quinta-feira, 14 de junho de 2007

CASTELO DE VIDE EM 1758
(conclusão)


É tradição de que a Rainha Santa vendeu a el-rei Dom Dinis esta vila e de como nos tempos adiante el-rei Dom Fernando a trocou com a Ordem de Cristo por Castro Marim.
É esta vila assistida de todos os frutos em bastante abundância, assim de pão, vinho, azeite, castanha e dos mais, excepto de espinho. E a maior abundância é de centeio e milho miúdo. Tem muitos gados de lã e cabelo.
É excessiva no contrato de matar porcos gordos, que há ano que passa de sete mil porcos dos que nela se matam na fega e se chacinam e se vão vender à Corte.
Há nela o trato e fábrica de panos de cor, a saber: saragoças, verdes e azuis. Para estes tem quatro tintes em que se lhes dá a dita cor de verde. Terá setenta teares, em que se tecem os panos, que há ano que passam de seis mil panos que se fabricam.
É tão abundante de águas que se contam no termo desta vila mais de trezentas fontes de nome. E as principais são as seguintes: a fonte da Vila, que está dentro dela com quatro bicas; a fonte do Martinho, de cantaria bem elevada e com quatro bicas; a fonte de Pero Boi, com uma bica; a fonte Nova, com duas; a fonte dos Besteiros. E a fonte da Mealhada, muito celebrada, pois dizem que à sua água é experimentado remédio contra a dor nefrítica; está extramuros para a parte de Portalegre, coisa de um tiro de espingarda da muralha; é toda ela e o mais que lhe pertence e orna de pedra de cantaria, e no meio do frontispício tem as armas desta vila, scillicet castelo cercado com uma vide.
É cercada de duas ribeiras, a saber, a de São João, que tem nascimento no sítio do Cano e corre pela parte do reino, e a ribeira da Vide, que tem o nascimento no Prado e corre pela parte de Castela. E ambas próximas à vila. E nesta ribeira da Vide há dezassete azenhas de moer pão e corre pelo distrito da minha freguesia e a outra pelo distrito das outras duas freguesias. E se vão meter no rio de Sever. Este rio de Sever tem nascimento nos Olhos de Água, termo da vila de Marvão, e vem ao termo desta vila em espaço de meia légua, pouco mais ou menos. E é quem divide os reinos. É abundante de peixes, a saber: barbos e bogas e algumas trutas.
Esta vila tem juiz de fora e Câmara e também juiz dos órfãos, que não é letrado. E é próprio o ofício.
Tem feira franca de um dia em dez de Agosto e outra em quinze de Janeiro.
Não tem correio. Serve-se do de Portalegre por um estafeta que leva as cartas em quarta-feira e as vai buscar no sábado à dita cidade, que dista duas léguas.
Desta vila à cidade de Lisboa distam trinta e quatro léguas.
No castelo desta vila está uma torre muito forte de pedra, com seus quinais. E para a parte do Sul está meia caída e arruinada, o que lhe procedeu de mina que lhe deitaram os castelhanos nas guerras passadas.
Não padeceu esta vila ruína considerável no terramoto do ano de 1755, pois só caiu o capelo da torre do Espírito Santo em que estão os sinos; e ainda assim se acha. E à ermida da Senhora dos Remédios, que é de abóbada, também abriu nela e paredes; e assim se acha e se serve a gente dela. O convento de São Francisco, que é de abóbada, também abriu em partes, mas sem perigo, e já se acha reparado.
Tem uma serra que chamam de São Paulo, a qual dá princípio a casa ou ermida deste santo. É próxima a esta vila em menos distância que o de meio quarto de légua e fica defronte da vila para a parte do Poente, de forma que lhe tira a vista, por ser muito alta. Nela estão mais duas ermidas, uma de Nossa Senhora da Penha e a outra de São Miguel. E àquela vão deste povo todos os sábados muita gente com devoção. Nesta está um outeiro ou cabelo muito alto a que chama o “Outeiro do Facho”, por razão de que nas guerras passadas mostravam dali facho, quando vinha o inimigo. Não se cultiva a mais dela, por ser de terra maninha e de penhascos grandes. Corre para as partes de Castela e dizem alguns que continua esta serra até Madrid, mas não conserva o nome de Serra de São Paulo.
O rio de Sever, de que já falámos, vai-se meter no Tejo no termo da vila de Montalvão, conservando sempre o seu nome. É inavegável e usa-se dele livremente e tem alguns moinhos de moer pão.
Há uma ribeira, chamada a de Nisa, que corre pelo termo desta vila. Vem do de Portalegre e se mete no Tejo no termo de Nisa. E tem no termo desta vila uma ponte com três arcos, tudo de pedra e cal. E as nossas ribeiras de São João e da Vide, com os seus nomes, se vão meter no rio de Sever.
Há no termo desta vila três atalaias: uma no caminho da Escusa ou de Marvão e tem o nome de Atalaia da Escusa; outra chamada a do Picoto e outra chamada a do Pereiro, que estão para as partes de Castela e servem para vigiar no tempo da guerra.
Tem dois moinhos de vento, que se formaram há poucos anos, e não moem de presente, por serem neste país rijos os ventos.
Na serra de São Paulo há dois montes, um chamado o Monte da Casada e o outro o do Andreu.
É o que posso informar desta vila e desta freguesia de Santa Maria, matriz.
Em Castelo de Vide, 18 de Maio de 1758.
O vigário de Santa Maria, João Aires Baptista

