SONHO DE NOSSA SENHORA
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Quando entro na igreja digo esta oração:
Oração de Santa Palma,
Deus me leve corpo e alma.
Entrei pela igreja adentro, [......................................]
estava a Virgem Sagrada vestida d' ouro fino
[......................................] procurando pelo seu Menino,
[......................................] se dormia, se velava.
[......................................] [........................................]
"Meu filho, não durmo nem velo.
Sonhei um sonho que não devia ter sonhado.
[.......................................] 'tavas morto e crucificado."
"Senhora Mãe assim será, Senhora Mãe assim seria."
Quem esta oração disser um ano, dia a dia,
Achará as portas do Céu abertas e a do Inferno nunc' às veria.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
quinta-feira, 4 de outubro de 2007

IGREJA DE SÃO JOÃO BAPTISTA
(Alegrete)
Sendo por agora impossível encontrar uma data precisa para a primeira edificação da igreja de São João Baptista, matriz da vila de Alegrete, parece-nos segura a hipótese da sua origem remontar ao século XIII, uma vez que nesta centúria foi sede de uma das primeiras comendas templárias no Alto Alentejo (cf. Rosa, 2001: 60)
Construída no interior do espaço fortificado, mesmo à porta principal das muralhas e com entrada por um pequeno adro, o templo que actualmente podemos encontrar é, no entanto, fruto de uma reconstrução ocorrida no século XVI, correspondendo em grande parte a uma interpretação popular dos cânones do chamado "Estilo Chão", expressão dominante do decoro e da austeridade propostos pela Contra-Reforma tridentina. Alguns elementos arquitectónicos e decorativos correspondem, porém, já ao século XVIII.
Da construção medieval pouco ou nada resta, embora seja muito provável que o construtor quinhentista tenha mantido o espírito da planta gótica. Supomos assim (mas sem base documental) que o templo original teria também três naves, com igual número de capelas. Não será difícil pensá-lo, tendo em conta que este modelo foi glosado até à exaustão por todo o país, com exemplos na nossa região (a igreja de Santa Maria de Marvão, vg.). Procedentes da igreja primitiva deverão ser duas das imagens expostas ao culto, ambas em mármore policromado: São Sebastião, do século XV, e Santo António, de inícios de quinhentos (cf. Keil, 1943: 150).
A fachada actual da igreja, virada a nascente, é bastante simples. Alongada, é composta por três corpos, separados por pilastras, correspondentes a igual número de naves no interior; no centro rasgam-se a porta de entrada e uma janela de iluminação. A sul possui uma torre sineira com quatro olhais, rematada por uma pirâmide pentagonal e decorada por quatro pináculos em alvenaria, decoração empregue igualmente na ornamentação do corpo mais a norte.
O interior é, como se disse, é composto por três naves (a que corresponde igual número de capelas fundeiras, intercomunicantes). Os arcos de volta inteira que as dividem assentam sobre colunas toscanas de granito.
A decoração interior da igreja corresponde a alterações ocorridas durante o século XVIII.
A capela-mor, com tecto apainelado quinhentista, possui um retábulo rococó com estrutura muito semelhante à de outros de execução popular existentes na região: trono central (neste caso resumido apenas à abertura) e sacrário, ladeados por dois pares de colunas marmoreadas e por duas peanhas, encimado por um frontão (aqui contracurvado). Nele são veneradas imagens de São João Baptista (uma boa peça do século XVI, com ligações à arte flamenga), de Cristo Crucificado e do Menino Jesus, do tipo "Salvador do Mundo".
(Alegrete)
Sendo por agora impossível encontrar uma data precisa para a primeira edificação da igreja de São João Baptista, matriz da vila de Alegrete, parece-nos segura a hipótese da sua origem remontar ao século XIII, uma vez que nesta centúria foi sede de uma das primeiras comendas templárias no Alto Alentejo (cf. Rosa, 2001: 60)
Construída no interior do espaço fortificado, mesmo à porta principal das muralhas e com entrada por um pequeno adro, o templo que actualmente podemos encontrar é, no entanto, fruto de uma reconstrução ocorrida no século XVI, correspondendo em grande parte a uma interpretação popular dos cânones do chamado "Estilo Chão", expressão dominante do decoro e da austeridade propostos pela Contra-Reforma tridentina. Alguns elementos arquitectónicos e decorativos correspondem, porém, já ao século XVIII.
