, “Vale de Flores” passa para as mãos de sua mãe, Iria Gonçalves do Carvalhal.
Matriarca de uma família ligada espiritualmente aos “pobres da Serra de Ossa”, Iria decide devolver o lugar aos monges que aí haviam habitado noutros tempos. Em 1385 resolve doá-lo a João Espartim e a Gonçalo da Beira, “da pobre vida”, para aí construírem um eremitério. Nessa altura, a propriedade dividia pelos muros que fizera “Álvaro da Prata [ou de Prates] da vida pobre”, referência que fornece não só provas de uma utilização monacal anterior (isolada, mas aparentemente sem edifício religioso específico), mas também indícios que permitem explicar o topónimo “Frei Álvaro”.
Esta devolução-doação a dois “pobres” vindos dum eremitério em Cabeço de Vide não foi no entanto pacífica. Em 1397 já o mosteiro estava construído. Nessa data, a pedido dos frades, o rei D. João I necessitou no entanto de confirmar a doação de D. Iria Gonçalves, alvo da oposição dos homens-bons do concelho de Portalegre. Tratava-se, afinal, de uma terra reguenga – e, normalmente, só após conflitos mais ou menos intensos os municípios se resignavam à sua passagem para mãos particulares. Terá sido esse o motivo do primeiro abandono dos frades, anterior a 1375? É provável.
Não sanada a demanda, já no início do século XV a mãe de Nuno Álvares Pereira vê-se obrigada a passar nova carta de doação, dessa vez em benefício de frei Simão, pobre da Serra de Ossa, que em 1412 (?), na igreja da Madalena, a apresenta ao juiz de Portalegre, exigindo a sua execução. Desgostados talvez com este conflito e com a má recepção das autoridades municipais, os monges “da pobre vida” abandonaram o local por volta de 1436. (Nada mais conhecemos da vida do mosteiro durante o meio-século de eremitismo paulista. Sabemos apenas que nele morreu e foi sepultado D. João de Castro, bispo português de Tui, após ter tomado hábito na Serra de Ossa e se ter tornado visitador da ordem em 1376, tendo-lhe doado paramentos e alfaias litúrgicas.)
D. Duarte resolveu então doar “Vale de Flores” à Ordem de São Jerónimo de “Perlonga” (Penha Longa, Sintra) para aí edificar uma nova fundação subordinada à sua regra. Seu filho, D. Afonso V, tentando fixá-los, deu-lhes protecção real e coutou-lhes propriedades nas proximidades do mosteiro e, até, em Castelo de Vide. A atitude do rei não foi no entanto suficiente para conservar os jerónimos durante muito tempo, dado que deixaram a propriedade em 1467. O pai de D. João II ainda devolveu a Provença aos pobres de São Paulo da Serra de Ossa, dando-lhe todos os privilégios atribuídos à casa-mãe, mas ainda nesse ano foi restituída pelos frades ao monarca, invocando diversas dificuldades (talvez ligadas à difícil convivência com as autoridades locais).
Em 1500 o mosteiro de Vale de Flores estava despovoado, na posse de um caseiro do convento de São Francisco de Portalegre. Um acordo entre os frades menores e os da pobre vida levou à restituição da propriedade aos paulistas que, segundo tudo indica, não a terão voltado a habitar. É nessa época que entra na história da Provença o bispo da Guarda, D. Jorge de Melo. Segundo conta o Tratado da Cidade de Portalegre (1619), querendo edificar nessa região um convento de freiras cistercienses, terá pensado em construí-lo nesse local. De acordo com as informações recolhidas pelo padre Diogo Pereira Sotto Maior, adquiriu a propriedade, que “pertencia à igreja”, a quem a possuía (os frades da Serra de Ossa). Apesar de entretanto ter decidido levantar o mosteiro de Nossa Senhora da Conceição no sítio da Fontedeira, em Portalegre, fez na “província de Sam Brás”, “quinta sua”, “grandes edifícios” e uma “igreja de novo”. Os imóveis estavam contudo “quasi arruinad[os]” na segunda década do século XVII (cf. Sotto Maior, 1984: 111-112).
A igreja assim permaneceu até aos nossos dias, bem como parte da cerca monástica. A casa de habitação e arrumos anexos mantiveram-se de pé e foram sendo utilizados pelos rendeiros dos sucessivos proprietários. Recentemente, a propriedade foi adquirida pelo engenheiro João Guerra Pinto, que a restaurou e ampliou (com grande respeito pelo património aí remanescente), tranformando-a numa unidade de turismo rural.

"Provença” significava, no vocabulário dos Pobres de São Paulo da Serra de Ossa, “eremitério” ou “mosteiro”. A Provença de Vale de Flores (topónimo muito belo que, infelizmente, se perdeu em parte) é constituída por um conjunto de edifícios que rodeiam um pátio rectangular onde se observam vários afloramento graníticos. A entrada faz-se a poente, pelo arco da cerca, que ocupa o extremo dum alto muro de alvenaria sem reboco. À esquerda, há vestígios dum estreito corredor, ao fundo do qual, a nascente, se ergue a entrada do que sobra da igreja – constituída por nave, capela-mor e sacristia (tendo o corpo aproximadamente o dobro do comprimento da ousia quadrangular). À esquerda do templo, segundo uma tradição veiculada pelos antigos rendeiros da quinta, situar-se-ia o cemitério dos monges. Não sabemos onde se elevariam a habitação dos frades e as restantes dependências necessárias à vida comunitária; suspeitamos porém que ocupariam o terreno onde mais tarde foi edificado o solar do bispo D. Jorge de Melo.
As ruínas e edifícios aí existentes permitem-nos reconhecer várias fases de ocupação do lugar. Apesar de, junto ao pórtico da igreja, existir uma inscrição (funerária?) romana, não é possível recuar no entanto para além da Baixa Idade Média (a lápide terá vindo, como muitas outras, da cidade de Ammaia, existente a poucos quilómetros).
Não existem quaisquer vestígios físicos da presença dos eremitas “da pobre vida” anterior a 1375, embora esteja documentada. Se algo existe dos muros construídos nessa época por frei Álvaro da Prata ou de Prates (delimitadores da propriedade ou do espaço de reclusão monástica, como ainda hoje se verifica no mosteiro “velho” da Arrábida, em Setúbal), só os arqueólogos o poderão descobrir.
Do mesmo modo, nada se pode achar da utilização da Provença pelo irmão de Nun’ Álvares, Fernão Pereira, entre 1375 e 1384-85. Segundo pensamos, a residência do filho de Iria Gonçalves do Carvalhal situar-se-ia nos limites da propriedade, junto da ribeira e do caminho de Castelo de Vide, no edifício com traços senhoriais hoje denominado “Torre Alta”, já na freguesia de Carreiras.
À segunda ocupação dos monges “da pobre vida” (1385-1436) se deverá, pelo contrário, a construção do pórtico axial da igreja, cuja cronologia (primeira metade do século XV) parece coincidir com a da sua presença, iniciada por frei João Espartim e frei Gonçalo da Beira. Estamos perante uma interpretação popular dos modelos góticos da época, nascida das mãos de um artífice regional, com enormes afinidades com alguns portais do bairro gótico de Castelo de Vide. Trata-se de uma peça de pequenas dimensões, a que falta uma das ombreiras chanfradas. É constituída por um arco quebrado de cantaria, emoldurado por toros finos e boleados; assenta sobre duas impostas decoradas por aquilo que parece ser um pequeno rosto humano, de que nascem ramagens estilizadas. (Existe ainda na quinta uma laje granítica com a forma de um hexágono irregular que, segundo a tradição, terá sido o primitivo altar da igreja; a ser assim, pertencerá talvez a esta época).
O arco da capela-mor – quebrado, com esquinas cortadas, assente sobre impostas pouco pronunciadas, quase sem decoração, que coroam pilares também chanfrados –, sendo mais tardio, deverá ter nascido já da presença dos frades jerónimos (1436-1467). À esquerda do portal da cerca, há ainda restos de um brasão ou monograma, em mármore branco, cuja coroa revela feições que apontam também para essa época.
O regresso do mosteiro à posse dos eremitas da Serra de Ossa, ocorrido em 1467 (e que se prolongaria até ao século XVI), não deixou quaisquer marcos patrimoniais, dado que nunca terão voltado a habitá-lo. Terá havido um abandono acentuado, que levou o proprietário seguinte a ter de promover obras profundas.
A maior parte das construções habitacionais – sobretudo aquelas que deram origem ao actual estabelecimento hoteleiro – são devidas à acção construtora do bispo D. Jorge de Melo, que terá comprado a propriedade na época em que se iniciou a edificação do mosteiro cisterciense de Portalegre, por ele promovida a partir de 1518. Assim o mostram as portas e janelas em granito dessa época, cuja verga recta se apresenta ou chanfrada ou com decoração geométrica muito simples. A sua intervenção na igreja não deverá ter sido, contudo, tão intensa quanto Diogo Pereira Sotto Maior faz crer no seu Tratado. Não se terá construído um templo novo, mas apenas remodelado o existente, elevando-se talvez a altura do espaço destinado ao celebrante e dotando-o de abóbada nervurada em tijolo (de que ainda restam vestígios), assente sobre mísulas graníticas sem decoração. A intervenção episcopal terá também modificado a entrada da cerca, substituída por um arco abatido, que ainda se pode observar, ladeado pelo brasão dos Melos em mármore (de que sobram fragmentos).
Com a morte de D. Jorge, a igreja terá sido progressivamente abandonada, estando quase arruinada nas primeiras décadas do século XVII. Nessa altura terá sido levada para o templo paroquial de Nossa Senhora da Esperança, na Ribeira de Nisa, a imagem do padroeiro – o bispo São Brás, segundo afirma Sotto Maior – que, tanto quanto sabemos, ainda aí se encontra, embora anónima. As casas de habitação e os arrumos devem ter continuado a servir.
Já do século XVIII será o tanque-fontanário, ladeado por dois poiais, existente nos arredores do solar. Dessa época serão ainda os vestígios de um forno de cozer pão, situados entre a fachada principal das ruínas da igreja e o muro da cerca monacal.Já no início do século XXI, como se afirmou anteriormente, a quinta foi adaptada a funções hoteleiras. Acrescentou-se uma nova ala a nascente, restauraram-se os edifícios habitacionais (onde foi descoberto um silo talvez medieval) e respeitaram-se, valorizando-as esteticamente, as ruínas vindas do passado.
CANÇÃO DO PALÁCIO DA AJUDA


