terça-feira, 8 de maio de 2007

CASTELO DE VIDE EM 1758

(continuação)


18ª

Sendo vizinha desta vila uma légua distante Norba Cesária, cujos moradores na sua ruína vieram habitar Castelo de Vide. E ainda durante Norba Cesária era Castelo de Vide um arrabalde dela.
Se podem contar por naturais: Santa Quitéria e suas oito irmãs; o padre Gonçalo de Sequeira, da Companhia de Jesus, baptizado na matriz a 25 de Dezembro de 1642, foi varão ilustre como consta do ano glorioso da Companhia de Jesus, fl. 191; o padre Manuel de Matos, da mesma Companhia, também ilustre. Consta do mesmo livro, fl. 736.
Em Letras: Dom João de Casal, morreu bispo em Macau; frei Gonçalo do Crato, religioso de São Domingos, inquisidor da Mesa Grande, baptizado em São João em 23 de Fevereiro de 1641; Sebastião de Matos, a quem el-rei Dom Manuel mandou estudar no Colégio de São Bartolomeu de Salamanca, foi desembargador do Paço, foi pai de Dom António de Noronha, bispo de Elvas, inquisidor-geral do reino, avô de Dom Sebastião de Matos de Noronha, arcebispo-primaz de Braga e bisavô do Conde de Armamar; Manuel Delgado de Matos, baptizado na freguesia de São João no ano de 1647, foi colegial de São Paulo de Coimbra, lente de Leis, desembargador dos agravos; o desembargador Gaspar Mouzinho Barba, baptizado na matriz, ano de 1584; seu filho, Mateus Mouzinho Barba, baptizado na mesma freguesia, ano de 1620, foi desembargador do Paço e foi pai de Gaspar Mouzinho de Albuquerque, procurador da Coroa; Mateus Gonçalves Mouzinho, baptizado na mesma igreja, ano de 1617; Manuel Mouzinho, seu irmão, desembargador dos agravos.

