VIDA DE SOLDADO
Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001.
"Adeus minha querida mãe, vou seguir o meu caminho,
Agora desprezado, já não tenho os seus carinhos.
Adeus rapazes amigos, que eu os vou abraçar,
Lembrem-se do infeliz que vai para melitar."
(A tropa era muito ruim...)
Assim qu' ò quartel cheguei, à secretaria fui chamado.
"Diga lá como se chama e im que terra foi criado."
Derim-me então um papel e eu fui ver o que dezia.
"Soldado número doze da segunda bataria."
"Agora vais ser soldado, paisana já o não és.
(Enganei-me...)
Ó primeiro sargento eu me fui apresentar.
Mandou-me tomar um banho e o meu cabelo cortar.
Eu fui a tomar um banho numa água muito fria.
Cortaram-me o meu cabelo, perdi a minha alegria.
"Agora vais ser soldado, paisano já o não és.
Vais a ser demudado da cabeça até aos pés.
Toma lá a tua roupa, a camisa veste já.
Veste também as calças e as botas estão acolá.
Veste o teu colete e veste o casacão
E veste também o capote e aperta o cinturão.
Agora já és soldado, esquecido da paisana,
Vai dezêr ao quartelêro que te dê a roupa da cama."
Eu subi mais uma escada um pouco atrapalhado.
Cheguei à porta, parei: "Dá licença senhor cabo?"
"O que é que tu queres?" - De má modo me falou.
"Venho buscar roupa da cama, o meu primeiro mandou."
"Toma lá a tua roupa, dois lençóis e duas mantas,
Vai fazer a tua cama na caserna número tantas."
(Não diz o número.)
Fui fazer a minha cama junto dos meus companheiros.
Não conhecia nenhuns, pareciam-me todos estrangeiros.
Quando foi no outro dia, tocou logo a alvorada.
"Põe-te de pé ó galucho, se não levas cinturada!"
E eu pus-me logo de pé, o meu café fui tomar
E no fim disto tudo, a instrução fui começar.
Depois da tropa acabada, dei a vida aborrecida.
"Ó meus belos camaradas, vou a dar a despedida.
Adeus rapazes amigos dum posto igual a mim,
Adeus amigo rancheiro, adeus amigo clarim.
Adeus ó fonte da estrada, onde eu água fui beber.
Adeus muéres e cavalos, nunca mais os quero ver.
Adeus senhor comandante, ó meu tenente-coronel,
Adeus ó meu aspirante, nunca mais volto ao quartel."
(Aprendi muito nova, mas nunca me esqueci por causa dos meus irmãos.)
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terça-feira, 27 de novembro de 2007
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
JOVEM PARTE PARA A TROPA NOS AÇORES
Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.
CANTIGA
Desde 26 de Março
Que outra nova vou contar.
Quando desse dia me lembro,
Minha vida eu cismar.
Adeus gloriosa cidade.
Quando recebi a novidade,
Ninguém me pôde valer.
Disse adeus à minha querida mãe,
Meu pai e irmãos também,
Nunca me hei-de esquecer.
Em Portalegre embarquei,
Momentos a suspirar.
Em Santa Apolónia cheguei,
Perto das bocas do mar.
Um dia triste e chuvoso,
Estava muito desgostoso
Na gloriosa capital.
Entre lágrimas fui deixar
[.....................................]
Metrópole continental.
Assim que no barco entrei
Cercado de dor e mágoa,
Três dias e três noites andei
Vendo apenas céu e água.
No fim de três dias de viagem
Sem ver terra nem ramagem,
Sem ter grandes dissabores,
Terra ao longe avistei
Onde aí desembarquei
No arquipélago dos Açores.
Despedi-me então do barco
Às portas de São Miguel,
Onde abunda o tabaco
E a batata doce como o mel.
Lá os carneirinhos
Trabalham constantemente.
Fazem as vezes coitadinhos
Dos bois do continente.
Vinte centavos é uma sardinha
Na boca daquela gente.
Vejo-me cercado de mar
Para estas terras guardar
Junto de muitos soldados
Cheios de graça e glória,
Defendendo a memória
Dos nossos antepassados.
