sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

CARREIRAS
(segundo Maria Guadalupe)


Falemos então dos celtas.
Antes de tudo e porque o nosso objectivo é "Viver Carreiras", diremos que foram os "responsáveis" pela manutenção do som "e" (aberto) em vez de "a" proveniente de "A" tónico latino.
Os carreirenses sabem que os mais velhos normalmente iletrados (e isto não significa incultos) dizem brinquer por brincar, fumer por fumar, bureco em vez de buraco, cedede por cidade, varejer, por varejar, etc.
É uma característica dos falares da Beira Baixa e do Nordeste Alentejano de origem céltica, que se mantém viva nos nossos dias e é prova da permanência desse povo nesta parte do país.
É que antes que os romanos submetessem a Península Ibérica já os Celtas permaneciam nela havia muitos séculos.
O berço desta civilização foi a Europa Central - Boémia e Baviera, mas a partir do século V a.c. estes povos começaram a deslocar-se para Ocidente e até ao Mar do Norte.
No ano 300 antes da nossa Era ocupavam os territórios dos seguintes países: Irlanda, Grã-Bretanha, França, Suiça, Espanha, Portugal e uma parte da Turquia.
Tinham uma escrita própria o "ogam". Foram encontradas nas Ilhas Britânicas gravadas nas arestas de blocos de pedra, cerca de 360 inscrições celtas em escrita ogâmica.
O alfabeto consiste num sistema de golpes e "teriam sido necessárias toneladas de pedras para escrever qualquer frase".
Os Celtas desconfiavam dos textos escritos e só registavam o que não tinha importância. O saber dos druidas (sacerdotes), os longos poemas antigos e as narrações dos feitos heróicos dos antepassados eram transmitidos oralmente.
Restam inscrições votivas, de moedas, contas de mercadores e o calendário de Coligny.
Em Portugal são de origem céltica, entre outros, os seguintes topónimos: Bragança, Penafiel, Coimbra, Penacova, Setúbal e Évora.
Os vocábulos "camisa", "caminho" e "légua", tão vulgares em todo o país têm também a referida origem.
E como continuaremos a falar dos Celtas, lembramos, a finalizar que aos "chafurdões" do concelho de Castelo de Vide, de planta redonda e falsa cúpula se costuma chamar de tipo céltico.

Biografia
Alexandre, Maria Guadalupe - Etnografia, Folclores e Linguagem de Castelo de Vide, 1976; Maçãs, Delmira Maria Filomena Benito - Pela Europa de Celtas e Romanas, Lisboa 1993; Walter, Henriette - A Aventura das Línguas do Ocidente - a sua origem, a sua história, a sua geografia, Paris, 1994

(in Fonte Nova, nº 1509. de 1/12/07)

terça-feira, 27 de novembro de 2007

VIDA DE SOLDADO

Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.



"Adeus minha querida mãe, vou seguir o meu caminho,
Agora desprezado, já não tenho os seus carinhos.
Adeus rapazes amigos, que eu os vou abraçar,
Lembrem-se do infeliz que vai para melitar."
(A tropa era muito ruim...)
Assim qu' ò quartel cheguei, à secretaria fui chamado.
"Diga lá como se chama e im que terra foi criado."
Derim-me então um papel e eu fui ver o que dezia.
"Soldado número doze da segunda bataria."
"Agora vais ser soldado, paisana já o não és.
(Enganei-me...)
Ó primeiro sargento eu me fui apresentar.
Mandou-me tomar um banho e o meu cabelo cortar.
Eu fui a tomar um banho numa água muito fria.
Cortaram-me o meu cabelo, perdi a minha alegria.
"Agora vais ser soldado, paisano já o não és.
Vais a ser demudado da cabeça até aos pés.
Toma lá a tua roupa, a camisa veste já.
Veste também as calças e as botas estão acolá.
Veste o teu colete e veste o casacão
E veste também o capote e aperta o cinturão.
Agora já és soldado, esquecido da paisana,
Vai dezêr ao quartelêro que te dê a roupa da cama."
Eu subi mais uma escada um pouco atrapalhado.
Cheguei à porta, parei: "Dá licença senhor cabo?"
"O que é que tu queres?" - De modo me falou.
"Venho buscar roupa da cama, o meu primeiro mandou."
"Toma lá a tua roupa, dois lençóis e duas mantas,
Vai fazer a tua cama na caserna número tantas."
(Não diz o número.)
Fui fazer a minha cama junto dos meus companheiros.
Não conhecia nenhuns, pareciam-me todos estrangeiros.
Quando foi no outro dia, tocou logo a alvorada.
"Põe-te de pé ó galucho, se não levas cinturada!"
E eu pus-me logo de pé, o meu café fui tomar
E no fim disto tudo, a instrução fui começar.
Depois da tropa acabada, dei a vida aborrecida.
"Ó meus belos camaradas, vou a dar a despedida.
Adeus rapazes amigos dum posto igual a mim,
Adeus amigo rancheiro, adeus amigo clarim.
Adeus ó fonte da estrada, onde eu água fui beber.
Adeus muéres e cavalos, nunca mais os quero ver.
Adeus senhor comandante, ó meu tenente-coronel,
Adeus ó meu aspirante, nunca mais volto ao quartel."

