terça-feira, 9 de dezembro de 2008


A Lenda do Mártir Santo
(Fortios)



1
Versão de Fortios (Portalegre), recolhida pelos alunos da Escola Básica do 1º. Ciclo de Fortios e publicada em http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://www.eb1-fortios.rcts.pt/Lenda.jpg&imgrefurl=http://www.eb1-fortios.rcts.pt/terra/capela.htm&usg=__x5XTWiHIFsbMAdQRFokGw6Y5EX0=&h=216&w=310&sz=11&hl=pt-PT&start=6&tbnid=HfEiaKuKxVpQSM:&tbnh=82&tbnw=117&prev=/images%3Fq%3D%2522m%25C3%25A1rtir%2Bsanto%2522%26gbv%3D2%26hl%3Dpt-PT


Diz a lenda que, no ano 700, a capela do Mártir Santo era o sítio onde as pessoas rezavam ao seu santo.
Nessa altura, os reis queriam destruir todas as igrejas.
Um dia, um rei mouro mandou destruir a capela.
As pessoas juntaram-se, na capela, onde rezavam para que nada acontecesse e pedindo um milagre ao seu Santo.
Quando os cavaleiros, que vinham destruir, iam a subir a rua (muito inclinada) aconteceu um milagre: os cavalos não a conseguiram subir, escorregaram e ajoelharam-se, não conseguindo chegar até ao largo.
Assim, a capela passou a chamar-se "Capela do Mártir Santo" e o largo onde se situa também tem o mesmo nome.




2

Versão de proveniência desconhecida, recolhida (em 1984) e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – Subsídios para uma Monografia de Portalegre, Portalegre, Câmara Municipal de Portalegre: 133.



Diz-se que, em tempos remotos, os inimigos atacaram este povo, e com cavalos, tentaram subir as rochas.
Um homem gritou:
- “Valha-me o Mártir Santo!”…
Os cavalos imediatamente dobraram as patas e não conseguiram subir mais.
Em louvor deste milagre, fizeram a Igreja de S. Sebastião, que ficou sendo o Padroeiro da Freguesia.


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

PONTES NA DIVERSIDADE


Houve um tempo, na Península Ibérica, em que todos (ou quase todos) falavam a mesma língua. Não me refiro tanto ao conhecido latim anterior ao século V ou a essa língua popular que, na opinião de alguns autores (Moisés Espírito Santo, por exemplo), seria a sobrevivência de falares orientais, semitas, com raízes nas migrações pré-romanas provenientes da Fenícia ou de Cartago – e que teria subsistido até ao século VI. Penso nos dialectos moçárabes com que os povos peninsulares se entenderam até à Reconquista, frutos de uma sedimentação secular de morfologias, sintaxes e vocabulários provenientes de povos e épocas diferentes, entrançando os ramos nascidos de raízes indo-europeias com outros semitas (árabes, berberes e não só).

As políticas senhoriais acabaram por dividir administrativamente povos unidos durante milénios (Lusitânia, reino visigodo, taifa de Badajoz…). De cada lado os habitantes começaram a adoptar a língua de prestígio dos seus senhores, sobretudo a escrever nessa língua – e, mais uma vez, Babel foi fazendo das suas…

Se lermos, contudo, documentos escritos até aos séculos XVI-XVII em português e castelhano (textos literários ou de outra índole) – perceberemos que as proximidades são mais significativas do que as distâncias. Não por acaso, até as elites desse tempo tinham orgulho em serem bilingues. O povo, esse, fazia o seu caminho paralelo – falando, sem escrever, à sua maneira.

Essa proximidade, muito esbatida até aos nossos dias, não viria no entanto a apagar-se de todo. Há uma faixa de território, traçada de norte a sul, com sessenta-setenta quilómetros de largura (tendo, invisível, uma fronteira pelo meio), em que as coisas se passaram de outro modo. No lado português da Raia, se nos adentrarmos pelas aldeias e vilas mais modestas (menos sujeitas às influências mediáticas…), não é raro encontrarmos pessoas que se orgulham de falar "espanhol" – quando, na realidade, apenas praticam uma "língua franca", de contrabandista, entendida e partilhada para além de Segura ou dos Galegos.

