No próximo mês encontrar-me-eis neste e noutros locais. Mas não aqui. Desejo-vos a todos umas excelentes férias!
O texto é um pouco longo para o que costumo aqui publicar. Dado o seu interesse documental, merece-no entanto toda a vossa atenção.



DA REALIDADE QUOTIDIANA
um bloco sobre arte e vida

por Nicolau Saião



1. Carta a ns

Caro amigo Nicolau Saião

Conversamos pouco mas ambos sabemos que existimos e que nos consideramos. Tenho vindo a saber alguma coisas de si e a lê-lo, nomeadamente através da Revista Agulha que recebo em correio electrónico. Apreciei imenso o seu último artigo sobre Agostinho da Silva. É também para mim um homem da reflexão, da racionalidade, mas também dos afectos.

Aproveito para o convidar a visitar o meu blog, onde semanalmente escrevo um pequeno texto, académico ou de reflexão sobre a vida e as pessoas. O desta semana, desculpe-me, mas dedico-o a si.
Um abraço,
Avelino Bento *

(Avelino Bento, doutorado em ciências da comunicação, é professor na Escola Superior de Educação de Portalegre, onde rege cadeiras específicas e artísticas)

2. Texto de Avelino Bento no blog “Exdra


A VIDA É FEITA DE PEQUENOS NADAS

Existe em Portalegre um conjunto de pessoas, não muito extenso, por quem eu tenho uma enorme admiração e respeito. Todas elas me colocam, suponho eu, no mesmo nível de consideração. Todavia não têm todas a mesma atitude perante a comunidade e perante as dinâmicas aí instituídas, enfim, os seus processos de socialização são diferentes, levando a que uma parte da comunidade tenha delas opiniões bastantes díspares, às vezes polémicas até.
Vem isto a propósito de um ilustre portalegrense que tenho o prazer de conhecer, há já muitos anos, e pelo qual tenho uma enorme admiração. Estivemos, no início do nosso relacionamento, muito mais próximos. Não tanto por um convívio sistemático, que não houve de facto, mas mais pelas conversas interessantes que tivemos em oportunidades criadas esporadicamente. Durante o período que estive em Montréal, no Canadá, trocámos uma ou duas cartas, nas quais tive o privilégio de receber textos muito interessantes de sua autoria. Já depois, em Portalegre, fez-me o favor de participar numa conferência organizada para os meus alunos de Sociologia da Arte. Posteriormente, quando eu coordenava a licenciatura de Animação, tornou a manifestar a sua simpatia ao poder partilhar com os jovens desse curso, mas também com alguns professores, o seu saber e a sua experiência de poeta, ensaísta, dramaturgo e pintor. Falo, como é evidente, de Nicolau Saião.
As nossas relações de proximidade dão-se quando, por acaso, nos encontramos na rua. Vou sabendo deste meu amigo por aquilo que vou lendo, dele ou sobre ele. Nomeadamente através de uma revista on-line brasileira bastante interessante, a Agulha.
Foi precisamente o último número desta revista, que me inspirou este texto. Nicolau Saião escreveu sobre Agostinho da Silva e duma forma tão sublime que, seguramente, fez aumentar os admiradores por esse Homem singular de inteligência e de humildade.
Dos encontros raros e apressados que temos na rua, observo um Nicolau Saião desiludido e triste com a sua comunidade. Talvez por isso ele se recolha demasiado, digo eu. Todavia, em qualquer comunidade, temos pessoas que não gostam de nós e, felizmente, outras que manifestam contentamento e felicidade pelos nossos sucessos.
Tenho pena, acreditem, que Nicolau Saião esteja pouco entre o seu povo, que ele adora, tenho a certeza. Tenho imensa pena que o seu saber e a sua arte não façam parte do quotidiano desta comunidade. Tenho afinal muita pena que toda a produção literária e artística de Nicolau Saião, que percorre a universalidade, não seja um património acessível a toda a comunidade. Aqui, o poder, especialmente o local, tem uma quota-parte de responsabilidade nesta tarefa: acarinhar e divulgar os artistas da sua região.
Mas a minha última observação vai dirigida ao próprio Nicolau Saião, se deste texto ele tomar conhecimento. Meu amigo, eu sei que por temperamento é um homem reservado e discreto. Todavia isso não impede que se reaproxime de nós todos, frequentando o que esta bela cidade tem para oferecer. Este gesto tão simples como o de conviver torna mais suave qualquer desilusão e torna maior a compreensão que contribui para o aumento das empatias. Sobretudo, temos todos responsabilidades de criar oportunidades que nos conduzam à socialização e ao espaço onde cada um de nós tem para dar e para receber. A vida é isto mesmo, não é verdade?