Versão de Portalegre/Arronches, recitada por Jacinta Garção Cleto, nascida em 1910. Recolhida e transcrita por Nicolau Saião cerca de 1976.


Belo Palácio da Ajuda
palácio de grande altura
casa cheia tem fartura
não sou só eu que o digo
corre a galinha ao trigo
e a fama é dos pardais
albardas sem atafais
e selas sem terem estribos
na praça se vendem figos
p’ra contentar os rapazes
no mar andam alcatrazes
também lá andam gaivotas
menina das pernas tortas
todos lhe chamam canejos
vão-se as sezões com os desejos
e as feridas com unguento
mói o moinho de vento
e tece a teia a aranha
esta cantiga é tamanha
não tem princípio nem fim
um raminho de alecrim
que se dá aos namorados
as armas são pr’ós soldados
também são pr’ós caçadores
triste de quem tem amores
bem ligeiro tem de andar
a gaita é para tocar
o pente é para a cabeça
menina não endoideça
que se pode dar por feliz
tem um tamanho nariz
que lhe chega até ao seio
que tem mais de palmo e meio
criado com tanto vigor
que muita gente lho tem gabado
pr’á bigorna dum ferrador.

IGREJA E CONVENTO DE SANTA CLARA
(Portalegre)


Segundo rezam as crónicas dos franciscanos portugueses, o mosteiro de Santa Clara de Portalegre foi fundado na segunda metade do século XIV por Maria Fernandes e Elvira Anes, senhoras que em casa particular "se occupavam em devotos e espirituaes exercicios, pelos quaes conseguirão de Deos a santa inspiração, que as moveo a tão boa obra".
Socorrendo-se do auxílio do rei D. Fernando, conseguiram para assento da casa conventual a doação em 1370 dos paços reais e de uns banhos anexos. Foi-lhes dada ainda autorização para "tomarem todas as casas contiguas ao mesmo Palacio, e que se pudesse tapar as serventias das ruas, que lhes fossem precisas para a fundação". Alvo de contestação na então vila, o alvará que isto determinava foi confirmado pelo rei "Formoso" em 21 de Março de 1377, pela rainha regente D. Leonor Teles de Meneses em 1383 e por D. João I em 12 de Fevereiro de 1433.
Construída a habitação monástica, a igreja foi dedicada em 1389 por Francisco, Bispo da ordem franciscana, o qual consagrou o altar mor do templo a Santa Clara e a Santa Bárbara. Eram padroeiros da igreja os reis de Portugal.
O convento de Portalegre pertenceu até 1534 aos Padres Claustrais, data em que passou para os Observantes. Em 1537 voltou à primeira obediência, assim se conservando cinco anos - até 1542, ano em que D. João III conseguiu do papa Paulo III a reforma dos Claustrais, passando definitivamente para a jurisdição dos religiosos observantes da Província dos Algarves da Ordem de São Francisco.
Visitado por Filipe II de Espanha quando se deslocou ao nosso país, um breve de Paulo V datado de 1615 e aplicado em 1620 fixou em sessenta o número de freiras do mosteiro.
O edifício recebeu várias alterações e acrescentos nos séculos que seguiram a construção, embora as de maior vulto se devam ao século XVI e a finais de setecentos (1797), altura em que a abadessa Rosa Joana de São Francisco de Assis deu ao interior da igreja a feição rococó que ainda hoje apresenta.
Extintas as ordens religiosas a partir de 1834, por morte da última abadessa foi transformado em recolhimento de senhoras pobres. Nos primeiros quartéis do século XX foi ocupado por instituições de assistência social. Depois de 1974 serviu de abrigo a várias instituições culturais de Portalegre. Restaurado, o convento de Santa Clara abriu em 1999 como Biblioteca Municipal do concelho.

