segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


Igreja de Santa Maria ou de Santa Ana
(Alegrete)


Quanto no ano de 1725 o doutor João de Sequeira Sousa, juiz de fora de Arronches, se dirigiu a Alegrete para proceder à medição do local onde existira a igreja de Santa Ana, já nada se conseguia vislumbrar deste antigo templo. Ainda assim, a memória serviu de auxiliar: “fomos ao Sitio que hoje se chama de Santa Anna junto á muralha do Castello da parte de fora da parte de Santa Maria por sima da Igreja de São Pedro para effeyto de demarcar o terreno da Igreja que tinha sido da Senhora Santa Anna e por se não descubrir a largura, nem o cumprimento, mas somente se verificar que naquele sitio tinha sido por assim o depor o Sargento mor Gregorio Mergulhão, e os louvados afirmarem o ouvirem dizer geralmente mandou o dito Juis de fora, e tombo firmar hum marco com quatro testemunhas para a todo o tempo constar”.
Este extracto do Tombo dos bens da Capella de Santa Anna, guardado no Arquivo Distrital de Portalegre, prova-nos que a igreja já não existia no primeiro quartel do século XVIII. Aponta ainda uma localização precisa para o monumento desaparecido: junto à Porta de Santa Maria, encostado às muralhas, sobre a igreja de São Pedro.
A invocação de Santa Ana, mãe da Virgem Maria, é no entanto tardia na história deste templo, aparecendo unicamente a partir da década de 70 do século XVII. Antes dessa data, a igreja era de Santa Maria ou de Nossa Senhora, dando origem inclusivamente à designação toponímica de uma das portas das muralhas de Alegrete. Teve origem numa capela (legado pio) instituída por Vasco Anes e outros benfeitores, colocada sob a protecção da Virgem. Dotada com vastas propriedades no concelho de Alegrete e noutros limítrofes, era administrada pela Câmara da vila, à qual pertencia “a nomeação e elleyção de administrador, e capellão, Cuja elleyção sua Magestade constuma confirmar plo seu Dezembargo do Passo”.
Desconhecemos a data desta instituição. A situação não era diferente da que existia no início do século XVIII: “por ser muyto antiguissima não há notiçia della, tendose feyto exactas deligençias tanto nos Cartorios desta Vila, Como no desta Provedoria [de Portalegre]”. Deveria remontar, contudo, à Idade Média, tendo em conta que já existia na segunda metade do século XV.
O primeiro documento em que claramente se menciona a igreja de Santa Maria data de 1477. Nesse ano, a 5 de Maio, uma carta dada em Évora em nome de D. Afonso V, mas assinada pelo futuro D. João II, então príncipe regente, nomeia Lopo Vaz de Camões (um descendente de Vasco Pires de Camões, alcaide-mor de Portalegre? um ascendente do poeta autor d’ Os Lusíadas?) “em toda a Sua vida por Provedor da capella de Sancta Maria de Alegrete, e todolos bens que a ella pertencem”. Na mesma carta, este fidalgo (“cavaleyro de nossa caza”) é autorizado a “arendar, e desarrendar, aforar, e desaforar, e fazer dos bens da dita Capella todo o que Sentir que he bem, e proveyto della”, mas com uma condição: “que o dito Lopo váas Levante a Igreja, e ponha em ella cálix, e vestimenta, e todalas outras couzas que á dita Capella cumprirem”. E ainda com a obrigação de mandar dizer “cada Sabádo em cada huma Semana huma missa, e mais todas as festas principaes de Santa Maria polas almas dos defuntos que os ditos bens Leyxarão à dita Capella”. O documento coloca-nos uma dúvida em relação à origem da igreja. D. Afonso V obriga Lopo Vaz de Camões a “levantar” o templo. Não sabemos no entanto se o verbo aponta para um construção nova, de raiz, ou para uma