Batem-se de tal maneira
Do Nuno Álvares Pereira
Os campos de Aljubarrota,
Que há muitos, muitos anos
Defenderam os castelhanos,
Onde sofreram a derrota.
[......................................]
[......................................]
Começou por D. João,
Bravos heróis que havia
[......................................]
Em tempos que já lá vão.
[......................................]
Versão de Fortios (concelho de Portalegre). Transcrição de Ruy Ventura.
CANTIGA
Desde 26 de Março
Que outra nova vou contar.
Quando desse dia me lembro,
Minha vida eu cismar.
Adeus gloriosa cidade.
Quando recebi a novidade,
Ninguém me pôde valer.
Disse adeus à minha querida mãe,
Meu pai e irmãos também,
Nunca me hei-de esquecer.
Em Portalegre embarquei,
Momentos a suspirar.
Em Santa Apolónia cheguei,
Perto das bocas do mar.
Um dia triste e chuvoso,
Estava muito desgostoso
Na gloriosa capital.
Entre lágrimas fui deixar
[.....................................]
Metrópole continental.
Assim que no barco entrei
Cercado de dor e mágoa,
Três dias e três noites andei
Vendo apenas céu e água.
No fim de três dias de viagem
Sem ver terra nem ramagem,
Sem ter grandes dissabores,
Terra ao longe avistei
Onde aí desembarquei
No arquipélago dos Açores.
Despedi-me então do barco
Às portas de São Miguel,
Onde abunda o tabaco
E a batata doce como o mel.
Lá os carneirinhos
Trabalham constantemente.
Fazem as vezes coitadinhos
Dos bois do continente.
Vinte centavos é uma sardinha
Na boca daquela gente.
Vejo-me cercado de mar
Para estas terras guardar
Junto de muitos soldados
Cheios de graça e glória,
Defendendo a memória
Dos nossos antepassados.
Batem-se de tal maneira
Do Nuno Álvares Pereira
Os campos de Aljubarrota,
Que há muitos, muitos anos
Defenderam os castelhanos,
Onde sofreram a derrota.
[......................................]
[......................................]
Começou por D. João,
Bravos heróis que havia
[......................................]
Em tempos que já lá vão.
[......................................]
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
ANGELINA GLORIOSA
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Andorinha gloriosa
Tão formosa c'm' à rosa,
Quando Deus quis nascer
Toda a Terra esclareceu.
Veio o anjo São Gabriel
Procurando p'la pastorinha.
- Pastorinha do bom dia!
Já lá vem Santa Maria
Por aquele perro cão
Rezando uma oração
C' o seu livrinho na mão.
Nem pus a mão na cruz,
Nem disse "Amen Jesus".
Mas anda cá Luís Teixeira,
Que serás meu embaixador.
Vás além àquele castelo,
Qu' hás-de ver um mouro perro.
Procura-lhe se é cristão.
Se ele disser que não,
Pega no teu cutelo,
Espeta-le no coração.
Ó cutelo para estimar,
Tem as relicas do perdão
Com que foi aseteado
O mártir São Sabastião.
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Andorinha gloriosa
Tão formosa c'm' à rosa,
Quando Deus quis nascer
Toda a Terra esclareceu.
Veio o anjo São Gabriel
Procurando p'la pastorinha.
- Pastorinha do bom dia!
Já lá vem Santa Maria
Por aquele perro cão
Rezando uma oração
C' o seu livrinho na mão.
Nem pus a mão na cruz,
Nem disse "Amen Jesus".
Mas anda cá Luís Teixeira,
Que serás meu embaixador.
Vás além àquele castelo,
Qu' hás-de ver um mouro perro.
Procura-lhe se é cristão.
Se ele disser que não,
Pega no teu cutelo,
Espeta-le no coração.
Ó cutelo para estimar,
Tem as relicas do perdão
Com que foi aseteado
O mártir São Sabastião.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
CANÇÃO DO PALÁCIO DA AJUDA
Versão de Portalegre/Arronches, recitada por Jacinta Garção Cleto, nascida em 1910. Recolhida e transcrita por Nicolau Saião cerca de 1976.
