sexta-feira, 4 de dezembro de 2009


DUAS IGREJAS DESAPARECIDAS
DA CIDADE DE PORTALEGRE


Ao lermos de forma cuidada o acervo documental preciosíssimo constituído pelas Memórias Paroquiais, escritas pelos diversos párocos do concelho de Portalegre em 1758 por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo, deparamo-nos com uma série de referências a várias igrejas e capelas de que hoje não resta qualquer presença física, mas apenas uma memória mais ou menos diluída, às vezes com vestígios na toponímia.
De entre elas, foram vários os edifícios a que perdemos o rasto dentro da própria cidade, levados alguns pela erosão do tempo e muitos outros pela incúria ou pela acção lesiva dos homens. Neste texto pretendemos sinalizar apenas algumas igrejas e capelas ainda existentes no século XVIII, deixando para ocasião posterior a referência a outros templos, nomeadamente às sedes de paróquia.

*

A igreja de São Lourenço do Picoto, tão pequena nas suas dimensões, já em 1552 dera origem na toponímia portalegrense à Rua de São Lourencinho - ainda hoje existente -, certamente o local onde se erguia. Situada muito próxima da Sé, era - na época - a única filial deste templo dentro das muralhas, como se pode ler nas palavras de Manoel Gonçalves Boroa: "Intramuros não tem esta freguezia Ermida alguma excepto a Igrejinha de são Lourenço a qual não consta tenha Padroeyro nem fabrica, nem há notícia da sua fundação [...]" (Boroa, 1758 in Ventura, 1995: 121). Desconhecendo-se a data do seu desaparecimento, segundo uma tradição quinhentista difundida entre os cristãos-novos elevar-se-ia no local onde antes existira a sinagoga da judiaria de Portalegre (cf. Tavares, 1989: 39). A sua construção remontaria, por isto, aos primeiros anos do século XVI, depois da conversão forçada dos judeus ao cristianismo ocorrida por ordem do rei D. Manuel após 1496.



A igreja de Santo André foi demolida em 1973, embora nessa época dela restasse apenas a estrutura, abandonada e profanada depois da implantação da República. Existente já na segunda metade de quinhentos, com fachada virada a poente, elevava-se a norte do Rossio do Espírito Santo, freguesia de São Lourenço - no local onde hoje está o edifício dos Correios. Tinha três altares em 1758: "santo Andre Apostolo como altar mor, e dois colatrais, à parte do Evangelho a Senhora da Graça, e à parte da Epistola São Simão" (Sequeira, 1758 in Ventura, 1995: 128).

(Na imagem: aspecto do Rossio de Portalegre; na parte cimeira, observa-se uma habitação com quatro janelas: trata-se de um vestígio da igreja de Santo André, então já profanada e transformada.)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


IGREJA DE SANT' IAGO MENOR
(Santiago de Caiola - Urra)



