terça-feira, 9 de setembro de 2008

RESSURREIÇÃO?


Alguns julgavam-na doente. Outros, já moribunda. Um número deconhecido, mas decerto apreciável, morta e enterrada, embora sem funerais públicos. De facto, uma revista que demora anos e anos a ser publicada inspira cuidados entre os seus leitores. Silêncio quebrado, A Cidade aí está de novo. De boa saúde? O futuro falará… A demora na saída deveu-se, segundo o seu director, a dificuldades no “processo de preparação, contactos e coordenação”. Retira quaisquer responsabilidades à patrocinadora Câmara Municipal de Portalegre que, na opinião (exagerada, mas compreensível) de António Ventura, tem dado “prioridade” às “coisas da cultura” (palavras pouco ou nada partilhadas por muitos portalegrenses que, com desgosto, reconhecem a pobreza dos últimos tempos de gestão municipal da Cultura, com espectáculos no meio de um quase-deserto noutras áreas que mereceriam a sua atenção e interesse).


Oito anos sem publicação deixam as suas marcas. Embora o elenco dos artigos seja globalmente interessante, o conjunto ressente-se na qualidade da revisão dos textos, pois neles se mantiveram marcas de um tempo de redacção excessivamente anterior ao da publicação. Se esse problema não afectou a sua qualidade, tornou-os, no entanto, desfasados em relação à data da revista (2008). A responsabilidade não será decerto de alguns autores, que os terão entregue há mais de meia-década…
Demografia histórica, milagres da Virgem de Guadalupe, paisagem medieval, azulejaria, José Régio, António Sardinha, São Bento de Avis e Galiano Tavares são os temas abordados neste número – num ordenamento espacial na revista de difícil compreensão. Entre eles permito-me destacar o texto sobre os azulejos do convento de S. Bernardo, da autoria de Rosário Salema de Carvalho (que assim continua o estudo deste capítulo da História da Arte na região de Portalegre, no seguimento da investigação dos painéis do Salvador do Mundo, em Castelo de Vide), e um ensaio de Carlos Garcia de Castro intitulado “José Régio e os rapazes do meu tempo” que, a dado passo, refere – como recado a muitos que gostam de citar a “Toada de Portalegre” como interesseiro emblema da cidade:
“[…] É hábito falar-se aqui dum José Régio combinado com a Toada, pelo título da Toada… que lá escreve: Portalegre. Pois pudera! Muitos o fazem de assistência e de função. Mas de Régio só conhecem o nome deste Poema, cuja qualidade própria se expande noutros Poemas e problemas, esses ‘inexistentes’, porque não dizem: Portalegre. Quem nada sabe de Arte (literária ou outra, como acontece) faz da Toada elogio, de proveito ou de Turismo. Porque a ideia com que Régio ficou desta mentalidade (indiscutivelmente enervante), e seu correspondente juízo de gente e população, não é na Toada que no-lo revela, não em poema, mas em prosa de novela, a crónica magistral de Davam Grandes Passeios aos Domingos. Já conhecia e tinha avaliado a alma vicinal de Portalegre, para não querer confundir-se com ela.”

sexta-feira, 25 de julho de 2008


RETRATO DE CONTRABANDISTA


Não tenho a completa certeza. Mas, com 95% de probabilidades, esta contrabandista presa na cadeia de Castelo de Vide na década de 1930 e retratada por Cora Gordon no seu livro Portuguese Somersault, deve tratar-se de Rosária da Conceição, minha tia-bisavó, natural de Carreiras (Portalegre).

sexta-feira, 18 de julho de 2008

JOVEM SEDUZIDA
É DESPREZADA PELO PRETENDENTE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.



CANTIGA

Eu amava uma menina, tinha-lhe muita amizade.
Falava-lhe à meia-noite e todos os dias à tarde.
Um dia lhe perguntei qual era a sua intenção:
"Se não logro carinhos teus, rebento de paixão."
"Se tu lograsses carinhos meus, ai de mim, o que seria?
Matavas o teu desejo, casar comigo não querias."
"Casava, querida, casava. Junto ao pé de quem sou
Tenho o sentido perdido, já não sei onde estou.
Já não sei onde estou, minha terra onde fica.
Remédios para te ver já os não há na botica."
Desceu pela escada abaixo, na mão direita me pegou.
"Boa cama cidadão." Logo ali se deitou.
Logo ali se ajoelhou a um Senhor que ela tinha.
"Os cinco sentidos que eu tenho os emprego em ti menina."
Primeiro era cheirar o cheiro da linda rosa.
Corria-lhe a mão pelo rosto, era coisa preciosa.
Quando foi o nascer da aurora, estava em estado de cair.
"Deixa-me ir daqui embora, antes que me vejam ir.
Não quero que a sua mãe diga que eu vim aqui dormir."
"Vai-te falso, vai-te ingrato, já lograste carinhos meus.
Lá irás ao Purgatório fazer contas com Deus."
"Se eu for ao Purgatório, hei-de ir com boa tenção.
Quero que Deus me perdoe como perdoou ao bom ladrão."
Torradas, boas torradas, eu aqui bem as torrei.
Fazias-te fina comigo, mas eu bem te apanhei.
Torradas, novas torradas, torradas, café, cebola.
Difamei uma bela donzela, casar com ela? Xô rola!
JOVEM PÕE NAMORADA À PROVA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Antónia Grilo, de 83 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA


