terça-feira, 4 de outubro de 2011


A aparição de Nossa Senhora dos Prazeres
(Castelo de Vide)






1

Versão de Castelo de Vide, recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 136).



Nossa Senhora apareceu a um pastorinho no local onde está situada a capela [Vale de Açor, Ponte de Sor] e disse-lhe que fosse a Castelo de Vide pedir aos lavradores para ali construírem uma capela. Assim fizeram, escolhendo para orago dessa capela Nossa Senhora dos Prazeres.
Mais tarde, por motivo de grande estiagem, os lavradores de Castelo de Vide, prometeram anualmente fazer uma festa em honra de Nossa Senhora dos Prazeres, se d’ Ela obtivessem a graça da chuva necessária para os seus campos. A graça foi concedida, chovendo abundantemente. E desde então até hoje, os lavradores de Castelo de Vide lá vão à Ponte de Sor venerar festivamente Nossa Senhora dos Prazeres […].



2

Versão de Castelo de Vide, recolhida e publicada por Maria Guadalupe Transmontano Alexandre (Alexandre, 1987: 476 – 477).



Andando um pastorinho negro com seu rebanho pela Herdade de Alparrajão apareceu-lhe Nossa Senhora que lhe pediu o seguinte:
“Devia vir a Castelo de Vide dizer aos lavradores que lhe construíssem uma capela no local, onde celebrariam uma festa em Sua honra no dia 8 de Setembro de cada ano”.
Perante o embaraço do jovem negro que se mostrou desconhecedor da terra onde deveria dirigir-se explicou a Virgem que “caminhasse até encontrar muitos homens juntos”. E assim chegou.
Não logrou no entanto convencer os destinatários da mensagem e voltou para junto do rebanho. Nossa Senhora apareceu de novo e depois de ouvir o pastorinho enviou-o pela segunda vez a esta vila. E ainda a incredulidade foi a resposta obtida pelo pobre caminheiro. Voltou e pela terceira vez viu a Virgem que lhe prometeu então um milagre:
“Diz-lhes que é tão verdade o que lhes transmites como o será o facto à vista deles te tornares branco”.
E o humilde mensageiro dirigiu-se a Castelo de Vide e falou aos lavradores. O milagre operou-se e perante ele cessaram as objecções. Montaram a cavalo e foram à Herdade de Alparrajão, trazendo uma Imagem que encontraram para a Igreja de Santiago da sua terra.
Conta-se que os cavalos corriam e não se lhes via pinga de suor. Mas o pedido não fora satisfeito. E assim ao outro dia a Imagem desapareceu da vila.
Fizeram então construir a capela na Herdade e começaram a celebrar a festa que ainda hoje se mantém.



3

Versão de Ponte de Sor, recolhida por Primo Pedro da Conceição Freire Andrade e citada por Maria Guadalupe Alexandre (Alexandre, 1987: 478).



[…] Nossa Senhora apareceu uma vez dentro de uma toca de uma azinheira. Um pastor de Castelo de Vide, que apascentava o seu rebanho por ali, encontrou a imagem e levou-a, um dia, para a Igreja da sua terra. Tempos depois, Nossa Senhora voltou ao local da primeira aparição. Novamente o pastor a encontrou e voltou a levá-la. E quantas vezes a Senhora foi levada para Castelo de Vide, quantas vezes voltou a aparecer ali. Então, […] o povo mandou construir no local uma Igreja, cujo altar-mor é no sítio da própria azinheira, que para o efeito foi serrada.
Lugar onde se diz ter existido um torre.

O castelo das Carreiras (Portalegre)






1

Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins em 1994 e recolhida por Rui Pedro Ventura.



Carreiras teve castelo,
Já foi grande e amuralhada,
Onde moravam as lindas mouras
Nos lindos tempos passados.



2

Versão de Carreiras (Portalegre), contada por Maria Tavares Transmontano em 2009 e recolhida por Rui Pedro Ventura.



O castelo era no sítio que tem esse nome, no cimo do povo. Está muito diferente de quando eu era gaiata, escavaram o terreno quando fizeram a fonte [em 1948].
Onde era a quadra das bestas do professor Casa Nova antes havia uma casa quadrada por dentro e redonda por fora, que tinha a porta por fora ao nível do primeiro andar e lá dentro descia-se por umas escadas estreitinhas. O Casa Nova derrubou tudo quando fez a casa.
No outro lado da rua, por detrás de uma casa, está lá um terraço a que se sobe por uma escada estreita. Era o assento de uma torre. A gente ia p’ra lá brincar em gaiatas, porque a escola feminina era ao lado, e achávamos graça a um nicho que lá está que parece o duma ermida, feito com umas pedras.
Dizem que lá morava o capitão da freguesia.
Ali perto havia duas ogivazinhas, a porta de uma casinha que está ao pé da casa mortuária e outra nas traseiras da casa que comprou o Mateus da Catrina.





segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A chegada milagrosa
da imagem de São Pedro a Alegrete






1

Versão recolhida por José António Teixeira Rebelo, pároco de Alegrete, em 1758 (Rebello, 1758 in Ventura, 1995: 100).



