quinta-feira, 5 de junho de 2008

JOÃO SILVA DA COSTA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.

Sexta-feira da Paixão um caso se praticou:
O João Silva da Costa nesse dia se matou.
Nesse dia se matou p'la sua pouca vintura.
Foi lançar o seu pescoço à correia da cintura.
Deixou escrito no seu lenço
(Já 'tou a dezêr mal...)
"Vou fazer este serviço p'rò meu nome s' acabar.
Não me ponham jé mais faltas, por isso me vou matar."
Deixou escrita no lenço, é porque sabia ler:
"Vão dezêr à Fastina, que me venha também ver."
(Era a namorada dele.)
"Vem cá Maria, vem cá a ver o nosso João!"
Os gritos que ele dava erim gritos d' aflição.
"Vem cá Maria, vem cá, que está nosso filho morto,
Junto à Festa de Flores causou um grande desgosto."
"Mandim dezêr à Fastina que me venha também ver.
[......................................] [........................................]
[......................................] minha bela rapariga,
Levo-a no coração, adeus para toda a vida.
Adeus para toda a vida, adeus para nunca mais,
Levo no meu coração são os meus queridos pais.
Levem-me p'rò Porto Espada, dêem gritos de aflição,
Darei o meu último adeus a quem fechér meu caixão."
Coradas, novas coradas na flor da laranjeira.
Quem lhe fechou o caixão foi uma moça solteira.
Tudo isto aconteceu cá no sítio da Rebêra
[......................................] [........................................]
(Onde mora o ti' Julo.)
(A mesma que fez o outro [verso] foi a Emila Salgueira, mulher do meu primo Baptista.)
SOLDADO ESQUECIDO PELA NOIVA
EXPÕE-SE À MORTE NA BATALHA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.

António, que levara para a guerra um pombo de correio encantador
P'ra mandar notícias parà terra à sua noiva amada, Lianor.
À hora da partida o juramento. Ele disse a chorar: "Deus te dê sorte!"
[..............................................] Ela jurou ser dele até à morte.
E um dia pelo pombo, entre promessas, mandou-lhe dizer tristes infindas:
"Sou teu, sou pela Pátria, não me esqueças, sou vivo e se morrer sou teu ainda."
Um dia estando ele muito desorto, vendo o retrato dela, nostalgia,
Quando lhe cai aos pés um pombo morto com um simples bilhete que dizia:
"Cobrei meu juramento, eu bem sei, e tu não voltas mais à nossa terra.
Esquece-te de mim, qu' eu já casei. Desejo-te que sejas feliz aí na guerra."
António gargalhou em voz tremente, deu gritos cheio de raiva, cheio de dor.
Expôs o peito ao fogo heroicamente, morreu sempre a chamar p'la Lianor.
MARIA FERNANDES PEREIRA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.

No dia dez de Janeiro houve uma grande paixão:
Maria Fernandes Pereira foi p'ra debaixo do chão.
Seu pai se vestiu de luto com uma grande ternura.
"Filha do meu coração, já lá vais p'rà sepultura!"
Sua mãe dava gritos, que todo o povo esturgia.
"Eras das mais lindas moças que nos Galegos havia."
(E ela era até a mais bonita de todas!)
A sua mana mais velha, que tinha grande paixão:
"Vais gozar a mocidade para debaixo do chão!"
(Fez vinte anos debaixo do chão.)
E a sua mana mais nova tinha grande sentimento.
"Adeus minha querida mana, foste nossa pouco tempo.
Criou-te Nossa Senhora para nossa companhia.
Deixas a nossa família, nunca mais tem alegria."
Coradas, novas coradas, raminho de laranjeira,
("uma flor de laranjeira", tanto faz!)
Tinha grande nomeada Maria Fernandes Pereira.