terça-feira, 5 de junho de 2007

UM AMIGO
E UMA EXPOSIÇÃO
Conheço João Salvador Martins desde que me lembro de ser gente. Colega de brincadeiras de um sobrinho seu, recordo uma sala em cuja parede estava um dos seus cavalos. Lembro ainda os seus passeios, por vezes solitários, pelas ruas e campos das Carreiras e, sobretudo, alguns retratos que, com singular rapidez, ia fazendo nas costas de calendários de pendurar, onde apareciam figuras típicas da nossa aldeia comum (o taberneiro e cantador Domigos Sobreira, Chico Pragana, surdo-mudo e cadeireiro, e alguns outros) e permaneciam expostos, entre garrafas e copos de vinho, numa tasca da Rua da Igreja.
Foi o primeiro pintor que conheci – e por isso, em jeito de homenagem, lhe dediquei um pequeno poema (recentemente publicado na revista Saudade, em Amarante), no qual recordei as bolandas que levaram à execução e reexecução do retrato a carvão do ti’ António Afonso do Adro, hoje na posse da família deste –, imediatamente antes de Maria Lucília Moita que, nos anos ‘70/’80, era presença constante na aldeia (falsamente chamada “presépio”).
Sem nada perguntar, observando o trabalho de João Salvador quando podia – e, também, os retábulos da igreja do Mártir São Sebastião, obra anónima do século XVII – ia criando consciência do que são a arte e a pintura: não somente representação, mas transfiguração; mais do que visão, imaginação; mais do que conteúdo, matéria plástica (cores e traços numa parcela simulada do espaço).
Trinta anos de diferença nos separavam na minha infância; era natural que os nossos contactos se limitassem a uma breve passagem da sua mão pela minha cabeça e a um olhar meu de admiração. Trinta anos nos separam ainda hoje. Ambos capricornianos de vinte e tantos de Dezembro, são agora mais frequentes as nossas conversas no café do Rossio, nas ruas das Carreiras ou noutro lado; nem sempre estamos de acordo, mas entendemo-nos como amigos – e isso basta.
Só esta amizade e gratidão que me ligam a João Salvador Martins e à sua pintura me convenceram a romper por momentos o afastamento voluntário em relação à maior parte das actividades desenvolvidas na Biblioteca Municipal de Portalegre. Desgostoso com a estranha e perigosa mistura feita nesse espaço entre cidadãos com qualidade humana, cívica, artística e/ou literária e outros sem dimensão estética e/ou ética (para não falar noutras “coisas” que por ali ocorrem ou dali partem) – fui obrigado a reconhecer que a melhor maneira de demonstrar amor pela terra em que nasci e vivi é voltar as costas a tudo quanto macula o seu bom nome de cidade e de centro de uma região.
Os quadros que pude observar na exposição de João Salvador Martins eram, na sua maioria, meus conhecidos. Tive até o privilégio de acompanhar a execução de alguns deles, nomeadamente as aguarelas carreirenses. Independentemente do motivo que apresentam (na pintura não interessa a vista ou o rosto retratado, mas a capacidade de interpretação e de transformação do pintor, conseguida através do desenho e da disposição das cores – tudo o resto está de fora, pertence às circunstâncias, não interessa ao quadro enquanto objecto artístico), confirmei o interesse que sempre me suscitaram.
Nem a descuidada montagem da exposição, nem o catálogo lamentável, nem o insensível emolduramento das obras carreirenses (propriedade da Junta de Freguesia local) conseguem diminuir a qualidade dos quadros. Trouxe no olhar, entre outras obras, os retratos muito conseguidos de Maria Tavares Transmontano e de Nuno Oliveira. Valem por si, independentemente de quem representam. Transfiguram a realidade, animando-a. Toda a boa pintura deveria ser assim…