[…] A imagem de são Pedro dizem ser Angelical.




2

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 303).



A imagem de S. Pedro foi parar ao Algarve a quando da sua feitura, levando uma legenda que indicava: Alegrete. Duvidosos ou ignorando mesmo a localização de tal terra, resolveram os moradores do lugar onde chegou a imagem colocá-la em cima de um carro puxado por dois bravos e possantes bois. Sem que ninguém os guiasse, os bois vieram ter ao lugar onde a capela foi edificada e ali pararam. […] Logo que a imagem foi tirada do carro, assim os bois morreram.




Nossa Senhora da Alegria
salva Alegrete da peste






1

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 303 – 304).



Consta que em 1582 grassou uma grande epidemia de peste no Distrito de Portalegre, vindo nessa altura viver algum tempo para Alegrete o sábio e virtuoso Bispo D. Frei Amador Arrais, que nesse mesmo ano, em fins de Janeiro, tomara posse da diocese de Portalegre.
O povo de Alegrete, receoso de que tal epidemia o atingisse e vitimasse, resolveu tirar Nossa Senhora d’ Alegria do seu altar e levou-a para as muralhas mais altas onde a colocou e deixou à vista de toda a povoação. Fizeram-lhe preces fervorosas que foram ouvidas pela Mãe de Deus. Em sinal de gratidão prometeram festejá-la anualmente no dia 15 de Agosto. E a promessa tem-se cumprido desde então até agora, cantando-se estas estrofes:

[…]
Pu[s]eram nossos antigos
A Senhora na muralha
Que nos livrasse da peste
Que era mal que a todos dava.

[…]
A Senhora d’ Alegria
Não está em casa, foi fora,
Foi visitar os enfermos
Que estão na última hora.



2

Versão de Alegrete (Portalegre), recolhida e publicada por António Franco Infante (Infante, 1985: 304).



[…] a peste entrou na vila e dizimou muita gente, tendo só escapado uma família na Ruinha, hoje rua da Saúde. Então o povo, para que não morressem todos, foi buscar Nossa Senhora d’ Alegria, colocou a sua imagem na muralha e dirigiu-lhe fervorosas súplicas, que foram atendidas, cessando a peste. Daí, o voto gratulatório, realizando-se a festa tradicional que deu lugar a grandes manifestações de alegria.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A vida de Jesus Cristo

Versão de Carreiras (Portalegre), recolhida por Augusto Relvas em 1949. Recitada por Maria Lopes, avó do colector (Relvas, 1992). Transcrição revista por Rui Pedro Ventura.



