terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

CARREIRAS
segundo Maria Guadalupe
(in Fonte Nova, de 16/02/2008)


Terminámos o último artigo com a certeza de que os Celtas andaram pelas Carreiras.
Vamos hoje recuar mais ainda no tempo, porque testemunhos importantes a isso nos obrigam.
Cumprimos gostosamente esse dever.
Não poderemos esquecer a Anta do "João Martins" que nos leva a pensar na ocupação humana do território da freguesia há cinco mil anos, nem que os concelhos de Castelo de Vide e de Marvão são ricos destes monumentos.
No primeiro foram estudados pela Drª Maria da Conceição Monteiro Rodrigues, 24; no segundo o professor da Universidade de Évora Dr. Jorge Oliveira descreveu 25.
São as antas formadas por grandes pedras (megálitos) colocadas ao alto, encimadas, por uma laje chamada chapéu, formando a câmara. Desta partia, por vezes, um corredor, construído também com grandes pedras e coberto por outras. Tratam-se de monumentos sepulcrais.
No interior conservam-se frequentemente ossadas humanas, acompanhadas por recipientes de cerâmica, objectos de pedra talhada e polida e "outros artefactos de cariz simbólico".
Desconhecem-se "as razões que poderão estar na selecção dos que a este tipo de sepulcro tinham direito", mas é evidente que nem todos os membros da comunidade eram assim tumulados.
As antas pertencem ao Neolítico, fase do desenvolvimento técnico das sociedades pré-históricas correspondente ao sedentarismo, início da agricultura, criação de gado, etc.
Na América, na China, no Sudeste Asiático e no próximo Oriente relacionam-se com a origem deste modo de vida vários focos de desenvolvimento.
É possível que nas Carreiras existam outras antas semi-destruídas ou quase irreconhecíveis de cuja situação se poderão lembrar ainda os mais velhos.

Bibliografia
Nova Enciclopédia Larousse - Círculo de Leitores, 1998
Oliveira, Jorge - Antas e Menires do Concelho de Marvão - IBN MARUAN, nº 8, 1998
Rodrigues, Mª Conceição Monteiro - Carta Arqueológica do concelho de Castelo de Vide, 1976

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Um exemplo discreto
(in O Distrito de Portalegre, de 31/1/2008)