(Aprendi muito nova, mas nunca me esqueci por causa dos meus irmãos.)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Soledade Martinho Costa


OS TEUS VERSOS

(a José Duro)


Os versos que escreveste
Foram poucos
Mas vestiam de negro
Já era o luto
Que por ti punha
A força do poema.

Dizer aqui teu nome
Pouco importa.

Mas se tão cedo
Entregaste a vida à morte
E a morte conheceste
E a cantaste
És mais do que um poeta
E és mais forte.

Porque soubeste cantar
A própria morte
E foram versos
O pranto que choraste.


Do livro “A Palavra Nua”

terça-feira, 20 de novembro de 2007


CARREIRAS (Portalegre)
segundo Maria Guadalupe



Eis-me aqui ainda com a capacidade de me deslumbrar perante as coisas simples, o apego, a leitura de paisagens, a sede da essência dos lugares e o sabor do Humanismo que caracterizou a minha geração.
Sinto também a necessidade de partilhar conhecimentos, de aprender e de ensinar, de valorizar personalidades.Viver numa aldeia implica, necessariamente, conhecer o pulsar da comunidade mas pode começar-se pela meditação. Depois de enchermos os olhos de beleza, podemos fechá-los e encarar o universo das interrogações. Procurar descobrir, entender, explicar, interiorizar e amar são marcos de um caminho que me proponho percorrer com todos os leitores, especialmente com os carreirenses.
Vamos lembrar a localização da "aldeia-presépio" para considerarmos dois aspectos que me parecem interessantes. O primeiro diz respeito ao facto da circunscrição se estender por encostas e vales da Região de São Mamede, entalada entre dois concelhos com riqueza histórica - o de Castelo de Vide e o de Marvão. O segundo refere-se à localização da parte urbana, empoleirada num contraforte, espécie de ponta nordestina do Concelho de Portalegre.
Tal situação, agravada pela falta de estradas que se fez sentir até meados do século XX, favorecida, por outro lado, pelas raízes históricas, fez com que os citados concelhos se constituíssem, tal como o de Portalegre, pólos de atracção da comunidade carreirense.
Disso são testemunhos os mercados-francos de Castelo de Vide, bem como a influência do pensamento político, especialmente no início do século passado, a tradição das "rijas bailaradas" no termo de Marvão, a fama da Taberna do Ânjaro (Ângelo) nos Alvarrões e as Veredas de contrabando.
Naturalmente houve casamentos (vários, entre os meus antepassados), estreitaram-se laços de parentesco e a ligação cultural manteve-se até os nossos dias.
Como acontece com todas as freguesias portuguesas, a de Carreiras foi antes a Paróquia de São Sebastião. O termo paróquia significa "congregação de fregueses", entendendo-se por fregueses os filhos da igreja.
São, as paróquias circunscrições antiquíssimas, reflexos de um certo "ordenamento do território" levado a cabo pela Igreja Católica na Europa do século IV, ao sentir necessidade de dividir as dioceses que se tinham estruturado no século II. As paróquias, raízes das actuais freguesias, têm 1600 anos!
Não acreditamos que a de Carreiras seja tão antiga... Mas... que existia nesta região há 16 séculos? Tentaremos responder na próxima semana.