Em armas

Gonçalo Anes de Castelo de Vide, serviu bem el-rei Dom Fernando, como se vê de sua crónica escrita por Duarte Nunes de Leão. Continuou a servir a Dom João o 1º e foi neste tempo um dos mais ilustres militares do reino, por ser guerra de religião e liberdade. Fernão Lopes diz na 1ª parte, capítulo 159, que Gonçalo Anes de Castelo de Vide fora discípulo do Condestável na pregação do evangelho português ao verdadeiro Para [?] e liberdade do reino. Assistiu,como grande e rico homem do reino, às Cortes de Coimbra. Consta do capítulo 175. Fez voto na batalha de Aljubarrota de ser o primeiro que havia de fazer sangue em castelhanos. Consta da segunda parte, capítulo 38. Achou-se nela e cumpriu o voto. Consta do capítulo 42. Antes da batalha o tinha el-rei armado cavaleiro, com muito poucos dos muitos grandes do reino [sic], pelo capítulo 9. E pelo capítulo 57 consta se achou na batalha de Valverde e disse muitas grautas [?] a Dom Diogo Fernandes de Córdova, alcaide dos donzéis de Castela, de que se infere que antes desta batalha se tinha[m] já visto em três com ele que seriam a de Aljubarrota, Atoleiros e outra, com este Gonçalo Anes de Castelo de Vide. Foram tantos os filhos de Castelo de Vide à guerra e deu este povo tão grande socorro para ela, que o dito cronista do capítulo 162 da primeira parte, faz pergunta à cidade de Lisboa quais foram os povos fiéis que ajudaram na sua aflição a um tão grande negócio e a fizeram clara entre as gentes, confessando verdadeiro papa e defendendo o reino e respondendo por Lisboa e, nomeando os povos, aponta só quarenta e seis que lhe assistiram e um deles é Castelo de Vide. E todos os mais povos do reino eram anti-papistas e seguiam o anti-papa Clemente. E por esta razão ficou Castelo de Vide com o título de “mui sempre leal”. Vê-se de uma representação que fez a Marvão, em vinte e um de Fevereiro de 1473 e principia assim: “Dizemos que assim é verdade que nos [sic] dito concelho da muito sempre leal vila de Castelo de Vide”.
O título de “sempre nobre e grande vila” lhe deu el-rei Dom Afonso V nas Cortes de Tomar.
António de Matos desta vila. Passou no de 1500 à Índia, na companhia do grande Afonso de Albuquerque e ia tão recomendado por el-rei Dom Manuel e era de tanto merecimento que, quando aquele governador tirou a Manuel de Lacerda e a outros fidalgos as capitanias de suas naus por lhe falarem arrogantes em favor de Rui Dias de Alenquer, que ele mandara degolar, deu uma capitania a António de Matos, com que ficou servido em todos os grandes sucessos. Foi em companhia de Nuno Vaz de Castelo Branco buscar mantimentos da Angediva para Goa, que estava cercada, sofrendo grandes tormentas. No coração do Inverno achou-se com sua nau com o mesmo governador na segunda tomada de Goa e foi desfazer a fortaleza de Socotorá. Vejam as Décadas de Barros e Castanheda, livro 3º, capítulo 29, 33 e 42.
Gaspar Rodrigues Mouzinho foi servir a África com cavalos e criados à sua custa. E foi armado cavaleiro em Arzila por acções e sua nobreza, que obrou contra os infiéis. Consta de justificação que fez seu filho frei Jerónimo Mouzinho em 1566.
Pedro Fernandes Barba passou à Índia na armada de Dom Antão de Noronha. Achou-se na tomada de Catifa e desembarcou pelejando, dando-lhe água pelos peitos. E por suas acções e nobreza foi armado cavaleiro em 9 de Setembro de 1552. Consta do alvará.
João Rodrigues Mouzinho, natural desta vila, passou a África com cavalos e criados à sua custa. E por acções que obrou contra os infiéis foi armado cavaleiro por Dom Francisco de Almeida, governador de Tanger, por alvará de 24 de Maio de 1584.
Lourenço Mouzinho Barba, baptizado na matriz em 18 de Agosto de 1590, foi capitão de mar e guerra. Achou-se no naufrágio da armada do ano de 1626. Consta da Epanáfora Trágica, de Dom Francisco Manuel. Pelejou no caminho da Índia com três naus da Holanda e, depois de meio queimado, ficou prisioneiro. Consta do 3º tomo das Ásias, parte 4ª, no último § capítulo 2º.
João Furtado de Mendonça, baptizado em São João, em 23 de Julho de 1639, e por sua mãe dos Vidais e Torres, foi na Guerra da Aclamação mestre de campo do terço do Algarve e com ele e com os de Castelo de Vide e de Campo Maior ganharam na Batalha do Ameixial um monte, desalojando dele aos castelhanos. E depois ganharam o monte em que estava Dom João de Áustria e o desalojaram e ganharam a artelharia. E conseguindo avanço, obrigaram a fugir para Arronches. Achou-se na batalha de Montes Claros com o seu terço, que, junto com os mesmos dois que o acompanharam na do Ameixial, ficaram no lado direito aonde sofreram a força da batalha e obraram maravilhas. A cavalaria castelhana os confundiu e, tornando-se a refazer, pelejaram tão destemidamente que foi princípio da vitória na Guerra da Grande Liga. Foi mestre de campo, general conselheiro de guerra e governou esta província.
Belchior do Crato, sargento-mor do Regimento desta praça, morreu na batalha do Montijo.
João do Crato da Fonseca, natural desta vila, comissário de cavalaria com seis companhias, tomou um comboio que vinha para Arronches, pondo em fugida a cavalaria que o guardava. Consta de Portugal Restaurado, tomo 2º, livro 6º, fl. 424. Achou-se na batalha do Ameixial. Morreu na batalha, general da Artilharia do Algarve.
Francisco Mendes Homem, seu irmão, foi mestre de campo do Regimento desta praça e tenente do mestre de campo, general governador de Valência de Alcântara e de Castelo de Vide.
Mateus Caldeira, irmão dos sobreditos, foi capitão de cavalos muito valoroso. Morreu comissário da Cavalaria da Corte.
João Rodrigues Mouzinho, natural desta vila, capitão voluntário de cem moços solteiros voluntários. Achou-se nas Linhas de Elvas e foi o primeiro que as rompeu.
Na Guerra da Quádrupla Aliança, Luís de Barros Castelo Branco, capitão de cavalos valoroso, morreu governador de Portalegre.
Diogo de Barros Castelo Branco, capitão de cavalos, é ao presente governador desta praça com patente de coronel. E outros muitos.