José Régio quis escrever em 1941 as linhas seguintes: “Muitas vezes tenho pensado com tristeza [...] que bem escassos são em Portalegre os interesses de ordem intelectual, cultural, espiritual.”. Essa opinião, com matizes mais profundos, não andava longe da impressão fugaz de Fernando Pessoa, que em Portalegre estacionou em 1909 e numa carta afirmara: “Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter [...], em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semi-espanholismo e nada.”. Mais acutilantes haviam sido as frases do magistrado e contista Trindade Coelho que, no final do século XIX, assim escreveu: “Em Portalegre estive 4 anos [...]. / A terra era muito política (no pior sentido desta má e feia palavra!) – e o partido que estava no governo começou logo a embirrar comigo, porque eu, no exercício do meu cargo, cortava a direito sem querer saber de política nem de políticos...
Tantos anos passados, muitos aspectos terão melhorado. Mas, como provam até à saciedade os textos literários, sociológicos e históricos de diversos autores, se “a alma do Homem é que dá corpo à cidade”, continuam a existir em Portalegre fenómenos preocupantes pelo seu atavismo, pelo seu fechamento, pela sua falta de exigência ética, moral e cívica, pela maneira como mostram uma sociedade em que o mérito, a liberdade e a democracia são ainda, em grande parte, uma miragem. Só assim se explica que, aí, continuem existindo, impunes, instituições públicas que utilizam o dinheiro dos contribuintes na promoção de medíocres e na valorização de cidadãos cujas más acções são conhecidas, poderes ilegítimos que dominam e manipulam os legítimos, meios de censura velados mas eficazes. A situação é inquietante. No meio desse negrume, salvam-se felizmente alguns exemplos de acção pública que, mesmo discretos, conseguem iluminar nesgas do viver social.
Entre esses cidadãos que, pela sua simples presença, já constituem marcas positivas, poderia salientar vários, uns falecidos (como Baptista Tavares ou Amorim Afonso), outros felizmente ainda vivos (como Nicolau Saião ou Garcia de Castro). Quero, no entanto, sublinhar neste artigo João Ribeirinho Leal. O pretexto é o seu milésimo “Ponto de Vista”, mas esta coluna (caso de longevidade na imprensa regional) é apenas uma das formas de expressão da actividade de um cidadão que, sem pretensões, se tem preocupado sobretudo com a sua coerência e com o seu exemplo cívico.Podemos gostar ou não de quanto escreve, de quanto diz na rádio, de quanto desenvolve e apoia na região, mas um defeito que nunca lhe apontaremos é o da falta de estrutura vertebral. A sua acção, já com algumas décadas, submete-se sempre ao imperativo testemunhal. E dar testemunho, para Ribeirinho Leal, é promover a Justiça, num labor que procura iluminar – mesmo com meios modestos – os exemplos humanos positivos da sociedade regional em que vive e as facetas menos desagradáveis de alguns seres com que se depara. Como cristão, não receia ainda denunciar comportamentos indignos ou desumanos que é preciso expulsar da vivência do dia-a-dia. Para tudo isto, rompe (discretamente) cortinas de fumo produzidas por quantos desejam lançar no esquecimento os méritos que relevam, por contraste, a sua mediocridade ou a sua maldade. Isto (e não é pouco...) lhe deve Portalegre e o seu distrito – logo, todos nós, que nesse espaço vivemos ou a ele estamos ligados. Exemplos como o dele (mesmo discretos), sendo raros, devem ser aplaudidos e acarinhados, para que possam multiplicar-se.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Nicolau Saião

"Em Portalegre cidade"... ou Portalegre no seu melhor

Não é todos os dias que, na chamada grande imprensa, o nome da cidade de Portalegre é citado. Em geral costuma ser pelos motivos menos positivos: um burlão que é apanhado com a doutorice na botija, um desastre ou um assalto perpetrado em plena luz do dia na rua mais concorrida da terra, um grupo de funcionários/polícias que, por denuncia do seu comandante da altura, é investigado e (processado?) por se ter enredado em "ligações perigosas" com comerciantes, um caso momentoso no hospital, noutra entidade funcionalista, ou a derrocada súbita duma casa entaipando quem lá morava...
Verdade seja que lá de vez em quando também aparecem citados, ainda que ao de leve, acontecimentospositivos de relevo: um prémio atribuído, à autarquia e ao arquitecto, pela recuperação de um edifício histórico integrado na renovação da cidade, os sucessos de autores de reconhecido mérito (em geral depois discriminados portas adentro, porque não interessa que façam concorrencia aos "galhetas" semi-intelectuais), um alto empresário que, segundo consta, virá para cá trabucar, um bispo novo que vai ser para cá nomeado, etc...
Enfim, creio que me faço entender.
Por isso, é sempre com alvoroço que o nosso coração portalegrense se põe a palpitar ao toparmos - ainda para mais sem o esperarmos - num grande órgão de comunicação, com quaisquer notícias sobre a região lagóia. Foi o que me sucedeu em relação a esta que aqui se deixa e na qual Jorge Isidro, presidente do clube que também é do meu coração, mesmo familiar pois que todos os meus filhos nele jogaram, fala sem papas na língua - o que só lhe fica bem e é exemplo que por ali deve estimular-se.