Bibliografia
1. "Civilização Cristã"- Dicionário Temático Larousse (Círculo de Leitores)
2. "Diciona'rio Ilustrado da História de Portugal"- Publicações Alfa
3. Machado, José Pedro- "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa
4. Informações Especiais de Maria F. Tavares Transmontano

*


Há 16 séculos, há mais séculos ainda existia na região a cidade romana de Ammaia, na actual Aramenha, com suas muralhas e portas, seu fórum (praça principal) com termas, templo, suas chefias e actividades, servida por várias estradas que a ligavam a centros importantes.
Situava-se na província da Lusitânia que tinha como capital Mérida (Emérita).
A sua municipalização "deve ter ocorrido no século I e controlava um território vasto em parte coincidente com o distrito de Portalegre".
Dos quatro eixos viários da cidade, um seguia para Sul, utilizando a ponte da Madalena, passando pelos carris, "local onde foi detectado um vestígio do empedrado da calçada", continuava pelos Alvarrões e descia para o lado da Ribeira de Nisa, contornando o Cabeço do Mouro, até Portalegre donde se estendia até Mérida.
Esta via passava , como agora passa a estrada nacional nº 359, a escassos quilómetros do contraforte sobre o qual se situa a aldeia de Carreiras.
Até ao momento presente desconhecemos a existência de qualquer achado arqueológico desta época no território da freguesia e por isso só a proximidade dum núcleo populacional e administrativo importante nos leva a admitir que o "sítio" pudesse ser habitado.
Não esquecemos que, em 1911, foi encontrada em Fortios uma estela funerária romana que depois de permanecer no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, infelizmente desapareceu. Fora colocada na sepultura de um menino de 3 anos de idade, liberto (filho de escravos) e nela se podia ler a expressão - que a terra te seja leve.
Ora esta aldeia do concelho de Portalegre fica bem mais distante de Ammaia que a de Carreiras e nesta última a citada expressão latina e habitualmente usada como traduzindo um desejo de grande repouso para quem morrer.
Poderia ter existido no "sítio" da "Aldeia Presépio" um pequeno aglomerado populacional, então denominado VICUS.
O que é certo é que o respeito dos velhos carreirenses, pelo fogo da lareira está relacionado com o culto doméstico da população romana.
Disso falaremos no próximo número.

Bibliografia
IBN MARUAN nº 12 - 2002
Borges, Sofia: A Cidade Romana de Ammaia - As Termas do Fórum - (Notícia Preliminar); Carneiro, André: O Fim do Império e a Cristianização no território da CIVITAS AMMAIENSIS - Mudança e Continuidade no Concelho de Fronteira; Carvalho, Joaquim: Ammaia e a sua RedeViária - Algumas propostas de trabalh; Mantas, Vasco GIL: - Libertos e Escravos na Cidade - Luso-Romana de Ammaia; Pereira, Sérgio: Dois Depósitos Monetários encontrados na porta Sul (Ammaia); Civilização Romana - Dicionário Temático Larousse - 1992

*


Deixámos o leitor, no último artigo, com uma pergunta tão ousada que não conseguiremos responder de uma forma simples e segura.
Falta-nos o trabalho e os conhecimentos do arqueólogo. Mas, apesar de tudo, poderemos tecer algumas considerações sobre a possibilidade de as primeiras habitações de Carreiras não passarem de construções circulares de muros de pedra seca e cobertura vegetal (giestas...) em forma de cone.
Não o fazemos levianamente mas com base nas informações de grandes investigadores portugueses.
Com efeito, na obra intitulada "Construções Primitivas em Portugal" da autoria de Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira pode ler-se: "... nos primórdios da civilização humana todas as construções ou formas habitacionais não eram mais do que simples abrigos".
E também, a propósito do tipo de construção a que fizemos referência: "... é muito frequente no Alentejo e encontra-se em várias partes da província".
E ainda: "No Distriro de Portalegre toma particular relevo, além de Alpalhão e Cratyo, por toda a Serra de S. Mamede, no concelho de Marvão, perto de Castelo de Vide e sobretudo na povoação de Cabeçudos".
Segundo a mesma fonte existem também em Castro Verde, Amareleja (Moura), Reguengos, Alandroal, Juromenha, Elvas e Santa Eulália.
Poderão dizer-nos que nada prova que os tais "sochas" (e usamos a maneira de dizer da região), especialmente usadas nos nossos dias para abrigar animais, tenham uma origem tão remota.
E é bom que tal seja notado, porque afinal é necessário compreender o evoluir do homem no tempo.
A propósito de Carreiras e das marcas de civilização Romana deixadas nos seus costumes, fixámo-nos nos primeiros séculos antes e depois da nossa era, achando que o "sítio" deveria já ser povoado.
Acontece que antes dos Romanos outros povos estanciaram na nossa região e nela deixaram vestígios, o que nos leva a crer que a povoação terá uma origem ainda mais antiga.
Um desses vestígios, de que falaremos em devido tempo, é de carácter linguístico e aponta para uma zona celtizada.
E quem foram os celtas?
Falaremos deles na próxima semana.

