sexta-feira, 12 de outubro de 2007


IGREJA E CONVENTO DE SANTA CLARA
(Portalegre)


Segundo rezam as crónicas dos franciscanos portugueses, o mosteiro de Santa Clara de Portalegre foi fundado na segunda metade do século XIV por Maria Fernandes e Elvira Anes, senhoras que em casa particular "se occupavam em devotos e espirituaes exercicios, pelos quaes conseguirão de Deos a santa inspiração, que as moveo a tão boa obra".
Socorrendo-se do auxílio do rei D. Fernando, conseguiram para assento da casa conventual a doação em 1370 dos paços reais e de uns banhos anexos. Foi-lhes dada ainda autorização para "tomarem todas as casas contiguas ao mesmo Palacio, e que se pudesse tapar as serventias das ruas, que lhes fossem precisas para a fundação". Alvo de contestação na então vila, o alvará que isto determinava foi confirmado pelo rei "Formoso" em 21 de Março de 1377, pela rainha regente D. Leonor Teles de Meneses em 1383 e por D. João I em 12 de Fevereiro de 1433.
Construída a habitação monástica, a igreja foi dedicada em 1389 por Francisco, Bispo da ordem franciscana, o qual consagrou o altar mor do templo a Santa Clara e a Santa Bárbara. Eram padroeiros da igreja os reis de Portugal.
O convento de Portalegre pertenceu até 1534 aos Padres Claustrais, data em que passou para os Observantes. Em 1537 voltou à primeira obediência, assim se conservando cinco anos - até 1542, ano em que D. João III conseguiu do papa Paulo III a reforma dos Claustrais, passando definitivamente para a jurisdição dos religiosos observantes da Província dos Algarves da Ordem de São Francisco.
Visitado por Filipe II de Espanha quando se deslocou ao nosso país, um breve de Paulo V datado de 1615 e aplicado em 1620 fixou em sessenta o número de freiras do mosteiro.
O edifício recebeu várias alterações e acrescentos nos séculos que seguiram a construção, embora as de maior vulto se devam ao século XVI e a finais de setecentos (1797), altura em que a abadessa Rosa Joana de São Francisco de Assis deu ao interior da igreja a feição rococó que ainda hoje apresenta.
Extintas as ordens religiosas a partir de 1834, por morte da última abadessa foi transformado em recolhimento de senhoras pobres. Nos primeiros quartéis do século XX foi ocupado por instituições de assistência social. Depois de 1974 serviu de abrigo a várias instituições culturais de Portalegre. Restaurado, o convento de Santa Clara abriu em 1999 como Biblioteca Municipal do concelho.

