sexta-feira, 28 de setembro de 2007


melodia

na

Sé de Portalegre

aqui
O FALSO CEGO

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro Os Transmontano no Alentejo (Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1998), pp. 65 e 66. Transcrição de Ruy Ventura.


Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
"Abram-me essa porta, também o postigo,
Emprestem-me um lenço que já venho ferido."
"Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
Que a minha portinha não se abre agora."
"Levante-se minha mãe da cama a dormir,
Venha ver o cego que está a pedir."
"Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho."
"Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho."
"Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
Ensinar o cego além para a estrada."
"Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
Que eu não sou o cego, sou seu namorado."

quinta-feira, 27 de setembro de 2007


A IGREJA DE SANTA MARIA A GRANDE (Portalegre)
Nos primeiros anos do século XIV (quando o bispo da Guarda visitou as paróquias de Portalegre) é provável que a igreja de Santa Maria a Grande não fosse já um edifício recente. Doada em 1299 por D. Dinis aos Templários, é possível que existisse pelo menos em meados do século XIII, sendo - com Santa Maria Madalena - um dos edifícios mais antigos da vila que, nessa altura, se autonomizou do concelho de Marvão, criado em 1226. Em 1321 era um dos seus templos mais importantes, taxado com 150 libras, quantia só ultrapassada por Santa Maria do Castelo, com mais 10 libras.
Não se conhece, por agora, qualquer documento medieval que nos dê indicações precisas sobre a arquitectura desta igreja nessa época. Acreditamos, no entanto, que não terá sofrido alterações substanciais até inícios do século XVI, o que nos permite afirmar que a descrição que chegou aos nossos dias, datada de 1509, deverá corresponder em traços gerais à estrutura de Santa Maria a Grande na Idade Média, embora tenha sofrido, como é normal, alterações na decoração, sobretudo no interior.
Os documentos emanados da visitação efectuada em 19 e 20 de Dezembro de 1509 pela Ordem de Cristo a este templo portalegrense e à sua comenda são, a vários títulos, valiosos. Para a História da Arte é sobretudo preciosa a descrição da igreja que os olhos de frei Diogo do Rego (visitador) e as palavras de frei Francisco (escrivão) nos ofereceram, tantos os pormenores que nos permitem a construção de uma imagem concreta de Santa Maria a Grande.
O edifício era substancialmente diferente da estrutura que hoje podemos ainda observar no lado sul do largo de Santo Agostinho (o que sobrou da igreja reconstruída na segunda metade do século XVIII, profanada após a extinção das ordens religiosas).
A fachada da igreja de Santa Maria a Grande estava virada a poente, tendo na parte cimeira um campanário com dois sinos e uma campainha. Integralmente rebocada e caiada, possuía sobre a porta principal um alpendre ou galilé.
O interior era de uma só nave, tendo as paredes laterais "guarneçidas e pinçelladas", com abundante decoração em pintura mural, representando "muitas Jmageens". Sobre a entrada, sustentado por um "arco grande De pedraria", erguia-se o coro "com seu peitoril laurado De maçonaria", sob o qual se situava a pia baptismal.
A capela-mor estava virada a nascente e certamente quase encostada às muralhas. Era "oitauada", "grande e larga", tendo as paredes rebocadas e pintadas por dentro e por fora. No interior possuía um altar "moçiço com quatro de graaos de pedraria" e, sobre ele, um retábulo "nouo" (provavelmente constituído por várias pinturas), com seu guarda-pó de maçonaria "pintado com Jmagens", tendo ao centro a imagem de Santa Maria: "de vulto grande & fermosa [...] com o filho no collo". À altura da visitação a igreja não possuía ainda sacrário, pelo que são dadas ordens ao comendador e beneficiados (a quem cabia a manutenção da ousia) para que aí pusessem um "boom sacrario junto Do altar moor".
A entrada neste espaço fazia-se por um "arco grande e bem obrado", o qual tinha na parte cimeira uma pintura mural com a representação de Cristo crucificado, ladeado por Nossa Senhora e São João Evangelista. Possuía ainda dois altares colaterais "nos cantos Do Dicto arco", dedicados a São Miguel e a Nossa Senhora da Conceição, sem qualquer escultura, mas com imagens "pintadas na parede". Tudo coberto por um "guardapoo de castanho".
Junto do presbitério, à direita, situava-se a sacristia.