"[...]
Em poucos anos o Estrela de Portalegre passou do céu ao inferno futebolístico. O mesmo clube que em 2001/02 colocou o nome no livro do Guiness, depois de 19 vitórias consecutivas na III Divisão, está agora no último lugar desse mesmo campeonato, sem qualquer vitória conquistada.
[...]
Em 16 jogos foram somados apenas três pontos, fruto de empates. Tudo o resto foram derrotas. Entre os adeptos, por certo, reina a saudade da época gloriosa do início da década, mas para o presidente Jorge Isidro é esse feito que explica os problemas actuais.
«Preferia que essa época nunca tivesse acontecido. Nesta altura o Estrela estava nos primeiros lugares da III Divisão e com as contas em dia. Nesses anos gastou-se muito dinheiro, o que desequilibrou as contas do clube», explicou o dirigente, em conversa com o Maisfutebol.
Quando o Estrela de Portalegre ganhou mediatismo nos jornais, Jorge Isidro ainda não era presidente. Entrou para a presidência do clube em 2003, e foi logo obrigado a tomar uma decisão difícil.
«O clube ficou em 2º lugar na segunda divisão, muito perto de conseguir à subida à Liga de Honra. Aceitei o desafio de assumir a presidência e tentar equilibrar as contas, mas o cenário que me foi apresentado era três vezes pior do que eu julgava. Decidi que não havia condições para fazer uma equipa competitiva e fomos para os distritais», explica.
As portas dos campeonatos profissionais fecharam e o Estrela foi parar ao Campeonato Distrital de Portalegre. Em termos desportivos a decisão teve efeitos muito negativos, mas o líder do clube considera que havia factores mais relevantes a ter em conta. «Construir uma boa equipa é fácil. Mas depois temos de pagar às pessoas. Temos de ser honestos. Não posso pagar só dois meses», explica.
Equipa made in Portalegre
Filipe Romão, um dos capitães de equipa, partilha da opinião do presidente. O jogador considera que «o recorde resultou na destruição do clube». «Não se consegue isso com uma equipa dita normal. Isso trouxe problemas financeiros», disse ao Maisfutebol.
O defesa frisa que o emblema alentejano tem as contas todas em dia, mas o rigor orçamental explica as limitações desportivas. «Agora o clube limita-se a ter jogadores do distrito. Só há um ou dois de fora porque ninguém quer vir para aqui a ganhar pouco», conta.
Apesar de estar em último lugar da Série E, com 13 derrotas, o Estrela de Portalegre não tem sofrido muitas goleadas. «O nosso resultado mais pesado foi 4-1, em Câmara de Lobos. Trabalhamos todos os dias para alcançar um resultado positivo mas não temos sido felizes. Não há explicação para isso, é uma frustração muito grande».
"

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

JOVEM ESPERA PELO NAMORADO
QUE MORREU NA GUERRA

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.


Maria José
Que ainda se vê
Guardando o seu gado
Que adorava e cria
[..................................]
[..................................]

De tantos amores,
Esses dois pastores
Davim que falar.
Pelos trigais [...]
Quando se zangavam,
Punham-se a cantar.

"Dá-me um beijo Zé Maria,
Qualquer dia casaramos.
[.........................................]
Tenho fé nesse dia, que alegria!
Lá 'tá toda a freguesia
No casório da Maria mais do Zé."

Mas um dia a guerra
Foi buscar à terra
O bom Zé Maria.
Ele foi-se embora.
Ao longe a pastora
'Inda le dezia:

"Qualquer dia voltarás,
Eu tenho fé."
Mas quando o mal findou
Voltou a alegria,
Mas o Zé Maria
Nunca mais voltou.

E hoje a pastora
Sorri, canta e chora,
Vive na esperança
De ver um dia
O Zé Maria
Que morreu em França.

(Aprendi com uma rapariga que aprendeu com uma pessoa mais velha. Isto passou-se na Guerra da França.)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007


Caras amigas e caros amigos,


Gostaria muito de vos desejar individualmente

um Natal cheio de alegria e de paz.

Sendo isso impossível

(os leitores deste blogue já são alguns...),

mando-vos um abraço forte

e deixo aqui os meus desejos mais sinceros:

tudo de bom para vós!

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