segunda-feira, 9 de novembro de 2009

APONTAMENTOS
SOBRE A HERDADE DE JOÃO MARTINS
(Carreiras, Portalegre)



Situada na freguesia de Carreiras, no sopé da Serra de São Paulo, junto do caminho que separa os concelhos de Portalegre e de Castelo de Vide e perto de uma linha de água importante (a ribeira “de Nisa”), a herdade denominada “João Martins” reserva entre os seus limites alguns dos vestígios mais remotos dessa parte do Norte Alentejano, entre os quais se destacam mós neolíticas, uma anta e restos de povoamento da Alta Idade Média, nomeadamente chafurdões. Possui ainda vestígios de construções mais recentes, talvez do século XV.
Não é possível explicar sem dúvidas a origem do seu topónimo, uma vez que não surge na documentação antiga. Não será no entanto impossível relacioná-lo directamente com um tal “João Martins”, lavrador nascido por volta de 1481 e morador nos “Montes do Carreiro” (hoje “Carreiras”), que em 1511 foi nomeado pelo rei D. Manuel I – com outros habitantes do concelho de Portalegre – “besteiro do monte”, por carta passada em Évora no dia 28 de Fevereiro desse ano, assinada por Garcia de Melo.
A par dos besteiros urbanos – que pertenciam, nas vilas e cidades medievais, a uma “aristocracia popular”, pois sendo atiradores de besta constituíam uma espécie de milícia de elite, recrutada entre indivíduos de certa posição (segundo afirma Sérgio Luís Carvalho) – os “besteiros do monte” seriam talvez responsáveis pela segurança das populações residentes nos meios rurais, sobretudo nos “montes” (palavra que, na Idade Média, designava uma pequena aldeia).
Para além do referido, pouco mais sabemos sobre “João Martins”. Temos apenas conhecimento de que um seu filho possuía, em 1548, uma propriedade nas proximidades do caminho de Marvão e da dita ribeira de Nisa.




EXTRACTO DO DOCUMENTO DE D. MANUEL I


“Dom manuel & etc. Hum priujlegio de besteiro do monte em […] / […] em euora a xxbiij de feuereiro de bxj e asynado per / graçia de Mello […] /
[…]
Dom manuell & etc. Hum outro tall a Joham martjnz laurador morador nos momtes do carreiro termo / de Portalegre de jdade de xxx annos e fez per o dito espriuao no dito Dia mes e era sobredita / e asynado per o sobredito /
[…]”

(Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de Dom Manuel, Liv. 41, f. 21 v. – microfilme 2235.)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

RELANCE SOBRE A HISTÓRIA
DE CARREIRAS (PORTALEGRE)

Existem nesta freguesia vestígios de ocupação humana muito antiga. Do Neolítico, identificaram-se o povoado do Veloso e a anta da herdade do João Martins, próxima da anta do Soveral, já no concelho de Castelo de Vide. Descobriram-se, entretanto, moedas do século I d. C. e vestígios de povoados da alta Idade Média. A aldeia, com mais do que provável origem medieval, terá nascido de um ponto de reunião dos pastores (cabreiros) da região, no Rossio. Nas proximidades situava-se um pequeno reduto fortificado, talvez com origem anterior, que deveria servir para acolher o gado e a população em caso de necessidade. A igreja de São Sebastião, nascida talvez sobre um santuário antigo, deverá ter sido edificada na Baixa Idade Média. Teve reconstruções em finais do século XVI e nos últimos decénios do século XVIII. A urbanização da aldeia terá pretendido ligar núcleos habitacionais mais antigos, identificável nos locais denominados Castelo, Castelinho, Arrabalde e Cabris. Embora tenha um traçado adaptado às curvas de nível da encosta da serra de Castelo de Vide, manifesta preocupações de regularidade. Deverá datar de inícios do século XVI.



NOTA: É com gosto que vejo reproduzido na página da Junta de Freguesia de Carreiras este pequeno texto que publiquei na Wikipedia sobre a localidade que tenho investigado há vários anos. É um ponto de partida para uma visita à aldeia que é muito mais do que uma simples "aldeia-presépio"...

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