Atendendo ao pedido de D. João III, em 21 de Agosto de 1549 foi criada a diocese de Portalegre. Sendo necessário escolher uma catedral, foi seleccionada a igreja de Sta. Maria do Castelo, em cuja proximidade foi elevada a nova sé. Tendo em vista o engrandecimento da sua freguesia, são-lhe anexadas em 1552 as paróquias de S. Vicente e de Sta. Maria a Grande. São Vicente foi demolida pouco tempo depois. Santa Maria passou a funcionar como sede do Cabido a partir de 1556.
A extinção desta freguesia não foi bem recebida pelos seus habitantes, embora a actividade paroquial só tenha cessado em 1585.Poucos anos depois, em 18 de Fevereiro de 1605, D. Diogo Correia e o Cabido decidem doar Sta. Maria a Grande à Companhia de Jesus, tendo em vista o estabelecimento de um colégio dedicado ao ensino. Aí permaneceram até 1673, ano em que vão fundar o novo edifício junto da ermida de São Sebastião, que lhes fora doada em 1635.Em 1 de Fevereiro de 1673, o regente D. Pedro, com autorização de D. Ricardo Russel e da Câmara da cidade, doa a igreja aos Ermitas Agostinhos Descalços para aí fundarem o seu convento. Dois anos depois os religiosos quiseram sair da cidade e erigir a sua casa junto da ermida da Senhora da Penha. Chegaram a construir aí alguns edifícios, mas a sua decisão foi contrariada pelas autoridades eclesiásticas e da cidade.
O edifício ocupado pelos jesuítas não era suficiente para as necessidades dos agostinhos. No que resta do seu cartório, regista-se assim, entre 1674 e 1737, a compra de várias casas de habitação, situadas na rua do Lobato e na de Santa Clara - decerto com o objectivo de, no seu lugar, se edificar uma nova construção. Respondendo a uma solicitação da ordem, D. João V chega mesmo a doar-lhe em 1717 uma parte da muralha, entre a porta de Alegrete e o postigo de Santa Clara, para no seu lugar ser construído o dormitório.
Pela leitura dos documentos, não consta que a igreja de Santa Maria a Grande tenha sofrido alterações arquitectónicas de monta até meados de setecentos. De facto, só em 1758 parece ter-se iniciado a edificação da nova igreja, a partir da estrutura medieval (conforme indica um trecho da "Memória Paroquial" da Sé (cf. Boroa, 1758 in Ventura, 1995: 120)), uma vez que no ano anterior ela ainda não existia.Terminada a obra, foram grandes as modificações. A capela-mor, com trono, ficou no lugar da anterior porta principal. A entrada do templo ficou lateral, dotada de um pórtico em mármore com moldura barroca, encimado por um janelão, que ainda existe. A portaria do convento, com arco abatido, passou para o lugar da antiga capela-mor. No interior, "os retábulos dos três altares [passaram a ser] de preciosos mármores com excelentes esculturas" (Tavares, [1934]: 918). Foi ainda construída uma torre sineira a poente, que nunca foi acabada, pois só há poucos anos foi rebocada e caiada.


Pórtico setecentista da igreja de Santa Maria a Grande (desenho conservado no Arquivo Distrital de Portalegre)
Infelizmente, grande parte desta riqueza desapareceu depois da extinção das ordens religiosas, em 1834. Expulsos os frades, no convento foram instalados vários serviços públicos, estando ocupado pela GNR desde 1911. Os retábulos da igreja foram vendidos, o seu recheio dispersou-se, a porta principal desapareceu e, ao seu lado, foi aberta uma nova entrada. O templo foi dividido em dois pisos, estando o rés-do-chão hoje ocupado pela oficina dos veículos da Guarda. Manteve-se até aos nossos dias apenas a estrutura, bem visível a sul do largo de Santo Agostinho, dentro da qual subsiste ainda o arco de mármore que dava entrada à capela-mor. Esperemos que no futuro o seu proprietário (a Câmara Municipal) lhe reserve melhores dias.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O SOLDADINHO

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001. Publicada no suplemento cultural Fanal, do jornal O Distrito de Portalegre, nº 17, a 26.10.2001.


