quinta-feira, 22 de janeiro de 2009


A ARQUITECTURA E O SEU USO

Confesso que me entusiasmo sempre que vejo ser construído na minha cidade de nascimento (Portalegre) um edifício com qualidade arquitectónica evidente – ou quando uma obra restitui vida a edifícios ou estruturas históricas, até aí moribundos.
Assim aconteceu com as recuperações do convento de Santa Clara e da igreja de São Francisco, com a devolução à sua dignidade jesuítica da igreja de São Sebastião, com a adaptação do palácio da rua da Figueira, com o restauro das muralhas e do castelo, com a construção da igreja de Santo António nos Assentos. Gostaria até que recebessem o mesmo tratamento outros edifícios que bem o mereciam: as igrejas de Santa Maria a Grande (anexa ao convento dos Agostinhos) e do Espírito Santo, a torre do Atalaião, o Palácio Amarelo, etc..
Enquanto sinto este verdadeiro entusiasmo, não deixo no entanto de tropeçar nas circunstâncias e nas consequências da sua construção. Há casos exemplares, no bom sentido do adjectivo. Ao saber, contudo, que nos edifícios a arquitectura (a “paisagem”) não se pode separar do seu uso (o “povoamento”), há factos que roem no pensamento como areias numa sandália, chegando a ferir a alegria de assistirmos à edificação. Posso citar alguns casos:
Não é por se instalar num edifício exemplar (e possuir um fundo bibliográfico riquíssimo) que a Biblioteca Municipal de Portalegre deixa de realizar eventos que envergonhariam qualquer pequena aldeia e maculam o bom nome de uma cidade que parece ainda prezar esse título.
Não é por ter sido recuperada com grande rigor que a igreja de Santa Clara deixa de estar oculta pelas encenações de uma companhia de teatro, por obra e graça de uma gestão municipal pouco cuidadosa, que não pensou nas consequências para o usufruto do monumento da instalação naquele espaço de uma actividade incompatível com a total dignidade do património construído (quando haveria outros espaços melhor adaptados para o efeito).
A igreja dos Jesuítas é agora um dos melhores auditórios de Portalegre – o que não impede que, por vezes, lá se realizem acontecimentos pouco adaptados à dignidade do espaço.
Há na cidade do norte alentejano um castelo bem recuperado, mas serve pouco para recordar a história do monumento e da urbe em que foi construído e demasiado para actividades comerciais. Não havendo incompatibilidade, o equilíbrio deveria ser outro.
São quatro exemplos que, ao correr do teclado, me ocorreram. Outros poderiam surgir. Estes servem para ilustrar uma realidade que, infelizmente, corrói boa parte do boa imagem da cidade. Esperemos que o futuro traga práticas mais conscientes a espaços marcantes, como a igreja dos franciscanos e a Fábrica Robinson. Sabemos bem o quanto pesam na gestão dos espaços públicos de uma cidade as pressões exercidas por clientelas que, geralmente, se preocupam mais com os seus objectivos particulares ou pessoais (quantas vezes poucos éticos) do que com o enriquecimento cultural de uma comunidade e com a dignidade dos edifícios históricos e/ou monumentais. Portalegre também tem bons exemplos cívicos. Só podemos desejar uma influência positiva destes sobre quanto não atingiu ainda os patamares desejáveis da exigência e de uma verdadeira elevação cultural e ética.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009



João Filipe Bugalho
(texto e pintura)


FRONTEIRA E MEMÓRIA



Sever, fronteira da minha memória.
Rio que separa e une duas margens.
Eterno contrabandista.
Tranquilo, bravo, solitário, na paisagem dura de xisto, quase deshabitada.
Rio que seca e deixa apenas pegos onde se retempera e refresca a bicharada.
Sombras sadias de amieiros e choupos, seixos soltos, margens tranquilas.
Memórias das tardes quentes que refrescávamos com uma talhada de melancia, sob o laranja intenso do antepôr do sol.