reconstrução. Colocamos no entanto a hipótese de uma existência anterior: em primeiro lugar porque o legado pio (anterior a 1477) necessitaria de um espaço específico para o cumprimento das obrigações religiosas a ele vinculadas; em segundo porque a invocação de “Santa Maria” é tipicamente medieval, muito anterior a uma data tão avançada quanto o último quartel de quatrocentos. Seja como for, parece-nos claro que após o diploma do rei Africano foi edificado um novo templo, devidamente equipado pelo provedor da capela nas suas necessidades materiais.
No primeiro quartel do século XVII a igreja de Santa Maria era descrita da seguinte forma: “Tem a dita capella a Irmida extramuros da dita villa de Alegrete á porta de Sancta Maria que tomou o nome desta mesma Irmida, a qual he huma Irmida de uma só nave”. Nessa data, nela celebrava missa quotidiana o capelão, havendo festa solene no dia de Santa Ana. Talvez por essa razão a invocação primitiva foi sendo substituída, ao ponto de só a mãe de Maria ser recordada a partir do século XVIII.
Este templo de Alegrete sofreu no entanto várias vicissitudes. Numa inquirição realizada a 23 de Dezembro de 1672, Manuel Soilheiro, sargento-mor da vila, com 61 anos, afirmava: “nesta villa extramuros havia huma Igreja, e se chamava a de Sancta Anna, a qual Igreja se derribou por cauza das guerras”. A guerra seria então a da Restauração. E é natural que uma igreja encostada às muralhas, junto de uma das suas portas, fosse atacada pelo inimigo – ou demolida pelos alegretenses, para não facilitar a entrada das forças opositoras no espaço muralhado. Noutra inquirição, realizada em 1712, Pedro Moreira (com 70 anos de idade) recordava no entanto “que o Capellão Manoel Rodrigues Reedificou a dita capella, de abobada a Igreja e huma sanchristia”.
A sorte da antiga igreja de Santa Maria não foi, no entanto, duradoura. Durante a Guerra da Sucessão de Espanha (1704-1713) o edifício foi demolido por razões de segurança: “por estar contigua ao castello […] se mandou derribar quando o inimigo na guerra passada prizidiou a praça de Arronches”. Não mais foi reconstruído.
O seu recheio foi então transferido para a igreja de São João Baptista, matriz de Alegrete. Aí, provisoriamente, continuaram a ser cumpridas as disposições dos instituidores da capela, mais precisamente no altar onde fora colocada a imagem de Santa Ana. Poucos anos depois, a escultura foi transferida para a igreja do Espírito Santo, onde passou a ser venerada em capela própria, dotada de sacristia particular, com entrada independente pela rua Direita da vila.
Com a implantação da República e profanação do templo onde se encontrava a imagem da avó de Jesus Cristo, esta regressou à matriz de Alegrete, local onde foi observada e fotografada por Luís Keil no início dos anos 40 do século XX (cf. Keil, 1943: 150). Em 1955 foi exposta ao público no Seminário Diocesano de Portalegre, no âmbito da mostra de Arte Sacra aí realizada aquando da inauguração desse edifício. Lamentavelmente, as autoridades eclesiásticas não mais a fizeram regressar à localidade para onde fora adquirida ou mandada esculpir, provavelmente por Lopo Vaz de Camões. Esteve ainda presente na exposição comemorativa do 450 da Diocese de Portalegre, realizada no ano 2000, não mencionando estranhamente o catálogo (organizado pelo padre José Patrão) a sua proveniência.
Esta peça do século XV é o último documento artístico proveniente da antiga igreja de Santa Maria de Alegrete: uma escultura gótica em pedra de ançã, policromada, com 76 centímetros, representando as Santas Mães (ver foto).



