quinta-feira, 6 de outubro de 2011

CENSOS 2011

Resultados preliminares do concelho de Portalegre:
http://www.portugal.gov.pt/pt/GC19/Documentos/MAAP/Fichas_Municipios/Portalegre.pdf
[Ao entrar no cemitério]




"Cruz das Almas", no cemitério de Carreiras (Portalegre)

[Deus vos salve, corpos santos]



1

Versão de Carreiras (Portalegre), recolhida e publicada por Maria Tavares Transmontano (Transmontano, 1976: 127). Transcrição rectificada por Rui Pedro Ventura.



Deus te salve, ó finado,
Que estás por baixo de mim.
Tu já foste como eu
E eu hei-de ser com’ a ti.
Tu pede a Deus por mim
Que eu peço a Deus por ti. (1)



2

Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Cesaltina Esperança Mena (n. 1921) e recolhida por Rui Pedro Ventura em 2001.



Deus vos salve, corpos santos,
Que já foram como nós.
Pécim a Deus por mim,
Que eu rezarei a Deus por vós.



3

Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Rosária da Conceição Pedro (1926-2008) e recolhida por Rui Pedro Ventura em 1994.



Deus vos salve, ó almas santas,
Que já foram como nós,
Peçam a Deus por nós
Que peço a Jesus por vós.



(1) Esta versão, a mais antiga, era recitada quando se entrava na igreja, ou seja, no tempo em que os enterramentos aí se faziam. Era antecedida pela oração de entrada no templo, “Deus te salve, casa santa”, e terminada com a fórmula de conclusão: “Quem a souber que a diga, / Quem a não souber que a aprenda, / Que no Dia do Juízo / Lá terá quem na pretenda.” Trata-se de uma oração cripto-judaica, uma versão da “oração dos mortos” ou de “entrada no cemitério” dos cristãos-novos de Belmonte, publicada por Samuel Schwarz: “Deus vos salve lá passados, / fostes vivos como nós, / nós seremos como vós, / lá nesse céu onde estais / pedi ao Senhor por nós, / que, neste vale de lágrimas, / pediremos ao Senhor por vós.” (Schwarz, 1925: 96 – 97).
O poço sem fundo do castelo de Marvão






1

Versão recolhida por Maria Guadalupe Alexandre antes de 1996.



Existiu um poço na praça principal do castelo de Marvão, junto à torre de menagem. Tinha uma escada circular. As pessoas ao descerem as escadas, por serem tão íngremes, sentiam tonturas e caíam no fundo que estava cheio de água.
Nessa água habitavam monstros que, naturalmente, comiam as pessoas. Dizem os habitantes que em certas noites se ouviam os gritos das almas dos que lá morreram.
Atribuem aos cristãos a construção da cisterna que tem uma ligação ao chamado “poço sem fundo”. […]
O túnel que liga o poço à cisterna, mais ou menos a meio, tem uma sala escavada na rocha, que contém bancos também escavados. Por cima dos bancos, há uma espécie de nichos. As pessoas chamavam-lhe a sala de conferência dos deuses. Os deuses reunir-se-iam aí nas alturas do combate para decidirem a sorte dos atacantes e dos atacados.

terça-feira, 4 de outubro de 2011


A aparição de Nossa Senhora dos Prazeres
(Castelo de Vide)






1

Versão de Castelo de Vide, recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 136).



Nossa Senhora apareceu a um pastorinho no local onde está situada a capela [Vale de Açor, Ponte de Sor] e disse-lhe que fosse a Castelo de Vide pedir aos lavradores para ali construírem uma capela. Assim fizeram, escolhendo para orago dessa capela Nossa Senhora dos Prazeres.
Mais tarde, por motivo de grande estiagem, os lavradores de Castelo de Vide, prometeram anualmente fazer uma festa em honra de Nossa Senhora dos Prazeres, se d’ Ela obtivessem a graça da chuva necessária para os seus campos. A graça foi concedida, chovendo abundantemente. E desde então até hoje, os lavradores de Castelo de Vide lá vão à Ponte de Sor venerar festivamente Nossa Senhora dos Prazeres […].



2

Versão de Castelo de Vide, recolhida e publicada por Maria Guadalupe Transmontano Alexandre (Alexandre, 1987: 476 – 477).



Andando um pastorinho negro com seu rebanho pela Herdade de Alparrajão apareceu-lhe Nossa Senhora que lhe pediu o seguinte:
“Devia vir a Castelo de Vide dizer aos lavradores que lhe construíssem uma capela no local, onde celebrariam uma festa em Sua honra no dia 8 de Setembro de cada ano”.
Perante o embaraço do jovem negro que se mostrou desconhecedor da terra onde deveria dirigir-se explicou a Virgem que “caminhasse até encontrar muitos homens juntos”. E assim chegou.
Não logrou no entanto convencer os destinatários da mensagem e voltou para junto do rebanho. Nossa Senhora apareceu de novo e depois de ouvir o pastorinho enviou-o pela segunda vez a esta vila. E ainda a incredulidade foi a resposta obtida pelo pobre caminheiro. Voltou e pela terceira vez viu a Virgem que lhe prometeu então um milagre:
“Diz-lhes que é tão verdade o que lhes transmites como o será o facto à vista deles te tornares branco”.
E o humilde mensageiro dirigiu-se a Castelo de Vide e falou aos lavradores. O milagre operou-se e perante ele cessaram as objecções. Montaram a cavalo e foram à Herdade de Alparrajão, trazendo uma Imagem que encontraram para a Igreja de Santiago da sua terra.
Conta-se que os cavalos corriam e não se lhes via pinga de suor. Mas o pedido não fora satisfeito. E assim ao outro dia a Imagem desapareceu da vila.
Fizeram então construir a capela na Herdade e começaram a celebrar a festa que ainda hoje se mantém.



