terça-feira, 8 de julho de 2008


Sobre as origens de Santo António das Areias


A zona central e mais antiga de Santo António implanta-se numa suave encosta, maioritariamente, exposta ao poente, drenada por linhas de água de curso sazonal, das quais se destaca o Ribeiro do Lobo e a Ribeira do Tragazal. Ainda que até esta data não tivesse sido identificada qualquer referência a esta aldeia anterior a 1569, poderemos equacionar a hipótese deste lugar ter sido ocupado a partir dos fins do Império Romano. Esta hipótese assenta na estratégia de povoamento da Alta-Idade-Média que se constata na área do actual concelho de Marvão. Com a destruição da cidade de Ammaia e sob a pressão dos Bárbaros, verifica-se, sobretudo a partir dos finais do século V, uma nova forma de ocupação dos solos. Pequenos e médios casais agrícolas começam a estabelecer-se nas encostas suaves, não muito longe de linhas de água, envoltos por terras com alguma aptidão agrícola mas, sobretudo, não muito evidentes na paisagem. A instabilidade política obrigava a alguma precaução. Desses conturbados tempos conhecemos vários testemunhos nas imediações de Santo António das Areias. Destes destacam-se os pequenos habitats da Água da Cuba, da Patinha da Burra, da Asseiceira, da Ranginha, do Lagar dos Frades ou o da Feijoeira. Qualquer destes sítios arqueológicos, infelizmente nunca estudados, apresenta uma implantação orográfica muito semelhante à que se verifica em Santo António. Provavelmente, esta aldeia terá origem num desses habitats que, após a Reconquista Cristã, gradualmente foi crescendo vindo a merecer a edificação de um templo dedicado a S. Marcos.Se lermos as “Memórias Paroquiais” lá encontramos a referência a este templo que se implantaria um pouco acima da actual “Casa do Povo”, não muito longe da velha Fonte da Vala. Esse templo, em torno do qual se constituiu o primeiro cemitério da aldeia, terá sucumbido quando se procedeu à transladação colectiva para o actual, já em inícios do século XX.Embora não tenhamos qualquer informação sobre a data da construção da Igreja de S. Marcos ela seria, seguramente, anterior à de Santo António. Esta presunção assenta na maior antiguidade do culto a S. Marcos e, sobretudo, na memória toponímica que ainda hoje se guarda, por exemplo, em Valência de Alcântara, em relação a esta aldeia. Os mais idosos do lado de lá da fronteira quando se referem à aldeia de Santo António das Areias denominam-na por S. Marcos. Eventualmente, esta antiga toponímia poderá ter, também, alguma relação estreita com a afluência de espanhóis às festas em honra de S. Marcos. Mas, exactamente, a festividade e feira que anualmente se organiza em honra de S. Marcos, a maior e mais concorrida do concelho, comparada com a já muito esquecida procissão em honra de Santo António, parece reforçar a nossa interpretação de que, originariamente, esta povoação terá emergido em torno da desaparecida igreja de S. Marcos e posteriormente, terá então sido construído um novo templo dedicado a Santo António, no sítio das Areias.A nova igreja, provavelmente construída na segunda metade do século XVI, terá originado outra organização urbana em torno do novo e mais amplo templo, contribuindo para a perca de centralidade da de S. Marcos. A data aventada para a edificação da Igreja de Santo António assenta na leitura da inscrição gravada no capitel do cruzeiro onde, com dificuldade, ainda se lê 1569. Se a nossa leitura estiver correcta e se o cruzeiro for contemporâneo da construção da igreja, a data da centúria de setecentos que se mostra gravada na base granítica que sustentou o púlpito que se encontrava no interior da Igreja de Santo António deverá corresponder a uma fase de remodelação ou reconstrução deste templo e não à data da sua fundação.De qualquer forma, esta data da centúria de setecentos é bastante posterior ao mais antigo registo paroquial que se conhece para esta aldeia. Estranhamente, este registo reporta-se a um baptismo datado de 1715. Dizemos estranhamente porque, por norma, os mais antigos registos reportam-se, exclusivamente, aos óbitos. Naturalmente, esta norma aplica-se, essencialmente, aos registos paroquiais mais antigos, datáveis dos finais do século XV e século XVI. Iniciando-se o primeiro livro de registos com um baptismo no ano de 1715 e constando no mesmo livro o assento do primeiro casamento em 1716 e o primeiro óbito em 1722, é provável que esta freguesia tivesse sido constituída no ano de 1715, ou um pouco mais cedo, embora já neste local existissem dois templos mas nenhum deles constituído, até essa data, como sede paroquial. As gentes residentes neste local estariam vinculadas a uma das freguesias sediadas em Marvão, ganhando a sua autonomia apenas no início do século XVIII.