(continua)

quinta-feira, 3 de maio de 2007


CASTELO DE VIDE EM 1758

(continuação)





A minha igreja de São João Baptista foi no tempo antigo uma ermida de Santa Maria Madalena e a matriz outra ermida de Santa Maria, edificada na era de César de 1349, que é o ano de 1311, por Lourenço Pires e Domingas Joanes, sua mulher, como se vê de um letreiro gótico escrito em uma pedra mármore, que está debaixo da pedra-de-ara do altar-maior. A matriz antiga desta vila se desfez e em seu lugar se erigiram as duas freguesias: [a] matriz, de Santa Maria da Devesa, e São João. E porque ambas nasceram daquela matriz, são hoje a primeira e segunda paróquia e Sant’ Iago, que era a segunda paróquia, ficou sendo a terceira.
Foram as ditas freguesias edificadas nas duas ermidas. Fez-se a de São João de sorte que o altar-maior ficou dentro da ermida de Santa Maria Madalena. Parte da ermida ficou da parte do Evangelho, servindo de sacristia, e a outra parte da banda da Epístola é a parte inferior da torre dos sinos. Em ambas se vêem arcos e portados e antigas cantarias da ermida antiga e se vê são remendos da nova igreja.



O pároco de São João se chamava antigamente “vigário”, como se vê dos livros antigos dos baptizados. Hoje se chama “prior”, é da apresentação do Grão-Prior do Crato. A renda dela serão seiscentos mil réis, de que levam as religiosas maltesas de Estremoz dois terços e o prior um.

Aditamento ao sétimo 7ª [sic]

É o orago hoje São João Baptista, que está no altar-mor, no alto do retábulo, e em baixo, à direita, São Domingos e à esquerda São Gonçalo de Amarante. Fora da capela-mor, no lado direito, está a capela de Santa Maria Madalena, a qual dotou e pôs fábrica o prior frei António Rodrigues Sarzedas, em um vínculo que fez. Da parte da Epístola fica o altar de São Brás, cuja imagem festejam uns devotos no seu dia. Abaixo deste, fica a capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso, que foi mandada fazer por Francisco Carrilho de Carvalho, prior da dita igreja, no ano de 1694. E não tem mais altares. Tem a dita igreja três naves. Não tem irmandade alguma.



Não tem beneficiados e só tem um cura, a quem pagam as freiras ditas e o prior da igreja.

10ª

Tem esta vila convento do Recoletos de São Francisco, fundado e dotado por Gaspar de Matos e sua mulher Brites de Matos, da principal nobreza desta vila. E deram para o dito convento se fazer as suas casas e para cerca a sua quinta em 14 de Março de 1584, por declaração que ele foi fazer à Câmara. Em 20 de Outubro tornou a Câmara a declarar que dava mais 400 000 digo quatrocentos mil réis.
À quinta se chamava da Conceição e sobre a porta tinha uma imagem desta senhora. Daqui tomou o nome e orago o dito convento e sobre a porta da igreja está a mesma imagem que estava na porta da quinta.
Deixou Gaspar de Matos o padroado a seu sobrinho, Diogo Cardoso de Matos. Há certas pensões em seu testamento que não aprovou e, por sua morte, houve contenda entre oito sobrinhos e se anulou seu testamento e os religiosos tomaram por padroeira a Câmara desta vila.
Em segunda-feira, 20 de Maio de 1589, se lançou a primeira pedra na obra. Em 2 de Agosto de 1592 se disse a primeira missa. Tem a igreja cinco altares. A coisa mais notável que há neste convento é um retrato e imagem verdadeira de Cristo, a qual está fixada na porta do sacrário, a qual trouxe de Roma frei Diogo Serrano Mouzinho, frade claustral. A pintura é de admirável primo, em lâmina de cobre, e por baixo tem uma inscrição com letras de ouro que diz o seguinte: “Retrato e imagem verdadeira de Jesus Cristo Salvador e Senhor Nosso, [a] qual foi tirada de Amiralda pelo Grão Turco e mandad[a] de presente ao para Inocêncio VIII para efeito de resgatar um irmão que tinha cativo”.

11ª

Tem esta vila Casa de Misercórdia e hospital. Tem de renda um conto de réis. Seus administradores são os mesmos irmãos da Misericórdia.

12ª

A Casa da Misericórdia, que está junta com o hospital, foi fundada na antiga ermida de Santo Amaro e, por isso, é hoje este santo o seu orago. Tem a igreja três altares. A coisa notável é os muitos milagres que esta santo obrou no tempo antigo, cujas autênticas estão no arquivo da Casa.

