sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Srª. da Lapa
– 5000 anos depois os gestos repetem-se

Jorge de Oliveira



Realizou-se no passado dia 20 de Setembro a Romaria em honra de Nª. Srª. da Lapa, situada junto a Besteiros, na freguesia de Alegrete. Contudo, manda a tradição que esta festividade se realize no último domingo de Setembro, que este ano cairia no dia 27, isto é, no dia das eleições para o Parlamento. Para evitar atropelos e incómodos adiantou-se uma semana a romaria. A festa de gosto popular divide-se em dois espaços: junto à ermida e no terreiro de Besteiros, à volta da “rotunda” do sobreiro. A parte religiosa tem o seu ponto alto na missa celebrada à porta da ermida, incapaz de acolher todos quantos a este paradisíaco local se deslocam. É antecedida pela chegada das imagens religiosas que, com a pompa que a circunstância possibilita, são transportadas em “carrinha” aberta engalanada e acompanhadas pelos festeiros e pelo padre celebrante.

O ritual repete-se. Alguns dias antes caia-se a ermida, aqui e ali dão-se uns retoques no telhado porque o último Inverno foi bravo. O reboco é reposto onde teima em cair. Alinda-se o altar, varre-se o adro e limpa-se a casa do ermitão. No dia da festa elevam-se aos respectivos nichos as imagens, mas a de Nª. Srª. da Lapa apenas espreita o quinhentista altar. Fica à porta para presidir à celebração. O manto de seda e renda reveste-se de notas do cumprimento de promessas, mal se avistando a policromia com que os barristas de Portalegre, dos finais do século XVI, quiseram decorar a pequena imagem da Virgem que segura o Menino no braço direito. Fios e medalhas de ouro enrolam-se ao pescoço da imagem, lembrando outras promessas.




Antes e depois da celebração assiste-se a um invulgar, estranho e interessantíssimo ritual. Sob o altar uma baixa e estreita porta abre-se dando passagem a todos quantos querem visitar o milenar espaço de culto. É verdade, por trás do altar esconde-se uma gruta natural, aberta na rocha quartzítica, onde se guardam memórias de tempos muito recuadas. Alguns dizem que ainda se vê, do lado esquerdo, a imagem do cavaleiro que estará na origem do milagre. Dizem-nos que está pintada a negro mas que já é muito difícil observar. Com velas na mão, as gentes, em fila, precipitam-se para o interior da gruta. Quando lhe perguntamos porque o fazem, apenas nos respondem que sempre o fizeram e os seus antepassados já o faziam. Qual ritual de passagem para um outro mundo original as pessoas curvam-se ou rastejam, à luz dos círios e transpõem o altar, o santo dos santos, para o outro lado. As mães pela mão levam os mais jovens que de olhos arregalados procuram descobrir o mistério que se esconde para lá do altar. E para lá do altar, depois de ultrapassada o estreito corredor entra-se na gruta, onde as memórias da ermida original, cristã, e não só, se misturam com as imagens que os homens pré-históricos pintaram nas paredes deste abrigo, que também foi seu santuário. Por entre os laivos de cal que ainda se conservam da primitiva ermida e se elevam sobre o derrubado muro do original altar descobrem-se, pintadas a traço grosso, de cor vermelha, imagens esquemáticas semelhantes às que se conhecem nos vizinhos abrigos pré-históricos da freguesia da Esperança, ou de Alburquerque. Foi, há pelo menos 5000 anos, que os homens que por estas paragens deambulavam se serviram desta lapa para pintarem memórias da sua passagem, dos seus mitos, dos seus receios ou das suas devoções. São traços esquemáticos que hoje dificilmente entendemos, mas que estão lá a testemunhar como 5000 anos depois os gestos se repetem. Trata-se, em boa verdade, de um local único. Com uma paisagem deslumbrante, próximo de uma fonte, em frente da qual se abre um fértil vale, hoje, na sua maioria, terras de Espanha, o homem pré-histórico apropriou-se do abrigo natural e nas paredes da gruta aí pintou, com tinta indelével, mensagens que até nós chegaram. Pelo menos na Idade-média a gruta pré-histórica foi resgatada pelo cristianismo. Restos de uma primitiva construção, observam-se por detrás do actual altar. Aqui viveria um ermita em meditação. Eventualmente, também aqui se terá cultuado Alá e, posteriormente, o espaço convertido ao cristianismo, onde algum cenobita terá sobrevivido das esmolas que os das redondezas lhe traziam. Nos finais do século XVI ou nos inícios do século XVII a ermida é remodelada, adquirindo, genericamente, a traça que hoje ainda apresenta. Terão sido as influências do longo e purificador Concílio de Trento que obrigaram à renovação do espaço e que por ordens do culto bispo Amador Arraes foram globalmente aplicadas em toda a diocese.

Terminada a celebração, que desta vez teve um significado acrescido ( o padre Marcelino despediu-se da sua comunidade, de partida para a Sé de Portalegre ) os romeiros vão visitar a memória do espaço adjacente à ermida. Noutra concavidade natural, provavelmente também com vestígios pré-históricos, mas esta totalmente caiada, desenvolve-se a casa da última família que aqui viveu e que da ermida tomava conta. A memória desses tempos preserva-se no mais pequeno pormenor. Os velhos leitos ainda estão preparados, a mesa, as cadeiras e os outros pobres “tarecos” parecem esperar pelo regresso dos seus velhos donos. É mais um local de visita obrigatória. Neste espaço os romeiros mais idosos sussurram velhas histórias à medida que entram e saem.

A tarde vai caindo e a festa ainda está meio. Os santos descem dos altares, as cadeiras e bancos regressam à igreja, o sino volta a tocar antes que a portada que o guarda se encerre até para o ano. A “carrinha” engalanada volta receber os santos e algumas santas festeiras que de fato domingueiro as acompanham. A igreja é fechada a sete chaves, apenas lá ficando cópias sem valor das imagens originais, porque essas, agora, em procissão regressam a Besteiros. Junto ao velho Posto da Guarda Fiscal a Banda de Alegrete espera a imagem de Nª. Srª. da Esperança. Aqui se inicia o cortejo a pé até ao centro das festas, à volta do velho sobreiro que agonia desde que alcatroaram o entorno. As imagens recolhem aos novos e improvisados templos e o tempo religioso dá lugar ao tempo pagão. Está na hora da tourada, dos petiscos, do vinho e da cerveja e do bailarico. Para o ano, se no último domingo de Setembro não houver eleições para o Parlamento a Srª. da Lapa voltará a visitar o seu multi-milenar templo.

Fonte:
consultado a 10/2/2011

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