Belo Palácio da Ajuda
palácio de grande altura
casa cheia tem fartura
não sou só eu que o digo
corre a galinha ao trigo
e a fama é dos pardais
albardas sem atafais
e selas sem terem estribos
na praça se vendem figos
p’ra contentar os rapazes
no mar andam alcatrazes
também lá andam gaivotas
menina das pernas tortas
todos lhe chamam canejos
vão-se as sezões com os desejos
e as feridas com unguento
mói o moinho de vento
e tece a teia a aranha
esta cantiga é tamanha
não tem princípio nem fim
um raminho de alecrim
que se dá aos namorados
as armas são pr’ós soldados
também são pr’ós caçadores
triste de quem tem amores
bem ligeiro tem de andar
a gaita é para tocar
o pente é para a cabeça
menina não endoideça
que se pode dar por feliz
tem um tamanho nariz
que lhe chega até ao seio
que tem mais de palmo e meio
criado com tanto vigor
que muita gente lho tem gabado
pr’á bigorna dum ferrador.
Versão de Portalegre/Arronches, recitada por Jacinta Garção Cleto, nascida em 1910. Recolhida e transcrita por Nicolau Saião cerca de 1976.
Belo Palácio da Ajuda
palácio de grande altura
casa cheia tem fartura
não sou só eu que o digo
corre a galinha ao trigo
e a fama é dos pardais
albardas sem atafais
e selas sem terem estribos
na praça se vendem figos
p’ra contentar os rapazes
no mar andam alcatrazes
também lá andam gaivotas
menina das pernas tortas
todos lhe chamam canejos
vão-se as sezões com os desejos
e as feridas com unguento
mói o moinho de vento
e tece a teia a aranha
esta cantiga é tamanha
não tem princípio nem fim
um raminho de alecrim
que se dá aos namorados
as armas são pr’ós soldados
também são pr’ós caçadores
triste de quem tem amores
bem ligeiro tem de andar
a gaita é para tocar
o pente é para a cabeça
menina não endoideça
que se pode dar por feliz
tem um tamanho nariz
que lhe chega até ao seio
que tem mais de palmo e meio
criado com tanto vigor
que muita gente lho tem gabado
pr’á bigorna dum ferrador.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
SENHORA DA PIEDADE
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Ó avé Maria, Mãe da Piedade,
Pedi ao Senhor pela Cristandade.
Pela Cristandade não le sei pedir,
Não sou m'recedora do Senhor m' ouvir.
Do Senhor m' ouvir estas minhas palavras,
Minha alma s' alegra em ver que nos salvas.
Salvador do mundo, que a todos salvais,
Salvai as nossas almas, bendito sejais.
Bendito sejais, bendito São José,
Fugiu c' o Menino lá p'rà Nazaré.
Se eu fosse com ele na sua companhia,
Seria devota da Virgem Maria.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu 'stá c'roada,
Por cima do manto uma c'roa sagrada.
Uma c'roa sagrada de bom coração.
Não nos deixem morrer sem a confissão.
Sem a confissão não havemos de morrer,
Qu' a Virgem Maria nos há-de valer.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu está c'roada
Rainha dos anjos, Mãe de Deus amada.
De passo em passo, de rua em rua,
Se foi sepultar sem culpa nenhuma.
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Ó avé Maria, Mãe da Piedade,
Pedi ao Senhor pela Cristandade.
Pela Cristandade não le sei pedir,
Não sou m'recedora do Senhor m' ouvir.
Do Senhor m' ouvir estas minhas palavras,
Minha alma s' alegra em ver que nos salvas.
Salvador do mundo, que a todos salvais,
Salvai as nossas almas, bendito sejais.
Bendito sejais, bendito São José,
Fugiu c' o Menino lá p'rà Nazaré.
Se eu fosse com ele na sua companhia,
Seria devota da Virgem Maria.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu 'stá c'roada,
Por cima do manto uma c'roa sagrada.
Uma c'roa sagrada de bom coração.
Não nos deixem morrer sem a confissão.