Se estivermos com atenção ao escutarmos o seu "falar de Portalegre – Castelo Branco" (como lhe chamam os linguistas), que pouco tem a ver com a pronúncia da Beira Alta ou com o português "cantado" do Alentejo abaixo de Arronches, começaremos então a surpreender-nos com uma fala em que, pelo menos, houve uma sementeira vocabular trazida pelos célebres "ventos" de Castela, fruto talvez dos contactos mútuos nascidos no contrabando e em muitos matrimónios celebrados ora no lado de cá ora nas igrejas das terras de Alcántara.

Termos que nenhum (ou quase nenhum) dicionário de Língua Portuguesa regista – parecem vir de vozes extremenhas, embora hoje estejam de tal maneira enraizados nos falares e na toponímia que muitos os consideram apenas regionalismos. O orvalho matinal é, por estes lados, "mareia"; um rochedo de grandes dimensões, um "canxo"; um matagal será sempre "matorral"; um pêssego come-se como "malaquetão"; um caminho rural largo é uma "carteira". Um homem aborrecido é "empalagoso"; uma mulher sabida e perigosa, uma "culebra"; se veste uma samarra, usa uma "pelice"; uma criança será sempre um "nino"…

Os exemplos poderiam multiplicar-se por muitas dezenas ou centenas. Faz falta, aliás, um trabalho sistemático de pesquisa e estudo deste fenómeno de intercomunicação linguística, afinal bem compreensível, – antes que a normalização imposta pelos modelos televisivos acabe com toda a riqueza dos nossos povos e seus habitantes.

Afinal, na língua, como noutros domínios – por mais que alguns políticos, a xenofobia e as guerras lutem pela separação – o contacto entre seres humanos trabalhará sempre em prol da ligação, da construção de pontes, primeiro motor do entendimento e da paz.

(Publicado, em tradução castelhana, na revista Imagen de Extremadura)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008


O blogue Estrada do Alicerce está a publicar uma antologia de homenagem ao poeta castelo-vidense Cristovam Pavia. Esta iniciativa visa homenagear o filho de Francisco Bugalho, nascido há 75 anos (7 de Outubro de 1933) e falecido há 40 (em 13 de Outubro de 1968), e tem em vista uma futura edição em livro.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

RESSURREIÇÃO?


Alguns julgavam-na doente. Outros, já moribunda. Um número deconhecido, mas decerto apreciável, morta e enterrada, embora sem funerais públicos. De facto, uma revista que demora anos e anos a ser publicada inspira cuidados entre os seus leitores. Silêncio quebrado, A Cidade aí está de novo. De boa saúde? O futuro falará… A demora na saída deveu-se, segundo o seu director, a dificuldades no “processo de preparação, contactos e coordenação”. Retira quaisquer responsabilidades à patrocinadora Câmara Municipal de Portalegre que, na opinião (exagerada, mas compreensível) de António Ventura, tem dado “prioridade” às “coisas da cultura” (palavras pouco ou nada partilhadas por muitos portalegrenses que, com desgosto, reconhecem a pobreza dos últimos tempos de gestão municipal da Cultura, com espectáculos no meio de um quase-deserto noutras áreas que mereceriam a sua atenção e interesse).