"Onde vais ó padeirinha de pucarinha na mão?"
"Vou à fonte buscar água, olaré, para amassar o meu pão."
"Para amassar o teu pão, padeirinha faz-me um bolinho.
Eu já daqui não abalo, olaré, sem tu me dares um beijinho."
"Um beijinho não te dou, porque não to posso dar.
Se a minha mãe lá souber, olaré, não me faltaria ralhar."
"Se a tua mãe te ralhar, tu não lhe baixes a asa.
Se ela te quiser bater, olaré, tu foges para minha casa."
"Para tua casa não vou. Não tenho lá que fazer.
Se a minha mãe me ralhar, olaré, o meu remédio é sofrer."
"Gosto de ti, ó padeirinha, do teu modo de falar.
Se sempre falares assim, olaré, depressa vamos casar."
JURAMENTO AMOROSO

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Recolha do Rancho Folclórico dos Fortios. Transcrição de Ruy Ventura.

SAIAS DO BALDIO


"Em Portalegre fui caixeiro, na Urra fui lavrador,
N' Alagoa carpinteiro, nos Fortios sou cantador."
"Tens uma voz tão trinada, que me chega ao coração.
Ainda estou na minha casa, já sei que andas na função."
"Ouve lá ó rapariga o que eu agora te digo:
Se tu gostares de mil, quero ter falas contigo."
"Ó cantador afamado, coração de pedra dura,
Mas se falas a verdade o meu peito se aventura."
"Se tu me quisesses tanto como eu te quero de mais,
No caminho se encontravam meus suspiros com teus ais."
"As estrelas miudinhas fazem um céu bem composto.
Já Deus me chegou a tempo de ter amores ao meu gosto."
"Jura, amor, juramos ambos. Façamos jura bem feita.
Jura lá que me hás-de dar na igreja a mão direita."
"Ó meu amor, anda, vamos à igreja dar a mão,
Tapar as bocas ao mundo, descansar meu coração."
JOANINHA E O ESTUDANTE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Esteves, de 78 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


CANTIGA

"Olá menina Joaninha." "Boa noite, senhor Joãozinho."
"Está em casa sozinha?" "Estou à espera do meu paizinho."
"Está aqui sempre encerrada, já nunca quer aparecer.
Quando sai vai encantada, ninguém é capaz de a ver."
"Joãozinho, tenha paciência em eu lhe falar assim.
Não lhe deve fazer diferença, que não tem interesse em mim."
"Joaninha, não fales assim. Não digas palavras tais.
Eu não sofro de amor por ti, que é ainda muito mais."
"Joãozinho, eu bem sei que por mim não sofre nada.
Sei que sofre sim por quem, pela sua namorada."
"Namorada hei-de terr quando a Joaninha quiser,
Que eu não me quero prender ao amor de outra mulher."
"As juras do senhor estudante, desculpe eu dizer como são,
São tão firmes como a manteiga quando no focinho de um cão."
"Com essas tuas palavras quase me ias ofendendo.
Ainda um dia vem a saber o que por ti estou sofrendo."
"Joãozinho, eu bem sei que amanhã é doutor.
Eu bem sei que não mereço homem de tanto valor."
DESPIQUE ENTRE DOIS PRETENDENTES

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria José Paulo, de 85 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.

CANTIGA DO CARNAVAL

O Manuel e o Joaquim são dois jovens encantados,
Mas têm grandes problemas porque andam sempre zangados.
Não há quem na terra não veja, não há quem na terra não ouça.
Têm um grande problema: disputam a mesma moça.
Não há coisa mais bonita, nem coisa mais engraçada:
A rapariga é catita e eles brigam à desgarrada.
Um quer a Inês para si e diz que a faz feliz.
Outro nada lhe promete e em modo de verso lhe diz:
"Rapariga, pensa bem no que agora te digo,
Que só merece quem tem, eu mereço ficar contigo."
O Manuel já está zangado com a conversa do Joaquim:
"Já que és moço arrogado, chega-te cá para mim.
Ò Joaquim, assenta bem o que eu agora te digo:
Se ela pretende alguém, pretende ficar comigo."
"Dizes que fica contigo, já te digo que tem um preço.
A Inês fica comigo, pois sou eu que a mereço."
"Homem mais burro não conheço, julga que é o primeiro
E que a Inês o pretende porque tem muito dinheiro.
O dinheiro não é tudo, já te vou a ripostar.
Quando se acabar o dinheiro, como a vais governar?"
"Tu tens fala de enganar, e a resposta aí vai:
Quando o dinheiro acabar está o dinheiro do meu pai."
"Eu já te vou a dizer qual a nossa solução:
É preciso é amar, amar é ter coração."
"Se não te dou a razão, quem resolve é a Inês.
Não venhas com frases feitas, já não te digo outra vez."
"Agora tu tens razão e eu já estou decidido.
Vai acabar a discussão, fica contigo ou comigo."
"Sou apenas uma rapariga, não estou aqui para julgar.
Ainda não estou decidida qual dos dois levo ao altar."
E acabou a discussão, um sem fala, outro mudo.
Era apenas reinação que se faz no baile de entrudo.

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