13ª e 14ª

Tem a minha freguesia sete ermidas e são as seguintes: intramuros, Nossa Senhora da Alegria, que é antiquíssima, do tempo da primitiva cristandade, e é a padroeira desta vila e festejada com grande devoção pelos moradores dela; e, extramuros, as ermidas de São José, edificada no ano de 1620 por Gonçalo Mendes e sua mulher Ana Gomes; a de Santo António da Ribeira, edificada no ano de 1700 por Sebastião Fernandes Ramilo e sua mulher Ana Gomes; a ermida de São Miguel, no alto da serra de que esta toma o nome; a de São Paulo apóstolo, na ponta da serra; a da Senhora da Penha, edificada em um penhasco da mesma serra no ano de 1570. É esta Senhora de muita devoção e tem em seus braços a imagem do Senhor morto. Concorrem [sic] todos os sábados do ano muita gente deste povo e ainda fora dele. Tem mais a ermida de Nossa Senhora das Virtudes.

15ª

São os frutos da terra alguns trigos, cevada, centeio e milho miúdo, vinho, azeite, castanha, frutas temporãs como pêras, maçãs, cerejas, ginjas e também da mesma qualidade frutas de guarda, de excelente gosto e abundância.

16ª

Tem esta vila juiz de fora deste que primeiro se erigiram neste reino. Tem Câmara, três vereadores, procurador do concelho e escrivão, que têm grandes regalias. Apresentam dois morgados e os ofícios de juiz vedor e escrivão dos panos, juiz e escrivão dos órfãos, escrivão da almotaçaria e também os ofícios de inquiridor, distribuidor e avaliadores.

17ª nada


(continua)

quinta-feira, 26 de abril de 2007


fotografia
[Carreiras]


não há semáforos à entrada da aldeia.
no entanto, o vermelho cai constantemente
sobretudo para aqueles que
querendo avançar
vêm de fora, sendo de dentro.

não há sequer uma passagem para peões
ou qualquer limite de velocidade
que justifique a sua presença.
existem, porém, semáforos invisíveis
que não obrigam a parar
mas conseguem que o automóvel
parta mais depressa.

por vezes sem cor, revelam dois ou três
rostos conhecidos (na terra), sentados
todo o dia na esplanada do café ou
(daqui por uns anos) debaixo de uma das árvores do largo
num albergue ou à porta da casa mortuária.

só o verde parece não existir
para aqueles cuja presença incomoda as pedras.
para esses, os semáforos têm apenas duas lâmpadas
uma amarela, outra vermelha.

não se vêem, mas existem
à entrada da aldeia – numa das curvas da estrada
depois do portão (sempre aberto) do cemitério.


*

dois poiais sempre ao redor. mas poderiam ser
dois cabos eléctricos a debruar a fachada da igreja
dois focos a escurecerem a torre ou apenas
duas placas com erros de ortografia.

assim se constrói uma aldeia.
mesmo quando existem roldanas
lembrando o embargo da construção.

a terra é a mesma. e se, em cinquenta anos, foi
cemitério, parque infantil, balneário público, junta
de freguesia e parque de estacionamento, a culpa
é apenas do terreno, instável, apesar da rocha.
a essência fica e o odor é o mesmo.
e não será uma trasladação em caixão de chumbo
que irá resolver o assunto.


*

das tascas nem uma sobrou.
a única que ainda se ergue
com portas há muito fechadas
será, com certeza, um quarto de cama
ou uma casa de banho privativa.

a rua nem sobe nem desce.
até os andores, em dia de procissão, preferem
agora estrada nova, num povo onde
as imagens têm reforma compulsiva
sem processo disciplinar nem culpa formada.

as bocas, essas, calam-se. como se as casas
e todas as palavras fossem clandestinas
não vão alguns ser como o santo
que, primeiro, se negou ao chibo da promessa
mas depois já corria atrás dele.

a alegria permanece, apesar das nuvens
e da cortiça (quase humana) que não sai
mesmo depois dos nove anos
correndo o risco de perder a serventia.

a alegria permanece. a vontade fica. regressa.
embora traçada a negro no rosto
daqueles cujo automóvel encontra
todos os dias (ou quase todos)
um sinal vermelho à entrada desta aldeia.