(A Maria Pereira era moça do meu tempo.)

quinta-feira, 8 de maio de 2008


A teoria não me parece consensual, mas este artiguinho sobre a igreja de Nossa Senhora da Penha de Castelo de Vide merece ser arquivado.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

JOVEM SEDUZIDA
CONVENCE O NAMORADO A CASAR

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Joaquim Antunes Vicente, de 73 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


DESPIQUE ENTRE RAPAZ E RAPARIGA

"Ó José, ó Josezinho, tu por aqui a passear?
Parece que de mim foges só para não me vires falar."
"Olha lá, ó Carolina, eu não escuto paixões.
Fala lá para quem quiseres, não quero cativações."
"Quando eras pequenino, eras muito meu amigo.
Fugias à tua mãe só para vires brincar comigo."
"Nesse tempo de criança eu brincava sem maldade
E agora eu não brinco, porque já não tenho vontade.
Ah, ah, ah! Deixa-me rir da boneca enfeitada.
Se não fossem os arreios, não valias uma pitada."
"O maroto e o atrevido, já de mim fazem mangação.
Quantas vezes pelo Céu me prometeste a direita mão!
Agora dizes que não, eu cá sigo o meu intento.
Quantas vezes pelo Céu me prometeste casamento!"
"Escuta lá, ó Carolina, esse teu falar sem tempo.
Mulheres bonitas e boas sempre ganham para o sustento."
"Já meu pai me abandonou, já de mim ninguém tem dó.
Se tu não casares comigo, vou para o fadinho liró."
"Anda cá, ó Carolina, tu é que és a minha amante.
Ainda hoje te vou receber. Quem quiser cantar, que cante."
Torradas, boas torradas. Por cima levam café.
Ainda bem que venceu a Carolina e o José.

segunda-feira, 17 de março de 2008

CARREIRAS
segundo Maria Guadalupe
(in Fonte Nova, de 15 de Março)


Depois de lembrarmos a Anta de "João Martins" e de sabermos da existência dum povoado do Neolítico na zona do Veloso que a memória colectiva não perdeu, podemos afirmar que a Freguesia de Carreiras foi habitada desde tempos imemoriais.
No entanto, nós propusemo-nos estudar o nascimento e desenvolvimento de uma paróquia, o que aconteceria milhares de anos depois.
E teremos de voltar aos tempos florescentes de Ammaia para continuarmos a contar com clareza "histórias" da história.
No número especial da grande revista Ibn Manuan intitulado "São Salvador de Aramenha/História e Memórias da Freguesia" com coordenação de Jorge Oliveira, lê-se: "... só com a chegada do domínio romano, esta zona foi efectivamente ocupada de forma expressiva"
E ainda: "Assim, o contacto com a civilização romana... viria a marcar irreversivelmente a história da freguesia* e da região"
Ora quem fala de Paróquia fala automaticamente de Cristianismo e é durante o domínio romano que esta religião chega à Península Ibérica.
É no Império Romano que surgem as Dioceses que serão divididas em Paróquias no século IV da nossa era.

* freguesia - referência a S. Salvador de Aramenha
Bibliografia
Civilização Cristã - Larousse
Círculo de Leitores - 2000
IBN Maruan - nº 13
São Salvador de Aramenha/História e Memórias da Freguesia - Coordenação de Jorge Oliveira

terça-feira, 11 de março de 2008

CARREIRAS
segundo Maria Guadalupe Alexandre
(in Fonte Nova, de 4/3/08)


Referimo-nos, no último texto a propósito das Antas, ao Neolítico como fase do desenvolvimento das sociedades pré-históricas que implicava o sedentarismo, logo a construção de povoados.
De há muito sabíamos do de Castelo Velho no Norte do concelho de Castelo de Vide e daquele que faz parte "do complexo ocupacional dos Vidais" no concelho de Marvão.
Mas o que especialmente nos interessa é que especialmente nos interessa é que há cerca de 20 (?) anos o arqueólogo Professor Jorge Oliveira fez na zona do Veloso, Freguesia de Carreiras, uma escavação, segundo o referido investigador "pouco conclusiva", mas que permite afirmar que ali existiu um povoado Neolítico.
O Historiador encontrou várias mós e uma delas muito especial "ornamentada" com umas pequenas covas que gostaria de "voltar a estudar".
Estes achados encontram-se em Castelo de Vide, em local julgado propício para a sua conservação, aquando das descobertas.
Interessante notar que em 1992, Ana Fernandes Martins, contou a Ruy Ventura uma lenda de carácter religioso, na qual "um cabreiro... morava lá para o pé do Veloso onde era antigamente o povo...".

Agradecimentos especiais
Ao Professor Doutor Jorge Oliveira que se dignou comunicar por mail e à Drª Carla Miguéns que fielmente transmitiu a comunicação.

Bibliografia
Ventura, Ruy - Contos e Lendas da Serra de S. Mamede - Antologia Breve

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