3. Carta de nicolau saião

Caro amigo e confrade Avelino Bento

Foi com surpresa - grata, aliás, sublinho - que li o mail que teve a cordial fraternidade de me enviar.
Surpresa, em primeiro lugar, porque não me passava pela cabeça que fôsse leitor da Revista Agulha - que apesar de ter hoje 400 mil leitores directos nos diversos continentes - é dum ponto de vista sociológico, digamos, a coisa mais afastada que se possa imaginar daquilo a que eu chamaria "o facto Portalegre". Não sendo de esperar que aqui houvesse "agulhistas"!...
Ou seja: aquele "facto", aquele "elemento" - usemos estes termos simbólicos - que em geral recusa tudo aquilo que seja "resto do mundo", "consciencia ou existencia cosmopolita" ou, mesmo, "dignidade individual de artista livre e responsável".
Claro que o caro Avelino, sendo um leitor do órgão de informação que nos ocupa, percebe perfeitamente o que quero dizer: dum lado uma revista de alta qualidade, aberta ao mundo e à liberdade de criar com talento e responsabilidade, uma revista respeitada e divulgada no mundo da Cultura actual; do outro uma cidade percorrida por desvigamentos provincianos, por processos de intenção, por vigarices evidentes (onde medíocres são promovidos a "génios"...administrativamente) em suma: uma cidade auto-fechada num ghetto, para que no seu perímetro eficazmente continue a vigorar o oportunismo deslavado, a mesquinhez e a falta de integridade que, para além de serem a característica dos locais anti-democráticos, como aliás assinalei numa entrevista publicada anteriormente na dita Agulha, são o pão de que se nutrem gentes cuja acção está a prejudicar gravemente a cidade e a região portalegrense.
Fico pois gratamente surpreso por V. ser um leitor da Agulha e, assim, de algum modo participar do seu espírito de liberdade e de competência reconhecidos pela comunidade intelectual e artística - diria espiritual.

Indo ao cerne do texto que a meu propósito (e aqui fica o meu obrigado) escreveu no seu blog, gostaria de referir, para aclarar, alguns pontos que me parecem curiais:

1. É importante que eu esclareça relevantemente que, ao contrário do que fraternalmente escreve, não sou um homem, e cito, "reservado e discreto" por temperamento. Pelo contrário! As pessoas que nos últimos tempos me têm visto participar, seja em Portugal seja em Espanha, seja mesmo em França, em sessões e exposições, sabem que estou mesmo no polo contrário: falador (às vezes até demais!, digo eu auto-ironicamente), comparticipativo, interessado no convívio com as assistências respectivas. O que se passa é que me afastei da actuação pública em Portalegre por estar farto de que me tentassem utilizar, aliás de forma capciosa e sem respeito humano algum, para colaborar em actividades espúrias. E, se eu tentava reconduzir esse envoltório a índices de dignidade e verdade, ser tratado com manejos que por vezes atingiam mesmo a falta de educação e de consideração mais charras e impróprias, que nenhum indivíduo digno poderia aceitar.
Esta a realidade que me afastou de participar em acções nesta cidade. Retiro deste rol, naturalmente, as acções levadas a efeito, por exemplo, por convite do caro Avelino Bento (bem com um punhadinho de outras doutros quadrantes), onde houve dignidade, consideração e qualidade.

2. Não me afastei da Cidade - afastaram-me! Certas entidades, sendo más observadoras por razões óbvias, pensavam que eu era um desses "pequenos jogadores" que por cá actuam usando os seus pequenos talentos para "fazerem o seu farol", como dizia Agostinho da Silva. E como eu não alinhava nas suas "jogadas para comer o chibo" (como dizia Raul Proença), passei naturalmente a ser um corpo estranho nos seus mundos.
Foi esse tipo de gente que, por maldade e desvergonha, pôs inclusivamente a correr a atoarda maldosa e difamatória de que eu seria exigente e de difícil contacto - quando apenas era e sou, como a minha acção intensa lá fora bem atesta um autor que simplesmente não entra em burlas mentais.
Fala por mim a minha actividade - que no entanto aqui quase não é noticiada "et pour cause"... - em terras como Estremoz, Figueira da Foz, Sesimbra, Lisboa, Badajoz, Mérida, Ciudad Real, Jerez de los Caballeros, Zafra, Cáceres, etc., bem como a actividade que mantenho em: TriploV (a mais divulgada página cultural portuguesa), Os Arquivos de Renato Suttana, Jornal de Poesia, Judo e Poesia (estes brasileiros), o Estrada do Alicerce (dirigido por outro marginalizado, Ruy Ventura, que apesar de ser hoje um dos alentejanos mais internacionais - livros e presenças em França, Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Brasil e Bélgica - tem sido tratado como um trapo nesta terra onde difamadores e relapsos são exalçados e mesmo galardoados...como a comunidade sabe e lá fora também já se vai sabendo, apesar das tentativas de encobrimento que daqui são dimanadas). Não falando na minha presença assídua em revistas como Saudade (a convite de Amadeu Baptista, recentemente distinguido com o prémio Sebastião da Gama...), como Carré Rouge (francesa), como outras que me dispenso de assinalar para não ser maçador ou redundante.