(para Maria Guadalupe Alexandre)


RV (foto e poema)

segunda-feira, 23 de abril de 2007


CASTELO DE VIDE

E SEUS ARREDORES
EM 1758


Memórias Paroquiais de Castelo de Vide
(Memória nº. 222, volume 10, folhas 1461 a 1489)


I

Freguesia de São João Baptista
(folhas 1461 a 1476)


Notícia da muito sempre leal, nobre, grande e notável vila de Castelo de Vide.





Está esta vila na província do Alentejo. Pertence à comarca e bispado de Portalegre, de cuja cidade dista duas léguas.



Nos tempos antigos foi único senhor desta vila Gonçalo Anes de Abreu que, por sê-lo, se nomeia na crónica de el-rei Dom João o 1º “Gonçalo Anes de Castelo de Vide”, a quem este rei comprou o senhorio, atendendo à importância de tão grande vila.
El-rei Dom Afonso V a deu por engano a Vasco Martins de Melo, mas depois se arrependeu e lhe tirou o senhorio e lhe deram por equivalente [a] alcaidaria-mor de Évora e o povo sessenta mil reais brancos. E para a segurar na Coroa lhe deu privilégio de que nunca mais saísse dela nem fosse dada a nenhuma pessoa, por de maior qualidade que fosse, cuja mercê foi feita em capítulo de Cortes, e a carta dada depois em Lisboa em vinte e quatro de Junho de mil e quatrocentos e sessenta e um. E nesta carta refere tudo o que está dito nesta primeira resposta e deixa a sua benção a todos os reis sucessores que guardarem este privilégio e a maldição aos que o quebrarem.
El-rei Dom João o 3º. a deu a seu irmão o infante Dom Duarte. Opôs-se a vila a esta mercê e el-rei escreveu uma carta em vinte e seis de Agosto aos principais da vila, ano de 1540, nomeando-os a todos por seus nomes, persuadindo-os com muitas urbanidades a que consentissem à mercê, visto ser dada a um infante seu irmão, filho de um rei, de quem receberia muitos favores e honras. A mercê não teve efeito. É tradição que o povo fez representação a el-rei quanto importava à Coroa o ter esta vila, e que o santo justo rei, quando leu a representação, dissera “têm razão”. A carta original se conserva nesta vila e dela consta que foi portador dela o desembargador António Cardoso, e que trazia a Carta de Crença para patear com os moradores.



Toda a vila tinha no ano de mil e quinhentos e setenta e dois 1400 vizinhos (consta do tombo da Câmara, fl. 213 vº). No ano de 1608 tinha mil e seiscentos vizinhos (consta do mesmo tombo, fl. 316). No ano de 1674 tinha dois mil vizinhos (consta do alvará de privilégio de “vila notável”, do que se vê se enganou Rodrigo Mendes da Silva na sua Población, dando-lhe por este tempo 800 vizinhos. Diminuíram-se estes com a demolição do Bairro da Mealhada no princípio da Guerra da Quádrupla Aliança, pois no ano de 1734 tinha a vila 1811 vizinhos, contados os róis das confissões das três freguesias, dos quais eram da matriz de Santa Maria 1908 [sic], da de São João 486, da de Sant´ Iago 227, e hoje se acha a povoação com insensível diferença.



Está esta vila situada em o alto de um monte. E da parte do sul lhe fica a alta serra de São Miguel, mui vizinha. Desta vila se descobre[m]: Castelo Branco, a 9 léguas de distância; Vila Velha do Ródão, a 5 léguas de distância; Monsanto da Beira, a 12 léguas; estas da província da Beira. E outras em confusão, em grande distância, porque se vêem as serras da Gata, da Estrela, e Plasência e muitas outras. Vê-se também da Estremadura portuguesa Abrantes, a 11 léguas. Da Estremadura castelhana, San Tiago, a 4 léguas. Da província do Alentejo: Montalvão, 4 léguas; Póvoa das Meadas, 2 léguas; Nisa, a 3; Marvão, a 1 légua. Muit[a]s mais se veriam desta província, se da parte do Sul não ficara a serra de São Miguel, de cujo alto se vêem dez arcebispados e bispados, e três priorados. Este[s] são o do Crato, Avis e o de Alcântara. E por todas as parte até perder ao longe muito a vista.