Da construção medieval pouco ou nada resta, embora seja muito provável que o construtor quinhentista tenha mantido o espírito da planta gótica. Supomos assim (mas sem base documental) que o templo original teria também três naves, com igual número de capelas. Não será difícil pensá-lo, tendo em conta que este modelo foi glosado até à exaustão por todo o país, com exemplos na nossa região (a igreja de Santa Maria de Marvão, vg.). Procedentes da igreja primitiva deverão ser duas das imagens expostas ao culto, ambas em mármore policromado: São Sebastião, do século XV, e Santo António, de inícios de quinhentos (cf. Keil, 1943: 150).
A fachada actual da igreja, virada a nascente, é bastante simples. Alongada, é composta por três corpos, separados por pilastras, correspondentes a igual número de naves no interior; no centro rasgam-se a porta de entrada e uma janela de iluminação. A sul possui uma torre sineira com quatro olhais, rematada por uma pirâmide pentagonal e decorada por quatro pináculos em alvenaria, decoração empregue igualmente na ornamentação do corpo mais a norte.
O interior é, como se disse, é composto por três naves (a que corresponde igual número de capelas fundeiras, intercomunicantes). Os arcos de volta inteira que as dividem assentam sobre colunas toscanas de granito.
A decoração interior da igreja corresponde a alterações ocorridas durante o século XVIII.
A capela-mor, com tecto apainelado quinhentista, possui um retábulo rococó com estrutura muito semelhante à de outros de execução popular existentes na região: trono central (neste caso resumido apenas à abertura) e sacrário, ladeados por dois pares de colunas marmoreadas e por duas peanhas, encimado por um frontão (aqui contracurvado). Nele são veneradas imagens de São João Baptista (uma boa peça do século XVI, com ligações à arte flamenga), de Cristo Crucificado e do Menino Jesus, do tipo "Salvador do Mundo".

Os retábulos das capelas colaterais seguem o mesmo figurino, embora com menor qualidade artística. Possuem camarins envidraçados que resguardam as imagens dos respectivos titulares: do lado do Evangelho o Senhor dos Passos (outrora da Visitação, pertencente à Misericórdia de Alegrete) e, do lado da Epístola, Nossa Senhora da Alegria (antigamente "do Rosário") - ambas de roca. Também a norte existem mais três pequenos altares. O primeiro, dedicado a São Miguel, possui uma pintura sobre tela, com interesse meramente iconográfico, representando a salvação das almas do Purgatório. O segundo, em tosca alvenaria, era dedicado no século XVIII a Santo António, sendo actualmente da Senhora de Fátima. Do terceiro é titular Nossa Senhora do Socorro, representada através de uma escultura maneirista estofada e policromada, dotada de uma intensa expressividade.
Sem coro, esta igreja paroquial de Alegrete possui ainda o seu baptistério, situado no piso térreo da torre sineira, embora actualmente (seguindo os ditames do Concílio Vaticano II) a pia baptismal em granito se encontre à direita da capela mor. O púlpito, ainda observado por Luís Keil no seu lugar ("à esquerda, [...] encostado à primeira coluna junto à capela-mor" (Keil, 1943: 150)), já não existe. De entre os elementos arquitectónicos deste templo merecem ainda referência duas pias de água-benta em mármore, assentes sobre finos colunelos - obras delicadas do século XVI.Para além de tudo isto, o recheio deste edifício compõe-se também de outras peças interessantes e valiosas, nomeadamente alguma ourivesaria (do século XV a setecentos), banquetas barrocas de estanho e várias esculturas em madeira e em pedra, provenientes de igrejas de Alegrete hoje sem culto, em ruínas ou desaparecidas
terça-feira, 2 de outubro de 2007

IGREJA DE SÃO TOMÉ
(Monte da Penha - Portalegre)
São escassas as informações que possuímos sobre a igreja de São Tomé, edificada defronte da cidade de Portalegre, entre os penhascos mais altos do monte da Penha. Neste vazio quase pleno, emergem apenas parcos vestígios e indícios documentais, acompanhados pelas ruínas do templo, ainda hoje observáveis a poucos metros da cruz ali levantada no início do século XX.