Veiga de Oliveira, Ernesto - Fernando Galhano e Benjamim Pereira - "Construções Primitivas em Portugal", 2ª edição, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1988


Estes são os primeiros artigos de Maria Guadalupe Alexandre sobre Carreiras, publicados no bissemanário Fonte Nova, números 1497 (20/10/07), 1499 (27/10/07) e 1505 (17/11/07). Segundo a autora afirma, outros se seguirão. Iremos arquivando o material por aqui, na secção "Documentos".

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

JOVEM PARTE PARA A TROPA NOS AÇORES

Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.



CANTIGA

Desde 26 de Março
Que outra nova vou contar.
Quando desse dia me lembro,
Minha vida eu cismar.

Adeus gloriosa cidade.
Quando recebi a novidade,
Ninguém me pôde valer.
Disse adeus à minha querida mãe,
Meu pai e irmãos também,
Nunca me hei-de esquecer.

Em Portalegre embarquei,
Momentos a suspirar.
Em Santa Apolónia cheguei,
Perto das bocas do mar.

Um dia triste e chuvoso,
Estava muito desgostoso
Na gloriosa capital.
Entre lágrimas fui deixar
[.....................................]
Metrópole continental.

Assim que no barco entrei
Cercado de dor e mágoa,
Três dias e três noites andei
Vendo apenas céu e água.

No fim de três dias de viagem
Sem ver terra nem ramagem,
Sem ter grandes dissabores,
Terra ao longe avistei
Onde aí desembarquei
No arquipélago dos Açores.

Despedi-me então do barco
Às portas de São Miguel,
Onde abunda o tabaco
E a batata doce como o mel.

Lá os carneirinhos
Trabalham constantemente.
Fazem as vezes coitadinhos
Dos bois do continente.
Vinte centavos é uma sardinha
Na boca daquela gente.

Vejo-me cercado de mar
Para estas terras guardar
Junto de muitos soldados
Cheios de graça e glória,
Defendendo a memória
Dos nossos antepassados.

Batem-se de tal maneira
Do Nuno Álvares Pereira
Os campos de Aljubarrota,
Que há muitos, muitos anos
Defenderam os castelhanos,
Onde sofreram a derrota.

[......................................]
[......................................]
Começou por D. João,
Bravos heróis que havia
[......................................]
Em tempos que já lá vão.

[......................................]

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

ANGELINA GLORIOSA

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.


Andorinha gloriosa
Tão formosa c'm' à rosa,
Quando Deus quis nascer
Toda a Terra esclareceu.
Veio o anjo São Gabriel
Procurando p'la pastorinha.
- Pastorinha do bom dia!
Já lá vem Santa Maria
Por aquele perro cão
Rezando uma oração
C' o seu livrinho na mão.
Nem pus a mão na cruz,
Nem disse "Amen Jesus".
Mas anda cá Luís Teixeira,
Que serás meu embaixador.
Vás além àquele castelo,
Qu' hás-de ver um mouro perro.
Procura-lhe se é cristão.
Se ele disser que não,
Pega no teu cutelo,
Espeta-le no coração.
Ó cutelo para estimar,
Tem as relicas do perdão
Com que foi aseteado
O mártir São Sabastião.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007




MOSTEIRO DA PROVENÇA DE VALE DE FLORES
(Ribeira de Nisa, Portalegre)

Vem de longe a presença de eremitas no território dos concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre. Embora as referências documentais mais antigas remontem ao início do século XIV, a presença deste tipo de religiosos pode recuar pelo menos até à época muçulmana, se nos recordarmos do sítio arqueológico existente no ponto mais alto da serra de São Mamede, onde o achado de uma lápide com caracteres árabes levou alguns investigadores a colocar a forte hipótese de aí ter existido um “ribat“ fundado pelo movimento sufi. “Mamede” pode ser, aliás, uma adaptação portuguesa do nome do profeta do Islão. O santo era ainda um dos mais cultuados entre os moçárabes (cristãos arabizados), no período anterior à reconquista. Outros locais, alguns decerto mais tardios, mostram também vestígios de uma vida eremítica intensa, elevando muitos locais dos concelhos supracitados à categoria de “desertos”, tão propícios a uma entrega religiosa radical. A título de exemplo, citemos apenas São Gens, São Miguel e São Paulo (na serra de Castelo de Vide), São Tomé, São Mamede ou São Domingos dos Fortios (em Portalegre).