Sem a confissão não havemos de morrer,
Qu' a Virgem Maria nos há-de valer.
Ó Virgem, ó Virgem, no Céu está c'roada
Rainha dos anjos, Mãe de Deus amada.
De passo em passo, de rua em rua,
Se foi sepultar sem culpa nenhuma.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
SONHO DE NOSSA SENHORA
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Quando entro na igreja digo esta oração:
Oração de Santa Palma,
Deus me leve corpo e alma.
Entrei pela igreja adentro, [......................................]
estava a Virgem Sagrada vestida d' ouro fino
[......................................] procurando pelo seu Menino,
[......................................] se dormia, se velava.
[......................................] [........................................]
"Meu filho, não durmo nem velo.
Sonhei um sonho que não devia ter sonhado.
[.......................................] 'tavas morto e crucificado."
"Senhora Mãe assim será, Senhora Mãe assim seria."
Quem esta oração disser um ano, dia a dia,
Achará as portas do Céu abertas e a do Inferno nunc' às veria.
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recitada por Ana Fernandes Martins, nascida em 1913 e falecida em 1997. Recolhida por Maria da Liberdade Alegria Bruno em 1985. Transcrição de Ruy Ventura.
Quando entro na igreja digo esta oração:
Oração de Santa Palma,
Deus me leve corpo e alma.
Entrei pela igreja adentro, [......................................]
estava a Virgem Sagrada vestida d' ouro fino
[......................................] procurando pelo seu Menino,
[......................................] se dormia, se velava.
[......................................] [........................................]
"Meu filho, não durmo nem velo.
Sonhei um sonho que não devia ter sonhado.
[.......................................] 'tavas morto e crucificado."
"Senhora Mãe assim será, Senhora Mãe assim seria."
Quem esta oração disser um ano, dia a dia,
Achará as portas do Céu abertas e a do Inferno nunc' às veria.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
CONDE CLAROS VESTIDO DE FRADE
Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Antunes, de 79 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.
"Minha mãe fiz uma aposta, ou de perder ou de ganhar,
De dormir com a Marianinha antes do galo cantar."
"Não apostes, ó meu filho, nem tu queiras apostar.
Marianinha é muito fina, não se deixa enganar."
"Engano-a sim, minha mãe, que ela é boa de enganar.
Em ouvindo uma chalaça, põe-se logo a arreganhar."
José se vestiu de padre pela rua a passear.
Marianinha à janela, é caso de admirar.
"Uma senhora tão nobre a esta hora a passear?
Vou-me embora, Marianinha, já não posso mais esperar."
"Aguarde, senhor, aguarde, queira o senhor aguardar.
Se tarde se lhe fizer, no meu quarto há-de ficar."
Versão de Fortios (concelho de Portalegre), recitada por Maria Antunes, de 79 anos. Recolhida em 2001. Transcrição de Ruy Ventura.
"Minha mãe fiz uma aposta, ou de perder ou de ganhar,
De dormir com a Marianinha antes do galo cantar."
"Não apostes, ó meu filho, nem tu queiras apostar.
Marianinha é muito fina, não se deixa enganar."
"Engano-a sim, minha mãe, que ela é boa de enganar.
Em ouvindo uma chalaça, põe-se logo a arreganhar."
José se vestiu de padre pela rua a passear.
Marianinha à janela, é caso de admirar.
"Uma senhora tão nobre a esta hora a passear?
Vou-me embora, Marianinha, já não posso mais esperar."
"Aguarde, senhor, aguarde, queira o senhor aguardar.
Se tarde se lhe fizer, no meu quarto há-de ficar."
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
O FALSO CEGO
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro Os Transmontano no Alentejo (Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1998), pp. 65 e 66. Transcrição de Ruy Ventura.
Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
"Abram-me essa porta, também o postigo,
Emprestem-me um lenço que já venho ferido."
"Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
Que a minha portinha não se abre agora."
"Levante-se minha mãe da cama a dormir,
Venha ver o cego que está a pedir."
"Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho."
"Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho."
"Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
Ensinar o cego além para a estrada."
"Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
Que eu não sou o cego, sou seu namorado."