Sobre a fundação deste pequeno edifício nada sabemos. Supomos apenas que será anterior ao século XVII. Datando da primeira metade dessa centúria a igreja de Nossa Senhora da Penha, de muito maiores dimensões, parece-nos provável que nessa altura já existisse São Tomé. Só uma maior antiguidade na construção nos leva a compreender que o topónimo pleno com que se designava até há pouco mais de um século o monte onde se ergue ("Penha de São Tomé") faça referência ao apóstolo e não à Virgem, alvo de muito maior devoção local.
Abandonada em data que não conseguimos precisar, posteriormente arruinada, estava ainda ao culto em 1758. Pelas estruturas que se podem observar (a necessitarem de escavação arqueológica e de valorização), tratava-se de um edifício de dimensões muito reduzidas, com três compartimentos. Facilmente identificável, a capela-mor virada a nascente é de planta quadrangular, nela se distinguindo vestígios do arranque de uma abóbada; tratar-se-ia, possivelmente, de uma estrutura em cuba, de inspiração islâmica, com cúpula hemisférica assente sobre pendentes. Para além dela, são ainda visíveis dois outros volumes: uma pequena nave a poente (com entrada lateral virada a sul, guarnecida de cantaria hoje desaparecida) e uma minúscula sacristia.
Há uma tradição antiga que aponta para esta pequena igreja a função de ermitério. É hipótese que não podemos confirmar. Devemos no entanto registar as palavras escritas pelo pároco da Sé em meados do século XVIII:
"[...] desta Ermida [da Senhora da Penha] quazi ao meyo da Penha está outra do Apostollo são Thomé de cuja Ermida não sabemos Padroeyro, nem fundação he muyto acomodada para a vida Ermitica, e nos persuadimos que esta foy a Ermida na qual viveo penitente o veneravel Padre Manoel do Rego oriundo de Portalegre posto que nascido em Alter do chão, e não na Igreja de nossa senhora da Esperança do termo desta cidade como dis o Padre Frey Agostinho de sancta Maria no seu sanctuario Marianno [...]" (Boroa, 1758: 121).
(Monte da Penha - Portalegre)
São escassas as informações que possuímos sobre a igreja de São Tomé, edificada defronte da cidade de Portalegre, entre os penhascos mais altos do monte da Penha. Neste vazio quase pleno, emergem apenas parcos vestígios e indícios documentais, acompanhados pelas ruínas do templo, ainda hoje observáveis a poucos metros da cruz ali levantada no início do século XX.
Sobre a fundação deste pequeno edifício nada sabemos. Supomos apenas que será anterior ao século XVII. Datando da primeira metade dessa centúria a igreja de Nossa Senhora da Penha, de muito maiores dimensões, parece-nos provável que nessa altura já existisse São Tomé. Só uma maior antiguidade na construção nos leva a compreender que o topónimo pleno com que se designava até há pouco mais de um século o monte onde se ergue ("Penha de São Tomé") faça referência ao apóstolo e não à Virgem, alvo de muito maior devoção local.
Abandonada em data que não conseguimos precisar, posteriormente arruinada, estava ainda ao culto em 1758. Pelas estruturas que se podem observar (a necessitarem de escavação arqueológica e de valorização), tratava-se de um edifício de dimensões muito reduzidas, com três compartimentos. Facilmente identificável, a capela-mor virada a nascente é de planta quadrangular, nela se distinguindo vestígios do arranque de uma abóbada; tratar-se-ia, possivelmente, de uma estrutura em cuba, de inspiração islâmica, com cúpula hemisférica assente sobre pendentes. Para além dela, são ainda visíveis dois outros volumes: uma pequena nave a poente (com entrada lateral virada a sul, guarnecida de cantaria hoje desaparecida) e uma minúscula sacristia.
Há uma tradição antiga que aponta para esta pequena igreja a função de ermitério. É hipótese que não podemos confirmar. Devemos no entanto registar as palavras escritas pelo pároco da Sé em meados do século XVIII:
"[...] desta Ermida [da Senhora da Penha] quazi ao meyo da Penha está outra do Apostollo são Thomé de cuja Ermida não sabemos Padroeyro, nem fundação he muyto acomodada para a vida Ermitica, e nos persuadimos que esta foy a Ermida na qual viveo penitente o veneravel Padre Manoel do Rego oriundo de Portalegre posto que nascido em Alter do chão, e não na Igreja de nossa senhora da Esperança do termo desta cidade como dis o Padre Frey Agostinho de sancta Maria no seu sanctuario Marianno [...]" (Boroa, 1758: 121).