Martírios do Senhor



Nasceu Cristo em Belém.
Ali se viu a Virgem magoada,
Sozinha.
Jesus Cristo tinha.
Com São José se via.
Logo ali lhe acudia
Um preto e uma cigana
A Jesus, neto de Ana,
Visitar.
Deu o Céu em abaixar,
Dando a casa resplendores,
Onde vieram os três pastores
A trazer,
A Jesus Cristo oferecer
Suas fazendas e bens,
Onde vieram os Santos Reis
Também para o adorar.
O Céu, a Terra e o Mar,
Tudo ali ajoelhou
E a Virgem sempre ficou
Pura.
Já temos a salvação segura
Só com este nascimento
E o Augusto Sacramento
Aqui é que principia.
É o Filho de Maria
Que já hoje foi nascido,
Já hoje foi concebido
Por obra e graça
Do Divino Espírito Santo,
Que nele o seu divino poder tanto,
Que é Senhor do mundo inteiro,
Por Deus e homem verdadeiro
Se aclama.
É a fé que se derrama
Por toda a Palestina,
Que é uma fonte de doutrina
Cristã.
É aquela manhã
Que [a]o mundo deu claridade.
É o Sol da Divindade
Que apareceu.
É o maná que choveu
Lá no deserto de Cima.
É a hóstia divina,
Consagrada.
É de Jacob a escada
Por onde o anjo desceu.
Agora é que o mundo se ergueu
De pecar.
Aquele é que foi palpitar
Nas margens do Jordão,
Que lhe pôs seu primo João
“Jesus de Nazaré”.
Jesus de Nazaré,
Salvação, graça e fé,
Disso está o mundo cheio.
Está servindo de recreio
Às almas puras.
Para se cumprir as Escrituras
Se obrigou Cristo a padecer.
E agora é que vamos ver
Os tormentos que o Senhor passou,
As gentes que sustentou.
Com cinco pães e dois peixes
Se fartaram cinco mil pessoas
E ainda sobejou comida.
É bem que o autor da Vida
Fabrique destes banquetes.
Deram-se doze ramalhetes
Ao lava-pés.
Os mandamentos são dez,
Que são os dez cordeiros.
Judas por trinta dinheiros
Vendeu o seu Redentor,
Sendo-Lhe um falso e traidor.
Usou-lhe dessa traição,
Levou seu Mestre à prisão
Por um ósculo de paz.
Junto a casa de Anás
Vai o Senhor conduzido
Entre algozes metido.
Vai preso
Com um ódio tão aceso,
Que lhes terriquem os dentes.
Nem amigos nem parentes!
E consentistes!
Oh mundo, ainda não vistes
Outro como este padecer.
Ouvireis o sangue a correr,
Soando.
É o maldito povo gritando
“Crucifica! Crucifica!”
E é o ódio que implica
Na maldade
E o Senhor com piedade
Tudo isto aguentou,
Todo porque tentou
Deixar o mundo em paz.
Lá em casa de Caifás,
Onde Pedro se negou,
O Senhor disse: “Eu é que sou
O Filho do Padre Eterno,
Que do Inferno
Hei-de tirar as almas.”
O ministro bate as palmas,
Dá um grito violento.
“Faz das pedras sustento,
Se podes!
Lá irás para o rei Herodes.
Lá terás morte de cruz.”
Lá verás, meu bom Jesus,
De Herodes para Pilatos.
Leram seus lindos actos,
Nunca o acharam criminoso.
E o maldito povo raivoso
Sempre gritando que morra.
Morreu Cristo em Jerusalém
Sem cometer nenhuns delitos.
Eram tantos os gritos
Que entoam
E muito longe soam.
Na rua da amargura
Apareceu a Virgem Pura
Chorando,
Que ia procurando
Pelo seu Filho adorado,
Que naquele estado
O via
Feito vale de agonia,
Tal outro não podia haver.
E o Senhor, sem poder,
Caiu com a cruz no chão.
Disse Cristo para Simão:
“Ajuda-me, Simão,
A esta cruz tão pesada!”
E caiu de joelhos na calçada.
Simão foi com a cruz ao Calvário
Onde o Senhor foi crucificado
À força de violência.
Deixou Cristo com paciência
Cravar Seus divinos pés e mãos.
Talvez seus passos vãos
Lhes causassem pensamentos,
Lhes causassem tormentos,
Lhes causassem os espinhos
Para a cabeça
E para que o mundo conheça
O mar em que eu navego.
Um caso se achou. Um cego
Com uma lança,
Que é cego e não alcança,
Só pelo tacto é que feriu.
Logo daquele peito saiu
O sangue da divindade.
Deixou Cristo à Cristandade
Suas chagas em aberto.
Vieram soldados por duas vezes
Com martelos e torquezas
Para Cristo despregar,
Para o irem sepultar
Numa sepultura nova.
Ali foi o Senhor descido à cova,
Onde o Sol perdeu a luz,
Onde o Sol se encerrou.
Só a Mãe de Jesus chorou.
O evangelista João
Chorava que esmorecia.
Onde vieram as três Marias
Numa noite nebulosa e escura
Buscar Cristo à sepultura.
Respondeu um serafim:
“Jesus não está aí.
Ressuscitou.
Foi triunfante para o Céu,
Para a companhia do seu Divino Pai,
Da Senhora com o seu manto,
Do Divino Espírito Santo,
Da Estrela Matutina,
Da Santíssima Trindade.”
Ámen.

Virgem Maria no Calvário
(Casa-Museu José Régio, em Portalegre)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Santa Bárbara

Santa Cecília

São Jerónimo

São José

São Sebastião

Marvão:
conjunto de pinturas murais
descobertas numa casa da vila

domingo, 14 de agosto de 2011

SOBRE O TOPÓNIMO
"CASTELO DE VIDE"


O sítio Fonte da Vila (http://www.fontedavila.org/) já publicou o meu novo artigo, intitulado A Vide e o seu Castelo (e outros toopónimos da terra de Cristovam Pavia). Como o título indica, reflecte sobre o topónimo "Castelo de Vide" e, ainda, sobre outras designações da vila, tais como "Aldeia", "Arçário", "Arrochela", "Poço de Aluáca", "Mascarro", etc. O texto pode ser lido em: http://www.fontedavila.org/multimedia/doc_textos_artigos/ta_rv_cv_toponimo.pdf
Agradeço desde já a leitura.

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