Versão de Carreiras (concelho de Portalegre), recolhida por Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro Os Transmontano no Alentejo (Câmara Municipal de Castelo de Vide, 1998), pp. 65 e 66. Transcrição de Ruy Ventura.
Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
"Abram-me essa porta, também o postigo,
Emprestem-me um lenço que já venho ferido."
"Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
Que a minha portinha não se abre agora."
"Levante-se minha mãe da cama a dormir,
Venha ver o cego que está a pedir."
"Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho."
"Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho."
"Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
Ensinar o cego além para a estrada."
"Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
Que eu não sou o cego, sou seu namorado."
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
O SOLDADINHO
Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001. Publicada no suplemento cultural Fanal, do jornal O Distrito de Portalegre, nº 17, a 26.10.2001.
SOLDADINHO NOVO
"Adeus soldadinho novo que tão triste andas na guerra.
Ou te lembra pai ou mãe ou alguém da tua terra."
"Não me lembra pai nem mãe, nem ninguém da minha terra,
Só me lembra a minha amada, que era uma linda donzela."
"Toma lá este cavalo, vai a tua amada ver,
Mas no fim de sete meses há-des mo cá vir trazer."
Soldadinho, de contente, no cavalo s' amontou.
Chegando lá muito adiente, o Diabo o incuntrou.
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem."
(Não é assim.)
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem,
Aqui tens a tua amada, que t' amou com grande bem."
(Enganei-me.)
"Onde vás ó soldadinho, por que vás todo a termer?"
"Deixa-me lá ó diabo, vou a minha amada ver."
"Tua amada já é morta. Já é morta, bem na vi."
"Dá-me os sinais que levava, que me quero fiar em ti."
"Levava vestido d' ouro, camisa de carmesim.
Os padres qu' àcompanhavam não tinham conto nem fim.
Forem a abrir a cova cá no centro do jardim,
A enxada era de prata, o cabo de marafim."
"Mas seja o que Deus quiser, eu p'ra diente sempre vou."
A meio da sua jornada, um nuvraceiro s' armou.
"Não t' espantes cavalo branco, cavalheiro que nele vem.
Aqui tens a tua amada que t' amou com grande bem."
"Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim?"
"Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi."
"Se és a minha amada, beija-me agora aqui."
"Os lábios com qu' eu te beijava, já a cor deles perdi.
Vai-t' imbora, vai-t' imbora, vai-t' imbora amor eterno.
Já sinto por mim puxar lá das cordas do Inferno."
"Eu hei-d' ir àquele outêro, eu àquele outêro hei-d' ir.
Tanta vez t' hê-de bradar, até que m' há-des acudir."
(Aprendi, mas não era assim. E aqui está. Mas isto não aconteceu. O capitão não dava o cavalo ao soldado.)
Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha (concelho de Marvão), recitada por Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura em 31.03.2001. Publicada no suplemento cultural Fanal, do jornal O Distrito de Portalegre, nº 17, a 26.10.2001.
SOLDADINHO NOVO
"Adeus soldadinho novo que tão triste andas na guerra.
Ou te lembra pai ou mãe ou alguém da tua terra."
"Não me lembra pai nem mãe, nem ninguém da minha terra,
Só me lembra a minha amada, que era uma linda donzela."
"Toma lá este cavalo, vai a tua amada ver,
Mas no fim de sete meses há-des mo cá vir trazer."
Soldadinho, de contente, no cavalo s' amontou.
Chegando lá muito adiente, o Diabo o incuntrou.
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem."
(Não é assim.)
"Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem,
Aqui tens a tua amada, que t' amou com grande bem."
(Enganei-me.)
"Onde vás ó soldadinho, por que vás todo a termer?"
"Deixa-me lá ó diabo, vou a minha amada ver."
"Tua amada já é morta. Já é morta, bem na vi."
"Dá-me os sinais que levava, que me quero fiar em ti."
"Levava vestido d' ouro, camisa de carmesim.
Os padres qu' àcompanhavam não tinham conto nem fim.
Forem a abrir a cova cá no centro do jardim,
A enxada era de prata, o cabo de marafim."
"Mas seja o que Deus quiser, eu p'ra diente sempre vou."