*

Recuperado para as funções culturais que desempenha neste momento, o espaço conventual reflecte as múltiplas vicissitudes a que esteve sujeito na sua arquitectura ao longo dos vários séculos da sua história.
Da construção original, erguida nos primeiros anos da dinastia de Avis, podemos ainda observar dois tramos térreos do claustro: "doze arcos quebrados assentes em duplas colunas com capitéis geminados, de feitura muito simples e sem ornamentos; estão dispostos em séries de quatro, ritmados por panos lisos de parede" (Rodrigues & Pereira, 1988: 21 - 24).
Ao século XVI pertencem as restantes partes do claustro. No piso térreo vemos dois tramos "um tanto incaracterísticos, num 'estilo chão' de arcaria ampla de volta inteira", atribuídos aos anos 60 ou 70 de quinhentos (Rodrigues & Pereira, 1988: 21 - 24). Da mesma época são as arcadas do primeiro piso, com colunas de mármore com capitéis muito simples e arcos de volta perfeita em alvenaria. A este século pertencem ainda a portaria do mosteiro voltada à Rua de Santa Clara (com decoração renascentista), a cabeceira da igreja (com cachorrada, janelas de quarto de círculo e esgrafitos) e a fonte de mergulho virada à Rua de Elvas (com arcos geminados separados por um mainel, obra do início da centúria). Desta época é ainda a torre sineira, que funcionava também como mirante, possuindo janelões com adufas, num tom arabizante, e lanternim fenestrado.
Ao século XVIII correspondem várias construções e acrescentos. São de destacar uma fonte em mármore (de secção triangular, situada no centro do claustro), uma capela mandada construir em 1749 por Soror Inês de Santa Clara (no piso térreo do mesmo, ainda com vestígios de decoração mural) e a igreja.
O templo conventual apresenta, como dissemos, a aparência que lhe foi dada em 1797. Abandonado e coberto pela fuligem que ficou de um incêndio ocorrido em 1995, foi restaurado recentemente pelo Estado – para ser de novo ocultado pelas actividades de um grupo de teatro portalegrense, ao qual o templo foi cedido pela Câmara Municipal.
Possui duas entradas laterais: uma virada à habitação monástica; outra virada ao exterior, embora recolhida dentro de um pátio com entrada pela Rua de Santa Clara. Artisticamente cuidada, esta apresenta um portal em mármore no estilo comum do século XVIII, sobrepujado por um janelão com moldura em alvenaria. Decoração em massa reveste também o interior da igreja. Nela merecem relevo o retábulo do altar mor, em talha rococó polícroma - com trono ladeado por dois pares de colunas e frontão interrompido -, e dois púlpitos em alvenaria num estilo semelhante, com elegantes dosséis em madeira entalhada. Ao fundo deste espaço destacam-se as aberturas gradeadas correspondentes ao coro de cima e ao coro de baixo. Em dependências anexas podemos observar alguns azulejos de tapete, do século XVII, e fragmentos de uma pintura mural representando dois santos franciscanos.
O estado de conservação do convento é muito bom. Falta apenas uma utilização digna da arte e do espírito da igreja. O que sobrou do rico recheio do Convento de Santa Clara de Portalegre pode ser visitado no Museu Municipal da cidade, embora a identificação das peças seja nula.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

SENHORA DA PIEDADE

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.


Ó avé Maria, Mãe da Piedade,
Pedi ao Senhor pela Cristandade.
Pela Cristandade não le sei pedir,
Não sou m'recedora do Senhor m' ouvir.
Do Senhor m' ouvir estas minhas palavras,
Minha alma s' alegra em ver que nos salvas.
Salvador do mundo, que a todos salvais,
Salvai as nossas almas, bendito sejais.
Bendito sejais, bendito São José,
Fugiu c' o Menino lá p'rà Nazaré.
Se eu fosse com ele na sua companhia,
Seria devota da Virgem Maria.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu 'stá c'roada,
Por cima do manto uma c'roa sagrada.
Uma c'roa sagrada de bom coração.
Não nos deixem morrer sem a confissão.
Sem a confissão não havemos de morrer,
Qu' a Virgem Maria nos há-de valer.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu está c'roada
Rainha dos anjos, Mãe de Deus amada.
De passo em passo, de rua em rua,
Se foi sepultar sem culpa nenhuma.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

SONHO DE NOSSA SENHORA

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.


Quando entro na igreja digo esta oração:

Oração de Santa Palma,
Deus me leve corpo e alma.
Entrei pela igreja adentro, [......................................]
estava a Virgem Sagrada vestida d' ouro fino
[......................................] procurando pelo seu Menino,
[......................................] se dormia, se velava.
[......................................] [........................................]
"Meu filho, não durmo nem velo.
Sonhei um sonho que não devia ter sonhado.
[.......................................] 'tavas morto e crucificado."
"Senhora Mãe assim será, Senhora Mãe assim seria."
Quem esta oração disser um ano, dia a dia,
Achará as portas do Céu abertas e a do Inferno nunc' às veria.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007



IGREJA DE SÃO JOÃO BAPTISTA
(Alegrete)