*

Recuperado para as funções culturais que desempenha neste momento, o espaço conventual reflecte as múltiplas vicissitudes a que esteve sujeito na sua arquitectura ao longo dos vários séculos da sua história.
Da construção original, erguida nos primeiros anos da dinastia de Avis, podemos ainda observar dois tramos térreos do claustro: "doze arcos quebrados assentes em duplas colunas com capitéis geminados, de feitura muito simples e sem ornamentos; estão dispostos em séries de quatro, ritmados por panos lisos de parede" (Rodrigues & Pereira, 1988: 21 - 24).
Ao século XVI pertencem as restantes partes do claustro. No piso térreo vemos dois tramos "um tanto incaracterísticos, num 'estilo chão' de arcaria ampla de volta inteira", atribuídos aos anos 60 ou 70 de quinhentos (Rodrigues & Pereira, 1988: 21 - 24). Da mesma época são as arcadas do primeiro piso, com colunas de mármore com capitéis muito simples e arcos de volta perfeita em alvenaria. A este século pertencem ainda a portaria do mosteiro voltada à Rua de Santa Clara (com decoração renascentista), a cabeceira da igreja (com cachorrada, janelas de quarto de círculo e esgrafitos) e a fonte de mergulho virada à Rua de Elvas (com arcos geminados separados por um mainel, obra do início da centúria). Desta época é ainda a torre sineira, que funcionava também como mirante, possuindo janelões com adufas, num tom arabizante, e lanternim fenestrado.
Ao século XVIII correspondem várias construções e acrescentos. São de destacar uma fonte em mármore (de secção triangular, situada no centro do claustro), uma capela mandada construir em 1749 por Soror Inês de Santa Clara (no piso térreo do mesmo, ainda com vestígios de decoração mural) e a igreja.
O templo conventual apresenta, como dissemos, a aparência que lhe foi dada em 1797. Abandonado e coberto pela fuligem que ficou de um incêndio ocorrido em 1995, foi restaurado recentemente pelo Estado – para ser de novo ocultado pelas actividades de um grupo de teatro portalegrense, ao qual o templo foi cedido pela Câmara Municipal.
Possui duas entradas laterais: uma virada à habitação monástica; outra virada ao exterior, embora recolhida dentro de um pátio com entrada pela Rua de Santa Clara. Artisticamente cuidada, esta apresenta um portal em mármore no estilo comum do século XVIII, sobrepujado por um janelão com moldura em alvenaria. Decoração em massa reveste também o interior da igreja. Nela merecem relevo o retábulo do altar mor, em talha rococó polícroma - com trono ladeado por dois pares de colunas e frontão interrompido -, e dois púlpitos em alvenaria num estilo semelhante, com elegantes dosséis em madeira entalhada. Ao fundo deste espaço destacam-se as aberturas gradeadas correspondentes ao coro de cima e ao coro de baixo. Em dependências anexas podemos observar alguns azulejos de tapete, do século XVII, e fragmentos de uma pintura mural representando dois santos franciscanos.
O estado de conservação do convento é muito bom. Falta apenas uma utilização digna da arte e do espírito da igreja. O que sobrou do rico recheio do Convento de Santa Clara de Portalegre pode ser visitado no Museu Municipal da cidade, embora a identificação das peças seja nula.
SENHORA DA PIEDADE

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.


Ó avé Maria, Mãe da Piedade,
Pedi ao Senhor pela Cristandade.
Pela Cristandade não le sei pedir,
Não sou m'recedora do Senhor m' ouvir.
Do Senhor m' ouvir estas minhas palavras,
Minha alma s' alegra em ver que nos salvas.
Salvador do mundo, que a todos salvais,
Salvai as nossas almas, bendito sejais.
Bendito sejais, bendito São José,
Fugiu c' o Menino lá p'rà Nazaré.
Se eu fosse com ele na sua companhia,
Seria devota da Virgem Maria.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu 'stá c'roada,
Por cima do manto uma c'roa sagrada.
Uma c'roa sagrada de bom coração.
Não nos deixem morrer sem a confissão.
Sem a confissão não havemos de morrer,
Qu' a Virgem Maria nos há-de valer.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu está c'roada
Rainha dos anjos, Mãe de Deus amada.
De passo em passo, de rua em rua,
Se foi sepultar sem culpa nenhuma.
SONHO DE NOSSA SENHORA

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.


Quando entro na igreja digo esta oração:

Oração de Santa Palma,
Deus me leve corpo e alma.
Entrei pela igreja adentro, [......................................]
estava a Virgem Sagrada vestida d' ouro fino
[......................................] procurando pelo seu Menino,
[......................................] se dormia, se velava.
[......................................] [........................................]
"Meu filho, não durmo nem velo.
Sonhei um sonho que não devia ter sonhado.
[.......................................] 'tavas morto e crucificado."
"Senhora Mãe assim será, Senhora Mãe assim seria."
Quem esta oração disser um ano, dia a dia,
Achará as portas do Céu abertas e a do Inferno nunc' às veria.


IGREJA DE SÃO JOÃO BAPTISTA
(Alegrete)


 
Sendo por agora impossível encontrar uma data precisa para a primeira edificação da igreja de São João Baptista, matriz da vila de Alegrete, parece-nos segura a hipótese da sua origem remontar ao século XIII, uma vez que nesta centúria foi sede de uma das primeiras comendas templárias no Alto Alentejo (cf. Rosa, 2001: 60)
Construída no interior do espaço fortificado, mesmo à porta principal das muralhas e com entrada por um pequeno adro, o templo que actualmente podemos encontrar é, no entanto, fruto de uma reconstrução ocorrida no século XVI, correspondendo em grande parte a uma interpretação popular dos cânones do chamado "Estilo Chão", expressão dominante do decoro e da austeridade propostos pela Contra-Reforma tridentina. Alguns elementos arquitectónicos e decorativos correspondem, porém, já ao século XVIII.
Da construção medieval pouco ou nada resta, embora seja muito provável que o construtor quinhentista tenha mantido o espírito da planta gótica. Supomos assim (mas sem base documental) que o templo original teria também três naves, com igual número de capelas. Não será difícil pensá-lo, tendo em conta que este modelo foi glosado até à exaustão por todo o país, com exemplos na nossa região (a igreja de Santa Maria de Marvão, vg.). Procedentes da igreja primitiva deverão ser duas das imagens expostas ao culto, ambas em mármore policromado: São Sebastião, do século XV, e Santo António, de inícios de quinhentos (cf. Keil, 1943: 150).
A fachada actual da igreja, virada a nascente, é bastante simples. Alongada, é composta por três corpos, separados por pilastras, correspondentes a igual número de naves no interior; no centro rasgam-se a porta de entrada e uma janela de iluminação. A sul possui uma torre sineira com quatro olhais, rematada por uma pirâmide pentagonal e decorada por quatro pináculos em alvenaria, decoração empregue igualmente na ornamentação do corpo mais a norte.
O interior é, como se disse, é composto por três naves (a que corresponde igual número de capelas fundeiras, intercomunicantes). Os arcos de volta inteira que as dividem assentam sobre colunas toscanas de granito.
A decoração interior da igreja corresponde a alterações ocorridas durante o século XVIII.
A capela-mor, com tecto apainelado quinhentista, possui um retábulo rococó com estrutura muito semelhante à de outros de execução popular existentes na região: trono central (neste caso resumido apenas à abertura) e sacrário, ladeados por dois pares de colunas marmoreadas e por duas peanhas, encimado por um frontão (aqui contracurvado). Nele são veneradas imagens de São João Baptista (uma boa peça do século XVI, com ligações à arte flamenga), de Cristo Crucificado e do Menino Jesus, do tipo "Salvador do Mundo".