A referência mais antiga que conhecemos à igreja de Sant' Iago Menor data de 11 de Agosto de 1565. Trata-se de um assento de casamento, registado pelo padre Jorge Soares nos livros de São Martinho de Portalegre, pelo qual ficamos a saber que nesse dia "Recebeo o padre joão serra [coadjutor da mesma paróquia] em samtiago de caiola a joão martins e a graçia miranda do monte da Vrra por marido & molher". Não sabemos qual seria a antiguidade deste templo nessa data. Deduzimos no entanto deste documento que o mesmo seria filial da sobredita freguesia citadina. Este facto parece confirmado por um acordo celebrado em 1501 entre os párocos de Portalegre, no qual atribuiram ao prior de São Martinho o encargo de administrar os sacramentos aos que moravam "do caminho do Cratto levando o termo ao redor ate o caminho de Arronches" (S/A, 1983).
O edifício que se podia observar até há poucos anos parecia confirmar uma edificação que remontaria a meados do século XVI, embora interiormente tenho sofrido grandes modificações. Esta datação é confirmada por Luís Keil (cf. Keil, 1943: 152).
A fachada principal - bastante simples - parecia ser, com poucas alterações, a original. Virada a sudeste, era ladeada por uma pequena sineira em alvenaria. Possui uma porta com guarnição granítica, ainda com vestígios da primitiva moldura chanfrada, e uma janela de iluminação no mesmo alinhamento. Modernamente, haviam sido aí colocados dois pequenos registos de azulejo, representando imagens veneradas no interior (o orago e Nossa Senhora das Mercês).
O interior, de uma só nave, havia sido quase completamente remodelado durante a segunda metade de setecentos e restaurado já no século XX. Luís Rodrigues Galego, pároco em Sant' Iago de Caiola no ano de 1758, descreve o templo com as seguintes palavras:
"O orago, ou padroejro da mesma Igreja he sãao Thiago menor tem altar mór, e dois Colatrais; o mór tem hua imagem de Christo Cruxificado em vulto, Nossa Senhora das Mercês, são Thiago Menor, são Pedro, e são Ioão Baptista tãobem em vulto; o altar do lado do Evangelho sancto Antonio; e o da Epistola Nossa senhora dos Prazeres; hua e outra a Imagem tão bem em vulto; toda a Igreja não tem repartição alguma, e Consta sò de huma Nave" (Galego, 1758 in Ventura, 1995: 117).
Com coro sustentado por um arco abatido e pia baptismal à esquerda de quem entrava, a imagem até há pouco tempo não era muito diferente. Apenas algumas das imagens expostas à veneração haviam mudado, seguindo o gosto da época. Os retábulos, principal e colaterais, eram todos em alvenaria dourada e pintada, seguindo o estilo comum na região durante da segunda metade do século XVIII: nicho central ladeado por colunas, frontão elevado ou interrompido. O púlpito era da mesma época e construído nos mesmos materiais e com decoração semelhante. Merece realce no entanto o frontal do altar-mor, "de gesso dourado, tipo espanhol do século XVII" (Keil, 1943: 153). Na capela-mor encontravam-se ainda dois baldaquinos, em madeira pintada e dourada, no estilo neo-gótico oitocentista.
De entre as diversas imagens expostas na igreja, merecem referência as que representam Sant' Iago Menor e São Pedro, esculturas "redondas" situadas na transição do século XVI para o seguinte - infelizmente desvalorizadas por restauros executados sem nenhum critério.
Pequeno para a população da freguesia da Urra, há poucos anos o corpo da igreja foi completamente reconstruído, a partir de uma iniciativa do padre Marcelino Marques, passando a ter três naves. A nova fachada, completamente nova, reproduz num tom contemporâneo a antiga.
CAPELA DE NOSSA SENHORA DE BELÉM
(Covas de Belém - Portalegre)



A capela particular de Nossa Senhora de Belém está situada a escassos quilómetros da cidade de Portalegre, numa quinta erguida na encosta da serra, em local hoje conhecido pelo topónimo Covas de Belém.
O único documento de que temos conhecimento sobre este edifício é assinado em 1758 pela mão de Manoel Gonçalves Boroa, pároco da Sé, freguesia a que pertence. Trata-se de uma passagem da "Memória Paroquial", que diz o seguinte:
"A Ermida que ao prezente há nesta freguezia mais frequentada das romagens he a de nossa senhora de Bellem, que em huma quinta sua fundou nas faldas da serra de Portalegre o Padre Frey Iozé do Sacramento Relligiozo da Órdem de são Ioão de Deos haverá trinta e sinco annos pouco mais ou menos, á qual em todo o tempo do anno concorre muyta gente em romaria assim da cidade, como desta Provincia, e ainda muyta do Reyno de Castella parte atrahidos da amenidade do sitio, e parte dos muytos milagres que fás a Imagem da senhora ou Deos por sua intercessão, da quinta em que ella está situada, he ao prezente possuidor o Reverendo Padre Iozé Meyra Barreto."
Os dados aqui presentes não contrariam aqueles que ainda hoje podemos observar no pequeno edifício, ladeado por duas habitações modestas, enquadrando um pátio soalheiro virado a sudoeste.
Trata-se, de facto, de uma capela edificada na primeira metade do século XVIII, quer pela sua estrutura arquitectónica em estilo chão, quer pela inscrição esculpida no lintel da porta de entrada: "F. [?] J. - N. S. DE BELEM 1723". As primeiras consoantes abreviadas deverão pertencer ao nome do fundador - Frei José do Sacramento. A restante legenda corresponde, como é bom de ver, ao orago da casa e ao ano da fundação - 1723.
O templo, de reduzidas dimensões, é constituído por dois volumes que correspondem às divisões do interior. O espaço antigamente destinado ao culto é constituído por nave e capela mor, separadas por um arco de volta perfeita saliente, tudo coberto por abóbadas de berço.
A fachada é dominada pela sua única porta, emoldurada por granito da região, com bases pouco salientes e decoradas por elementos geométicos, encimada por uma cornija - mantendo o gosto de finais do século XVII. A toda a largura da mesma corre uma outra cornija, em alvenaria, sobre a qual se ergue um frontão ligeiramente recortado, com ténues vestígios de decoração em massa. Nele se inscrevem um óculo de iluminação e um nicho. O conjunto é completado por três pináculos assentes sobre plintos, um no vértice e dois nas extremidades.
A imagem de Nossa Senhora, exposta no nicho da fachada, é uma peça em barro esculpida a meio corpo, na qual se observa a Virgem com cabeça inclinada coberta por manto, segurando com a mão direita o corpo do Menino que a abraça junto ao pescoço. Dotada de uma expressividade tipicamente barroca, cremos tratar-se de uma escultura saída da mão de barristas locais, embora com algumas características que a distinguem de outras congéneres conhecidas.
A capela de Nossa Senhora de Belém - a necessitar de conservação - foi transformada pelo seu proprietário, já no século XX, em lagar de vinho, servindo presentemente como arrecadação para os rendeiros da quinta.
Apesar da profanação, subsistia ainda há poucos anos - como vislumbre do espírito religioso - a devoção de um velho pastor que, todos os anos pela noite de Natal, alumiava a Senhora com uma lamparina de azeite.
CAPELA DE NOSSA SENHORA DAS DORES
(Quinta da Lameira - Reguengo, Portalegre)