SOLDADINHO NOVO

"Adeus soldadinho novo que tão triste andas na guerra.
Ou te lembra pai ou mãe ou alguém da tua terra."
"Não me lembra pai nem mãe, nem ninguém da minha terra,
Só me lembra a minha amada, que era uma linda donzela."
"Toma lá este cavalo, vai a tua amada ver,
Mas no fim de sete meses há-des mo cá vir trazer."
Soldadinho, de contente, no cavalo s' amontou.
Chegando lá muito adiente, o Diabo o incuntrou.
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem."
(Não é assim.)
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem,
Aqui tens a tua amada, que t' amou com grande bem."
(Enganei-me.)
"Onde vás ó soldadinho, por que vás todo a termer?"
"Deixa-me lá ó diabo, vou a minha amada ver."
"Tua amada já é morta. Já é morta, bem na vi."
"Dá-me os sinais que levava, que me quero fiar em ti."
"Levava vestido d' ouro, camisa de carmesim.
Os padres qu' àcompanhavam não tinham conto nem fim.
Forem a abrir a cova cá no centro do jardim,
A enxada era de prata, o cabo de marafim."
"Mas seja o que Deus quiser, eu p'ra diente sempre vou."
A meio da sua jornada, um nuvraceiro s' armou.
"Não t' espantes cavalo branco, cavalheiro que nele vem.
Aqui tens a tua amada que t' amou com grande bem."
"Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim?"
"Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi."
"Se és a minha amada, beija-me agora aqui."
"Os lábios com qu' eu te beijava, já a cor deles perdi.
Vai-t' imbora, vai-t' imbora, vai-t' imbora amor eterno.
Já sinto por mim puxar lá das cordas do Inferno."
"Eu hei-d' ir àquele outêro, eu àquele outêro hei-d' ir.
Tanta vez t' hê-de bradar, até que m' há-des acudir."

(Aprendi, mas não era assim. E aqui está. Mas isto não aconteceu. O capitão não dava o cavalo ao soldado.)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007


IGREJA DE SANTA MARIA MADALENA
(Portalegre)