Os retábulos das capelas colaterais seguem o mesmo figurino, embora com menor qualidade artística. Possuem camarins envidraçados que resguardam as imagens dos respectivos titulares: do lado do Evangelho o Senhor dos Passos (outrora da Visitação, pertencente à Misericórdia de Alegrete) e, do lado da Epístola, Nossa Senhora da Alegria (antigamente "do Rosário") - ambas de roca. Também a norte existem mais três pequenos altares. O primeiro, dedicado a São Miguel, possui uma pintura sobre tela, com interesse meramente iconográfico, representando a salvação das almas do Purgatório. O segundo, em tosca alvenaria, era dedicado no século XVIII a Santo António, sendo actualmente da Senhora de Fátima. Do terceiro é titular Nossa Senhora do Socorro, representada através de uma escultura maneirista estofada e policromada, dotada de uma intensa expressividade.
Sem coro, esta igreja paroquial de Alegrete possui ainda o seu baptistério, situado no piso térreo da torre sineira, embora actualmente (seguindo os ditames do Concílio Vaticano II) a pia baptismal em granito se encontre à direita da capela mor. O púlpito, ainda observado por Luís Keil no seu lugar ("à esquerda, [...] encostado à primeira coluna junto à capela-mor" (Keil, 1943: 150)), já não existe. De entre os elementos arquitectónicos deste templo merecem ainda referência duas pias de água-benta em mármore, assentes sobre finos colunelos - obras delicadas do século XVI.Para além de tudo isto, o recheio deste edifício compõe-se também de outras peças interessantes e valiosas, nomeadamente alguma ourivesaria (do século XV a setecentos), banquetas barrocas de estanho e várias esculturas em madeira e em pedra, provenientes de igrejas de Alegrete hoje sem culto, em ruínas ou desaparecidas

IGREJA DE SÃO TOMÉ
(Monte da Penha - Portalegre)


São escassas as informações que possuímos sobre a igreja de São Tomé, edificada defronte da cidade de Portalegre, entre os penhascos mais altos do monte da Penha. Neste vazio quase pleno, emergem apenas parcos vestígios e indícios documentais, acompanhados pelas ruínas do templo, ainda hoje observáveis a poucos metros da cruz ali levantada no início do século XX.
Sobre a fundação deste pequeno edifício nada sabemos. Supomos apenas que será anterior ao século XVII. Datando da primeira metade dessa centúria a igreja de Nossa Senhora da Penha, de muito maiores dimensões, parece-nos provável que nessa altura já existisse São Tomé. Só uma maior antiguidade na construção nos leva a compreender que o topónimo pleno com que se designava até há pouco mais de um século o monte onde se ergue ("Penha de São Tomé") faça referência ao apóstolo e não à Virgem, alvo de muito maior devoção local.
Abandonada em data que não conseguimos precisar, posteriormente arruinada, estava ainda ao culto em 1758. Pelas estruturas que se podem observar (a necessitarem de escavação arqueológica e de valorização), tratava-se de um edifício de dimensões muito reduzidas, com três compartimentos. Facilmente identificável, a capela-mor virada a nascente é de planta quadrangular, nela se distinguindo vestígios do arranque de uma abóbada; tratar-se-ia, possivelmente, de uma estrutura em cuba, de inspiração islâmica, com cúpula hemisférica assente sobre pendentes. Para além dela, são ainda visíveis dois outros volumes: uma pequena nave a poente (com entrada lateral virada a sul, guarnecida de cantaria hoje desaparecida) e uma minúscula sacristia.
Há uma tradição antiga que aponta para esta pequena igreja a função de ermitério. É hipótese que não podemos confirmar. Devemos no entanto registar as palavras escritas pelo pároco da Sé em meados do século XVIII:
"[...] desta Ermida [da Senhora da Penha] quazi ao meyo da Penha está outra do Apostollo são Thomé de cuja Ermida não sabemos Padroeyro, nem fundação he muyto acomodada para a vida Ermitica, e nos persuadimos que esta foy a Ermida na qual viveo penitente o veneravel Padre Manoel do Rego oriundo de Portalegre posto que nascido em Alter do chão, e não na Igreja de nossa senhora da Esperança do termo desta cidade como dis o Padre Frey Agostinho de sancta Maria no seu sanctuario Marianno [...]" (Boroa, 1758: 121).
CONDE CLAROS VESTIDO DE FRADE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Antunes, de 79 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


"Minha mãe fiz uma aposta, ou de perder ou de ganhar,
De dormir com a Marianinha antes do galo cantar."
"Não apostes, ó meu filho, nem tu queiras apostar.
Marianinha é muito fina, não se deixa enganar."
"Engano-a sim, minha mãe, que ela é boa de enganar.
Em ouvindo uma chalaça, põe-se logo a arreganhar."
José se vestiu de padre pela rua a passear.
Marianinha à janela, é caso de admirar.
"Uma senhora tão nobre a esta hora a passear?
Vou-me embora, Marianinha, já não posso mais esperar."
"Aguarde, senhor, aguarde, queira o senhor aguardar.
Se tarde se lhe fizer, no meu quarto há-de ficar."

melodia

na

Sé de Portalegre

aqui
O FALSO CEGO

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro Os Transmontano no Alentejo (Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1998), pp. 65 e 66. Transcrição de Ruy Ventura.


Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
"Abram-me essa porta, também o postigo,
Emprestem-me um lenço que já venho ferido."
"Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
Que a minha portinha não se abre agora."
"Levante-se minha mãe da cama a dormir,
Venha ver o cego que está a pedir."
"Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho."
"Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho."
"Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
Ensinar o cego além para a estrada."
"Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
Que eu não sou o cego, sou seu namorado."

A IGREJA DE SANTA MARIA A GRANDE (Portalegre)
Nos primeiros anos do século XIV (quando o bispo da Guarda visitou as paróquias de Portalegre) é provável que a igreja de Santa Maria a Grande não fosse já um edifício recente. Doada em 1299 por D. Dinis aos Templários, é possível que existisse pelo menos em meados do século XIII, sendo - com Santa Maria Madalena - um dos edifícios mais antigos da vila que, nessa altura, se autonomizou do concelho de Marvão, criado em 1226. Em 1321 era um dos seus templos mais importantes, taxado com 150 libras, quantia só ultrapassada por Santa Maria do Castelo, com mais 10 libras.
Não se conhece, por agora, qualquer documento medieval que nos dê indicações precisas sobre a arquitectura desta igreja nessa época. Acreditamos, no entanto, que não terá sofrido alterações substanciais até inícios do século XVI, o que nos permite afirmar que a descrição que chegou aos nossos dias, datada de 1509, deverá corresponder em traços gerais à estrutura de Santa Maria a Grande na Idade Média, embora tenha sofrido, como é normal, alterações na decoração, sobretudo no interior.
Os documentos emanados da visitação efectuada em 19 e 20 de Dezembro de 1509 pela Ordem de Cristo a este templo portalegrense e à sua comenda são, a vários títulos, valiosos. Para a História da Arte é sobretudo preciosa a descrição da igreja que os olhos de frei Diogo do Rego (visitador) e as palavras de frei Francisco (escrivão) nos ofereceram, tantos os pormenores que nos permitem a construção de uma imagem concreta de Santa Maria a Grande.
O edifício era substancialmente diferente da estrutura que hoje podemos ainda observar no lado sul do largo de Santo Agostinho (o que sobrou da igreja reconstruída na segunda metade do século XVIII, profanada após a extinção das ordens religiosas).
A fachada da igreja de Santa Maria a Grande estava virada a poente, tendo na parte cimeira um campanário com dois sinos e uma campainha. Integralmente rebocada e caiada, possuía sobre a porta principal um alpendre ou galilé.
O interior era de uma só nave, tendo as paredes laterais "guarneçidas e pinçelladas", com abundante decoração em pintura mural, representando "muitas Jmageens". Sobre a entrada, sustentado por um "arco grande De pedraria", erguia-se o coro "com seu peitoril laurado De maçonaria", sob o qual se situava a pia baptismal.
A capela-mor estava virada a nascente e certamente quase encostada às muralhas. Era "oitauada", "grande e larga", tendo as paredes rebocadas e pintadas por dentro e por fora. No interior possuía um altar "moçiço com quatro de graaos de pedraria" e, sobre ele, um retábulo "nouo" (provavelmente constituído por várias pinturas), com seu guarda-pó de maçonaria "pintado com Jmagens", tendo ao centro a imagem de Santa Maria: "de vulto grande & fermosa [...] com o filho no collo". À altura da visitação a igreja não possuía ainda sacrário, pelo que são dadas ordens ao comendador e beneficiados (a quem cabia a manutenção da ousia) para que aí pusessem um "boom sacrario junto Do altar moor".
A entrada neste espaço fazia-se por um "arco grande e bem obrado", o qual tinha na parte cimeira uma pintura mural com a representação de Cristo crucificado, ladeado por Nossa Senhora e São João Evangelista. Possuía ainda dois altares colaterais "nos cantos Do Dicto arco", dedicados a São Miguel e a Nossa Senhora da Conceição, sem qualquer escultura, mas com imagens "pintadas na parede". Tudo coberto por um "guardapoo de castanho".
Junto do presbitério, à direita, situava-se a sacristia.