quarta-feira, 9 de dezembro de 2009


Póvoa e Meadas (Castelo de Vide):

retábulo da igreja de Nossa Senhora da Graça

(desaparecido)


Fotografia publicada em http://povoameadas.com.sapo.pt/



CAPELA DE SÃO BENTO
(Quinta de São Bento - Ribeira de Nisa)



A referência mais antiga que conhecemos à capela de São Bento deve-se ao padre Diogo Pereira Sotto Maior (1616). Descrevendo algumas quintas situadas nos arredores da cidade de Portalegre, depois de elogiar a grandeza passada da propriedade de Manuel de Sousa (hoje chamada "dos Cantarinhos"), afirma a dado passo:
"Além desta, está outra quinta quasi dous tiros de besta de distância, que se chama do Azambuja, onde está ua ermida do bem-aventurado Sam Bento, que também foi mui célebre e nomeada neste reino, quando seu dono a pessuía. Agora leva quasi o caminho da que acima fica tratado, porque também está meia arruinada" (Sotto Maior, 1984: 55).
A capela de São Bento, integrada na quinta do mesmo nome, propriedade de D. Isabel Maria Malato de Sousa, está hoje em bom estado de conservação. Apresenta, com poucas alterações, a arquitectura e a decoração com que foi edificada, provavelmente na segunda metade do século XVI.
Orientada para nordeste, a única fachada virada para o exterior é extremamente simples, lateral e a sudeste. Para além da porta, possui apenas uma janela de iluminação e uma pequena sineira de alvenaria. A entrada faz-se por um pequeno pórtico em granito chanfrado, pintado de amarelo, sobre o qual se ergue um interessante registo em azulejos polícromos de finais do século XVIII, assente sobre pedestal em forma de trono constituído por um conjunto de azulejos de figura avulsa representando flores. No painel figura a efígie do orago da capela, São Bento de Núrsia.








O interior é de pequenas dimensões. É coberto por uma abóbada de berço, com caixotões pintados de azul, decorados com estrelas pintadas de branco e molduras da mesma cor. Sem capela mor, o espaço de celebração está elevado em relação ao dos fiéis, acedendo-se a ele por três degraus de granito.
O retábulo, em talha polícroma, é de simples mas interessante factura, sendo certamente contemporâneo da construção da capela, embora repintado. Dentro do estilo comum na segunda metade de quinhentos, apresenta ao centro um nicho com a imagem do padroeiro, com pedestal já do século XVIII, ladeado por duas peanhas onde permanecem ao culto imagens de Nossa Senhora do Rosário (em madeira estofada, já barroca) e de Santa Rita (de roca). O conjunto é coroado por um tímpano semicircular, onde figuram alguns dos atributos de São Bento (a mitra e o báculo). A banqueta do altar é setecentista.
No lado esquerdo, em frente à porta de entrada, a capela possui ainda um púlpito com grades de madeira torneada e base de mármore. De destacar também os rodapés constituídos por azulejos azuis e brancos, do século XVII.
Na parede oposta ao altar mor rasgam-se dois vãos. Ao nível térreo a entrada para a antiga sacristia. No nível superior uma tribuna, com grade semelhante à do púlpito.
Segundo nos contou a proprietária, a Quinta de São Bento terá servido de refúgio a uma comunidade de beneditinos em fuga, certamente após a extinção das ordens religiosas (1834). Como o abade estava paralítico, foi necessário abrir a referida tribuna para que ele pudesse assistir aos serviços religiosos.
Tendo em conta a arquitectura pouco comum desta capela em relação ao modelo geralmente adoptado para os pequenos templos particulares, esta lenda coloca-nos dúvidas sobre qual teria sido realmente a origem deste edifício para além da sua (re?)construção no século XVI. As hipóteses seriam várias. Infelizmente não podemos confirmar por agora nenhuma delas.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009


Póvoa e Meadas (Castelo de Vide):

retábulo da igreja de São Sebastião (actual Misericórdia)

Castelo de Vide:
passo no largo de São João


Fotografia de Dias dos Reis
publicada aqui.
Castelo de Vide:
retábulos da igreja de São João Baptista

Fotografia de Dias dos Reis
publicada aqui.

Portalegre:

Alminhas na Estrada de Santana.

Fotografia publicada em:

Pesquisar neste blogue

Etiquetas

Arquivo do blogue

CARTA ABERTA A JOÃO MIGUEL TAVARES Caro João Miguel, Tomo a liberdade de tratar-te por tu. Somos afinal conterrâneos, apesar de ...