CONDE CLAROS VESTIDO DE FRADE
Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Antunes, de 79 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.
"Minha mãe fiz uma aposta, ou de perder ou de ganhar,
De dormir com a Marianinha antes do galo cantar."
"Não apostes, ó meu filho, nem tu queiras apostar.
Marianinha é muito fina, não se deixa enganar."
"Engano-a sim, minha mãe, que ela é boa de enganar.
Em ouvindo uma chalaça, põe-se logo a arreganhar."
José se vestiu de padre pela rua a passear.
Marianinha à janela, é caso de admirar.
"Uma senhora tão nobre a esta hora a passear?
Vou-me embora, Marianinha, já não posso mais esperar."
"Aguarde, senhor, aguarde, queira o senhor aguardar.
Se tarde se lhe fizer, no meu quarto há-de ficar."
Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Antunes, de 79 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.
"Minha mãe fiz uma aposta, ou de perder ou de ganhar,
De dormir com a Marianinha antes do galo cantar."
"Não apostes, ó meu filho, nem tu queiras apostar.
Marianinha é muito fina, não se deixa enganar."
"Engano-a sim, minha mãe, que ela é boa de enganar.
Em ouvindo uma chalaça, põe-se logo a arreganhar."
José se vestiu de padre pela rua a passear.
Marianinha à janela, é caso de admirar.
"Uma senhora tão nobre a esta hora a passear?
Vou-me embora, Marianinha, já não posso mais esperar."
"Aguarde, senhor, aguarde, queira o senhor aguardar.
Se tarde se lhe fizer, no meu quarto há-de ficar."
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
O FALSO CEGO
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro Os Transmontano no Alentejo (Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1998), pp. 65 e 66. Transcrição de Ruy Ventura.
Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
"Abram-me essa porta, também o postigo,
Emprestem-me um lenço que já venho ferido."
"Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
Que a minha portinha não se abre agora."
"Levante-se minha mãe da cama a dormir,
Venha ver o cego que está a pedir."
"Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho."
"Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho."
"Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
Ensinar o cego além para a estrada."
"Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
Que eu não sou o cego, sou seu namorado."
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro Os Transmontano no Alentejo (Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1998), pp. 65 e 66. Transcrição de Ruy Ventura.
Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
"Abram-me essa porta, também o postigo,
Emprestem-me um lenço que já venho ferido."
"Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
Que a minha portinha não se abre agora."
"Levante-se minha mãe da cama a dormir,
Venha ver o cego que está a pedir."
"Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho."
"Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho."
"Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
Ensinar o cego além para a estrada."
"Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
Que eu não sou o cego, sou seu namorado."
quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A IGREJA DE SANTA MARIA A GRANDE (Portalegre)
Nos primeiros anos do século XIV (quando o bispo da Guarda visitou as paróquias de Portalegre) é provável que a igreja de Santa Maria a Grande não fosse já um edifício recente. Doada em 1299 por D. Dinis aos Templários, é possível que existisse pelo menos em meados do século XIII, sendo - com Santa Maria Madalena - um dos edifícios mais antigos da vila que, nessa altura, se autonomizou do concelho de Marvão, criado em 1226. Em 1321 era um dos seus templos mais importantes, taxado com 150 libras, quantia só ultrapassada por Santa Maria do Castelo, com mais 10 libras.
Não se conhece, por agora, qualquer documento medieval que nos dê indicações precisas sobre a arquitectura desta igreja nessa época. Acreditamos, no entanto, que não terá sofrido alterações substanciais até inícios do século XVI, o que nos permite afirmar que a descrição que chegou aos nossos dias, datada de 1509, deverá corresponder em traços gerais à estrutura de Santa Maria a Grande na Idade Média, embora tenha sofrido, como é normal, alterações na decoração, sobretudo no interior.
Os documentos emanados da visitação efectuada em 19 e 20 de Dezembro de 1509 pela Ordem de Cristo a este templo portalegrense e à sua comenda são, a vários títulos, valiosos. Para a História da Arte é sobretudo preciosa a descrição da igreja que os olhos de frei Diogo do Rego (visitador) e as palavras de frei Francisco (escrivão) nos ofereceram, tantos os pormenores que nos permitem a construção de uma imagem concreta de Santa Maria a Grande.