Atendendo ao pedido de D. João III, em 21 de Agosto de 1549 foi criada a diocese de Portalegre. Sendo necessário escolher uma catedral, foi seleccionada a igreja de Sta. Maria do Castelo, em cuja proximidade foi elevada a nova sé. Tendo em vista o engrandecimento da sua freguesia, são-lhe anexadas em 1552 as paróquias de S. Vicente e de Sta. Maria a Grande. São Vicente foi demolida pouco tempo depois. Santa Maria passou a funcionar como sede do Cabido a partir de 1556.
A extinção desta freguesia não foi bem recebida pelos seus habitantes, embora a actividade paroquial só tenha cessado em 1585.Poucos anos depois, em 18 de Fevereiro de 1605, D. Diogo Correia e o Cabido decidem doar Sta. Maria a Grande à Companhia de Jesus, tendo em vista o estabelecimento de um colégio dedicado ao ensino. Aí permaneceram até 1673, ano em que vão fundar o novo edifício junto da ermida de São Sebastião, que lhes fora doada em 1635.Em 1 de Fevereiro de 1673, o regente D. Pedro, com autorização de D. Ricardo Russel e da Câmara da cidade, doa a igreja aos Ermitas Agostinhos Descalços para aí fundarem o seu convento. Dois anos depois os religiosos quiseram sair da cidade e erigir a sua casa junto da ermida da Senhora da Penha. Chegaram a construir aí alguns edifícios, mas a sua decisão foi contrariada pelas autoridades eclesiásticas e da cidade.
O edifício ocupado pelos jesuítas não era suficiente para as necessidades dos agostinhos. No que resta do seu cartório, regista-se assim, entre 1674 e 1737, a compra de várias casas de habitação, situadas na rua do Lobato e na de Santa Clara - decerto com o objectivo de, no seu lugar, se edificar uma nova construção. Respondendo a uma solicitação da ordem, D. João V chega mesmo a doar-lhe em 1717 uma parte da muralha, entre a porta de Alegrete e o postigo de Santa Clara, para no seu lugar ser construído o dormitório.
Pela leitura dos documentos, não consta que a igreja de Santa Maria a Grande tenha sofrido alterações arquitectónicas de monta até meados de setecentos. De facto, só em 1758 parece ter-se iniciado a edificação da nova igreja, a partir da estrutura medieval (conforme indica um trecho da "Memória Paroquial" da Sé (cf. Boroa, 1758 in Ventura, 1995: 120)), uma vez que no ano anterior ela ainda não existia.Terminada a obra, foram grandes as modificações. A capela-mor, com trono, ficou no lugar da anterior porta principal. A entrada do templo ficou lateral, dotada de um pórtico em mármore com moldura barroca, encimado por um janelão, que ainda existe. A portaria do convento, com arco abatido, passou para o lugar da antiga capela-mor. No interior, "os retábulos dos três altares [passaram a ser] de preciosos mármores com excelentes esculturas" (Tavares, [1934]: 918). Foi ainda construída uma torre sineira a poente, que nunca foi acabada, pois só há poucos anos foi rebocada e caiada.


Pórtico setecentista da igreja de Santa Maria a Grande (desenho conservado no Arquivo Distrital de Portalegre)
Infelizmente, grande parte desta riqueza desapareceu depois da extinção das ordens religiosas, em 1834. Expulsos os frades, no convento foram instalados vários serviços públicos, estando ocupado pela GNR desde 1911. Os retábulos da igreja foram vendidos, o seu recheio dispersou-se, a porta principal desapareceu e, ao seu lado, foi aberta uma nova entrada. O templo foi dividido em dois pisos, estando o rés-do-chão hoje ocupado pela oficina dos veículos da Guarda. Manteve-se até aos nossos dias apenas a estrutura, bem visível a sul do largo de Santo Agostinho, dentro da qual subsiste ainda o arco de mármore que dava entrada à capela-mor. Esperemos que no futuro o seu proprietário (a Câmara Municipal) lhe reserve melhores dias.
O SOLDADINHO

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001. Publicada no suplemento cultural Fanal, do jornal O Distrito de Portalegre, nº 17, a 26.10.2001.


SOLDADINHO NOVO

"Adeus soldadinho novo que tão triste andas na guerra.
Ou te lembra pai ou mãe ou alguém da tua terra."
"Não me lembra pai nem mãe, nem ninguém da minha terra,
Só me lembra a minha amada, que era uma linda donzela."
"Toma lá este cavalo, vai a tua amada ver,
Mas no fim de sete meses há-des mo cá vir trazer."
Soldadinho, de contente, no cavalo s' amontou.
Chegando lá muito adiente, o Diabo o incuntrou.
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem."
(Não é assim.)
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem,
Aqui tens a tua amada, que t' amou com grande bem."
(Enganei-me.)
"Onde vás ó soldadinho, por que vás todo a termer?"
"Deixa-me lá ó diabo, vou a minha amada ver."
"Tua amada já é morta. Já é morta, bem na vi."
"Dá-me os sinais que levava, que me quero fiar em ti."
"Levava vestido d' ouro, camisa de carmesim.
Os padres qu' àcompanhavam não tinham conto nem fim.
Forem a abrir a cova cá no centro do jardim,
A enxada era de prata, o cabo de marafim."
"Mas seja o que Deus quiser, eu p'ra diente sempre vou."
A meio da sua jornada, um nuvraceiro s' armou.
"Não t' espantes cavalo branco, cavalheiro que nele vem.
Aqui tens a tua amada que t' amou com grande bem."
"Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim?"
"Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi."
"Se és a minha amada, beija-me agora aqui."
"Os lábios com qu' eu te beijava, já a cor deles perdi.
Vai-t' imbora, vai-t' imbora, vai-t' imbora amor eterno.
Já sinto por mim puxar lá das cordas do Inferno."
"Eu hei-d' ir àquele outêro, eu àquele outêro hei-d' ir.
Tanta vez t' hê-de bradar, até que m' há-des acudir."

(Aprendi, mas não era assim. E aqui está. Mas isto não aconteceu. O capitão não dava o cavalo ao soldado.)