Jorge de Oliveira

quinta-feira, 5 de junho de 2008

JOÃO SILVA DA COSTA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.

Sexta-feira da Paixão um caso se praticou:
O João Silva da Costa nesse dia se matou.
Nesse dia se matou p'la sua pouca vintura.
Foi lançar o seu pescoço à correia da cintura.
Deixou escrito no seu lenço
(Já 'tou a dezêr mal...)
"Vou fazer este serviço p'rò meu nome s' acabar.
Não me ponham jé mais faltas, por isso me vou matar."
Deixou escrita no lenço, é porque sabia ler:
"Vão dezêr à Fastina, que me venha também ver."
(Era a namorada dele.)
"Vem cá Maria, vem cá a ver o nosso João!"
Os gritos que ele dava erim gritos d' aflição.
"Vem cá Maria, vem cá, que está nosso filho morto,
Junto à Festa de Flores causou um grande desgosto."
"Mandim dezêr à Fastina que me venha também ver.
[......................................] [........................................]
[......................................] minha bela rapariga,
Levo-a no coração, adeus para toda a vida.
Adeus para toda a vida, adeus para nunca mais,
Levo no meu coração são os meus queridos pais.
Levem-me p'rò Porto Espada, dêem gritos de aflição,
Darei o meu último adeus a quem fechér meu caixão."
Coradas, novas coradas na flor da laranjeira.
Quem lhe fechou o caixão foi uma moça solteira.
Tudo isto aconteceu cá no sítio da Rebêra
[......................................] [........................................]
(Onde mora o ti' Julo.)
(A mesma que fez o outro [verso] foi a Emila Salgueira, mulher do meu primo Baptista.)
SOLDADO ESQUECIDO PELA NOIVA
EXPÕE-SE À MORTE NA BATALHA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.

António, que levara para a guerra um pombo de correio encantador
P'ra mandar notícias parà terra à sua noiva amada, Lianor.
À hora da partida o juramento. Ele disse a chorar: "Deus te dê sorte!"
[..............................................] Ela jurou ser dele até à morte.
E um dia pelo pombo, entre promessas, mandou-lhe dizer tristes infindas:
"Sou teu, sou pela Pátria, não me esqueças, sou vivo e se morrer sou teu ainda."
Um dia estando ele muito desorto, vendo o retrato dela, nostalgia,
Quando lhe cai aos pés um pombo morto com um simples bilhete que dizia:
"Cobrei meu juramento, eu bem sei, e tu não voltas mais à nossa terra.
Esquece-te de mim, qu' eu já casei. Desejo-te que sejas feliz aí na guerra."
António gargalhou em voz tremente, deu gritos cheio de raiva, cheio de dor.
Expôs o peito ao fogo heroicamente, morreu sempre a chamar p'la Lianor.
MARIA FERNANDES PEREIRA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.