Segundo uma velha tradição, a igreja de Santa Maria Madalena foi sede da mais antiga paróquia de Portalegre. Situada no actual largo Serpa Pinto (antigo largo da Madalena, próximo do castelo), já existia em 1259, ano em que o rei D. Afonso III terá dado foral a Portus Alacer.
Nesse mesmo ano o monarca bolonhês fez doação do Padroado da Madalena ao mosteiro de São Jorge de Coimbra, pertencente aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, como agradecimento pelo nascimento de sua filha D. Branca, garantindo-lhe assim a protecção divina. Em 1541 passou para a posse do mosteiro de Santa Cruz, da mesma ordem, transitando, em 1564, para as mãos da Companhia de Jesus, ficando ligado ao Colégio do Espírito Santo, de Évora, que possuía assim o direito de apresentar o prior desta igreja portalegrense. Com a expulsão dos Jesuítas em 1759 o padroado de Santa Maria Madalena regressou à Coroa - até 1774, ano em que D. José faz doação do mesmo à Universidade de Coimbra, que dele toma posse em 1788.
A freguesia, pela escassez de paroquianos, foi extinta em 1834, integrando-se na Sé cinco anos depois. Em 1858 tomou posse da igreja a Câmara Municipal de Portalegre que, por Carta de Lei de 14 de Agosto do mesmo ano, procedeu à sua demolição para, em seu lugar, ser construído um chafariz.
Desaparecida no terceiro quartel do século XIX, a igreja de Santa Maria Madalena - segundo nos indicam os documentos escritos - tratava-se de uma obra erguida no espírito da arte barroca, com planta centralizada. Assim é descrita em 1758 pelo seu prior, Manuel Jerónimo de Velez (Vellez, 1758 in Ventura, 1995: 132):
"[...] consta de tres altares, que he o mór, em o qual da parte do Evangelho está Santa Maria Magdalena, e da parte da Epistola o Appostolo São Pedro; Os outros dous altares estão no [c]orpo da Igreja, hum da parte do Evangelho, em que está [co]llocada huma Imagem de IESVS Christo assentado [e]m huma pianha e encostando a face sobre sua mão [di]reita com o titulo, ou invocação de Senhor da Paciencia, o outro da parte da Epistola em que está collo[ca]da huma Imagem de Nossa Senhora com a invocação [de] Senhora dos Prazeres, digo dos Prazeres; e na [b]anquetta deste altar da parte do Evangelho está // [...] huma Imagem de São Francisco, e da parte da Epistola outra de Santo Antonio.
Não tem esta Igreja naves, he toda de abobe[da] a sua architectura he destas Outavadas, e mode[r]nas, a que chamão à romana [...]."
Esta descrição vai ao encontro de algumas das palavras de F. A. Rodrigues de Gusmão, publicadas cem anos depois (Gusmão, 1858: 7 - 8):
"Tantas foram as alternativas, porque passou, no correr dos annos, o Padroado da Magdalena, quantas as mudanças, que soffreu, em diversas epochas, o seu templo.
Não podemos determinar a da primeira reedificação, em que se transferiu o altar mór do poente para o nascente, e depois para o norte, e para o sul a porta principal. A ultima operou-se, com toda a certeza, em 1732. Ficou, então, octogono o templo, e foi todo construido de abobeda, em tres altares, o mór com um formoso retabulo, e os dous lateraes de simples, mas elegante fabrica.
Tinha torre, côro, duas sachristias, e duas portas. // Sobre a principal estava um quadro, que representava, em azulejo, o Orago.
"
Segundo Maria Tavares Transmontano, depois da demolição os dois sinos da Madalena foram levados para igrejas de Carreiras e da Ribeira de Nisa (cf. Transmontano, 1997: 64). A imagem da padroeira, barroca, é hoje venerada na Sé de Portalegre (ver foto).

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

DONZELA GUERREIRA

Versão de Fortios, Portalegre. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA

"Deitei sortes à ventura para ver o qual se havia de matar,
Logo foi cair a sorte no capitão-general."
"Não te mates, ó meu pai, não te mates meu pai, não, não.
Dai-me espadas e cavalos que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo cabelo a ti te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Cabeleireiros há na terra que mo possam pôr no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos olhos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não,
que, quando eu andar na guerra, ponho meus olhos no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos peitos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Costureiros há na terra que me façam um algibão
[...................................] que me aperte o coração.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo andar, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, [.......................................]
Que eu quando andar na guerra faço passos de ganhão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
(Já na guerra.)
"[..........................................] [.......................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir jantar.
Se ela for mulher pelos bancos altos há-de passar
[............................................] e pelos baixos se há-de assentar."
D. Marcos não era parvo, pelos altos passou
[............................................] e pelos baixos se assentou.
"[..........................................] [.........................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir nadar,
Se ela for mulher não se há-de descalçar."
D. Marcos não era parvo [............................................]
Puxou por uma carta, pôs-se a ler e chorar.
"O que tens, ó D. Marcos? Por que estás a ler e chorar?"
"Tenho o meu pai morto, minha mãe vai-se enterrar.
Ao meu comandante peço se me pode dispensar."

(Nota: Os dois primeiros hemistíquios pertencem ao romance "Nau Catrineta".)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007


O texto era já meu conhecido,
mas é sempre bom relê-lo,
para relembrar que existe uma outra Portalegre...
(Na imagem: "Retábulo Portalegrense", de João Garção.)

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