Oito anos sem publicação deixam as suas marcas. Embora o elenco dos artigos seja globalmente interessante, o conjunto ressente-se na qualidade da revisão dos textos, pois neles se mantiveram marcas de um tempo de redacção excessivamente anterior ao da publicação. Se esse problema não afectou a sua qualidade, tornou-os, no entanto, desfasados em relação à data da revista (2008). A responsabilidade não será decerto de alguns autores, que os terão entregue há mais de meia-década…
Demografia histórica, milagres da Virgem de Guadalupe, paisagem medieval, azulejaria, José Régio, António Sardinha, São Bento de Avis e Galiano Tavares são os temas abordados neste número – num ordenamento espacial na revista de difícil compreensão. Entre eles permito-me destacar o texto sobre os azulejos do convento de S. Bernardo, da autoria de Rosário Salema de Carvalho (que assim continua o estudo deste capítulo da História da Arte na região de Portalegre, no seguimento da investigação dos painéis do Salvador do Mundo, em Castelo de Vide), e um ensaio de Carlos Garcia de Castro intitulado “José Régio e os rapazes do meu tempo” que, a dado passo, refere – como recado a muitos que gostam de citar a “Toada de Portalegre” como interesseiro emblema da cidade:
“[…] É hábito falar-se aqui dum José Régio combinado com a Toada, pelo título da Toada… que lá escreve: Portalegre. Pois pudera! Muitos o fazem de assistência e de função. Mas de Régio só conhecem o nome deste Poema, cuja qualidade própria se expande noutros Poemas e problemas, esses ‘inexistentes’, porque não dizem: Portalegre. Quem nada sabe de Arte (literária ou outra, como acontece) faz da Toada elogio, de proveito ou de Turismo. Porque a ideia com que Régio ficou desta mentalidade (indiscutivelmente enervante), e seu correspondente juízo de gente e população, não é na Toada que no-lo revela, não em poema, mas em prosa de novela, a crónica magistral de Davam Grandes Passeios aos Domingos. Já conhecia e tinha avaliado a alma vicinal de Portalegre, para não querer confundir-se com ela.”

sexta-feira, 25 de julho de 2008


RETRATO DE CONTRABANDISTA


Não tenho a completa certeza. Mas, com 95% de probabilidades, esta contrabandista presa na cadeia de Castelo de Vide na década de 1930 e retratada por Cora Gordon no seu livro Portuguese Somersault, deve tratar-se de Rosária da Conceição, minha tia-bisavó, natural de Carreiras (Portalegre).

sexta-feira, 18 de julho de 2008

JOVEM SEDUZIDA
É DESPREZADA PELO PRETENDENTE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.



CANTIGA

Eu amava uma menina, tinha-lhe muita amizade.
Falava-lhe à meia-noite e todos os dias à tarde.
Um dia lhe perguntei qual era a sua intenção:
"Se não logro carinhos teus, rebento de paixão."
"Se tu lograsses carinhos meus, ai de mim, o que seria?
Matavas o teu desejo, casar comigo não querias."
"Casava, querida, casava. Junto ao pé de quem sou
Tenho o sentido perdido, já não sei onde estou.
Já não sei onde estou, minha terra onde fica.
Remédios para te ver já os não há na botica."
Desceu pela escada abaixo, na mão direita me pegou.
"Boa cama cidadão." Logo ali se deitou.
Logo ali se ajoelhou a um Senhor que ela tinha.
"Os cinco sentidos que eu tenho os emprego em ti menina."
Primeiro era cheirar o cheiro da linda rosa.
Corria-lhe a mão pelo rosto, era coisa preciosa.
Quando foi o nascer da aurora, estava em estado de cair.
"Deixa-me ir daqui embora, antes que me vejam ir.
Não quero que a sua mãe diga que eu vim aqui dormir."
"Vai-te falso, vai-te ingrato, já lograste carinhos meus.
Lá irás ao Purgatório fazer contas com Deus."
"Se eu for ao Purgatório, hei-de ir com boa tenção.
Quero que Deus me perdoe como perdoou ao bom ladrão."
Torradas, boas torradas, eu aqui bem as torrei.
Fazias-te fina comigo, mas eu bem te apanhei.
Torradas, novas torradas, torradas, café, cebola.
Difamei uma bela donzela, casar com ela? Xô rola!
JOVEM PÕE NAMORADA À PROVA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Antónia Grilo, de 83 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA


"Onde vais ó padeirinha de pucarinha na mão?"
"Vou à fonte buscar água, olaré, para amassar o meu pão."
"Para amassar o teu pão, padeirinha faz-me um bolinho.
Eu já daqui não abalo, olaré, sem tu me dares um beijinho."
"Um beijinho não te dou, porque não to posso dar.
Se a minha mãe lá souber, olaré, não me faltaria ralhar."
"Se a tua mãe te ralhar, tu não lhe baixes a asa.
Se ela te quiser bater, olaré, tu foges para minha casa."
"Para tua casa não vou. Não tenho lá que fazer.
Se a minha mãe me ralhar, olaré, o meu remédio é sofrer."
"Gosto de ti, ó padeirinha, do teu modo de falar.
Se sempre falares assim, olaré, depressa vamos casar."

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