O mosteiro da Provença de Vale de Flores, situado no sopé da Serra de Frei Álvaro, na actual freguesia da Ribeira de Nisa (Portalegre) não terá nascido, portanto, como fenómeno isolado no seu contexto geográfico e religioso. Terá nascido antes como fruto do espírito de um lugar que, com as suas matas de carvalhos (ainda hoje densas), seria propício ao isolamento contemplativo. Estava, além disso, suficientemente perto das vias de comunicação para permitir a recolha de recursos, através da esmola dos transeuntes
que circulariam nos caminhos de Marvão e de Castelo de Vide, em cuja proximidade foi edificado.
A Provença tem no entanto uma vantagem sobre todos os outros sítios possivelmente ligados a uma vida religiosa eremítica: enquanto os seus irmãos navegam no território das hipóteses, dada a escassez documental e a inexistência de prospecções arqueológicas, toda a sua vida está razoavelmente documentada.






Não sabemos em que época se instalaram no “Vale de Flores” os primeiros eremitas. Quando em 1375 o rei D. Fernando doou a Fernão d’ Álvares Pereira, irmão do Santo Condestável, o “lugar dos proves” (isto é, “dos pobres”, nome pelo qual eram conhecidos os monges dependentes do mosteiro de São Paulo Eremita, na Serra de Ossa) – como recompensa pelos serviços prestados e a prestar por seu pai, frei Álvaro Gonçalves Pereira, prior da Ordem do Hospital –, já a presença dos religiosos é colocada no passado. Não sabemos que utilização deu Fernão Pereira ao território doado, embora pensemos que se lhe deve a construção da “Torre da Vargem”, ainda hoje existente nas proximidades. Falecido em finais de 1384 num ataque frustrado de seu irmão ao castelo de Vila Viçosa, integrado na crise de 1383-85, “Vale de Flores” passa para as mãos de sua mãe, Iria Gonçalves do Carvalhal.
Matriarca de uma família ligada espiritualmente aos “pobres da Serra de Ossa”, Iria decide devolver o lugar aos monges que aí haviam habitado noutros tempos. Em 1385 resolve doá-lo a João Espartim e a Gonçalo da Beira, “da pobre vida”, para aí construírem um eremitério. Nessa altura, a propriedade dividia pelos muros que fizera “Álvaro da Prata [ou de Prates] da vida pobre”, referência que fornece não só provas de uma utilização monacal anterior (isolada, mas aparentemente sem edifício religioso específico), mas também indícios que permitem explicar o topónimo “Frei Álvaro”.
Esta devolução-doação a dois “pobres” vindos dum eremitério em Cabeço de Vide não foi no entanto pacífica. Em 1397 já o mosteiro estava construído. Nessa data, a pedido dos frades, o rei D. João I necessitou no entanto de confirmar a doação de D. Iria Gonçalves, alvo da oposição dos homens-bons do concelho de Portalegre. Tratava-se, afinal, de uma terra reguenga – e, normalmente, só após conflitos mais ou menos intensos os municípios se resignavam à sua passagem para mãos particulares. Terá sido esse o motivo do primeiro abandono dos frades, anterior a 1375? É provável.
