sexta-feira, 11 de julho de 2008

Assassinato conjugal

A SALA DO MEU RECREIO

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria de Fátima Bicho, de 50 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


"Ai eu fui ao jardim da nora, fui colher a flor do alecrim.
Só tua mãe te criou, lindos olhos para mim."
"Anda minha amiga, anda, comigo dar um passeio.
Vamos comer um jantar à sala do meu recreio."
"À sala do teu recreio, isso não, não pode ser.
É que está lá a tua mulher, que nem à sombra me quer ver."
"Minha mulher não está lá, nem por estes dias vem.
Foi fazer uma visita ao seu pai e sua mãe."
Logo ao primeiro prato, logo ao prato primeiro,
Ela lhe disse para ele quem seria o cozinheiro.
"Come, minha amiga, come, não te faças amarela.
Olha que estás comendo da mais mimosa vitela."
"Da mais mimosa não é, é que ela deita amargor.
Mataste a tua mulher e foste para mim um traidor."
"Matei a minha mulher, e isto para a gente é segredo.
Ai toma lá estes anéis que ela trazia nos dedos."
"Os anéis que tu me deste também te servem a ti.
E mataste a tua mulher e também me matas a mim.
Venha povo, venha povo! Venha povo, venha ver!
Venha também a justiça para este ladrão prender.
Matou a sua mulher e ainda me a veio dar a comer."
Jovem enganada pelo namorado suicida-se

A COSTUREIRA

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria de Fátima Bicho, de 50 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


Trabalhava a costureira uma noite inteira no seu intento
Para deixar concluído o seu vestido de casamento.
De manhã as raparigas, duas amigas da sua infância,
Levaram cravos, rosas, e flores mimosas com abundância.
No civil com atenção, com união, tudo exclamava.
Desmaiava a noiva em saber do noivo ter outra enganada.
Ela foi para o seu quarto e lá de dentro fechou a porta.
Quando foram para a arrombar já foram dar com ela morta.
Com o seu lindo vestido melhor tecido levou ao chão.
E as flores do casamento foi sentido sobre o caixão.

terça-feira, 8 de julho de 2008


Sobre as origens de Santo António das Areias


A zona central e mais antiga de Santo António implanta-se numa suave encosta, maioritariamente, exposta ao poente, drenada por linhas de água de curso sazonal, das quais se destaca o Ribeiro do Lobo e a Ribeira do Tragazal. Ainda que até esta data não tivesse sido identificada qualquer referência a esta aldeia anterior a 1569, poderemos equacionar a hipótese deste lugar ter sido ocupado a partir dos fins do Império Romano. Esta hipótese assenta na estratégia de povoamento da Alta-Idade-Média que se constata na área do actual concelho de Marvão. Com a destruição da cidade de Ammaia e sob a pressão dos Bárbaros, verifica-se, sobretudo a partir dos finais do século V, uma nova forma de ocupação dos solos. Pequenos e médios casais agrícolas começam a estabelecer-se nas encostas suaves, não muito longe de linhas de água, envoltos por terras com alguma aptidão agrícola mas, sobretudo, não muito evidentes na paisagem. A instabilidade política obrigava a alguma precaução. Desses conturbados tempos conhecemos vários testemunhos nas imediações de Santo António das Areias. Destes destacam-se os pequenos habitats da Água da Cuba, da Patinha da Burra, da Asseiceira, da Ranginha, do Lagar dos Frades ou o da Feijoeira. Qualquer destes sítios arqueológicos, infelizmente nunca estudados, apresenta uma implantação orográfica muito semelhante à que se verifica em Santo António. Provavelmente, esta aldeia terá origem num desses habitats que, após a Reconquista Cristã, gradualmente foi crescendo vindo a merecer a edificação de um templo dedicado a S. Marcos.Se lermos as “Memórias Paroquiais” lá encontramos a referência a este templo que se implantaria um pouco acima da actual “Casa do Povo”, não muito longe da velha Fonte da Vala. Esse templo, em torno do qual se constituiu o primeiro cemitério da aldeia, terá sucumbido quando se procedeu à transladação colectiva para o actual, já em inícios do século XX.Embora não tenhamos qualquer informação sobre a data da construção da Igreja de S. Marcos ela seria, seguramente, anterior à de Santo António. Esta presunção assenta na maior antiguidade do culto a S. Marcos e, sobretudo, na memória toponímica que ainda hoje se guarda, por exemplo, em Valência de Alcântara, em relação a esta aldeia. Os mais idosos do lado de lá da fronteira quando se referem à aldeia de Santo António das Areias denominam-na por S. Marcos. Eventualmente, esta antiga toponímia poderá ter, também, alguma relação estreita com a afluência de espanhóis às festas em honra de S. Marcos. Mas, exactamente, a festividade e feira que anualmente se organiza em honra de S. Marcos, a maior e mais concorrida do concelho, comparada com a já muito esquecida procissão em honra de Santo António, parece reforçar a nossa interpretação de que, originariamente, esta povoação terá emergido em torno da desaparecida igreja de S. Marcos e posteriormente, terá então sido construído um novo templo dedicado a Santo António, no sítio das Areias.A nova igreja, provavelmente construída na segunda metade do século XVI, terá originado outra organização urbana em torno do novo e mais amplo templo, contribuindo para a perca de centralidade da de S. Marcos. A data aventada para a edificação da Igreja de Santo António assenta na leitura da inscrição gravada no capitel do cruzeiro onde, com dificuldade, ainda se lê 1569. Se a nossa leitura estiver correcta e se o cruzeiro for contemporâneo da construção da igreja, a data da centúria de setecentos que se mostra gravada na base granítica que sustentou o púlpito que se encontrava no interior da Igreja de Santo António deverá corresponder a uma fase de remodelação ou reconstrução deste templo e não à data da sua fundação.De qualquer forma, esta data da centúria de setecentos é bastante posterior ao mais antigo registo paroquial que se conhece para esta aldeia. Estranhamente, este registo reporta-se a um baptismo datado de 1715. Dizemos estranhamente porque, por norma, os mais antigos registos reportam-se, exclusivamente, aos óbitos. Naturalmente, esta norma aplica-se, essencialmente, aos registos paroquiais mais antigos, datáveis dos finais do século XV e século XVI. Iniciando-se o primeiro livro de registos com um baptismo no ano de 1715 e constando no mesmo livro o assento do primeiro casamento em 1716 e o primeiro óbito em 1722, é provável que esta freguesia tivesse sido constituída no ano de 1715, ou um pouco mais cedo, embora já neste local existissem dois templos mas nenhum deles constituído, até essa data, como sede paroquial. As gentes residentes neste local estariam vinculadas a uma das freguesias sediadas em Marvão, ganhando a sua autonomia apenas no início do século XVIII.