(in O Distrito de Portalegre)

terça-feira, 29 de maio de 2007

Que bela fotografia esta captada a partir de Marvão...
(Infelizmente, não foi captada por mim,

segunda-feira, 28 de maio de 2007


CASTELO DE VIDE EM 1758

(continuação)



Freguesia de Santa Maria da Devesa
(folhas 1481 a 1489)


Da parte do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo de Portalegre, meu senhor, me foi apresentado um memorial para informar sobre o que pertence saber desta terra e do mais que se expressa no dito papel, a que respondo o seguinte.

Castelo de Vide, vila de Portugal, fica no Alentejo. É da comarca e bispado da cidade de Portalegre, da qual dista duas léguas. É vila notável e nobre, com voto em cortes no banco onze.
Tem por armas um castelo cercado com uma vide. Dizem alguns que a estas armas e a este nome deu ocasião uma grande vide que teve o castelo. Querem outros com paronomásia que esta vila se chame “Castelo de Vide” porque divide Portugal de Castela, por está na raia em distância de duas léguas.
O castelo é obra de el-rei Dom Dinis e foi senhor dela o infante D. Afonso, seu irmão.
É de el-rei e é alcaide-mor desta vila o conde meirinho-mor do reino.
Está situada mais em monte do que em vale e menos em campina.
É praça de armas, cercada de muros bastantemente fortes. Tem neles quatro portas para entradas e saídas, que são: a porta da Aramenha, para as partes de Marvão e Portalegre; a porta Nova, para a parte de Castela; e as portas de São João e São Pedro, para as partes do reino. E esta porta de São Pedro é dentro do castelo. É este murado e fechado sobre si e está situado para a parte do Norte e há dentro dele mais de cento e cinquenta vizinhos e também a igreja de Nossa Senhora da Alegria, com um convento que mandou fazer Dona Mariana Eugénia, para nele viverem freiras franciscanas, o que não tem tido efeito, por se embargar depois de feito, por parte de el-rei, com o fundamento de estar próximo do armazém da pólvora, que está dentro do mesmo castelo e aos muros dele.
Consta esta minha freguesia de Santa Maria da Devesa, matriz desta vila de Castelo de Vide, de mil e cem vizinhos. E tem quatro mil pessoas de confissão e comunhão. Tem mais duas freguesias, que são a paroquial igreja de São João Baptista, que é da Malta, e a paroquial igreja de Sant´ Iago, a qual é de el-rei. E têm ambas priores que dirão o mais.
Desta vila, como fica em monte, se descobrem as vilas seguintes: a vila de Marvão, que dista uma légua; a vila de Nisa, que dista três léguas; a vila de Montalvão, que dista quatro léguas; a Póvoa das Meadas, que dista duas léguas; a vila de Castelo Branco, que dista dez léguas; o lugar de Sant´ Iago, do reino de Castela, que dista cinco léguas. E para a parte do poente nada se descobre, por razão da serra de São Paulo, que impede a vista por ser muito alta e próxima a esta vila para o Poente.
Tem termo que confina com o de Portalegre em menos distância desta vila meia légua. Confina com o de Marvão em distância de meia légua. Com o de Castela em distância de duas léguas, sendo a divisa um rio chamado o Sever. E confina com o da vila de Alpalhão em distância de légua e meia e com o de Nisa na mesma distância. E com o da Póvoa na mesma distância.