O edifício era substancialmente diferente da estrutura que hoje podemos ainda observar no lado sul do largo de Santo Agostinho (o que sobrou da igreja reconstruída na segunda metade do século XVIII, profanada após a extinção das ordens religiosas).
A fachada da igreja de Santa Maria a Grande estava virada a poente, tendo na parte cimeira um campanário com dois sinos e uma campainha. Integralmente rebocada e caiada, possuía sobre a porta principal um alpendre ou galilé.
O interior era de uma só nave, tendo as paredes laterais "guarneçidas e pinçelladas", com abundante decoração em pintura mural, representando "muitas Jmageens". Sobre a entrada, sustentado por um "arco grande De pedraria", erguia-se o coro "com seu peitoril laurado De maçonaria", sob o qual se situava a pia baptismal.
A capela-mor estava virada a nascente e certamente quase encostada às muralhas. Era "oitauada", "grande e larga", tendo as paredes rebocadas e pintadas por dentro e por fora. No interior possuía um altar "moçiço com quatro de graaos de pedraria" e, sobre ele, um retábulo "nouo" (provavelmente constituído por várias pinturas), com seu guarda-pó de maçonaria "pintado com Jmagens", tendo ao centro a imagem de Santa Maria: "de vulto grande & fermosa [...] com o filho no collo". À altura da visitação a igreja não possuía ainda sacrário, pelo que são dadas ordens ao comendador e beneficiados (a quem cabia a manutenção da ousia) para que aí pusessem um "boom sacrario junto Do altar moor".
A entrada neste espaço fazia-se por um "arco grande e bem obrado", o qual tinha na parte cimeira uma pintura mural com a representação de Cristo crucificado, ladeado por Nossa Senhora e São João Evangelista. Possuía ainda dois altares colaterais "nos cantos Do Dicto arco", dedicados a São Miguel e a Nossa Senhora da Conceição, sem qualquer escultura, mas com imagens "pintadas na parede". Tudo coberto por um "guardapoo de castanho".
Junto do presbitério, à direita, situava-se a sacristia.
Nos primeiros anos do século XIV (quando o bispo da Guarda visitou as paróquias de Portalegre) é provável que a igreja de Santa Maria a Grande não fosse já um edifício recente. Doada em 1299 por D. Dinis aos Templários, é possível que existisse pelo menos em meados do século XIII, sendo - com Santa Maria Madalena - um dos edifícios mais antigos da vila que, nessa altura, se autonomizou do concelho de Marvão, criado em 1226. Em 1321 era um dos seus templos mais importantes, taxado com 150 libras, quantia só ultrapassada por Santa Maria do Castelo, com mais 10 libras.
Não se conhece, por agora, qualquer documento medieval que nos dê indicações precisas sobre a arquitectura desta igreja nessa época. Acreditamos, no entanto, que não terá sofrido alterações substanciais até inícios do século XVI, o que nos permite afirmar que a descrição que chegou aos nossos dias, datada de 1509, deverá corresponder em traços gerais à estrutura de Santa Maria a Grande na Idade Média, embora tenha sofrido, como é normal, alterações na decoração, sobretudo no interior.
Os documentos emanados da visitação efectuada em 19 e 20 de Dezembro de 1509 pela Ordem de Cristo a este templo portalegrense e à sua comenda são, a vários títulos, valiosos. Para a História da Arte é sobretudo preciosa a descrição da igreja que os olhos de frei Diogo do Rego (visitador) e as palavras de frei Francisco (escrivão) nos ofereceram, tantos os pormenores que nos permitem a construção de uma imagem concreta de Santa Maria a Grande.
O edifício era substancialmente diferente da estrutura que hoje podemos ainda observar no lado sul do largo de Santo Agostinho (o que sobrou da igreja reconstruída na segunda metade do século XVIII, profanada após a extinção das ordens religiosas).
A fachada da igreja de Santa Maria a Grande estava virada a poente, tendo na parte cimeira um campanário com dois sinos e uma campainha. Integralmente rebocada e caiada, possuía sobre a porta principal um alpendre ou galilé.
O interior era de uma só nave, tendo as paredes laterais "guarneçidas e pinçelladas", com abundante decoração em pintura mural, representando "muitas Jmageens". Sobre a entrada, sustentado por um "arco grande De pedraria", erguia-se o coro "com seu peitoril laurado De maçonaria", sob o qual se situava a pia baptismal.