Integrada no solar da Quinta da Lameira, a capela de Nossa Senhora das Dores situa-se na freguesia do Reguengo.
A casa nobre de que faz parte foi fundada e edificada no último quartel do século XVIII, mais precisamente no ano de 1783, conforme se pode ler em lápide de mármore colocada sob o brasão dos proprietários: "IOAO DA FON[SECA] ACHIOLI / COU[TINH]O E D. MARIA SERGIA / ACHIOLI DE SOUZA TAVA- / RES FIZERÃO NO ANNO / DE MDCCLXXXIII". Trata-se de um edifício alongado, com um só piso na fachada principal, possuindo em cada extremidade dois corpos mais elevados.
O pequeno templo particular situa-se a poente, com entrada pelo exterior, orientado no sentido Norte - Sul. A fachada é ladeada por pilastras de alvenaria pintada, sendo a porta de entrada e a janela de iluminação debruadas por molduras em granito lavrado ao gosto barroco da época da fundação. O conjunto é encimado por um beirado ornamental, sobre o qual se ergue um frontão recortado, cuja ornamentação é feita por algum trabalho em massa, simples, com espirais emoldurando o conjunto e - no tímpano - um óculo falso ladeado por elementos fitomórficos. A decoração é completada por acrotérios: uma cruz no do vértice e dois pináculos nas extremidades.
O interior é de pequenas dimensões, com tribuna sobre a entrada.
Possui um retábulo barroco de finais do século XVIII, em alvenaria pintada e dourada, com um nicho central ladeado por colunas e duas peanhas. Nele está exposta à veneração a "Virgem da Lameira" - Nossa Senhora das Dores - escultura em madeira estofada, de excepcional beleza e dramaticidade, com resplendor e setas em prata, atribuída - segundo Luís Keil - ao escultor Machado de Castro (cf. Keil, 1943: 152). Para além desta peça, são ainda de destacar as imagens de São João Baptista e de São Diogo, mais pequenas, também do século XVIII, de interessante mas mais simples factura.
As paredes de capela estão revestidas por seis painéis de estuque representando cenas da vida de Jesus Cristo, nomeadamente algumas das dores de Nossa Senhora, em coerência com o orago. No lado direito temos o encontro de Cristo com as mulheres de Jerusalém e Jesus crucificado a quem um soldado estende uma cana com esponja na extremidade para lhe dar de beber. No lado esquerdo observamos o Menino entre os doutores e a descida da cruz. Nestas paredes laterais estão duas portas (sendo uma delas falsa) sobre as quais existem ainda dois medalhões ovais representando a fuga para o Egipto e Santa Maria Madalena.
Ao culto nesta capela de Nossa Senhora das Dores está ainda uma imagem do Senhor da Paciência, exemplar dos chamados "barros de Portalegre" - em cor natural.
Estruturalmente o seu estado de conservação é bom, necessitando no entanto de restauro no altar e nos estuques.