A meio da sua jornada, um nuvraceiro s' armou.
"Não t' espantes cavalo branco, cavalheiro que nele vem.
Aqui tens a tua amada que t' amou com grande bem."
"Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim?"
"Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi."
"Se és a minha amada, beija-me agora aqui."
"Os lábios com qu' eu te beijava, já a cor deles perdi.
Vai-t' imbora, vai-t' imbora, vai-t' imbora amor eterno.
Já sinto por mim puxar lá das cordas do Inferno."
"Eu hei-d' ir àquele outêro, eu àquele outêro hei-d' ir.
Tanta vez t' hê-de bradar, até que m' há-des acudir."
(Aprendi, mas não era assim. E aqui está. Mas isto não aconteceu. O capitão não dava o cavalo ao soldado.)
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
DONZELA GUERREIRA
Versão de Fortios, Portalegre. Transcrição de Ruy Ventura.
CANTIGA
"Deitei sortes à ventura para ver o qual se havia de matar,
Logo foi cair a sorte no capitão-general."
"Não te mates, ó meu pai, não te mates meu pai, não, não.
Dai-me espadas e cavalos que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo cabelo a ti te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Cabeleireiros há na terra que mo possam pôr no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos olhos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não,
que, quando eu andar na guerra, ponho meus olhos no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos peitos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Costureiros há na terra que me façam um algibão
[...................................] que me aperte o coração.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo andar, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, [.......................................]
Que eu quando andar na guerra faço passos de ganhão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
(Já na guerra.)
"[..........................................] [.......................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir jantar.
Se ela for mulher pelos bancos altos há-de passar
[............................................] e pelos baixos se há-de assentar."
D. Marcos não era parvo, pelos altos passou
[............................................] e pelos baixos se assentou.
"[..........................................] [.........................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir nadar,
Se ela for mulher não se há-de descalçar."
D. Marcos não era parvo [............................................]
Puxou por uma carta, pôs-se a ler e chorar.
"O que tens, ó D. Marcos? Por que estás a ler e chorar?"
"Tenho o meu pai morto, minha mãe vai-se enterrar.
Ao meu comandante peço se me pode dispensar."
(Nota: Os dois primeiros hemistíquios pertencem ao romance "Nau Catrineta".)
Versão de Fortios, Portalegre. Transcrição de Ruy Ventura.
CANTIGA
"Deitei sortes à ventura para ver o qual se havia de matar,
Logo foi cair a sorte no capitão-general."
"Não te mates, ó meu pai, não te mates meu pai, não, não.
Dai-me espadas e cavalos que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo cabelo a ti te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Cabeleireiros há na terra que mo possam pôr no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos olhos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não,
que, quando eu andar na guerra, ponho meus olhos no chão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esses teus lindos peitos, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, não conhecem, pai, não, não.
Costureiros há na terra que me façam um algibão
[...................................] que me aperte o coração.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
"Não te dou, ó minha filha, não te dou, filha, não, não.
Por esse teu lindo andar, ó filha, te reconhecerão."
"Não conhecem, ó meu pai, [.......................................]
Que eu quando andar na guerra faço passos de ganhão.
Dai-me espadas e cavalos, que eu quero ser capitão."
(Já na guerra.)
"[..........................................] [.......................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir jantar.
Se ela for mulher pelos bancos altos há-de passar
[............................................] e pelos baixos se há-de assentar."
D. Marcos não era parvo, pelos altos passou
[............................................] e pelos baixos se assentou.
"[..........................................] [.........................................]
Ó que lindos olhos aqui há, são de mulher não são d' hombre."
"[..........................................] convidamo-la para ir nadar,
Se ela for mulher não se há-de descalçar."
D. Marcos não era parvo [............................................]
Puxou por uma carta, pôs-se a ler e chorar.
"O que tens, ó D. Marcos? Por que estás a ler e chorar?"
"Tenho o meu pai morto, minha mãe vai-se enterrar.
Ao meu comandante peço se me pode dispensar."
(Nota: Os dois primeiros hemistíquios pertencem ao romance "Nau Catrineta".)
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