A capela-mor estava virada a nascente e certamente quase encostada às muralhas. Era "oitauada", "grande e larga", tendo as paredes rebocadas e pintadas por dentro e por fora. No interior possuía um altar "moçiço com quatro de graaos de pedraria" e, sobre ele, um retábulo "nouo" (provavelmente constituído por várias pinturas), com seu guarda-pó de maçonaria "pintado com Jmagens", tendo ao centro a imagem de Santa Maria: "de vulto grande & fermosa [...] com o filho no collo". À altura da visitação a igreja não possuía ainda sacrário, pelo que são dadas ordens ao comendador e beneficiados (a quem cabia a manutenção da ousia) para que aí pusessem um "boom sacrario junto Do altar moor".
A entrada neste espaço fazia-se por um "arco grande e bem obrado", o qual tinha na parte cimeira uma pintura mural com a representação de Cristo crucificado, ladeado por Nossa Senhora e São João Evangelista. Possuía ainda dois altares colaterais "nos cantos Do Dicto arco", dedicados a São Miguel e a Nossa Senhora da Conceição, sem qualquer escultura, mas com imagens "pintadas na parede". Tudo coberto por um "guardapoo de castanho".
Junto do presbitério, à direita, situava-se a sacristia.
Atendendo ao pedido de D. João III, em 21 de Agosto de 1549 foi criada a diocese de Portalegre. Sendo necessário escolher uma catedral, foi seleccionada a igreja de Sta. Maria do Castelo, em cuja proximidade foi elevada a nova sé. Tendo em vista o engrandecimento da sua freguesia, são-lhe anexadas em 1552 as paróquias de S. Vicente e de Sta. Maria a Grande. São Vicente foi demolida pouco tempo depois. Santa Maria passou a funcionar como sede do Cabido a partir de 1556.
A extinção desta freguesia não foi bem recebida pelos seus habitantes, embora a actividade paroquial só tenha cessado em 1585.Poucos anos depois, em 18 de Fevereiro de 1605, D. Diogo Correia e o Cabido decidem doar Sta. Maria a Grande à Companhia de Jesus, tendo em vista o estabelecimento de um colégio dedicado ao ensino. Aí permaneceram até 1673, ano em que vão fundar o novo edifício junto da ermida de São Sebastião, que lhes fora doada em 1635.Em 1 de Fevereiro de 1673, o regente D. Pedro, com autorização de D. Ricardo Russel e da Câmara da cidade, doa a igreja aos Ermitas Agostinhos Descalços para aí fundarem o seu convento. Dois anos depois os religiosos quiseram sair da cidade e erigir a sua casa junto da ermida da Senhora da Penha. Chegaram a construir aí alguns edifícios, mas a sua decisão foi contrariada pelas autoridades eclesiásticas e da cidade.
O edifício ocupado pelos jesuítas não era suficiente para as necessidades dos agostinhos. No que resta do seu cartório, regista-se assim, entre 1674 e 1737, a compra de várias casas de habitação, situadas na rua do Lobato e na de Santa Clara - decerto com o objectivo de, no seu lugar, se edificar uma nova construção. Respondendo a uma solicitação da ordem, D. João V chega mesmo a doar-lhe em 1717 uma parte da muralha, entre a porta de Alegrete e o postigo de Santa Clara, para no seu lugar ser construído o dormitório.
Pela leitura dos documentos, não consta que a igreja de Santa Maria a Grande tenha sofrido alterações arquitectónicas de monta até meados de setecentos. De facto, só em 1758 parece ter-se iniciado a edificação da nova igreja, a partir da estrutura medieval (conforme indica um trecho da "Memória Paroquial" da Sé (cf. Boroa, 1758 in Ventura, 1995: 120)), uma vez que no ano anterior ela ainda não existia.Terminada a obra, foram grandes as modificações. A capela-mor, com trono, ficou no lugar da anterior porta principal. A entrada do templo ficou lateral, dotada de um pórtico em mármore com moldura barroca, encimado por um janelão, que ainda existe. A portaria do convento, com arco abatido, passou para o lugar da antiga capela-mor. No interior, "os retábulos dos três altares [passaram a ser] de preciosos mármores com excelentes esculturas" (Tavares, [1934]: 918). Foi ainda construída uma torre sineira a poente, que nunca foi acabada, pois só há poucos anos foi rebocada e caiada.
