Galegos (Marvão):
cruzeiro frente à igreja de São Sebastião




Carreiras (Portalegre):
"Cruz das Almas"
hoje no cemitério







Ribeira de Nisa (Portalegre):
cruzeiro à entrada do adro
da igreja de Nossa Senhora da Esperança


Portalegre:
pormenores do cruzeiro do Convento das Bernardas


Portalegre:
o que resta do cruzeiro do Corro
hoje no topo da capela mortuária do cemitério

Castelo de Vide:
pormenor do cruzeiro existente no cemitério
ACLARAR A MEMÓRIA

Nos tempos mais recentes, a bibliografia do Norte Alentejano viu-se enriquecida com a publicação de novos livros que têm como característica comum (infelizmente nem sempre generalizada) permitirem entender melhor a sua identidade cultural em geral e, particularmente, a sua História. Depois de alguns volumes que foram oportunidades perdidas, pela falta de rigor e até pela alteração de documentos (para que se criassem fundamentos que servissem de base a teses improváveis), há que realçar edições oportunas e rigorosas.
Excluindo do rol alguns sobre os quais já tracei algumas linhas (como por exemplo o livro de Pedro Cid sobre as fortificações de Castelo de Vide e a monografia de Rosário Salema de Carvalho sobre a matriz dessa vila), permito-me destacar:
1. Memória Historica da Muito Notavel Villa de Castello de Vide, de César Videira, publicado originalmente em 1908, e que agora – cem anos depois – viu de novo as luzes da imprensa numa reedição anotada, revista e aumentada com base em notas do autor, fruto de um trabalho devotado e atento de Ana Patrício, Diogo Cordeiro, Francisco Sepúlveda Teixeira, Joaquim Neves de Carvalho, Rosário Salema de Carvalho e Pedro Sá;
2. As Forcas do Distrito de Portalegre, de Jorge de Oliveira e Ana Cristina Tomás, ainda de 2007, onde se apresenta uma faceta pouco agradável do nosso passado, mas de inegável interesse para a compreensão de uma parte importante do património arqueológico da região – a precisar, nalguns concelhos (como o de Portalegre), de levantamento e estudo sérios, de modo a destruir a inércia propositada que beneficia sobretudo quantos querem destrui-lo para mais facilmente construírem os seus “projectos urbanísticos” ou “turísticos”;
3. Marvão à mesa com a tradição, de Adelaide Martins, Emília Mena e Teresa Simão, publicado em 2008 com um esclarecedor prefácio do arqueólogo Jorge de Oliveira, oferecendo-nos, para além de um larguíssimo repositório das receitas de cozinha confeccionadas ao longo de séculos por uma população carenciada mas inteligente no aproveitamento dos recursos à sua disposição, um quadro realista do viver diário desse canto do Portugal raiano.



Mais recentemente, Bonifácio Bernardo, membro do cabido da Sé de Portalegre, publicou o livro Aldeia dos Fortios – Memória Histórica. Integra-se no rol das obras que enriquecem o nosso conhecimento da região. Nas suas 612 páginas não foge à abertura de hipóteses e à ousadia da interpretação, constituindo um autêntico arquivo de documentos que, decerto, incitarão outros investigadores a debruçarem-se sobre as matérias nele abordadas ou aí afloradas. Convenhamos: ao lado da criação artística, não haverá talvez tarefa mais meritória nos domínios do espírito do que a do reavivar da memória de um grupo humano, seja ele uma pequena comunidade ou um país. Nasce daí o maior mérito do cónego Bonifácio Bernardo, cujo rigor se manifesta mais uma vez, depois de um também interessante estudo sobre o santuário portalegrense do Senhor Jesus dos Aflitos.
Com a leitura deste livro, além do que se expôs, temos agora em mãos pedras fundamentais para a edificação da história de um dos templos mais enigmáticos do Norte Alentejano: a igreja de São Domingos dos Fortios, onde a arqueologia evidencia vestígios romanos e moçárabes, a precisarem de escavação e estudo – não vá um diabo ignorante e construtor tecê-las… Temos também em mãos elementos para aprofundar o entendimento da toponímia do lugar, onde nomes como Cova da Onça, Reluto, Boavista, Monte Tourinho, Matamores e outros apontam para uma presença humana pré-romana, logo muito antiga.