No dia dez de Janeiro houve uma grande paixão:
Maria Fernandes Pereira foi p'ra debaixo do chão.
Seu pai se vestiu de luto com uma grande ternura.
"Filha do meu coração, já lá vais p'rà sepultura!"
Sua mãe dava gritos, que todo o povo esturgia.
"Eras das mais lindas moças que nos Galegos havia."
(E ela era até a mais bonita de todas!)
A sua mana mais velha, que tinha grande paixão:
"Vais gozar a mocidade para debaixo do chão!"
(Fez vinte anos debaixo do chão.)
E a sua mana mais nova tinha grande sentimento.
"Adeus minha querida mana, foste nossa pouco tempo.
Criou-te Nossa Senhora para nossa companhia.
Deixas a nossa família, nunca mais tem alegria."
Coradas, novas coradas, raminho de laranjeira,
("uma flor de laranjeira", tanto faz!)
Tinha grande nomeada Maria Fernandes Pereira.

(A Maria Pereira era moça do meu tempo.)

quinta-feira, 8 de maio de 2008


A teoria não me parece consensual, mas este artiguinho sobre a igreja de Nossa Senhora da Penha de Castelo de Vide merece ser arquivado.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

JOVEM SEDUZIDA
CONVENCE O NAMORADO A CASAR

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Joaquim Antunes Vicente, de 73 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


DESPIQUE ENTRE RAPAZ E RAPARIGA

"Ó José, ó Josezinho, tu por aqui a passear?
Parece que de mim foges só para não me vires falar."
"Olha lá, ó Carolina, eu não escuto paixões.
Fala lá para quem quiseres, não quero cativações."
"Quando eras pequenino, eras muito meu amigo.
Fugias à tua mãe só para vires brincar comigo."
"Nesse tempo de criança eu brincava sem maldade
E agora eu não brinco, porque já não tenho vontade.
Ah, ah, ah! Deixa-me rir da boneca enfeitada.
Se não fossem os arreios, não valias uma pitada."
"O maroto e o atrevido, já de mim fazem mangação.
Quantas vezes pelo Céu me prometeste a direita mão!
Agora dizes que não, eu cá sigo o meu intento.
Quantas vezes pelo Céu me prometeste casamento!"
"Escuta lá, ó Carolina, esse teu falar sem tempo.
Mulheres bonitas e boas sempre ganham para o sustento."
"Já meu pai me abandonou, já de mim ninguém tem dó.
Se tu não casares comigo, vou para o fadinho liró."
"Anda cá, ó Carolina, tu é que és a minha amante.
Ainda hoje te vou receber. Quem quiser cantar, que cante."
Torradas, boas torradas. Por cima levam café.
Ainda bem que venceu a Carolina e o José.

segunda-feira, 17 de março de 2008

CARREIRAS
segundo Maria Guadalupe
(in Fonte Nova, de 15 de Março)


Depois de lembrarmos a Anta de "João Martins" e de sabermos da existência dum povoado do Neolítico na zona do Veloso que a memória colectiva não perdeu, podemos afirmar que a Freguesia de Carreiras foi habitada desde tempos imemoriais.
No entanto, nós propusemo-nos estudar o nascimento e desenvolvimento de uma paróquia, o que aconteceria milhares de anos depois.
E teremos de voltar aos tempos florescentes de Ammaia para continuarmos a contar com clareza "histórias" da história.
No número especial da grande revista Ibn Manuan intitulado "São Salvador de Aramenha/História e Memórias da Freguesia" com coordenação de Jorge Oliveira, lê-se: "... só com a chegada do domínio romano, esta zona foi efectivamente ocupada de forma expressiva"
E ainda: "Assim, o contacto com a civilização romana... viria a marcar irreversivelmente a história da freguesia* e da região"
Ora quem fala de Paróquia fala automaticamente de Cristianismo e é durante o domínio romano que esta religião chega à Península Ibérica.
É no Império Romano que surgem as Dioceses que serão divididas em Paróquias no século IV da nossa era.

* freguesia - referência a S. Salvador de Aramenha
Bibliografia
Civilização Cristã - Larousse
Círculo de Leitores - 2000
IBN Maruan - nº 13
São Salvador de Aramenha/História e Memórias da Freguesia - Coordenação de Jorge Oliveira

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