Esta paróquia está dentro da vila, é a matriz. É o seu orago Nossa Senhora ou Santa Maria da Devesa, a qual está hoje arruinada, não pelo terramoto do ano de 1755, mas por muito velha. E pretendendo-se concertar, se conheceu seria inútil o concerto e cuida-se em se demolir para se fazer igreja nova, respectiva à multidão dos vizinhos.
Compunha-se de três naves com capela-mor e altar-mor e altar do Sacramento, altar de Nossa Senhora do Carmo, altar de Nossa Senhora do Rosário, altar do Santo Cristo, altar do Anjo da Guarda, altar de Nossa Senhora da Boa Morte e altar das Almas e altar de Santa Luzia, que por todos são nove altares. Tem de presente seis irmandades, a saber: a de Nossa Senhora da Assunção, que é dos clérigos; a do Sacramento; a de Nossa Senhora do Carmo; a de Nossa Senhora do Rosário; a das Almas; a de Nossa Senhora da Boa Morte.
É esta igreja do padroado real. Sua Magestade é quem apresenta. É o pároco vigário, tendo tanto trabalho por ser esta freguesia das maiores da província do Alentejo. Só tem de côngrua cinquenta mil réis, que são pagos pela comenda, e é o seu comendador o Excelentíssimo Marquês de Tancos.
Tem quatro beneficiados, os quais apresenta o Excelentíssimo Senhor bispo de Portalegre, e são pagos pela oitava parte dos dízimos, e lhe dará a renda anualmente em cinquenta ou sessenta mil réis. Não têm pensão de clero e só a de paroquiarem as semanas, alternativamente com o vigário, que sempre serve em todas.
Tem dois conventos: um dos recoletos da Ordem de São Francisco; e outro que é o hospital de São João de Deus, em que tão somente se curam os soldados, à custa de el-rei. E do convento de São Francisco é padroeir[a] a Câmara desta vila.
Tem Casa da Misericórdia com hospital para se curarem os pobres. E tem de renda mais de seiscentos mil réis.
Tem um forte muito bem murado, a que se chama o forte de São Roque, dentro do qual só está a igreja deste santo, que é advogado da peste. E é festejado pelos vizinhos e é guardado pelos soldados com guarda quotidiana. Está situado para a parte do Sul.
Tem mais esta vila uma igreja no distrito desta minha freguesia chamada a Colegiada do Espírito Santo, em que rezam em coro sete beneficiados, que terão de renda cinquenta e cinco mil réis em cada ano, pouco mais ou menos, e um tesoureiro a quem se dá vinte. Instituição de Nicolau de Matos e Brites de Jesus, hoje é padroeiro Paulo Nogueira de Andrade, da cidade de Lisboa. Tem altar-mor esta igreja, tem altar de Santo Estêvão, tem altar de São Marcos, tem altar de Nossa Senhora da Conceição, que é da irmandade dos militares desta praça, onde hoje se acha a freguesia de Santa Maria, matriz, pela ruína e lhe ser esta filial. E não tem naves.
Fora dos muros, tem: a ermida de Nossa Senhora dos Remédios, de abóbada, com um altar; a ermida de São Vicente Ferrer, com um altar; a ermida de Nossa Senhora da Vitória; a ermida de Nossa Senhora do Carmo; a ermida do Bom Jesus, de Pero Galego; a ermida de Santo Amador, que dista uma légua para as partes de Castela, a quem se faz festa em uma oitava da Páscoa, e se faz procissão das Almas por estarem ali enterrados muitos castelhanos, que morreram em choque que tiveram com os portugueses nas guerras passadas, de que ainda hoje se diz “a derrota de Santo Amador” e por isso se faz a comemoração das Almas.
(continua)

terça-feira, 22 de maio de 2007

CASTELO DE VIDE EM 1758
(freguesia de Sant' Iago - continuação)