Patrícia Monteiro

Revestimentos murais
no Castelo de Amieira do Tejo

O artigo que agora apresentamos baseia-se na monografia sobre A Capela de S. João Baptista do Castelo de Amieira do Tejo, Análise Histórica e Artística, integrada no trabalho sobre o Castelo de Amieira do Tejo, coordenado pelo Arq.º Pedro de Aboim Inglez Cid e apresentado ao IPPAR, em Novembro de 2004. A nossa investigação decorreu no âmbito das intervenções promovidas pelo IPPAR no Castelo de Amieira, e que tinham como principal objectivo a recuperação deste espaço e a sua dinamização para fins turísticos.
A vila de Amieira do Tejo pertenceu ao Grão Prior do Crato, com foral atribuído pelo Prior do Hospital, D. Gonçalo Viegas, desde 1256. Pensa-se que o seu castelo tenha sido construído no terceiro quartel do século XIV, sobre uma construção mais antiga, por ordem do então Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Pereira, pai de D. Nuno Álvares Pereira, que aqui viria a falecer, em 1383.
Para além do interesse histórico do monumento per si, o Castelo de Amieira apresenta, ainda hoje, vestígios de antigos revestimentos murais, os quais merecem um estudo atento, dada a urgência na sua preservação. Referimo-nos a um conjunto de pinturas murais, de grafitos e de esgrafitos que vieram lançar novos desafios para a interpretação deste edifício.
Antes de mais, é necessário sublinhar a raridade de pinturas murais em zonas de exclusiva função defensiva/militar. Neste caso, os vestígios encontrados localizam-se nas designadas torres do Sanguinho (a sudoeste) e do Pandeirinho (a noroeste). É de admitir que também a torre de menagem, a mais importante das quatro (e a única que seria habitada), possuísse semelhantes decorações. Contudo, tendo sido alvo de alterações profundas, todo o vestígio de revestimentos parietais se perdeu. O nível dos pavimentos foi também alterado, nas três torres, o que significa que poderão existir mais pinturas em registos inferiores ao nível do adarve.
De acordo com as Memórias Paroquiais de Amieira, em 1759 o castelo estava arruinado e as suas torres sem coberturas, nem soalhos. Isto significa que, durante séculos, os revestimentos do Castelo de Amieira permaneceram expostos à chuva e ao vento, com prejuízos irremediáveis para a sua conservação.
Na Torre do Sanguinho foram encontradas em vários pontos das paredes voltadas a oeste, a sul e, sobretudo, a este, manchas de pintura com algumas figuras inseridas em barras de traçado diagonal vermelho e azul. Dado o estado de degradação em que se encontravam, pouco mais se podia distinguir para além do vulto de um cavalo, o que nos levou a pensar que aqui se encontraria representada uma cena de batalha. Após a intervenção de conservação realizada sobre estes vestígios, em 2005, apercebemo-nos da presença de um Calvário.
Os trabalhos de conservação permitiram ver com maior clareza um soldado a cavalo, estando, em primeiro plano outro soldado a pé, (retratando o soldado romano Longinus) que perfura com uma lança o peito de Cristo, ao centro da composição. A raridade deste tema em contexto nacional e a sua presença neste local está relacionada com o público a que se destinava, ou seja, a guarnição militar do castelo que, desta forma, teria junto a si uma representação com especial significado simbólico. Na impossibilidade de prosseguir a leitura iconográfica ao longo dos restantes alçados desta torre, fica o registo deste tema.
Outro dado importante que os trabalhos de conservação vieram a revelar, foi a presença de uma inscrição, no topo do alçado Este. Embora a sua leitura não seja possível, o tipo de letra, bem como a presença de pontuação, separando as capitais, remete-nos para a caligrafia do tempo do reinado de D. Fernando I (1367-1383) ou de D. João I (1385-1433), o que tornaria estas pinturas como das mais antigas conhecidas em território nacional. Tudo aponta para uma sequência de cenas enquadradas pelas barras, marcando uma narratividade entretanto tornada imperceptível. Seria importante investigar o resto das torres até ao nível do solo, e que se encontra, ao momento, inacessível.

Na “Torre do Pandeirinho” (a noroeste) encontram-se representações pictóricas, desta feita de um objecto ao qual se convencionou identificar como sendo um adufe ou “pandeiro”. Trata-se de duas pinturas – uma é o “negativo” da outra – com fitas que se entrelaçam num complexo motivo geométrico quase ao nível do chão, talvez ainda do século XV ou XVI.

Para além das pinturas, foram encontrados no Castelo de Amieira, inúmeros grafitos, todos inscritos, num desenho fino, produzido por um instrumento afiado sobre o reboco que, neste caso (dada a pouca profundidade do traço), já estaria seco.
Na Torre de S. João Baptista podemos admirar um grande número de desenhos sobrepostos gravados no reboco: pássaros, estrelas, barcos, animais e uma figura a cavalo com uma lança. A sua datação apresenta diversas dificuldades, sendo importante proceder-se à datação dos rebocos ainda existentes nestas torres, a fim de determinar se pertencem à fundação do Castelo, ou se serão fruto de uma intervenção ulterior.
Ao contrário das pinturas da Torre do Sanguinho, estas inscrições não seriam vistas com facilidade. O exemplo, até hoje, mais expressivo de inscrições detectadas em rebocos medievais de castelos é a torre de menagem do Castelo de Olivença. A variedade de temas presentes em Olivença oscila entre os elementos geométricos (linhas, estrelas), fantásticos (como a princesa-coruja, reminiscência das sereias da Antiguidade Clássica; animais com cabeça humana); figurativos (guerreiros, um bobo, etc.); heráldicos (brasão) e do quotidiano (barcos). Tanto na torre de menagem do Castelo de Olivença, como no Castelo de Amieira, os desenhos mais simples, ligados a situações do quotidiano ou do imaginário (caso dos seres fantásticos), poderão corresponder a simples passatempos das respectivas guarnições militares.
Outros revestimentos ainda presentes no Castelo de Amieira são os fingimentos de silharia aparelhada, em relevo, visíveis no intradorso da janela voltada a Leste da Torre de S. João Baptista, em diversos pontos exteriores da mesma torre e ainda na base da Torre do Sanguinho.
As condições a que estiveram expostas as torres do Castelo de Amieira ditaram a destruição da maior parte destas representações. No entanto, a questão do revestimento dos panos murários de castelos e igrejas tem vindo a ser alvo do interesse de investigadores, renovando a imagem que temos destes edifícios e contribuindo para o seu conhecimento.
As recentes descobertas vieram valorizar o Castelo de Amieira, oferecendo não só aos estudiosos da matéria, mas também ao próprio visitante, novas leituras de um património arquitectónico rico e sugestivo.