quarta-feira, 10 de outubro de 2007

SENHORA DA PIEDADE

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.


Ó avé Maria, Mãe da Piedade,
Pedi ao Senhor pela Cristandade.
Pela Cristandade não le sei pedir,
Não sou m'recedora do Senhor m' ouvir.
Do Senhor m' ouvir estas minhas palavras,
Minha alma s' alegra em ver que nos salvas.
Salvador do mundo, que a todos salvais,
Salvai as nossas almas, bendito sejais.
Bendito sejais, bendito São José,
Fugiu c' o Menino lá p'rà Nazaré.
Se eu fosse com ele na sua companhia,
Seria devota da Virgem Maria.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu 'stá c'roada,
Por cima do manto uma c'roa sagrada.
Uma c'roa sagrada de bom coração.
Não nos deixem morrer sem a confissão.
Sem a confissão não havemos de morrer,
Qu' a Virgem Maria nos há-de valer.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu está c'roada
Rainha dos anjos, Mãe de Deus amada.
De passo em passo, de rua em rua,
Se foi sepultar sem culpa nenhuma.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

SONHO DE NOSSA SENHORA

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.


Quando entro na igreja digo esta oração:

Oração de Santa Palma,
Deus me leve corpo e alma.
Entrei pela igreja adentro, [......................................]
estava a Virgem Sagrada vestida d' ouro fino
[......................................] procurando pelo seu Menino,
[......................................] se dormia, se velava.
[......................................] [........................................]
"Meu filho, não durmo nem velo.
Sonhei um sonho que não devia ter sonhado.
[.......................................] 'tavas morto e crucificado."
"Senhora Mãe assim será, Senhora Mãe assim seria."
Quem esta oração disser um ano, dia a dia,
Achará as portas do Céu abertas e a do Inferno nunc' às veria.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007



IGREJA DE SÃO JOÃO BAPTISTA
(Alegrete)


 
Sendo por agora impossível encontrar uma data precisa para a primeira edificação da igreja de São João Baptista, matriz da vila de Alegrete, parece-nos segura a hipótese da sua origem remontar ao século XIII, uma vez que nesta centúria foi sede de uma das primeiras comendas templárias no Alto Alentejo (cf. Rosa, 2001: 60)
Construída no interior do espaço fortificado, mesmo à porta principal das muralhas e com entrada por um pequeno adro, o templo que actualmente podemos encontrar é, no entanto, fruto de uma reconstrução ocorrida no século XVI, correspondendo em grande parte a uma interpretação popular dos cânones do chamado "Estilo Chão", expressão dominante do decoro e da austeridade propostos pela Contra-Reforma tridentina. Alguns elementos arquitectónicos e decorativos correspondem, porém, já ao século XVIII.
Da construção medieval pouco ou nada resta, embora seja muito provável que o construtor quinhentista tenha mantido o espírito da planta gótica. Supomos assim (mas sem base documental) que o templo original teria também três naves, com igual número de capelas. Não será difícil pensá-lo, tendo em conta que este modelo foi glosado até à exaustão por todo o país, com exemplos na nossa região (a igreja de Santa Maria de Marvão, vg.). Procedentes da igreja primitiva deverão ser duas das imagens expostas ao culto, ambas em mármore policromado: São Sebastião, do século XV, e Santo António, de inícios de quinhentos (cf. Keil, 1943: 150).
A fachada actual da igreja, virada a nascente, é bastante simples. Alongada, é composta por três corpos, separados por pilastras, correspondentes a igual número de naves no interior; no centro rasgam-se a porta de entrada e uma janela de iluminação. A sul possui uma torre sineira com quatro olhais, rematada por uma pirâmide pentagonal e decorada por quatro pináculos em alvenaria, decoração empregue igualmente na ornamentação do corpo mais a norte.
O interior é, como se disse, é composto por três naves (a que corresponde igual número de capelas fundeiras, intercomunicantes). Os arcos de volta inteira que as dividem assentam sobre colunas toscanas de granito.
A decoração interior da igreja corresponde a alterações ocorridas durante o século XVIII.
A capela-mor, com tecto apainelado quinhentista, possui um retábulo rococó com estrutura muito semelhante à de outros de execução popular existentes na região: trono central (neste caso resumido apenas à abertura) e sacrário, ladeados por dois pares de colunas marmoreadas e por duas peanhas, encimado por um frontão (aqui contracurvado). Nele são veneradas imagens de São João Baptista (uma boa peça do século XVI, com ligações à arte flamenga), de Cristo Crucificado e do Menino Jesus, do tipo "Salvador do Mundo".