3. Não estou "desiludido e triste" com a minha comunidade, como humana e cordialmente diz. Estou é esclarecido, com os olhos bem abertos para com esta realidade: um autor que se respeite (e não sou só eu), tem de se afastar - pois de contrário os que aqui impõem os seus critérios maculados e maculadores da dignidade e da verdade exigem que eles colaborem nas "jogatanas" com que vão existindo. E nisso eu não alinho!
Realço, para fazer o contraponto iluminador, que quando tempos atrás fui convidado de maneira digna para participar num evento (pelo Dr. Nuno Oliveira, no átrio do Instituto Politécnico) aceitei de imediato. A exemplo do que fazia quando o caro Avelino me convidava para efectuar acções no estabelecimento onde dava, ou dá, o seu contributo educacional e cultural.
Aqui, um parentesis: como deve ter reparado, na conceituada Agulha têm também estado a ser publicados textos que elaborei para essas sessões. Mas também João Garção, hoje tido como um dos melhores conhecedores de Hieronimus Bosch e respeitado teorizador do fenómeno artístico, ali tem sido publicado com textos feitos para sessões apresentadas nesta cidade, por convite da mesma entidade a que o caro Avelino está ligado. Ou seja: somos respeitados lá fora, cá somos colocados "no caixote de lixo cívico", como muito bem escreveu numa sessão em Lisboa, recentemente, Ruy Ventura.
E João Garção é outra figura destacada que, mercê da inveja e do acinte de umas dadas pessoas (num livro meu isso será futuramente esclarecido), foi totalmente marginalizado em Portalegre, por fazer sombra a medíocres bem montados...

4. Por último, cabe-me referir que estou, como sempre estive, entre o meu povo, o povo de Portalegre que é o mais prejudicado pela mesquinhez e anti-democraticidade dos que o enganam e sobre ele tripudiam. Do povo humilde e trabalhador tenho recebido e continuo a receber manifestações de interesse e carinho. Sou frequentemente interpelado por pessoas do quotidiano, pelos caros cidadãos "lagóias", que estranham e lamentam que eu ande "desaparecido". Explico-lhes então que não só fui afastado por não aceitar bambochatas indignas, como também interessava a alguns solaparem-me para a minha presença não lhes "cortar o sol" negro em que se repoltreiam. Se eu aparecer...como podem eles continuar a ser geniaços, por comparação luminosa???
Sendo o Avelino um homem culto e conhecedor, sabe que ainda há bem pouco foi publicada uma parte do livro (que estou a preparar com João Garção sobre Portalegre), no TriploV - que é, como já referi, a página portuguesa mais divulgada - referente a esta Cidade. E que também saíu no Brasil. Isto prova que Portalegre vive em mim - o que acontece é que dentro de portas interessa que isso não seja evidente! Interessa dar-me como "meditabundo" (foi o que na altura fizeram a Régio, que também não alinhava com videirinhos. O truque dessa gente é sabido...já vai sendo ineficaz...).
O livro a seu tempo sairá - ainda que por cá não lhe concedam qualquer apoio e tentem mesmo que ele nem seja falado (a minha participação no DVD, presente em toda a Espanha, do cantor Miguel Angel Naharro, também foi cuidadosamente solapada, bem como outras colaborações internacionais...).