IGREJA DO MÁRTIR SÃO SEBASTIÃO
(Carreiras, Portalegre)



De acordo com os dados disponíveis, é difícil determinar a data da edificação da igreja de São Sebastião das Carreiras. Há porém uma lenda que a faz remontar aos tempos imemoriais em que a aldeia terá sido fundada.
Os diversos indícios documentais não permitem no entanto que recuemos para além de finais do século XV. É possível que já existisse em 1501, ano em que os priores das igrejas de Portalegre dividiram entre si os moradores (mais concretamente, os moleiros) que viviam na área rural do concelho. Nesta data é atribuído ao pároco de São Lourenço o encargo de administrar os sacramentos aos que moravam entre o caminho de Marvão e o caminho de Castelo de Vide, área hoje em parte pertencente à freguesia de Carreiras (cf. S/A, 1983). Em 1544, antes mesmo da criação da diocese, era já sede de paróquia.
No início da década de 1580 as cartas nascidas da presença nesta igreja do visitador ou do bispo de Portalegre, mostram-nos um templo que ameaçava ruína nas paredes e no tecto - prova da sua antiguidade. É nesta altura que D. Frei Amador Arrais ordena aos mordomos do Mártir Santo que a reparem, recolhendo fundos entre a população, dando assim cumprimento a um acordo antigo entre os moradores da aldeia e o pároco de São Lourenço da cidade, de que fora filial. As obras concluíram-se em 1584, mas anos depois foram necessárias novas reparações. Em finais do século XVI a igreja tinha três altares: o maior, o de Santo António e o do Nome de Jesus. Nesta altura terá sido também construída a capela de Nossa Senhora da Alegria, então provavelmente com outra invocação mariana, embora os documentos sejam silenciosos a seu respeito.
Em 1629 foi alvo de nova reparação, embora não saibamos que alterações trouxe. À primeira metade do século XVII pertence ainda o retábulo da capela mor, que terá sido posteriormente modificado para a instalação do trono.


Retábulo da capela-mor (meados do século XVII)
(Foto de RV)
 Em meados do século XVIII o templo precisava de novas obras de beneficiação e de ampliação. Comparado em 1758 a uma ermida, continuava com três altares (sendo os laterais agora dedicados a Nossa Senhora e a Santo Cristo ou Senhor da Paciência). Carecia no entanto de um baptistério e de um campanário onde o sino se pudesse tocar por fora, para além de outras carências menores. A comunidade, aliada ao padre Alexandre Xavier Ferreira, decide então reconstruir a igreja. As obras iniciam-se em 1771, sendo concluídas só em 1778, devido à escassez de recursos. A altura e o comprimento são aumentados, ficando com uma nova fachada dotada de torre sineira.
Foram de pouco vulto as alterações que sofreu até à década de 1960. A partir desta data, o corpo da igreja é descaracterizado, com a eliminação dos altares laterais e a substituição do tecto de madeira por betão armado.



Estamos perante um templo de pequenas dimensões, constituído pela aglomeração de vários volumes em torno da nave e da capela mor. Entre eles destacam-se a torre sineira, a capela lateral de Nossa Senhora da Alegria e o trono, para além de outras dependências, como o baptistério.


Retábulo da capela de Nossa Senhora da Alegria (1ª metade do século XVII)
(Foto de RV.)

A fachada é virada a poente e apresenta as feições que recebeu na década de 70 do século XVIII. Apresenta um portal em granito de grão fino, com bases abauladas e sanca, sobrepujado por um registo em azulejo de meados do século XVIII representando o Mártir São Sebastião e por um óculo de iluminação. O campanário situa-se a norte, com três sineiras (uma delas tapada), rematado por uma pirâmide quadrangular com toscos pináculos em granito nos vértices e cata-vento.


Registo de azulejos na fachada (meados do século XVIII, oficina lisboeta).
(Foto de RV)