É sem nave alguma. Tem uma capela-maior, com seu retábulo antigo. Nele está um sacrário com o Santíssimo Sacramento, com o patrono Sant’ Iago Maior. Tem uma imagem de Nossa [Senhora] do Livramento e os evangelistas São João e São Mateus. Tem um altar do Senhor Crucificado, milagroso e tem seus devotos, que lhe fazem sua festa; está da parte da Epístola, fora do arco. Tem outro altar da Senhora do Amparo, da parte do Evangelho e também com a mesma devoção. Tem outro altar de Santa Teresa, algum dia Santa Apolónia, capela particular que instituiu o licenciado João Vivas Barbas, prior proprietário desta mesma igreja, com missas cada um ano na mesma capela. Tem outro altar da Senhora da Encarnação, de pedra lavrada à moderna o arco, e com sua tribuna de madeira dourada; e tem quatro missas pelas festas do ano, por lhe deixar uma devota umas propriedades de raiz, que rendem cinco mil e quinhentos réis cada um ano. Tem uma capela de Santo António de Lisboa, com seus devotos que lhe fazem sua festa e lhe ornam o seu altar. Está pegado a ele outro altar de São Gregório, cujo não se diz missa por ter pouco vão. E da outra parte para o poente está o baptistério baptismal. Tem mais outro de Santa Ana, por lhe trazerem a sua imagem da ermida que se arruinou detrás do castelo, e cujo altar algum dia era de São Bento, donde existe ainda a sua imagem com muita devoção. São oito altares.
Há nela as confrarias actuais. Sant’ Iago, patrono dos mercadores desta vila; haverá perto de noventa anos que foi aprovada pelo Ordinário. E as mais são, por devoção, a Senhora do Amparo, Santo Cristo Crucificado, Santo António. O proprietário, o prior, apresenta o cura e tesoureiro desta mesma paroquial, a quem paga da sua côngrua ou dízimos que lhe toca a sua parte. E algum dia apresentava o cura da vila da Póvoa e Meadas e o tesoureiro, a quem paga o que lhe toca por o rapta [sic].
Tem de renda esta paroquial igreja de Sant´ Iago, entre todos os dízimos, centeio, trigo, milho e mealheiros e tudo o mais. Um ano por outro rende cento e cinquenta mil réis, estes cativos, e destes se pagam as propinas per annum. Ao tudo oitenta mim réis antes mais para cima. Os dízimos das igrejas de Castelo de Vide e vila da Póvoa e Meadas se partem da maneira seguinte. Faz-se o monte em três terços. Primeiro terço é para as dignidade da cidade da Guarda, por haver sido Portalegre antigamente deste bispado. E os outros dois terços do principal se partem três quinhões: destes leva um a comenda e os beneficiados de Santa Maria da Devesa; e os outros segundos que restam se partem em cinco partes, das quais duas são para a fábrica da Guarda, e duas para o prior proprietário de Sant´ Iago e uma parte para o prior de São João Baptista de Malta.
Tem esta minha freguesia fogos duzentos e quarenta e sete, pessoas de confissão e comunhão seiscentas e vinte e sete, de confissão menores cento e quinze. São o número a tudo setecentas e quarenta e duas pessoas.
Esta paroquial igreja está à frente da fonte do Martinho e da serra de São Paulo, donde os castelhanos combateram esta praça para a arruinarem. A porta principal está para o Poente. Junto a ela a muralha, que está entre o meio o Curral do Concelho cinquenta passos. Está para o Nascente e Sul ou soão a porta travessa, para a Carreira de Sant´ Iago, rua primeira da freguesia. Outra porta da mesma parte, serventia da sacristia, está toda ao temporal. E não tem naves algumas. Tem o seu coro. E antigamente tinha o seu órgão para as funções e festividades da Igreja. É pequena e tem de regalia, por antiga que foi a primeira freguesia, sair ainda dela a