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| Pórtico setecentista da igreja de Santa Maria a Grande (desenho conservado no Arquivo Distrital de Portalegre) |
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- Igreja de Sant' Iago Maior (Portalegre)
- igreja de Sant' Iago Menor (Urra - Portalegre)
- igreja de Santa Maria (Alegrete)
- igreja de Santa Maria (Marvão)
- igreja de Santa Maria a Grande (Portalegre)
- Igreja de Santa Maria da Devesa (Castelo de Vide)
- igreja de Santa Maria do Castelo (Portalegre)
- igreja de Santa Maria Madalena (Portalegre)
- igreja de Santo Amador (Castelo de Vide)
- igreja de Santo André (Portalegre)
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- igreja de São João Baptista (Alegrete)
- igreja de São João Baptista (Castelo de Vide)
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- Vocabulário
- Vocabulário da freguesia de Carreiras (Portalegre)
Fotografias
Património Religioso
- Alminhas da Outra Rua (Carreiras, Portalegre)
- Capela de Nossa Senhora das Dores (Reguengo, Portalegre)
- Capela de Nossa Senhora de Belém (Covas de Belém, Portalegre)
- Capela de São Bento (Quinta de São Bento, Ribeira de Nisa, Portalegre)
- Capela ou oratório de Nossa Senhora das Calçadas (Monte de Santo António, Portalegre)
- Capelas de São Bento e do Senhor da Forca (Portalegre)
- Convento de Santa Clara (Portalegre)
- Cruzeiros (fotografias)
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- Igreja de São Sebastião (Carreiras, Portalegre)
- Igreja e convento de Sta. Clara (Portalegre)
- Mosteiro da Provença de Vale de Flores (Ribeira de Nisa)
- Mosteiro de São Mamede (Reguengo, Portalegre)
- O Menino Jesus das Carreiras
- Património religioso do concelho de Portalegre (inventário)
- Pintura mural (fotografias)
- Pinturas murais da Matriz de Arronches (artigo de Patrícia Monteiro e Maria João Cruz)
- Retábulos (fotografias)
- Santo António na região de Portalegre
Património Militar
Património Civil
- Chaminés tradicionais (Carreiras, Portalegre)
- Habitação na Outra Rua (Carreiras, Portalegre)
- Habitação tradicional da Serra de São Mamede
- Habitação tradicional em Calçadinha (Carreiras, Portalegre)
- Habitação tradicional em Pomares (Carreiras, Portalegre)
- Herdade de João Martins (Carreiras, Portalegre)
- Monte da Gente (Carreiras, Portalegre)
- Torres senhoriais da freguesia de Carreiras (Portalegre)
Cancioneiro
Lendas e outras narrativas
- Lenda da construção do castelo de Marvão
- Lenda da Cova da Moura (Porto da Espada, Marvão)
- Lenda da Escusa (Marvão)
- Lenda da Fonte do Capitão (Ribeira de Nisa)
- Lenda da Fonte do Martinho (Castelo de Vide)
- Lenda da Fonte dos Cães (Castelo de Vide)
- Lenda da fundação de Carreiras
- Lenda da fundação de Portalegre
- Lenda da herdade da Cabaça (Portalegre)
- Lenda da igreja de São Sebastião (Carreiras)
- Lenda da imagem de Nossa Senhora da Estrela (Marvão)
- Lenda da imagem de S. Pedro (Alegrete)
- Lenda da imagem do Mártir Santo (Carreiras)
- Lenda da Maia (Portalegre)
- Lenda da Moura do Reguengo
- Lenda da moura dos Fortios
- Lenda da Pedra da Moura (Caia, Urra)
- Lenda da ponte da Portagem (Marvão)
- Lenda da serra da Penha (Portalegre)
- Lenda da Serra de Frei Álvaro
- Lenda da Serra de Matamores (Fortios)
- Lenda das santas da Aramenha (Marvão)
- Lenda de Marvão
- Lenda de Nossa Senhora da Alegria (Alegrete)
- Lenda de Nossa Senhora da Penha (Castelo de Vide)
- Lenda de Nossa Senhora da Penha (Portalegre)
- Lenda do ataque dos mouros a Marvão
- Lenda do castelo de Carreiras (Portalegre)
- Lenda do Mártir Santo (Fortios)
- Lenda do Porto da Espada (Marvão)
- Lenda do poço sem fundo do castelo de Marvão
- Lenda do rio Sever
- Lenda do tesouro da igreja de São Domingos (Fortios)