Tem esta vila termo próprio. No tempo antigo o teve maior, porque se lhe desanexaram os termos das vilas das Meadas e Póvoa das Meadas, o das Meadas em 23 de Julho da era de César de 1345 e o da Póvoa anos depois. E por esta razão a igreja das Meadas era filial da matriz antiga desta vila e a da Póvoa filial da de Sant´ Iago. E por isso hoje todas as três freguesias desta vila têm dízimos da Póvoa, onde se juntam os dos dois termos desanexados.



As três paróquias de Castelo de Vide estão dentro dos muros e no termo desta vila. Só há duas pequeninas povoações chamadas uma o Valador (por corrupção de Lavador, por haver aí um grande nascimento de água em que se lava a roupa desta vila) e tem 12 fogos e está da parte de cá da serra de São Miguel. E outro se chama o Monte da Casada e tem 11 fogos e está da parte de lá da serra e dista da vila um quarto de légua. E ambos estes montes são da freguesia de São João.
Quanto ao espiritual, há um montinho no termo de Portalegre chamado Monte do Andreu, que pertence à minha freguesia e tem 8 vizinhos. Poucos anos há que o cura das Carreiras requereu a Vossa Excelência lhe anexasse o tal Monte à sua freguesia, alegrando se lhe tinha desmembrado dela na Guerra da Aclamação, por estar[em] vizinhos a esta praça e, medrosos da guerra, se vieram meter na sua freguesia. Porém foram achados nos livros desta freguesia muitos termos de baptismos de meninos deste Monte, muitos anos antes da tal guerra.

(actualizou-se a ortografia e pontuação do documento; continua)

quinta-feira, 19 de abril de 2007


Carreiras (Portalegre)
Rua do Ribeirinho
ENGANOS

Umas das vantagens da internet é conseguirmos aceder a informações e opiniões livres de censura, daquela censura que normalmente corta a dignidade dos seres humanos, impondo-lhes o medo.Há poucos dias descobri este comentário no Portugal Diário sobre uma realidade que, pela geografia, me é muito próxima. Embora não concorde com tudo quanto afirma (não estou convencido da inocência de Sócrates e sei que o anterior bispo de Portalegre, antes de se aposentar, expulsou dos seus domínios os burlões que por lá havia), aqui o deixo à consideração dos leitores:

Lopo de Carvalho
2007-04-15 01:17
Em sã consciência, não me parece que o chefe do governo se tenha metido em falsificações ou enganos quanto às suas habilitações literárias. Mais tarde ou mais cedo isso será claro. No entanto, é facto que em Portugal há pessoas, gente decerto disfuncional, que se arroga ter curso superior sem de facto o ter. No Alentejo, mais concretamente na cidade de Portalegre, conhecem-se dois casos que são públicos e manifestos, ainda que um tenha tido mais divulgação: o de um indivíduo que durante cerca de um quarto de século desempenhou o cargo de professor e até de director dum estabelecimento de ensino sem ter habilitações próprias, pois forjara os documentos que o davam como licenciado. O caso está sob a alçada da Policia Judiciária. Outro caso é o de um fulano que, sem ter também habilitação apropriada, se apresentou durante cerca de vinte anos como doutor, chegando a desempenhar um cargo de relevo num periódico portalegrense, onde perseguia quem não lhe agradava e agia discricionariamente. Em diversas ocasiões chegou a participar em "sessões culturais" junto do anterior Bispo de Portalegre e Castelo Branco, deixando que o apresentassem como doutor. Hoje sabe-se que não é assim por, de acordo com o que referiu na rádio local um conhecido articulista da mesma, ter sido desmascarado. Mas o mais estranho é que, apesar disto, já tem sido convidado para algumas sessões na Biblioteca daquela cidade, onde continua a ser apresentado como doutor. É um caso insofismável e pergunta-se: o ministério da Educação, através dos funcionários dos ramos intermédios locais, tem conhecimento deste caso? Se não tem, é muito estranho que ainda não tenha. Mas se tem, porque deixa que exista um caso tão esquisito...e disfuncional? Aquela parte do Alentejo não se rege por leis como o resto de Portugal?