procissão da Ressurreição de Cristo Senhor Nosso (depois da Ressurreição da matriz, que sai primeiro) e também a do Corpo de Deus, assistidas estas com todas as confrarias e com o clero, que serão setenta, com pena de excomunhão e outra com pena pecuniária, se faltarem por ser mais antiga, que era o Rei Salvador do Mundo, que é a primeira ermida desta paroquial, com uma capela-mor só com seu trono e tribuna. Nele está uma imagem de Nossa Senhora do Pilar, que algum dia tinha irmandade. Está da parte do Evangelho o Rei Salvador do Mundo e da Epístola um Senhor crucificado. No terramoto teve ruína em uma parede. Está já reparada.
Está outra ermida do apóstolo Santo André, com capela-mor só.
Está outra ermida do apóstolo São Pedro. É igreja bastante, com sua capela-mor, donde está uma imagem de Nossa Senhora da Nazaré e [o] apóstolo São Pedro. Com sua sacristia, têm os padres por devoção de lhe cantarem missa com seu sermão e armação no dia vinte e nove de Junho. E algum dia teve irmandade.
Tem outra ermida da imagem da Senhora da Luz, capela particular, igreja com seu alpendre e sacristia. Tem capela-mor com a imagem da Senhora da Luz. Esta Senhora é milagrosa dos olhos, donde concorrem romeiros desta vila e arredores em o dia da primeira oitava da festa da Ressurreição de Cristo Senhor Nosso. Se faz festa com missa cantada e sermão, que manda dizer o instituidor da dita capela.
Tem outra ermida de São Silvestre, com sua capela-mor, donde está o santo. E tem seus mordomos, que se lhe faz festa nesta mesma primeira oitava da Páscoa, nesse mesmo dia, donde concorre todo este povo de Castelo de Vide e de fora. E andando as bestas ao redor da igreja do santo três voltas, têm por fé não terem dor de barriga e protecção do santo, salva a fé.
Tem uma ponte de cantaria só com um arco na ribeira de São João. Esta se acha com cinco azenhas neste distrito, desde o lagar de Dom João até ao lagar de António Torres. Estas moem todo o ano pão de centeio só. E quatro também servem de lagar de azeite. Tem dois pisões, que estão derrubados, por não haver mistério deles, senão no tempo da guerra, por estarem debaixo da artilharia.
Tem as fontes seguintes: fonte de Pero Boi, fonte do Souto, fonte do Cortiço, fonte do Porto da Póvoa e Meadas, fonte dos Corolheiros [sic]. Estas nunca se secaram no tempo da seca.
Estes engenhos moem todo o ano da água que nasce do cano, sítio das Lajes Preta, um grande safredo de penhasco de pedra, donde rebenta a dita água que principia a ribeira de São João, até se ajuntar com a ribeira da Vide, deste termo. E as tais duas ribeiras se ajuntam no rio de Sever. Tem este distrito de Sant’ Iago estes engenhos e ribeira.
Tem hortaliça, azeite, vinho, fruta de guarda. E estas águas livres, sem pensão alguma. Tem castanha e tapadas onde se semeiam centeios, milhos, cevadas. E a maior abundância dos frutos desta terra é centeio. Tem borregos, chibos e bezerros e bácoros.
Tem correio, que vai buscar cartas no sábado à cidade de Portalegre e na quarta-feira seguinte as leva.
E desta vila de Castelo de Vide à capital do reino dista trinta e tantas léguas, que é a nossa Lisboa.
Estas notícias referidas acima da minha paroquial igreja e freguesia de Sant’ Iago desta vila é só dela, do seu distrito, e ter eu conhecimento de muitas certezas e conhecer. Há sete anos que vivo em esta vila e paroquial igreja, por mercê de Sua Magestade Fidelíssima, que ma deu de propriedade e colado nela em oito de Junho de 1752. E por não achar mais notícias da dita paroquial igreja e freguesia, represento o papel escrito a Vossa Excelência, em Maio, 18, de 1758.