 
Sendo por agora impossível encontrar uma data precisa para a primeira edificação da igreja de São João Baptista, matriz da vila de Alegrete, parece-nos segura a hipótese da sua origem remontar ao século XIII, uma vez que nesta centúria foi sede de uma das primeiras comendas templárias no Alto Alentejo (cf. Rosa, 2001: 60)
Construída no interior do espaço fortificado, mesmo à porta principal das muralhas e com entrada por um pequeno adro, o templo que actualmente podemos encontrar é, no entanto, fruto de uma reconstrução ocorrida no século XVI, correspondendo em grande parte a uma interpretação popular dos cânones do chamado "Estilo Chão", expressão dominante do decoro e da austeridade propostos pela Contra-Reforma tridentina. Alguns elementos arquitectónicos e decorativos correspondem, porém, já ao século XVIII.
Da construção medieval pouco ou nada resta, embora seja muito provável que o construtor quinhentista tenha mantido o espírito da planta gótica. Supomos assim (mas sem base documental) que o templo original teria também três naves, com igual número de capelas. Não será difícil pensá-lo, tendo em conta que este modelo foi glosado até à exaustão por todo o país, com exemplos na nossa região (a igreja de Santa Maria de Marvão, vg.). Procedentes da igreja primitiva deverão ser duas das imagens expostas ao culto, ambas em mármore policromado: São Sebastião, do século XV, e Santo António, de inícios de quinhentos (cf. Keil, 1943: 150).
A fachada actual da igreja, virada a nascente, é bastante simples. Alongada, é composta por três corpos, separados por pilastras, correspondentes a igual número de naves no interior; no centro rasgam-se a porta de entrada e uma janela de iluminação. A sul possui uma torre sineira com quatro olhais, rematada por uma pirâmide pentagonal e decorada por quatro pináculos em alvenaria, decoração empregue igualmente na ornamentação do corpo mais a norte.
O interior é, como se disse, é composto por três naves (a que corresponde igual número de capelas fundeiras, intercomunicantes). Os arcos de volta inteira que as dividem assentam sobre colunas toscanas de granito.
A decoração interior da igreja corresponde a alterações ocorridas durante o século XVIII.
A capela-mor, com tecto apainelado quinhentista, possui um retábulo rococó com estrutura muito semelhante à de outros de execução popular existentes na região: trono central (neste caso resumido apenas à abertura) e sacrário, ladeados por dois pares de colunas marmoreadas e por duas peanhas, encimado por um frontão (aqui contracurvado). Nele são veneradas imagens de São João Baptista (uma boa peça do século XVI, com ligações à arte flamenga), de Cristo Crucificado e do Menino Jesus, do tipo "Salvador do Mundo".



Os retábulos das capelas colaterais seguem o mesmo figurino, embora com menor qualidade artística. Possuem camarins envidraçados que resguardam as imagens dos respectivos titulares: do lado do Evangelho o Senhor dos Passos (outrora da Visitação, pertencente à Misericórdia de Alegrete) e, do lado da Epístola, Nossa Senhora da Alegria (antigamente "do Rosário") - ambas de roca. Também a norte existem mais três pequenos altares. O primeiro, dedicado a São Miguel, possui uma pintura sobre tela, com interesse meramente iconográfico, representando a salvação das almas do Purgatório. O segundo, em tosca alvenaria, era dedicado no século XVIII a Santo António, sendo actualmente da Senhora de Fátima. Do terceiro é titular Nossa Senhora do Socorro, representada através de uma escultura maneirista estofada e policromada, dotada de uma intensa expressividade.
Sem coro, esta igreja paroquial de Alegrete possui ainda o seu baptistério, situado no piso térreo da torre sineira, embora actualmente (seguindo os ditames do Concílio Vaticano II) a pia baptismal em granito se encontre à direita da capela mor. O púlpito, ainda observado por Luís Keil no seu lugar ("à esquerda, [...] encostado à primeira coluna junto à capela-mor" (Keil, 1943: 150)), já não existe. De entre os elementos arquitectónicos deste templo merecem ainda referência duas pias de água-benta em mármore, assentes sobre finos colunelos - obras delicadas do século XVI.Para além de tudo isto, o recheio deste edifício compõe-se também de outras peças interessantes e valiosas, nomeadamente alguma ourivesaria (do século XV a setecentos), banquetas barrocas de estanho e várias esculturas em madeira e em pedra, provenientes de igrejas de Alegrete hoje sem culto, em ruínas ou desaparecidas