IGREJA DE SANTA MARIA MADALENA
(Portalegre)



Segundo uma velha tradição, a igreja de Santa Maria Madalena foi sede da mais antiga paróquia de Portalegre. Situada no actual largo Serpa Pinto (antigo largo da Madalena, próximo do castelo), já existia em 1259, ano em que o rei D. Afonso III terá dado foral a Portus Alacer.
Nesse mesmo ano o monarca bolonhês fez doação do Padroado da Madalena ao mosteiro de São Jorge de Coimbra, pertencente aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, como agradecimento pelo nascimento de sua filha D. Branca, garantindo-lhe assim a protecção divina. Em 1541 passou para a posse do mosteiro de Santa Cruz, da mesma ordem, transitando, em 1564, para as mãos da Companhia de Jesus, ficando ligado ao Colégio do Espírito Santo, de Évora, que possuía assim o direito de apresentar o prior desta igreja portalegrense. Com a expulsão dos Jesuítas em 1759 o padroado de Santa Maria Madalena regressou à Coroa - até 1774, ano em que D. José faz doação do mesmo à Universidade de Coimbra, que dele toma posse em 1788.
A freguesia, pela escassez de paroquianos, foi extinta em 1834, integrando-se na Sé cinco anos depois. Em 1858 tomou posse da igreja a Câmara Municipal de Portalegre que, por Carta de Lei de 14 de Agosto do mesmo ano, procedeu à sua demolição para, em seu lugar, ser construído um chafariz.
Desaparecida no terceiro quartel do século XIX, a igreja de Santa Maria Madalena - segundo nos indicam os documentos escritos - tratava-se de uma obra erguida no espírito da arte barroca, com planta centralizada. Assim é descrita em 1758 pelo seu prior, Manuel Jerónimo de Velez (Vellez, 1758 in Ventura, 1995: 132):
"[...] consta de tres altares, que he o mór, em o qual da parte do Evangelho está Santa Maria Magdalena, e da parte da Epistola o Appostolo São Pedro; Os outros dous altares estão no [c]orpo da Igreja, hum da parte do Evangelho, em que está [co]llocada huma Imagem de IESVS Christo assentado [e]m huma pianha e encostando a face sobre sua mão [di]reita com o titulo, ou invocação de Senhor da Paciencia, o outro da parte da Epistola em que está collo[ca]da huma Imagem de Nossa Senhora com a invocação [de] Senhora dos Prazeres, digo dos Prazeres; e na [b]anquetta deste altar da parte do Evangelho está // [...] huma Imagem de São Francisco, e da parte da Epistola outra de Santo Antonio.
Não tem esta Igreja naves, he toda de abobe[da] a sua architectura he destas Outavadas, e mode[r]nas, a que chamão à romana [...]."
Esta descrição vai ao encontro de algumas das palavras de F. A. Rodrigues de Gusmão, publicadas cem anos depois (Gusmão, 1858: 7 - 8):
"Tantas foram as alternativas, porque passou, no correr dos annos, o Padroado da Magdalena, quantas as mudanças, que soffreu, em diversas epochas, o seu templo.
Não podemos determinar a da primeira reedificação, em que se transferiu o altar mór do poente para o nascente, e depois para o norte, e para o sul a porta principal. A ultima operou-se, com toda a certeza, em 1732. Ficou, então, octogono o templo, e foi todo construido de abobeda, em tres altares, o mór com um formoso retabulo, e os dous lateraes de simples, mas elegante fabrica.
Tinha torre, côro, duas sachristias, e duas portas. // Sobre a principal estava um quadro, que representava, em azulejo, o Orago.
"
Segundo Maria Tavares Transmontano, depois da demolição os dois sinos da Madalena foram levados para igrejas de Carreiras e da Ribeira de Nisa (cf. Transmontano, 1997: 64). A imagem da padroeira, barroca, é hoje venerada na Sé de Portalegre (ver foto).
Sapiência
[Portalegre]

do coordenador deste blogue

(Na imagem: "Claustro de Santa Clara", aguarela de João Tavares.)
DONZELA GUERREIRA

Versão de Fortios, Portalegre. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA

"Deitei sortes à ventura para ver o qual se havia de matar,
Logo foi cair a sorte no capitão-general."
"Não te mates, ó meu pai, não te mates meu pai, não, não.
Dai-me espadas e cavalos que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo cabelo a ti te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Cabeleireiros há na terra que mo possam pôr no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos olhos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não,
que, quando eu andar na guerra, ponho meus olhos no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos peitos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Costureiros há na terra que me façam um algibão
[...................................] que me aperte o coração.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo andar, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, [.......................................]
Que eu quando andar na guerra faço passos de ganhão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
(Já na guerra.)
"[..........................................] [.......................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir jantar.
Se ela for mulher pelos bancos altos há-de passar
[............................................] e pelos baixos se há-de assentar."
D. Marcos não era parvo, pelos altos passou
[............................................] e pelos baixos se assentou.
"[..........................................] [.........................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir nadar,
Se ela for mulher não se há-de descalçar."
D. Marcos não era parvo [............................................]
Puxou por uma carta, pôs-se a ler e chorar.
"O que tens, ó D. Marcos? Por que estás a ler e chorar?"
"Tenho o meu pai morto, minha mãe vai-se enterrar.
Ao meu comandante peço se me pode dispensar."

(Nota: Os dois primeiros hemistíquios pertencem ao romance "Nau Catrineta".)

O texto era já meu conhecido,
mas é sempre bom relê-lo,
para relembrar que existe uma outra Portalegre...
(Na imagem: "Retábulo Portalegrense", de João Garção.)

No próximo mês encontrar-me-eis neste e noutros locais. Mas não aqui. Desejo-vos a todos umas excelentes férias!
O texto é um pouco longo para o que costumo aqui publicar. Dado o seu interesse documental, merece-no entanto toda a vossa atenção.



DA REALIDADE QUOTIDIANA
um bloco sobre arte e vida

por Nicolau Saião



1. Carta a ns

Caro amigo Nicolau Saião

Conversamos pouco mas ambos sabemos que existimos e que nos consideramos. Tenho vindo a saber alguma coisas de si e a lê-lo, nomeadamente através da Revista Agulha que recebo em correio electrónico. Apreciei imenso o seu último artigo sobre Agostinho da Silva. É também para mim um homem da reflexão, da racionalidade, mas também dos afectos.

Aproveito para o convidar a visitar o meu blog, onde semanalmente escrevo um pequeno texto, académico ou de reflexão sobre a vida e as pessoas. O desta semana, desculpe-me, mas dedico-o a si.
Um abraço,
Avelino Bento *

(Avelino Bento, doutorado em ciências da comunicação, é professor na Escola Superior de Educação de Portalegre, onde rege cadeiras específicas e artísticas)