Não sanada a demanda, já no início do século XV a mãe de Nuno Álvares Pereira vê-se obrigada a passar nova carta de doação, dessa vez em benefício de frei Simão, pobre da Serra de Ossa, que em 1412 (?), na igreja da Madalena, a apresenta ao juiz de Portalegre, exigindo a sua execução. Desgostados talvez com este conflito e com a má recepção das autoridades municipais, os monges “da pobre vida” abandonaram o local por volta de 1436. (Nada mais conhecemos da vida do mosteiro durante o meio-século de eremitismo paulista. Sabemos apenas que nele morreu e foi sepultado D. João de Castro, bispo português de Tui, após ter tomado hábito na Serra de Ossa e se ter tornado visitador da ordem em 1376, tendo-lhe doado paramentos e alfaias litúrgicas.)
D. Duarte resolveu então doar “Vale de Flores” à Ordem de São Jerónimo de “Perlonga” (Penha Longa, Sintra) para aí edificar uma nova fundação subordinada à sua regra. Seu filho, D. Afonso V, tentando fixá-los, deu-lhes protecção real e coutou-lhes propriedades nas proximidades do mosteiro e, até, em Castelo de Vide. A atitude do rei não foi no entanto suficiente para conservar os jerónimos durante muito tempo, dado que deixaram a propriedade em 1467. O pai de D. João II ainda devolveu a Provença aos pobres de São Paulo da Serra de Ossa, dando-lhe todos os privilégios atribuídos à casa-mãe, mas ainda nesse ano foi restituída pelos frades ao monarca, invocando diversas dificuldades (talvez ligadas à difícil convivência com as autoridades locais).
Em 1500 o mosteiro de Vale de Flores estava despovoado, na posse de um caseiro do convento de São Francisco de Portalegre. Um acordo entre os frades menores e os da pobre vida levou à restituição da propriedade aos paulistas que, segundo tudo indica, não a terão voltado a habitar. É nessa época que entra na história da Provença o bispo da Guarda, D. Jorge de Melo. Segundo conta o Tratado da Cidade de Portalegre (1619), querendo edificar nessa região um convento de freiras cistercienses, terá pensado em construí-lo nesse local. De acordo com as informações recolhidas pelo padre Diogo Pereira Sotto Maior, adquiriu a propriedade, que “pertencia à igreja”, a quem a possuía (os frades da Serra de Ossa). Apesar de entretanto ter decidido levantar o mosteiro de Nossa Senhora da Conceição no sítio da Fontedeira, em Portalegre, fez na “província de Sam Brás”, “quinta sua”, “grandes edifícios” e uma “igreja de novo”. Os imóveis estavam contudo “quasi arruinad[os]” na segunda década do século XVII (cf. Sotto Maior, 1984: 111-112).
A igreja assim permaneceu até aos nossos dias, bem como parte da cerca monástica. A casa de habitação e arrumos anexos mantiveram-se de pé e foram sendo utilizados pelos rendeiros dos sucessivos proprietários. Recentemente, a propriedade foi adquirida pelo engenheiro João Guerra Pinto, que a restaurou e ampliou (com grande respeito pelo património aí remanescente), tranformando-a numa unidade de turismo rural.