Porque, bem vê, caro Avelino, fora de Portalegre "eles" não têm qualquer poder, que só aqui exercem...E mesmo cá deixarão um dia de ter o discricionário poder que têm. É só uma questão de tempo - e eu, lá fora, não tenho as "algemas" que aqui quiseram colocar-me! Foi por isso que me "afastei". Cá tinha de viver "de rastos", queriam que lhes lambesse as botas. E isso eu não faço.
Bem podem esperar sentados!
Sei que publicará esta minha carta, porque é uma pessoa séria, sem eu lho pedir. E só aludo a isto porque podia o caro Avelino pensar que esta era uma simples missiva particular.
Eu parece-me ter ela valor pedagógico e sociológico; por isso, mais que não seja, aqui fica, com o abraço de sempre do seu

NS
(Na imagem: "Retábulo Portalegrense", de João Garção)
Portalegre: alguns exemplos

PROVENÇA – Visita às ruínas da Provença, ao fim de vários anos de interesse e de investigação (um dia hei-de escrever a partir de quanto já recolhi...). Felizmente, a adaptação a hotel não parece ter mexido muito no espaço monacal. Respeitaram-se os vestígios, ainda importantes, da cerca e da igreja. Conservou-se a nudez da pedra incerta de algumas construções ainda habitáveis. Mantida nas traseiras do espaço de lazer, a sombra anímica do velho mosteirinho há muito desabitado permanece no sopé da Serra de Frei Álvaro. Nas cantarias lavradas fina mas simplesmente respiram as mãos e os passos dos homens “da pobre vida”. É, contudo, quando olhamos para a mata de carvalhos a subir a encosta que encontramos o verdadeiro espírito eremítico, de isolamento e de contemplação.

RUI CARDOSO MARTINS – Li o romance de Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer. Aproveitando as suas capacidades jornalísticas, conseguiu – ao misturar, na linha de algum Lobo Antunes, ficção com realidade/memória – escrever uma nova página da crónica negra portalegrense. Herdeiro de Trindade Coelho, Marta de Lima, José Régio, Castelo Júnior e Nicolau Saião e, ainda, dos poemas de Carlos Garcia de Castro, põe em carne viva as feridas da cidade que, mesmo remodelada fisicamente com dinheiros de fora, continua a existir com a mesma brutalidade, mesquinhez, pequenez e inveja, com a mesma violência (mais psicológica do que física) que conduz à perda da mais elementar dignidade, logo ao suicídio. Um livro permanece enquanto objecto artístico representativo e/ou como documento importante. Tendo qualidades de arte apreciáveis, tenho a certeza de que a narrativa de Cardoso Martins será também objecto de uma atenta leitura histórica no futuro.

CONDECORAÇÕES - Quando vi a fotografia, não quis acreditar, tão grande o despropósito. Seria talvez uma montagem. Só quando vi o facto registado em toda a imprensa citadina me deixei vergar pelas circunstâncias. A vereação actual de Portalegre resolvera mesmo atribuir a medalha de mérito municipal ao indivíduo que, há poucos meses, fora castigado pelo Estado por actos reprováveis, descritos no Diário da República. A “homenagem” tapou-se com um pacote dirigido a antigos presidentes de junta (alguns com obra pouco ou nada visível, como um meu conhecido). Estas e outras são bem a imagem de certa Portalegre (que Cardoso Martins descreveu no seu romance), onde cidadãos com características éticas nada recomendáveis são apresentados como exemplos e outros são chutados para o caixote do lixo cívico.
Felizmente, na mesma cerimónia (maculada pela situação descrita), foram homenageados outros cidadãos que merecem ser vistos como bons exemplos. Entre eles, permito-me destacar a figura de Maria Flora Garção, funcionária municipal que, antes de se aposentar, descreveu assim a sua acção: “Devoção pelos colegas que ao longo dos anos me acompanharam irmanados na vontade de bem servir esse tal público que parece sempre me estimou e apreciou na minha forma de o atender.” Quem quer que tenha contactado com ela na sua acção diária sabe quão verdadeiras são estas palavras.

AUGUSTO RAÍNHO – Entra-se no Museu de Tapeçaria e esquecemo-nos de uma certa Portalegre. Não que a cidade não possua outras belezas e qualidades (que as tem e singulares), mas nesse espaço suspende-se o ar de amadorismo e de inabilidade (de descuido, mesmo) que sobressai em tanto local belo, assim diminuído. Fui ver a exposição nova de Augusto Raínho. Mais uma vez, a sua pintura interessou-me muito, tanto na sua capacidade representativa e interpretativa, quanto nos conceitos vivenciais e filosóficos que sustentam os quadros. Há uma (in)certa esperança em tudo – e não desagrada, por ser fundada e consciente.