Súbdito e humilde venerador e cap. o prior Domingos de Figueiredo

(continua)

terça-feira, 15 de maio de 2007


CASTELO DE VIDE EM 1758

(continuação)



II

Freguesia de Sant’ Iago Maior
(folhas 1477 a 1480)


Respondo aos interrogatórios que faz menção e vieram no papel de letra redonda, que Vossa Excelência Reverendíssima nos entregou.

Nobre e notável vila de Castelo de Vide, província do Alentejo e praça de armas, bispado e comarca da cidade de Portalegre, da qual dista duas léguas, e outras duas da raia de Castela, e uma de Marvão para o nascente e sul. É antiquíssima e povoação. E foi contemporânea Norba Cesárea, e antes desta ser arruinada já existia esta vila. Deu-lhe foram Pedro Anes. Chamou-se antigamente Vila da Vide. É cercada de muros fortes com quatro portas. Tem forte castelo, obra não de el-rei Dom Dinis, porque é mais antigo. O que se entende por coisa certa é que o dito rei fez a torre da homenagem e no castelo faria alguns concertos. Senhor dela o infante Dom Afonso, seu irmão, que por muitas vezes intentou cercá-la de muros, o que lhe impediu com muita gente de armas. Goza de voto em cortes, com assento no banco onze.

Tirada esta notícia, e já aprovada, do Dicionário Geográfico do padre Luís Cardoso, da Congregação do Oratório.

Tem esta vila de Castelo de Vide em dez de Agosto feira de São Lourenço, franca, e outra em quinze de Janeiro, dia de Santo Amaro, franca.
E é de grande trato de panos, saragoças e baetas e xadrês.
É abundante de carnes de chacina de porco. Mata por ano mais de oito mil porcos e com boa satisfação.
Consta de três paróquias, que são estas:
Santa Maria da Devesa, que foi primeiro uma ermida edificada na era de César de mil trezentos e quarenta e nove, e na de Cristo de mil trezentos e onze, por Lourenço Pires e por sua mulher Domingas Joanes. É matriz e o seu pároco vigário, antigamente reitor.
A segunda paróquia, dedicada a São João Baptista, é da Ordem de São João de Malta. O pároco antigamente era vigário, hoje se intitula prior. É comenda das religiosas maltesas de Estremoz.
A terceira é esta minha freguesia, paróquia com o patrono dela, o apóstolo Sant’ Iago Maior, e é do padroado real. O pároco é prior e o é também da vila da Póvoa e Meadas, distante duas léguas dela. Apresentação é de Sua Magestade Fidelíssima e da sua Real Coroa.
Esta está dentro desta mesma vila e praça de Castelo de Vide, chamado o Bairro da Aldeia, que é dos lavradores, que algum dia nela moravam. E já hoje está diminuta dos ditos lavradores e terá cinco lavradores e os mais morreram e se foram para as outras freguesias.
Dela se avista[m] vila da Póvoa e Meadas e a vila de Nisa e a vila do Envendo da Beira e a vila de Montalvão e a vila de Alpalhão e a Vila de São João de Gáfete e a vila do Gavião e a vila de Marvão. Não se descobre mais por ter defronte a serra de São Paulo.


(continua)

quinta-feira, 10 de maio de 2007


CASTELO DE VIDE EM 1758

(continuação)



19ª

Tem esta vila feira dia de Santo Amaro e dia de São Lourenço, francas de um só dia cada uma, e mercados todas as quintas-feiras do ano, francos até ao meio-dia.

20ª

Tem correio. Sai quarta de manhã e chega sábado à noite. Manda correio a carta do povo, dar e receber as cartas ao correio de Portalegre.

21ª

Dista esta vila da cidade de Portalegre, cabeça do bispado, duas léguas. E dista da cidade de Lisboa 34 léguas.

22ª

Tem o privilégio de não sair da Coroa e com tanta restrição que, em foro de consciência, a não pode el-rei dar, porque sendo esta vila das filhas do infante Dom Afonso, quando a venderam a seu tio Dom Dinis, se estipulou no contrato que a vendiam a ele e a seus sucessores, com condição que nunca sairia da Coroa. E el-rei no contrato assim o prometeu. Consta da Monarquia Lusitana.
Tem mais o privilégio dos seus moradores não irem à guerra, salvo acompanhando el-rei em pessoa. E se tem observado na ocasião dos maiores apertos, como se vê no livro do tombo da Câmara.
Tem o privilégio de não pagar portagem e a todos os moradores da vila o privilégio que a Elvas se concedeu, só os que morassem na Corujeira.
Tem também isenção de ter éguas de coudelaria e este é o único que se tem quebrado.

23ª

Há nesta vila a fonte da Mealhada, cuja água é excelente remédio contra as dores nefríticas, a do Manguinhos, para as diarréias.