Jorge de Oliveira

quinta-feira, 5 de junho de 2008

JOÃO SILVA DA COSTA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.

Sexta-feira da Paixão um caso se praticou:
O João Silva da Costa nesse dia se matou.
Nesse dia se matou p'la sua pouca vintura.
Foi lançar o seu pescoço à correia da cintura.
Deixou escrito no seu lenço
(Já 'tou a dezêr mal...)
"Vou fazer este serviço p'rò meu nome s' acabar.
Não me ponham jé mais faltas, por isso me vou matar."
Deixou escrita no lenço, é porque sabia ler:
"Vão dezêr à Fastina, que me venha também ver."
(Era a namorada dele.)
"Vem cá Maria, vem cá a ver o nosso João!"
Os gritos que ele dava erim gritos d' aflição.
"Vem cá Maria, vem cá, que está nosso filho morto,
Junto à Festa de Flores causou um grande desgosto."
"Mandim dezêr à Fastina que me venha também ver.
[......................................] [........................................]
[......................................] minha bela rapariga,
Levo-a no coração, adeus para toda a vida.
Adeus para toda a vida, adeus para nunca mais,
Levo no meu coração são os meus queridos pais.
Levem-me p'rò Porto Espada, dêem gritos de aflição,
Darei o meu último adeus a quem fechér meu caixão."
Coradas, novas coradas na flor da laranjeira.
Quem lhe fechou o caixão foi uma moça solteira.
Tudo isto aconteceu cá no sítio da Rebêra
[......................................] [........................................]
(Onde mora o ti' Julo.)
(A mesma que fez o outro [verso] foi a Emila Salgueira, mulher do meu primo Baptista.)
SOLDADO ESQUECIDO PELA NOIVA
EXPÕE-SE À MORTE NA BATALHA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.

António, que levara para a guerra um pombo de correio encantador
P'ra mandar notícias parà terra à sua noiva amada, Lianor.
À hora da partida o juramento. Ele disse a chorar: "Deus te dê sorte!"
[..............................................] Ela jurou ser dele até à morte.
E um dia pelo pombo, entre promessas, mandou-lhe dizer tristes infindas:
"Sou teu, sou pela Pátria, não me esqueças, sou vivo e se morrer sou teu ainda."
Um dia estando ele muito desorto, vendo o retrato dela, nostalgia,
Quando lhe cai aos pés um pombo morto com um simples bilhete que dizia:
"Cobrei meu juramento, eu bem sei, e tu não voltas mais à nossa terra.
Esquece-te de mim, qu' eu já casei. Desejo-te que sejas feliz aí na guerra."
António gargalhou em voz tremente, deu gritos cheio de raiva, cheio de dor.
Expôs o peito ao fogo heroicamente, morreu sempre a chamar p'la Lianor.
MARIA FERNANDES PEREIRA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.

No dia dez de Janeiro houve uma grande paixão:
Maria Fernandes Pereira foi p'ra debaixo do chão.
Seu pai se vestiu de luto com uma grande ternura.
"Filha do meu coração, já lá vais p'rà sepultura!"
Sua mãe dava gritos, que todo o povo esturgia.
"Eras das mais lindas moças que nos Galegos havia."
(E ela era até a mais bonita de todas!)
A sua mana mais velha, que tinha grande paixão:
"Vais gozar a mocidade para debaixo do chão!"
(Fez vinte anos debaixo do chão.)
E a sua mana mais nova tinha grande sentimento.
"Adeus minha querida mana, foste nossa pouco tempo.
Criou-te Nossa Senhora para nossa companhia.
Deixas a nossa família, nunca mais tem alegria."
Coradas, novas coradas, raminho de laranjeira,
("uma flor de laranjeira", tanto faz!)
Tinha grande nomeada Maria Fernandes Pereira.

(A Maria Pereira era moça do meu tempo.)

quinta-feira, 8 de maio de 2008


A teoria não me parece consensual, mas este artiguinho sobre a igreja de Nossa Senhora da Penha de Castelo de Vide merece ser arquivado.

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