"Provença” significava, no vocabulário dos Pobres de São Paulo da Serra de Ossa, “eremitério” ou “mosteiro”. A Provença de Vale de Flores (topónimo muito belo que, infelizmente, se perdeu em parte) é constituída por um conjunto de edifícios que rodeiam um pátio rectangular onde se observam vários afloramento graníticos. A entrada faz-se a poente, pelo arco da cerca, que ocupa o extremo dum alto muro de alvenaria sem reboco. À esquerda, há vestígios dum estreito corredor, ao fundo do qual, a nascente, se ergue a entrada do que sobra da igreja – constituída por nave, capela-mor e sacristia (tendo o corpo aproximadamente o dobro do comprimento da ousia quadrangular). À esquerda do templo, segundo uma tradição veiculada pelos antigos rendeiros da quinta, situar-se-ia o cemitério dos monges. Não sabemos onde se elevariam a habitação dos frades e as restantes dependências necessárias à vida comunitária; suspeitamos porém que ocupariam o terreno onde mais tarde foi edificado o solar do bispo D. Jorge de Melo.
As ruínas e edifícios aí existentes permitem-nos reconhecer várias fases de ocupação do lugar. Apesar de, junto ao pórtico da igreja, existir uma inscrição (funerária?) romana, não é possível recuar no entanto para além da Baixa Idade Média (a lápide terá vindo, como muitas outras, da cidade de Ammaia, existente a poucos quilómetros).
Não existem quaisquer vestígios físicos da presença dos eremitas “da pobre vida” anterior a 1375, embora esteja documentada. Se algo existe dos muros construídos nessa época por frei Álvaro da Prata ou de Prates (delimitadores da propriedade ou do espaço de reclusão monástica, como ainda hoje se verifica no mosteiro “velho” da Arrábida, em Setúbal), só os arqueólogos o poderão descobrir.
Do mesmo modo, nada se pode achar da utilização da Provença pelo irmão de Nun’ Álvares, Fernão Pereira, entre 1375 e 1384-85. Segundo pensamos, a residência do filho de Iria Gonçalves do Carvalhal situar-se-ia nos limites da propriedade, junto da ribeira e do caminho de Castelo de Vide, no edifício com traços senhoriais hoje denominado “Torre Alta”, já na freguesia de Carreiras.
À segunda ocupação dos monges “da pobre vida” (1385-1436) se deverá, pelo contrário, a construção do pórtico axial da igreja, cuja cronologia (primeira metade do século XV) parece coincidir com a da sua presença, iniciada por frei João Espartim e frei Gonçalo da Beira. Estamos perante uma interpretação popular dos modelos góticos da época, nascida das mãos de um artífice regional, com enormes afinidades com alguns portais do bairro gótico de Castelo de Vide. Trata-se de uma peça de pequenas dimensões, a que falta uma das ombreiras chanfradas. É constituída por um arco quebrado de cantaria, emoldurado por toros finos e boleados; assenta sobre duas impostas decoradas por aquilo que parece ser um pequeno rosto humano, de que nascem ramagens estilizadas. (Existe ainda na quinta uma laje granítica com a forma de um hexágono irregular que, segundo a tradição, terá sido o primitivo altar da igreja; a ser assim, pertencerá talvez a esta época).
O arco da capela-mor – quebrado, com esquinas cortadas, assente sobre impostas pouco pronunciadas, quase sem decoração, que coroam pilares também chanfrados –, sendo mais tardio, deverá ter nascido já da presença dos frades jerónimos (1436-1467). À esquerda do portal da cerca, há ainda restos de um brasão ou monograma, em mármore branco, cuja coroa revela feições que apontam também para essa época.
O regresso do mosteiro à posse dos eremitas da Serra de Ossa, ocorrido em 1467 (e que se prolongaria até ao século XVI), não deixou quaisquer marcos patrimoniais, dado que nunca terão voltado a habitá-lo. Terá havido um abandono acentuado, que levou o proprietário seguinte a ter de promover obras profundas.
A maior parte das construções habitacionais – sobretudo aquelas que deram origem ao actual estabelecimento hoteleiro – são devidas à acção construtora do bispo D. Jorge de Melo, que terá comprado a propriedade na época em que se iniciou a edificação do mosteiro cisterciense de Portalegre, por ele promovida a partir de 1518. Assim o mostram as portas e janelas em granito dessa época, cuja verga recta se apresenta ou chanfrada ou com decoração geométrica muito simples. A sua intervenção na igreja não deverá ter sido, contudo, tão intensa quanto Diogo Pereira Sotto Maior faz crer no seu Tratado. Não se terá construído um templo novo, mas apenas remodelado o existente, elevando-se talvez a altura do espaço destinado ao celebrante e dotando-o de abóbada nervurada em tijolo (de que ainda restam vestígios), assente sobre mísulas graníticas sem decoração. A intervenção episcopal terá também modificado a entrada da cerca, substituída por um arco abatido, que ainda se pode observar, ladeado pelo brasão dos Melos em mármore (de que sobram fragmentos).
Com a morte de D. Jorge, a igreja terá sido progressivamente abandonada, estando quase arruinada nas primeiras décadas do século XVII. Nessa altura terá sido levada para o templo paroquial de Nossa Senhora da Esperança, na Ribeira de Nisa, a imagem do padroeiro – o bispo São Brás, segundo afirma Sotto Maior – que, tanto quanto sabemos, ainda aí se encontra, embora anónima. As casas de habitação e os arrumos devem ter continuado a servir.
Já do século XVIII será o tanque-fontanário, ladeado por dois poiais, existente nos arredores do solar. Dessa época serão ainda os vestígios de um forno de cozer pão, situados entre a fachada principal das ruínas da igreja e o muro da cerca monacal.Já no início do século XXI, como se afirmou anteriormente, a quinta foi adaptada a funções hoteleiras. Acrescentou-se uma nova ala a nascente, restauraram-se os edifícios habitacionais (onde foi descoberto um silo talvez medieval) e respeitaram-se, valorizando-as esteticamente, as ruínas vindas do passado.

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