(in Estrada do Alicerce)

quarta-feira, 18 de abril de 2007


INVENTÁRIO


Carreiras
[primeira versão]

Tudo poderia ser dito – excepto, talvez, a alegria.
Tanto tempo depois, a estrada continua por terminar. A árvore parece mais esguia (cortaram-lhe há pouco quase um terço da copa).
O automóvel dá, no entanto, a mesma volta – trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.
De Lisboa até aqui são duzentos e trinta quilómetros, a que metade de um corpo regressa permanentemente, como se fora à voz dos sinos (embalando os mortos), à altura das pedras, como se desenhassem um fim de tarde.
A criança desce até às profundezas da terra, encontrando, na súbita angústia de um pulover molhado, o caldo de farinha – situado, ainda hoje, no número cinco da rua da Calçadinha.



Carreiras
[segunda versão]

As ruas das Carreiras onde eu nasci (após ter visto a luz em Portalegre e sangue novo em Lisboa) já não existem. São outros os nomes, outras as pedras – que teimam em não deixar esquecer a calçada antiga -, outras as casas. Só o horizonte não mudou ainda: a mesma serra, o mesmo azul longínquo, os mesmos sobreiros rompendo por entre as lajes, a escola, rompendo a folhagem das acácias e das amoreiras.
Entre o número oito da rua da Fonte Nova e o número cinco da Calçadinha, pouco resta de há vinte e cinco anos.
A fonte perdeu alguns dos seus azulejos e deixou de ter malvariscos pelo São João.
A dona Maria José já não se preocupa com as suas dálias, algures entre as minhas duas tangerineiras. O ti’ João Narciso já não abre a sua meia-porta vermelha, nem a ti’ Bernarda fica comigo na altura das azeitonas.
O barro desapareceu hoje dos caminhos (assim como os escaravelhos, e os burros escorregando até em frente às ruínas da Casa da Carreirinha).
Do Chão da Amoreira, como eu ainda o conheci, ficou apenas uma nesga de terra apertada entre duas casas. Os castanheiros, os abrunheiros, o muro (quase segurando a oliveira), situam-se no mesmo lugar que hoje ocupa a casa da avó - amarela, com barras brancas, um botaréu cheio de craveiros, uma roseira fazendo esquina frente ao canto do lume, do outro lado da rua, entre as flores dos rapazinhos e a parede de pedra solta, há muito tempo esbarrondada.
O Ribeirinho é hoje só nome de rua. Já ninguém lava nas suas águas, empresadas junto de uma figueira velha. Desapareceu sob o alcatrão e a sarrisca, para dar lugar a uma estrada larga.
Continuo, no entanto, a regressar a este espaço, como se regressasse chamado pela voz dos sinos, que tanto embalam os mortos quanto repicam carreirense novo ou hora de procissão. O automóvel (como há uns anos a camioneta) continua a dar a mesma volta, trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia.



Calçadinha, nº 5 (1)

Haverá sempre alguém acenando para a mesa. Um garfo – ou somente um guardanapo – traduzindo para a mesa o sabor da terra.
È preciso, no entanto, entrar como se a noite fosse um sótão que há muito desapareceu.
A rua – ela própria – não mais retomou o cheiro de há mais de vinte anos: a porta comunicava com a cozinha, mesmo ao cimo das escadas, sob a telha de vidro; a lâmpada pendia da madre. Havia sempre alguém acenando para a mesa. Do lado de fora, pelo postigo. Apenas de dentro, de tantas coisas – o garfo, a navalha escondida por detrás da lareira, o copo de água voltado sobre um corpo que parte.
Sem habitantes, a casa regressou, talvez a três quilómetros de distância. Uma janela ilumina o quarto, embora os passos sejam os mesmos.
Como a água, atravessando de memória o forno, o horizonte. Ou, em silêncio, alguns animais. A escritura, perdida na mudança.



Calçadinha, nº 5 (2)
- para meu avô, Joaquim Camejo Biscainho

Quanto lhe custariam os amendoins comprados na taberna da aldeia? Retirados um a um do pequeno saco de plástico, ao mesmo tempo que o tilintar das moedas sobre o balcão e as vozes na tarde iam acompanhando as cartas de jogar, os vinténs de cobre cruzando o espaço, buscando no jogo a distância entre o sabor do vinho e o preço, verdadeiro, das ruas em pleno domingo. Quanto lhe custariam a idade e próprio sorriso (tão longínquo quanto os olhares dentro do retrato, a caixa de pedreiro distante na escuridão, como uma navalha dentro perdida dentro do bolso)? Entre a cama e a lembrança das pequenas coisas (apenas visíveis na sombra dalgum olhar molhado), quanto lhe custariam o miar do gato a adormecer na lareira, as castanhas comidas como luzes, a bicicleta – substantivo próprio à espera de um lugar dentro da geografia – ?
A memória faz a sua selecção, não consentindo sequer em mostrar-nos os seus sinais de angústia e de morte. Apenas alguns minutos – e o mundo circula como um automóvel, silhueta estranha que vamos decifrando em torno da comoção e do cansaço.
Ao fim e ao cabo, entre o deve e o haver dos sentimentos, as perguntas subsistem. Das respostas, apenas vão aparecendo páginas dispersas no inventário dos sentidos – de regresso à claridade do horizonte.