3

Versão de Ponte de Sor, recolhida por Primo Pedro da Conceição Freire Andrade e citada por Maria Guadalupe Alexandre (Alexandre, 1987: 478).



[…] Nossa Senhora apareceu uma vez dentro de uma toca de uma azinheira. Um pastor de Castelo de Vide, que apascentava o seu rebanho por ali, encontrou a imagem e levou-a, um dia, para a Igreja da sua terra. Tempos depois, Nossa Senhora voltou ao local da primeira aparição. Novamente o pastor a encontrou e voltou a levá-la. E quantas vezes a Senhora foi levada para Castelo de Vide, quantas vezes voltou a aparecer ali. Então, […] o povo mandou construir no local uma Igreja, cujo altar-mor é no sítio da própria azinheira, que para o efeito foi serrada.
Lugar onde se diz ter existido um torre.

O castelo das Carreiras (Portalegre)






1

Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins em 1994 e recolhida por Rui Pedro Ventura.



Carreiras teve castelo,
Já foi grande e amuralhada,
Onde moravam as lindas mouras
Nos lindos tempos passados.



2

Versão de Carreiras (Portalegre), contada por Maria Tavares Transmontano em 2009 e recolhida por Rui Pedro Ventura.



O castelo era no sítio que tem esse nome, no cimo do povo. Está muito diferente de quando eu era gaiata, escavaram o terreno quando fizeram a fonte [em 1948].
Onde era a quadra das bestas do professor Casa Nova antes havia uma casa quadrada por dentro e redonda por fora, que tinha a porta por fora ao nível do primeiro andar e lá dentro descia-se por umas escadas estreitinhas. O Casa Nova derrubou tudo quando fez a casa.
No outro lado da rua, por detrás de uma casa, está lá um terraço a que se sobe por uma escada estreita. Era o assento de uma torre. A gente ia p’ra lá brincar em gaiatas, porque a escola feminina era ao lado, e achávamos graça a um nicho que lá está que parece o duma ermida, feito com umas pedras.
Dizem que lá morava o capitão da freguesia.
Ali perto havia duas ogivazinhas, a porta de uma casinha que está ao pé da casa mortuária e outra nas traseiras da casa que comprou o Mateus da Catrina.





segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A chegada milagrosa
da imagem de São Pedro a Alegrete






1

Versão recolhida por José António Teixeira Rebelo, pároco de Alegrete, em 1758 (Rebello, 1758 in Ventura, 1995: 100).



[…] A imagem de são Pedro dizem ser Angelical.




2

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 303).



A imagem de S. Pedro foi parar ao Algarve a quando da sua feitura, levando uma legenda que indicava: Alegrete. Duvidosos ou ignorando mesmo a localização de tal terra, resolveram os moradores do lugar onde chegou a imagem colocá-la em cima de um carro puxado por dois bravos e possantes bois. Sem que ninguém os guiasse, os bois vieram ter ao lugar onde a capela foi edificada e ali pararam. […] Logo que a imagem foi tirada do carro, assim os bois morreram.




Nossa Senhora da Alegria
salva Alegrete da peste






1

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 303 – 304).



Consta que em 1582 grassou uma grande epidemia de peste no Distrito de Portalegre, vindo nessa altura viver algum tempo para Alegrete o sábio e virtuoso Bispo D. Frei Amador Arrais, que nesse mesmo ano, em fins de Janeiro, tomara posse da diocese de Portalegre.
O povo de Alegrete, receoso de que tal epidemia o atingisse e vitimasse, resolveu tirar Nossa Senhora d’ Alegria do seu altar e levou-a para as muralhas mais altas onde a colocou e deixou à vista de toda a povoação. Fizeram-lhe preces fervorosas que foram ouvidas pela Mãe de Deus. Em sinal de gratidão prometeram festejá-la anualmente no dia 15 de Agosto. E a promessa tem-se cumprido desde então até agora, cantando-se estas estrofes:

[…]
Pu[s]eram nossos antigos
A Senhora na muralha
Que nos livrasse da peste
Que era mal que a todos dava.

[…]
A Senhora d’ Alegria
Não está em casa, foi fora,
Foi visitar os enfermos
Que estão na última hora.



2

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 304).



[…] a peste entrou na vila e dizimou muita gente, tendo só escapado uma família na Ruinha, hoje rua da Saúde. Então o povo, para que não morressem todos, foi buscar Nossa Senhora d’ Alegria, colocou a sua imagem na muralha e dirigiu-lhe fervorosas súplicas, que foram atendidas, cessando a peste. Daí, o voto gratulatório, realizando-se a festa tradicional que deu lugar a grandes manifestações de alegria.

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