24ª

Nada

25ª

É praça de armas, fortificação irregular e de mediana força, o recinto grande.
Para a parte do nascente tem o forte de São Roque, que é de quatro baluartes de força mediana.
No alto da vila tem o seu castelo. É talvez o mais grande e formoso que tem toda a raia do reino. Está em um alto dominante, por algumas parte inacessível. É castelo antigo e por fora o fortificaram com fortificação moderna desenhada por Cosmander. Se se aperfeiçoasse, era capaz de resistir a um poderoso exército.

26ª

Só padeceu no terramoto ruínas ordinárias.

27ª

O padre Carvalho na sua Corografia escreveu com acerto o estado presente e a terra aonde se pode ver o que escuso de referir. Só cometeu dois erros. Um foi dizendo na vila da Póvoa que a sua igreja era filial de Santa Maria desta vila, sendo da de Sant’ Iago. O outro foi o dizer ser opinião se chamava “Castelo da Vide” por dividir Castela de Portugal, sendo isto história apócrifa. As mesmas armas que lhe dá lhe desfazem o seu dito, que é um castelo cercado com uma vide com cachos de ouro, o que lhe vem porque esta vila se chamava só vila da Vide até o tempo de el-rei Dom Dinis, como se vê da doação que el-rei Dom Afonso III ao infante seu filho, na qual lhe dá a vila da Vide, com seu castelo, seus termos e suas pertenças.
A vila é antiquíssima. No tempo dos gentios havia aqui fábrica das ferrarias, que ainda conserva o nome. Ainda estão em pé oito ou nove antas, em que faziam os sacrifícios.
O castelo é antiquíssimo. O poço que tem dentro para se beber em tempo de sítio é de enorme despesa e bem se vê que em país aonde há tantos e tão grandes nascimentos de águas, só se faria aquela obra para defesa do castelo. Chamam ao poço “Alvacá”, nome mourisco. Ou os mouros o fizeram ou, achando-o feito, lhe puseram aquele nome.
No princípio da conquista do reino foi o castelo acometido e raso pela parte do norte, cuja muralha se vê hoje servindo de traseira à cadeia e outras casas. Esta ruína quis concertar o infante Dom Afonso, de que el-rei Dom Dinis seu irmão teve grandes ciúmes e veio pôr sítio a Castelo de Vide. O irmão, o infante, lhe escreveu de Arronches carta, prometendo-lhe que mandaria derrubar tudo o que tinha concertado nos muros e acrescentado na torre. Do que se vê o erro crassíssimo de muitos autores, que dizem que el-rei Dom Dinis povoara esta terra e fizera o castelo. El-rei Dom Afonso o 4º alargou o castelo, como se vê do letreiro que está sobre a porta dele, metendo no seu recinto todo o terreno por foi acometido o castelo velho.
E ficou tão formoso e grande que deu o nome à vila, tomando-o por armas e cercando-o com a vide, aludindo ao nome da antiga vila.
É erro crassíssimo de Duarte Nunes de Leão dizer que esta vila era naquele tempo aldeia, lugar aberto e chão do termo de Marvão. E padeceu este erro porque na explicação que el-rei Dom Afonso III fez à doação que tinha feito por estas palavras “quod est in termino de Marvão”, ali foi o mesmo que dizer “junto a Marvão” para diferençar esta vila da Vide da outra vide da Serra da Estrela, a que bem se vê das palavras da doação feita antes, em que lhe chama vila da Vide com seu castelo e seu termo e suas pertenças. Nem Marvão nesse tempo tinha termo separado, como se vê de sentença pouco depois dada e e sempre Marvão foi terrúncula [sic].
Tocante à serra está dito o que dela se pode dizer. Apenas temos de acrescentar: é um braço do Hermínio Menor, que aqui acaba. Os outros braços vão para Marvão, Portalegre, Alegrete. Tem infinidade de ervas medicinais.
Rio especial não o há. As ribeiras, pequenas, na Corografia Portuguesa estão bem escritas.

Castelo de Vide, 24 de Maio de 1758

O Prior Manuel Carrilho Gil
(continua)

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