Fonte Nova, nº 8 (1)
- para a D. Maria José Soares

Ao fundo da rampa (onde outrora fora uma latada) havia uma construção de madeira e folha de zinco. Na varanda, permaneceram, durante dezoito anos, duas barricas com água da Fonte Nova e, uma vez por ano, com algumas arrobas de azeitona. O tanque tinha um odor diferente de tudo quanto o rodeava – guardava um pouco de nós nas suas águas sem movimento.
De tempos a tempos, era preciso gatear a cancela com pregos sem serventia ou com arame retirado a algum fardo de palha. Delimitava um espaço que não deveríamos ultrapassar, embora (sobre o muro) fosse fácil dirigir o olhar até uma casa rasteira, onde apenas a porta comunicava luz ao interior da cozinha.
(Foram precisos alguns anos para que entendesse a disposição deste corpo – desvanecendo-se.)
Junto à salsicharia, a avenida deixava de existir. A cor desaparecera há muito. A música da varanda partia até debaixo da tangerineira. No inverno, uma parte da rua escurecia – subitamente.
Certo dia, foi preciso entregar a chave – como se o carteiro passasse a recusar os degraus que vão até ao primeiro andar. A porta de madeira, posta na horizontal, deixou de ser suficiente para nos resguardar da chuva. Em compensação, passaram a existir folhas de jornal entre o vidro e a grade – para que o sol ficasse menos intenso.



Fonte Nova, nº 8 (2)

Mesmo antes, não era decerto o melhor lugar para atravessar até ao outro lado do edifício. Um tanque, talvez uma acácia. Duas ou três sacadas numa das últimas madrugadas de dezembro.
Alguém reduz os alicerces da casa. Lembro o jardim, de oliveira a oliveira, a escada de cimento, o braço – segurando -, a melancolia.
(Decidi guardar o envelope na última gaveta da cómoda. Ponho os nossos nomes entre os objectos cujo significado nos absorve. É difícil determinar as ressonâncias quando abandonamos, pelas dez da manhã, uma cidade que cresce.)
Nunca tive realmente um quintal. Demasiado perto ou demasiado longe para que a possamos alcançar, a imagem cresce de quinze em quinze dias, ainda que o passeio seja apenas o início de um nascimento.
A porta abre-se, como se fosse a linha do horizonte. Entre duas noites de chuva, tudo está em tudo, tudo nos pertence.



Avenida

Partiu para sempre – o peso sobre o assento, até Castelo de Vide, parando no Carvalhal.
Subia com pressa a rua do Canto, repetindo, sem parar, o preço dos frutos, o calor do pão, logo pela manhã.
A bicicleta seguia – completamente só – apenas com o equilíbrio retirado ao vento ou à figueira (de que hoje resta somente um rasgo sobre o muro).
São assim as estações. Mesmo em julho, as nuvens guardam-nos de um sol demasiado intenso.



Cemitério

O casaco, a camisa, uma gravata de duas cores – e esta agonia (espécie de contentamento), do outro lado do muro, para onde poucos olham.
O homem veste, pela última vez, um murmúrio, a inocência nos olhos, um lençol que se estende a todo o campo.
O hóspede abandona a casa – para sempre -, esquecendo até que fora recebido minutos depois de uma morte (uma porta entre muitas). Não mais reclama, dentro do coração, a sombra a tapar metade da fotografia.
(Desta cidade guardo a data de nascimento, um telhado, uma figura na neblina. As crianças correm para o rio, mesmo que fique a cem quilómetros de distância. O medo permanece, mesmo nos melhores livros. Abre a janela, ao fundo do bosque. Entreolha essa gota de suor. Vem mostrar um rosto quase escondido: a música, uma ponte que não termina – e só assim alcança esta margem.)



(Texto - publicado no jornal O Zurara, de Mangualde - e foto de RV.)

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