- Lenda do tesouro da Serra de São Mamede
- Lendas da Provença (Ribeira de Nisa)
Orações e outros textos religiosos
Romanceiro Tradicional
Romanceiro Religioso
Romanceiro Vulgar
- A sala do meu recreio
- Despique entre dois pretendentes
- Despique entre marido e mulher (1)
- Despique entre marido e mulher (2)
- Diálogo entre dois jovens na colha da azeitona
- Joaninha e o estudante
- Jovem enganada pelo namorado suicida-se ("A costureira")
- Jovem espera pelo namorado que morreu na guerra
- Jovem parte para a tropa nos Açores
- Jovem põe namorada à prova
- Jovem seduzida convence namorado a casar
- Jovem seduzida é desprezada pelo pretendente
- João Silva da Costa
- Juramento amoroso
- Maria Fernandes Pereira
- Mariquinhas
- O patrão e a criada
- Soldado esquecido pela noiva expõe-se à morte na batalha
- Vida de soldado
Toponímia e outros vocábulos
O Norte Alentejano na Literatura
Outros patrimónios materiais
Documentos
- Carreiras (Portalegre), alguns topónimos
- Carreiras (Portalegre), outros topónimos
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (1)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (2)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (3)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (4)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (5)
- Carreiras (Portalegre), segundo Maria Guadalupe (6)
- Censos 2011 (Portalegre)
- Da realidade quotidiana (Avelino Bento / Nicolau Saião)
- Fanal, memória dum suplemento cultural no Alentejo
- História da freguesia de São Simão da Serra (Nisa) (J. D. Murta)
- Ibn Maruán (on line)
- Igreja da Senhora da Penha (Castelo de Vide) (Tarsício Alves)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (1)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (2)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (3)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (4)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (5)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (6)
- Memórias paroquiais de Castelo de vide (7)
- Memórias paroquiais de Castelo de Vide (8)
- Normas para a defesa do património diocesano
- Portalegre vista por D. Antonino Dias
- Primeira República em Carreiras (Portalegre)
- Raízes indoeuropeias
- Raízes semitas
- Sobre a Ordem Terceira da Penitência de Portalegre (artigo de Fernando Correia Pina)
- Sobre as lendas religiosas (in INVENIRE nº 2, 2011)
- Sobre as origens de Santo António das Areias (Jorge de Oliveira)
- Sobre o hidrónimo "Xévora"
- Sobre o topónimo "Ammaia"
- Sobre o topónimo "Carreiras" (Maria Guadalupe Alexandre)
- Sobre o topónimo "Larou"
- Sobre os nomes "Urraca" e "Urra"
- Toponímia moçárabe
- Topónimos derivados de "burj"
- Topónimos derivados de AGER ou AGGER
- Topónimos derivados de KAR
Opiniões
- A arquitectura e o seu uso
- Aclarar a memória [s/ livro de Bonifácio Bernardo]
- Humilhar José Duro, exaltar D. João III
- Portalegre, alguns exemplos
- Ressurreição? [s/ nº 15 d' A Cidade]
- Um amigo e uma exposição [s/ pintura de João Salvador Martins]
- Um comércio moribundo
- Um exemplo discreto [s/ João Ribeirinho Leal]
- Um livro humilde e rigoroso [s/ livro de Rosário Salema de Carvalho]
Outras páginas de Ruy Ventura:
CARTA ABERTA A JOÃO MIGUEL TAVARES Caro João Miguel, Tomo a liberdade de tratar-te por tu. Somos afinal conterrâneos, apesar de ...
-
Lenda da Serra da Penha (Portalegre) 1 Versão de Portalegre, recolhida (em 1984) e publicada por Maria Tavares Transmontano (1997) – ...
-
Angelina gloriosa 1 Versão de Carreiras (Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins (1913-1997) e recolhida por Maria da Liberda...
-
VOCABULÁRIO USADO NA FREGUESIA DE CARREIRAS (Serra de São Mamede, Alentejo) Tenho consciência de que ao publicar este vocabulário estou ...