Com pó e suor na pele mas uma sensação quente de bem estar, sensual, inesquecível.
Ainda hoje revisitada.
Como o canto apelativo dos abelharucos, voando por cima.
Luz do fim da tarde que foi abrazadora,luz inseparável dos sons vagos dos chocalhos de um rebanho quase perdido na distância.
Bravura agreste do rio, correndo no próprio leito de pedra, por si talhada.
Silêncio estival, apenas rasgado pelo vôo azul do guarda-rios,
de onde em quando pontuado pelo triste e escasso piar da cotovia.
Peso do calor que nos faz buscar a quietude e o silêncio na protecção da sombra.
Que acalma.
Mas que nos fórça a contemplar.
A sentirmo-nos ínfimos na imensidão do espaço.
Serras distantes, onde se espraiam laivos laranja-azulados de poentes que fazem ressaltar os brancos casarios.
Austeros. Às vezes sós, sombrios.
Mas que, uma vez dentro, se nos revelam e nos acolhem.
Que nos desvendam, nos recantos e nos pátios, os seus mais antigos e íntimos segredos. Até mesmo as suas gentes.
Envoltos em planuras infindas, cortadas por escassas rectas de muros,
intermináveis...Vagamente cobertas de restolho amarelecido, queimado pelo Sol.
Ou alqueives, de pó vermelho e sêco, tingindo o horizonte.
Com danças de sobreiros sobre a paisagem.
Ou linhas e linhas de colinas sedentas, como corpos de mulher.
Céus sempre diferentes, carregados de imagens ditadas por nuvens,
imparáveis,
brancas, sépias, às vezes cinzento-chumbo quase negras,
de ameaçadoras trovoadas.
Além dos infinitos espaços, apenas a ímpar, indescritível, solidão da azinheira.
Cujo tronco, revelando a cicatriz do tempo, é a própria resistência.







A vida.
Sever memória, fronteira, esperança.
Sever, de contrabando e de partida.



O texto fez parte do catálogo da exposição de 30 telas, inspiradas em “paisagens comuns de ambos os lados do Sever”, apresentada no Museo Provincial de Cáceres em 23 de Novembro de 2007.

Vista parcial da aldeia de Carreiras (Portalegre)

no olhar de José Almeida.




Festa de São João

no Reguengo (Portalegre).

Estas e outras fotografias de Bruno Calha

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

LENDA DA SERRA DE MATAMORES
(Fortios)


1

Versão de Fortios (Portalegre), recolhida pelos alunos da Escola Básica do Primeiro Ciclo de Fortios e publicada em http://www.eb1-fortios.rcts.pt/


A serra do Mata Amores teve origem no nome Mato de Mouros.
Dizem as pessoas que em tempos que já lá vão, aparecia nessa zona uma princesa moura, de beleza rara e que vivia nas pedras.
Todos a desejavam ver, mas ela só aparecia na manhã de S. João com um tabuleiro de passas à cabeça para oferecer às pessoas. Diz a lenda que quem entrasse na sua casa ficava encantado e nunca mais regressava.




2


Versão de Fortios (Portalegre) recolhida (em 1984) e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – Subsídios para uma Monografia de Portalegre, Portalegre, Câmara Municipal de Portalegre: 132.



Dizem que na Serra do Mata Amores, Freguesia dos Fortios – Portalegre, há uma princesa encantada. Aparece a vender passas na manhã de S. João. Quem entrar na sua casa de pedra fica encantado.

A Lenda do Mártir Santo
(Fortios)



1
Versão de Fortios (Portalegre), recolhida pelos alunos da Escola Básica do 1º. Ciclo de Fortios e publicada em http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://www.eb1-fortios.rcts.pt/Lenda.jpg&imgrefurl=http://www.eb1-fortios.rcts.pt/terra/capela.htm&usg=__x5XTWiHIFsbMAdQRFokGw6Y5EX0=&h=216&w=310&sz=11&hl=pt-PT&start=6&tbnid=HfEiaKuKxVpQSM:&tbnh=82&tbnw=117&prev=/images%3Fq%3D%2522m%25C3%25A1rtir%2Bsanto%2522%26gbv%3D2%26hl%3Dpt-PT


Diz a lenda que, no ano 700, a capela do Mártir Santo era o sítio onde as pessoas rezavam ao seu santo.
Nessa altura, os reis queriam destruir todas as igrejas.
Um dia, um rei mouro mandou destruir a capela.
As pessoas juntaram-se, na capela, onde rezavam para que nada acontecesse e pedindo um milagre ao seu Santo.
Quando os cavaleiros, que vinham destruir, iam a subir a rua (muito inclinada) aconteceu um milagre: os cavalos não a conseguiram subir, escorregaram e ajoelharam-se, não conseguindo chegar até ao largo.
Assim, a capela passou a chamar-se "Capela do Mártir Santo" e o largo onde se situa também tem o mesmo nome.




2

Versão de proveniência desconhecida, recolhida (em 1984) e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – Subsídios para uma Monografia de Portalegre, Portalegre, Câmara Municipal de Portalegre: 133.



Diz-se que, em tempos remotos, os inimigos atacaram este povo, e com cavalos, tentaram subir as rochas.
Um homem gritou:
- “Valha-me o Mártir Santo!”…
Os cavalos imediatamente dobraram as patas e não conseguiram subir mais.
Em louvor deste milagre, fizeram a Igreja de S. Sebastião, que ficou sendo o Padroeiro da Freguesia.


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