terça-feira, 2 de outubro de 2007


IGREJA DE SÃO TOMÉ
(Monte da Penha - Portalegre)


São escassas as informações que possuímos sobre a igreja de São Tomé, edificada defronte da cidade de Portalegre, entre os penhascos mais altos do monte da Penha. Neste vazio quase pleno, emergem apenas parcos vestígios e indícios documentais, acompanhados pelas ruínas do templo, ainda hoje observáveis a poucos metros da cruz ali levantada no início do século XX.
Sobre a fundação deste pequeno edifício nada sabemos. Supomos apenas que será anterior ao século XVII. Datando da primeira metade dessa centúria a igreja de Nossa Senhora da Penha, de muito maiores dimensões, parece-nos provável que nessa altura já existisse São Tomé. Só uma maior antiguidade na construção nos leva a compreender que o topónimo pleno com que se designava até há pouco mais de um século o monte onde se ergue ("Penha de São Tomé") faça referência ao apóstolo e não à Virgem, alvo de muito maior devoção local.
Abandonada em data que não conseguimos precisar, posteriormente arruinada, estava ainda ao culto em 1758. Pelas estruturas que se podem observar (a necessitarem de escavação arqueológica e de valorização), tratava-se de um edifício de dimensões muito reduzidas, com três compartimentos. Facilmente identificável, a capela-mor virada a nascente é de planta quadrangular, nela se distinguindo vestígios do arranque de uma abóbada; tratar-se-ia, possivelmente, de uma estrutura em cuba, de inspiração islâmica, com cúpula hemisférica assente sobre pendentes. Para além dela, são ainda visíveis dois outros volumes: uma pequena nave a poente (com entrada lateral virada a sul, guarnecida de cantaria hoje desaparecida) e uma minúscula sacristia.
Há uma tradição antiga que aponta para esta pequena igreja a função de ermitério. É hipótese que não podemos confirmar. Devemos no entanto registar as palavras escritas pelo pároco da Sé em meados do século XVIII:
"[...] desta Ermida [da Senhora da Penha] quazi ao meyo da Penha está outra do Apostollo são Thomé de cuja Ermida não sabemos Padroeyro, nem fundação he muyto acomodada para a vida Ermitica, e nos persuadimos que esta foy a Ermida na qual viveo penitente o veneravel Padre Manoel do Rego oriundo de Portalegre posto que nascido em Alter do chão, e não na Igreja de nossa senhora da Esperança do termo desta cidade como dis o Padre Frey Agostinho de sancta Maria no seu sanctuario Marianno [...]" (Boroa, 1758: 121).
CONDE CLAROS VESTIDO DE FRADE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Antunes, de 79 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


"Minha mãe fiz uma aposta, ou de perder ou de ganhar,
De dormir com a Marianinha antes do galo cantar."
"Não apostes, ó meu filho, nem tu queiras apostar.
Marianinha é muito fina, não se deixa enganar."
"Engano-a sim, minha mãe, que ela é boa de enganar.
Em ouvindo uma chalaça, põe-se logo a arreganhar."
José se vestiu de padre pela rua a passear.
Marianinha à janela, é caso de admirar.
"Uma senhora tão nobre a esta hora a passear?
Vou-me embora, Marianinha, já não posso mais esperar."
"Aguarde, senhor, aguarde, queira o senhor aguardar.
Se tarde se lhe fizer, no meu quarto há-de ficar."

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