2. Texto de Avelino Bento no blog “Exdra


A VIDA É FEITA DE PEQUENOS NADAS

Existe em Portalegre um conjunto de pessoas, não muito extenso, por quem eu tenho uma enorme admiração e respeito. Todas elas me colocam, suponho eu, no mesmo nível de consideração. Todavia não têm todas a mesma atitude perante a comunidade e perante as dinâmicas aí instituídas, enfim, os seus processos de socialização são diferentes, levando a que uma parte da comunidade tenha delas opiniões bastantes díspares, às vezes polémicas até.
Vem isto a propósito de um ilustre portalegrense que tenho o prazer de conhecer, há já muitos anos, e pelo qual tenho uma enorme admiração. Estivemos, no início do nosso relacionamento, muito mais próximos. Não tanto por um convívio sistemático, que não houve de facto, mas mais pelas conversas interessantes que tivemos em oportunidades criadas esporadicamente. Durante o período que estive em Montréal, no Canadá, trocámos uma ou duas cartas, nas quais tive o privilégio de receber textos muito interessantes de sua autoria. Já depois, em Portalegre, fez-me o favor de participar numa conferência organizada para os meus alunos de Sociologia da Arte. Posteriormente, quando eu coordenava a licenciatura de Animação, tornou a manifestar a sua simpatia ao poder partilhar com os jovens desse curso, mas também com alguns professores, o seu saber e a sua experiência de poeta, ensaísta, dramaturgo e pintor. Falo, como é evidente, de Nicolau Saião.
As nossas relações de proximidade dão-se quando, por acaso, nos encontramos na rua. Vou sabendo deste meu amigo por aquilo que vou lendo, dele ou sobre ele. Nomeadamente através de uma revista on-line brasileira bastante interessante, a Agulha.
Foi precisamente o último número desta revista, que me inspirou este texto. Nicolau Saião escreveu sobre Agostinho da Silva e duma forma tão sublime que, seguramente, fez aumentar os admiradores por esse Homem singular de inteligência e de humildade.
Dos encontros raros e apressados que temos na rua, observo um Nicolau Saião desiludido e triste com a sua comunidade. Talvez por isso ele se recolha demasiado, digo eu. Todavia, em qualquer comunidade, temos pessoas que não gostam de nós e, felizmente, outras que manifestam contentamento e felicidade pelos nossos sucessos.
Tenho pena, acreditem, que Nicolau Saião esteja pouco entre o seu povo, que ele adora, tenho a certeza. Tenho imensa pena que o seu saber e a sua arte não façam parte do quotidiano desta comunidade. Tenho afinal muita pena que toda a produção literária e artística de Nicolau Saião, que percorre a universalidade, não seja um património acessível a toda a comunidade. Aqui, o poder, especialmente o local, tem uma quota-parte de responsabilidade nesta tarefa: acarinhar e divulgar os artistas da sua região.
Mas a minha última observação vai dirigida ao próprio Nicolau Saião, se deste texto ele tomar conhecimento. Meu amigo, eu sei que por temperamento é um homem reservado e discreto. Todavia isso não impede que se reaproxime de nós todos, frequentando o que esta bela cidade tem para oferecer. Este gesto tão simples como o de conviver torna mais suave qualquer desilusão e torna maior a compreensão que contribui para o aumento das empatias. Sobretudo, temos todos responsabilidades de criar oportunidades que nos conduzam à socialização e ao espaço onde cada um de nós tem para dar e para receber. A vida é isto mesmo, não é verdade?

3. Carta de nicolau saião

Caro amigo e confrade Avelino Bento

Foi com surpresa - grata, aliás, sublinho - que li o mail que teve a cordial fraternidade de me enviar.
Surpresa, em primeiro lugar, porque não me passava pela cabeça que fôsse leitor da Revista Agulha - que apesar de ter hoje 400 mil leitores directos nos diversos continentes - é dum ponto de vista sociológico, digamos, a coisa mais afastada que se possa imaginar daquilo a que eu chamaria "o facto Portalegre". Não sendo de esperar que aqui houvesse "agulhistas"!...
Ou seja: aquele "facto", aquele "elemento" - usemos estes termos simbólicos - que em geral recusa tudo aquilo que seja "resto do mundo", "consciencia ou existencia cosmopolita" ou, mesmo, "dignidade individual de artista livre e responsável".
Claro que o caro Avelino, sendo um leitor do órgão de informação que nos ocupa, percebe perfeitamente o que quero dizer: dum lado uma revista de alta qualidade, aberta ao mundo e à liberdade de criar com talento e responsabilidade, uma revista respeitada e divulgada no mundo da Cultura actual; do outro uma cidade percorrida por desvigamentos provincianos, por processos de intenção, por vigarices evidentes (onde medíocres são promovidos a "génios"...administrativamente) em suma: uma cidade auto-fechada num ghetto, para que no seu perímetro eficazmente continue a vigorar o oportunismo deslavado, a mesquinhez e a falta de integridade que, para além de serem a característica dos locais anti-democráticos, como aliás assinalei numa entrevista publicada anteriormente na dita Agulha, são o pão de que se nutrem gentes cuja acção está a prejudicar gravemente a cidade e a região portalegrense.
Fico pois gratamente surpreso por V. ser um leitor da Agulha e, assim, de algum modo participar do seu espírito de liberdade e de competência reconhecidos pela comunidade intelectual e artística - diria espiritual.

Indo ao cerne do texto que a meu propósito (e aqui fica o meu obrigado) escreveu no seu blog, gostaria de referir, para aclarar, alguns pontos que me parecem curiais:

1. É importante que eu esclareça relevantemente que, ao contrário do que fraternalmente escreve, não sou um homem, e cito, "reservado e discreto" por temperamento. Pelo contrário! As pessoas que nos últimos tempos me têm visto participar, seja em Portugal seja em Espanha, seja mesmo em França, em sessões e exposições, sabem que estou mesmo no polo contrário: falador (às vezes até demais!, digo eu auto-ironicamente), comparticipativo, interessado no convívio com as assistências respectivas. O que se passa é que me afastei da actuação pública em Portalegre por estar farto de que me tentassem utilizar, aliás de forma capciosa e sem respeito humano algum, para colaborar em actividades espúrias. E, se eu tentava reconduzir esse envoltório a índices de dignidade e verdade, ser tratado com manejos que por vezes atingiam mesmo a falta de educação e de consideração mais charras e impróprias, que nenhum indivíduo digno poderia aceitar.
Esta a realidade que me afastou de participar em acções nesta cidade. Retiro deste rol, naturalmente, as acções levadas a efeito, por exemplo, por convite do caro Avelino Bento (bem com um punhadinho de outras doutros quadrantes), onde houve dignidade, consideração e qualidade.

2. Não me afastei da Cidade - afastaram-me! Certas entidades, sendo más observadoras por razões óbvias, pensavam que eu era um desses "pequenos jogadores" que por cá actuam usando os seus pequenos talentos para "fazerem o seu farol", como dizia Agostinho da Silva. E como eu não alinhava nas suas "jogadas para comer o chibo" (como dizia Raul Proença), passei naturalmente a ser um corpo estranho nos seus mundos.
Foi esse tipo de gente que, por maldade e desvergonha, pôs inclusivamente a correr a atoarda maldosa e difamatória de que eu seria exigente e de difícil contacto - quando apenas era e sou, como a minha acção intensa lá fora bem atesta um autor que simplesmente não entra em burlas mentais.
Fala por mim a minha actividade - que no entanto aqui quase não é noticiada "et pour cause"... - em terras como Estremoz, Figueira da Foz, Sesimbra, Lisboa, Badajoz, Mérida, Ciudad Real, Jerez de los Caballeros, Zafra, Cáceres, etc., bem como a actividade que mantenho em: TriploV (a mais divulgada página cultural portuguesa), Os Arquivos de Renato Suttana, Jornal de Poesia, Judo e Poesia (estes brasileiros), o Estrada do Alicerce (dirigido por outro marginalizado, Ruy Ventura, que apesar de ser hoje um dos alentejanos mais internacionais - livros e presenças em França, Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Brasil e Bélgica - tem sido tratado como um trapo nesta terra onde difamadores e relapsos são exalçados e mesmo galardoados...como a comunidade sabe e lá fora também já se vai sabendo, apesar das tentativas de encobrimento que daqui são dimanadas). Não falando na minha presença assídua em revistas como Saudade (a convite de Amadeu Baptista, recentemente distinguido com o prémio Sebastião da Gama...), como Carré Rouge (francesa), como outras que me dispenso de assinalar para não ser maçador ou redundante.