Os retábulos das capelas colaterais seguem o mesmo figurino, embora com menor qualidade artística. Possuem camarins envidraçados que resguardam as imagens dos respectivos titulares: do lado do Evangelho o Senhor dos Passos (outrora da Visitação, pertencente à Misericórdia de Alegrete) e, do lado da Epístola, Nossa Senhora da Alegria (antigamente "do Rosário") - ambas de roca. Também a norte existem mais três pequenos altares. O primeiro, dedicado a São Miguel, possui uma pintura sobre tela, com interesse meramente iconográfico, representando a salvação das almas do Purgatório. O segundo, em tosca alvenaria, era dedicado no século XVIII a Santo António, sendo actualmente da Senhora de Fátima. Do terceiro é titular Nossa Senhora do Socorro, representada através de uma escultura maneirista estofada e policromada, dotada de uma intensa expressividade.
Sem coro, esta igreja paroquial de Alegrete possui ainda o seu baptistério, situado no piso térreo da torre sineira, embora actualmente (seguindo os ditames do Concílio Vaticano II) a pia baptismal em granito se encontre à direita da capela mor. O púlpito, ainda observado por Luís Keil no seu lugar ("à esquerda, [...] encostado à primeira coluna junto à capela-mor" (Keil, 1943: 150)), já não existe. De entre os elementos arquitectónicos deste templo merecem ainda referência duas pias de água-benta em mármore, assentes sobre finos colunelos - obras delicadas do século XVI.Para além de tudo isto, o recheio deste edifício compõe-se também de outras peças interessantes e valiosas, nomeadamente alguma ourivesaria (do século XV a setecentos), banquetas barrocas de estanho e várias esculturas em madeira e em pedra, provenientes de igrejas de Alegrete hoje sem culto, em ruínas ou desaparecidas

terça-feira, 2 de outubro de 2007


IGREJA DE SÃO TOMÉ
(Monte da Penha - Portalegre)


São escassas as informações que possuímos sobre a igreja de São Tomé, edificada defronte da cidade de Portalegre, entre os penhascos mais altos do monte da Penha. Neste vazio quase pleno, emergem apenas parcos vestígios e indícios documentais, acompanhados pelas ruínas do templo, ainda hoje observáveis a poucos metros da cruz ali levantada no início do século XX.
Sobre a fundação deste pequeno edifício nada sabemos. Supomos apenas que será anterior ao século XVII. Datando da primeira metade dessa centúria a igreja de Nossa Senhora da Penha, de muito maiores dimensões, parece-nos provável que nessa altura já existisse São Tomé. Só uma maior antiguidade na construção nos leva a compreender que o topónimo pleno com que se designava até há pouco mais de um século o monte onde se ergue ("Penha de São Tomé") faça referência ao apóstolo e não à Virgem, alvo de muito maior devoção local.
Abandonada em data que não conseguimos precisar, posteriormente arruinada, estava ainda ao culto em 1758. Pelas estruturas que se podem observar (a necessitarem de escavação arqueológica e de valorização), tratava-se de um edifício de dimensões muito reduzidas, com três compartimentos. Facilmente identificável, a capela-mor virada a nascente é de planta quadrangular, nela se distinguindo vestígios do arranque de uma abóbada; tratar-se-ia, possivelmente, de uma estrutura em cuba, de inspiração islâmica, com cúpula hemisférica assente sobre pendentes. Para além dela, são ainda visíveis dois outros volumes: uma pequena nave a poente (com entrada lateral virada a sul, guarnecida de cantaria hoje desaparecida) e uma minúscula sacristia.
Há uma tradição antiga que aponta para esta pequena igreja a função de ermitério. É hipótese que não podemos confirmar. Devemos no entanto registar as palavras escritas pelo pároco da Sé em meados do século XVIII:
"[...] desta Ermida [da Senhora da Penha] quazi ao meyo da Penha está outra do Apostollo são Thomé de cuja Ermida não sabemos Padroeyro, nem fundação he muyto acomodada para a vida Ermitica, e nos persuadimos que esta foy a Ermida na qual viveo penitente o veneravel Padre Manoel do Rego oriundo de Portalegre posto que nascido em Alter do chão, e não na Igreja de nossa senhora da Esperança do termo desta cidade como dis o Padre Frey Agostinho de sancta Maria no seu sanctuario Marianno [...]" (Boroa, 1758: 121).
CONDE CLAROS VESTIDO DE FRADE

Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Antunes, de 79 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.


"Minha mãe fiz uma aposta, ou de perder ou de ganhar,
De dormir com a Marianinha antes do galo cantar."
"Não apostes, ó meu filho, nem tu queiras apostar.
Marianinha é muito fina, não se deixa enganar."
"Engano-a sim, minha mãe, que ela é boa de enganar.
Em ouvindo uma chalaça, põe-se logo a arreganhar."
José se vestiu de padre pela rua a passear.
Marianinha à janela, é caso de admirar.
"Uma senhora tão nobre a esta hora a passear?
Vou-me embora, Marianinha, já não posso mais esperar."
"Aguarde, senhor, aguarde, queira o senhor aguardar.
Se tarde se lhe fizer, no meu quarto há-de ficar."

sexta-feira, 28 de setembro de 2007


melodia

na

Sé de Portalegre

aqui
O FALSO CEGO

Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro Os Transmontano no Alentejo (Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1998), pp. 65 e 66. Transcrição de Ruy Ventura.


Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
"Abram-me essa porta, também o postigo,
Emprestem-me um lenço que já venho ferido."
"Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
Que a minha portinha não se abre agora."
"Levante-se minha mãe da cama a dormir,
Venha ver o cego que está a pedir."
"Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho."
"Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho."
"Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
Ensinar o cego além para a estrada."
"Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
Que eu não sou o cego, sou seu namorado."

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