A nave foi quase totalmente adulterada na segunda metade do século XX. Apresenta uma cobertura de betão onde antes estava um tecto de asna em castanho. Possuía dois retábulos laterais em madeira, de finais de setecentos, dedicados à Senhora do Rosário e a Santo António - recentemente desaparecidos. Nela se pode observar ainda o púlpito, com base em cantaria e balaustrada de madeira pintada. O coro foi reconstruído há poucos anos.
No lado norte situam-se vários corpos anexos. Destacamos, em primeiro lugar, o baptistério, com pia instalada em 1901 e gradeamento em madeira torneada datado de 1782. De seguida a capela dedicada desde o século XVIII a Nossa Senhora da Alegria: uma construção de inspiração islâmica, com planta quadrangular e cúpula hemisférica assente sobre pendentes, onde merece relevo o pequeno retábulo maneirista inspirado em obras do escultor Gaspar Coelho, mestre de vários altares da Sé de Portalegre. Este espaço foi decorado com pinturas murais, ainda existentes, mas completamente caiadas.
A capela-mor é o espaço mais preservado da igreja. Apresenta um tecto pintado a fresco por mão regional, com abundante decoração grutesca fitomórfica que enquadra as representações de São Sebastião e São João Baptista, ladeando uma custódia - numa alusão ao Santíssimo Sacramento. O retábulo, embora recebendo inspiração do maneirismo de Gaspar Coelho, é uma obra já da primeira metade do século XVII ou posterior. Duas grandes pinturas sobre madeira, ladeadas por colunas, representam São Gregório Magno(ou São Silvestre) e São José, num conjunto coroado por uma outra em hemiciclo onde figuram São Miguel e outros anjos salvando as almas do Purgatório. Ao centro temos o arco de abertura para o espaço do trono, com abóbada também possuidora de frescos com volutas. O sacrário actual foi ali colocado na década de 1940, sendo ladeado por esculturas de vulto pleno representando São Sebastião e o Menino Deus.
Do recheio deste templo destaca-se a sua colecção de esculturas, com peças dos séculos XVI, XVII e XVIII, entre as quais sobressaem as representações do padroeiro e da Senhora do Rosário, de excepcional qualidade, e duas peças pertencentes aos "barros de Portalegre" (Sant' Ana e Santo Isidro). Merecem também relevo algumas peças de ourivesaria, nomeadamente uma custódia em prata dourada, do início de seiscentos.
O estado de conservação é muito bom, necessitando porém de restauro criterioso os retábulos e algumas das imagens aí veneradas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

APONTAMENTOS
SOBRE A HERDADE DE JOÃO MARTINS
(Carreiras, Portalegre)



Situada na freguesia de Carreiras, no sopé da Serra de São Paulo, junto do caminho que separa os concelhos de Portalegre e de Castelo de Vide e perto de uma linha de água importante (a ribeira “de Nisa”), a herdade denominada “João Martins” reserva entre os seus limites alguns dos vestígios mais remotos dessa parte do Norte Alentejano, entre os quais se destacam mós neolíticas, uma anta e restos de povoamento da Alta Idade Média, nomeadamente chafurdões. Possui ainda vestígios de construções mais recentes, talvez do século XV.
Não é possível explicar sem dúvidas a origem do seu topónimo, uma vez que não surge na documentação antiga. Não será no entanto impossível relacioná-lo directamente com um tal “João Martins”, lavrador nascido por volta de 1481 e morador nos “Montes do Carreiro” (hoje “Carreiras”), que em 1511 foi nomeado pelo rei D. Manuel I – com outros habitantes do concelho de Portalegre – “besteiro do monte”, por carta passada em Évora no dia 28 de Fevereiro desse ano, assinada por Garcia de Melo.
A par dos besteiros urbanos – que pertenciam, nas vilas e cidades medievais, a uma “aristocracia popular”, pois sendo atiradores de besta constituíam uma espécie de milícia de elite, recrutada entre indivíduos de certa posição (segundo afirma Sérgio Luís Carvalho) – os “besteiros do monte” seriam talvez responsáveis pela segurança das populações residentes nos meios rurais, sobretudo nos “montes” (palavra que, na Idade Média, designava uma pequena aldeia).
Para além do referido, pouco mais sabemos sobre “João Martins”. Temos apenas conhecimento de que um seu filho possuía, em 1548, uma propriedade nas proximidades do caminho de Marvão e da dita ribeira de Nisa.




EXTRACTO DO DOCUMENTO DE D. MANUEL I


“Dom manuel & etc. Hum priujlegio de besteiro do monte em […] / […] em euora a xxbiij de feuereiro de bxj e asynado per / graçia de Mello […] /
[…]
Dom manuell & etc. Hum outro tall a Joham martjnz laurador morador nos momtes do carreiro termo / de Portalegre de jdade de xxx annos e fez per o dito espriuao no dito Dia mes e era sobredita / e asynado per o sobredito /
[…]”

(Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de Dom Manuel, Liv. 41, f. 21 v. – microfilme 2235.)

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