3. Não estou "desiludido e triste" com a minha comunidade, como humana e cordialmente diz. Estou é esclarecido, com os olhos bem abertos para com esta realidade: um autor que se respeite (e não sou só eu), tem de se afastar - pois de contrário os que aqui impõem os seus critérios maculados e maculadores da dignidade e da verdade exigem que eles colaborem nas "jogatanas" com que vão existindo. E nisso eu não alinho!
Realço, para fazer o contraponto iluminador, que quando tempos atrás fui convidado de maneira digna para participar num evento (pelo Dr. Nuno Oliveira, no átrio do Instituto Politécnico) aceitei de imediato. A exemplo do que fazia quando o caro Avelino me convidava para efectuar acções no estabelecimento onde dava, ou dá, o seu contributo educacional e cultural.
Aqui, um parentesis: como deve ter reparado, na conceituada Agulha têm também estado a ser publicados textos que elaborei para essas sessões. Mas também João Garção, hoje tido como um dos melhores conhecedores de Hieronimus Bosch e respeitado teorizador do fenómeno artístico, ali tem sido publicado com textos feitos para sessões apresentadas nesta cidade, por convite da mesma entidade a que o caro Avelino está ligado. Ou seja: somos respeitados lá fora, cá somos colocados "no caixote de lixo cívico", como muito bem escreveu numa sessão em Lisboa, recentemente, Ruy Ventura.
E João Garção é outra figura destacada que, mercê da inveja e do acinte de umas dadas pessoas (num livro meu isso será futuramente esclarecido), foi totalmente marginalizado em Portalegre, por fazer sombra a medíocres bem montados...

4. Por último, cabe-me referir que estou, como sempre estive, entre o meu povo, o povo de Portalegre que é o mais prejudicado pela mesquinhez e anti-democraticidade dos que o enganam e sobre ele tripudiam. Do povo humilde e trabalhador tenho recebido e continuo a receber manifestações de interesse e carinho. Sou frequentemente interpelado por pessoas do quotidiano, pelos caros cidadãos "lagóias", que estranham e lamentam que eu ande "desaparecido". Explico-lhes então que não só fui afastado por não aceitar bambochatas indignas, como também interessava a alguns solaparem-me para a minha presença não lhes "cortar o sol" negro em que se repoltreiam. Se eu aparecer...como podem eles continuar a ser geniaços, por comparação luminosa???
Sendo o Avelino um homem culto e conhecedor, sabe que ainda há bem pouco foi publicada uma parte do livro (que estou a preparar com João Garção sobre Portalegre), no TriploV - que é, como já referi, a página portuguesa mais divulgada - referente a esta Cidade. E que também saíu no Brasil. Isto prova que Portalegre vive em mim - o que acontece é que dentro de portas interessa que isso não seja evidente! Interessa dar-me como "meditabundo" (foi o que na altura fizeram a Régio, que também não alinhava com videirinhos. O truque dessa gente é sabido...já vai sendo ineficaz...).
O livro a seu tempo sairá - ainda que por cá não lhe concedam qualquer apoio e tentem mesmo que ele nem seja falado (a minha participação no DVD, presente em toda a Espanha, do cantor Miguel Angel Naharro, também foi cuidadosamente solapada, bem como outras colaborações internacionais...).

Porque, bem vê, caro Avelino, fora de Portalegre "eles" não têm qualquer poder, que só aqui exercem...E mesmo cá deixarão um dia de ter o discricionário poder que têm. É só uma questão de tempo - e eu, lá fora, não tenho as "algemas" que aqui quiseram colocar-me! Foi por isso que me "afastei". Cá tinha de viver "de rastos", queriam que lhes lambesse as botas. E isso eu não faço.
Bem podem esperar sentados!
Sei que publicará esta minha carta, porque é uma pessoa séria, sem eu lho pedir. E só aludo a isto porque podia o caro Avelino pensar que esta era uma simples missiva particular.
Eu parece-me ter ela valor pedagógico e sociológico; por isso, mais que não seja, aqui fica, com o abraço de sempre do seu

NS
(Na imagem: "Retábulo Portalegrense", de João Garção)
Portalegre: alguns exemplos

PROVENÇA – Visita às ruínas da Provença, ao fim de vários anos de interesse e de investigação (um dia hei-de escrever a partir de quanto já recolhi...). Felizmente, a adaptação a hotel não parece ter mexido muito no espaço monacal. Respeitaram-se os vestígios, ainda importantes, da cerca e da igreja. Conservou-se a nudez da pedra incerta de algumas construções ainda habitáveis. Mantida nas traseiras do espaço de lazer, a sombra anímica do velho mosteirinho há muito desabitado permanece no sopé da Serra de Frei Álvaro. Nas cantarias lavradas fina mas simplesmente respiram as mãos e os passos dos homens “da pobre vida”. É, contudo, quando olhamos para a mata de carvalhos a subir a encosta que encontramos o verdadeiro espírito eremítico, de isolamento e de contemplação.

RUI CARDOSO MARTINS – Li o romance de Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer. Aproveitando as suas capacidades jornalísticas, conseguiu – ao misturar, na linha de algum Lobo Antunes, ficção com realidade/memória – escrever uma nova página da crónica negra portalegrense. Herdeiro de Trindade Coelho, Marta de Lima, José Régio, Castelo Júnior e Nicolau Saião e, ainda, dos poemas de Carlos Garcia de Castro, põe em carne viva as feridas da cidade que, mesmo remodelada fisicamente com dinheiros de fora, continua a existir com a mesma brutalidade, mesquinhez, pequenez e inveja, com a mesma violência (mais psicológica do que física) que conduz à perda da mais elementar dignidade, logo ao suicídio. Um livro permanece enquanto objecto artístico representativo e/ou como documento importante. Tendo qualidades de arte apreciáveis, tenho a certeza de que a narrativa de Cardoso Martins será também objecto de uma atenta leitura histórica no futuro.

CONDECORAÇÕES - Quando vi a fotografia, não quis acreditar, tão grande o despropósito. Seria talvez uma montagem. Só quando vi o facto registado em toda a imprensa citadina me deixei vergar pelas circunstâncias. A vereação actual de Portalegre resolvera mesmo atribuir a medalha de mérito municipal ao indivíduo que, há poucos meses, fora castigado pelo Estado por actos reprováveis, descritos no Diário da República. A “homenagem” tapou-se com um pacote dirigido a antigos presidentes de junta (alguns com obra pouco ou nada visível, como um meu conhecido). Estas e outras são bem a imagem de certa Portalegre (que Cardoso Martins descreveu no seu romance), onde cidadãos com características éticas nada recomendáveis são apresentados como exemplos e outros são chutados para o caixote do lixo cívico.
Felizmente, na mesma cerimónia (maculada pela situação descrita), foram homenageados outros cidadãos que merecem ser vistos como bons exemplos. Entre eles, permito-me destacar a figura de Maria Flora Garção, funcionária municipal que, antes de se aposentar, descreveu assim a sua acção: “Devoção pelos colegas que ao longo dos anos me acompanharam irmanados na vontade de bem servir esse tal público que parece sempre me estimou e apreciou na minha forma de o atender.” Quem quer que tenha contactado com ela na sua acção diária sabe quão verdadeiras são estas palavras.

AUGUSTO RAÍNHO – Entra-se no Museu de Tapeçaria e esquecemo-nos de uma certa Portalegre. Não que a cidade não possua outras belezas e qualidades (que as tem e singulares), mas nesse espaço suspende-se o ar de amadorismo e de inabilidade (de descuido, mesmo) que sobressai em tanto local belo, assim diminuído. Fui ver a exposição nova de Augusto Raínho. Mais uma vez, a sua pintura interessou-me muito, tanto na sua capacidade representativa e interpretativa, quanto nos conceitos vivenciais e filosóficos que sustentam os quadros. Há uma (in)certa esperança em tudo – e não desagrada, por ser fundada e consciente.